04/11/2022

O Lobo do Mar | Capítulo 16


Não posso dizer que havia vantagem na posição de imediato, a não ser não precisar mais lavar pratos. Eu desconhecia até as mais simples obrigações de meu posto e teria me saído muito mal não tivesse contado com a solidariedade dos marujos. Não tinha o menor domínio das minúcias envolvendo o cordame e a mastreação, e menos ainda do posicionamento e do ajuste das velas, mas os marujos, especialmente Louis, se esforçaram para me colocar a par de tudo e não enfrentei muitos problemas com meus subordinados.
Com os caçadores, a história foi outra. Familiarizados com o mar em diferentes graus, eles me tomavam como uma espécie de piada. Na verdade, eu mesmo via isso como uma piada, um homem totalmente alheio ao mar ocupando o posto de imediato; mas ser visto como uma piada pelos outros era bem diferente. Eu nunca reclamei, mas Wolf Larsen exigia que a mais rigorosa etiqueta marítima fosse observada com relação a mim, o que não acontecera com o pobre Johansen, e à custa de muitas discussões, ameaças e protestos ele acabou mantendo os caçadores na linha. Eu era o “sr. Van Weyden” da proa à popa, e o próprio Wolf Larsen só se dirigia a mim como “Hump” extraoficialmente.
Era divertido. Se o vento virasse alguns pontos durante o jantar, quando eu saía da mesa ele dizia:
— Sr. Van Weyden, tenha a bondade de pôr a retranca a boreste.
Então eu subia até o convés, acenava para Louis e pedia que me explicasse o que era necessário fazer. Alguns minutos depois, havendo digerido as instruções e aprendido a manobra, eu dava as minhas ordens. Lembro que, numa das primeiras ocorrências desse tipo, Wolf Larsen surgiu bem no instante em que eu começava a passar as ordens. Ficou fumando seu charuto e acompanhou tudo em silêncio até o fim, depois veio caminhando a meu lado, a barlavento, em direção à popa.
— Hump — ele disse —, ou melhor, perdão, sr. Van Weyden, o senhor está de parabéns. Creio que já pode devolver as pernas de seu pai ao túmulo dele. Descobriu que tem pernas próprias e aprendeu a ficar em pé com elas. Com um pouco mais de operação do cordame, ajuste de velas e experiência com tempestades, poderá terminar a viagem apto a comandar qualquer escuna.
Foi durante esse período, entre a morte de Johansen e a chegada à região das focas, que passei minhas horas mais agradáveis a bordo do Ghost. Wolf Larsen era atencioso, os marujos me ajudavam e eu estava livre da presença irritante de Thomas Mugridge. E tomo a liberdade de dizer que, com o passar dos dias, comecei a ter um orgulho secreto de mim mesmo. Por mais fantástica que fosse a minha situação, a de um marinheiro de água doce ocupando a segunda posição na cadeia de comando, eu estava conseguindo me virar um tanto bem. Tive orgulho disso durante aquele breve período e aprendi a amar o sobe e desce do Ghost arfando sob meus pés, singrando para o noroeste em águas tropicais, até a ilhota em que nos reabasteceríamos de água.
Mas essa felicidade não era plena. Era relativa, um período de sofrimento menor intercalando um passado e um futuro de enorme sofrimento. Afinal o Ghost, pelo menos do ponto de vista de seus marinheiros, era o barco mais infernal que se podia conceber. Eles nunca tiveram um único instante de paz ou alívio. Wolf Larsen guardou rancor do atentado contra sua vida e da surra no castelo de proa e dedicou suas manhãs, tardes, noites e madrugadas a tornar a existência deles intolerável.
Ele conhecia bem a psicologia das coisas pequenas, e por meio delas foi capaz de manter a tripulação sempre à beira da loucura. Vi Harrison ser retirado da cama para guardar um pincel no local adequado, acompanhado pelas duas vigias em descanso, que também foram forçadas a acordar para vê-lo cumprir a tarefa. Uma coisa pequena, sem dúvida, mas quando temos uma mente capaz de multiplicar por mil os expedientes dessa natureza podemos começar a imaginar o estado mental dos homens no castelo de proa.
As reclamações não cessavam, é claro, e pequenos conflitos explodiam sem parar. Bordoadas eram distribuídas e sempre havia dois ou três homens feridos pelas mãos da besta humana que os comandava. Uma reação conjunta era impossível por causa da grande quantidade de armas de fogo à disposição da baiuca e da cabine. Leach e Johnson foram as duas vítimas especiais do temperamento diabólico de Wolf Larsen, e o ar de melancolia profunda que havia se instalado na expressão e no olhar de Johnson partia o meu coração.
Com Leach era diferente. Não era fácil domar a fera rebelde dentro dele. Parecia possuído por uma fúria insaciável que não deixava espaço para lamentações. Seus lábios tinham se deformado num ricto permanente que, à mera visão de Wolf Larsen, desatava em um rosnado horrível, ameaçador e, suponho eu, inconsciente. Eu o via seguir Wolf Larsen com o olhar como uma fera diante do domador, com aquele rosnado que brotava no fundo da garganta e vibrava entre os dentes.
Uma vez, no convés, em um dia claro, toquei em seu ombro antes de passar uma ordem. Ele estava de costas para mim e, ao sentir o contato da minha mão, pulou alto e bem longe, virando a cabeça e rosnando. Por um instante, tinha pensado que eu era o homem que tanto odiava.
Tanto ele como Johnson teriam matado Wolf Larsen na primeira oportunidade, mas esta nunca chegou. Wolf Larsen era astuto demais, e além disso eles não possuíam armas adequadas. Usando somente os punhos, nunca teriam a menor chance. O capitão atacou Leach vezes sem conta e este sempre revidava como um lince, usando punhos, dentes e unhas, até restar estirado no convés, exausto ou inconsciente. Mesmo assim, Leach estava sempre disposto a novos embates. Todo seu lado diabólico estava mobilizado contra o lado diabólico de Wolf Larsen. Bastava os dois aparecerem ao mesmo tempo no convés para se atracarem com impropérios, rosnados e socos, e também vi Leach arremeter contra Wolf Larsen sem aviso ou provocação. Certa feita, ele tirou a faca da bainha e a arremessou, errando Wolf Larsen por centímetros. Em outra ocasião, deixou cair uma espicha de aço do alto do joanete da mezena. Era uma manobra difícil de calcular em um navio balançante, mas a ponta afiada da espicha desceu os vinte metros assobiando e quase acertou a cabeça de Wolf Larsen bem no momento em que ele saía pela escotilha da cabine, penetrando cinco centímetros na tábua sólida do convés. Outra vez ainda, ele se infiltrou na baiuca, apoderou-se de uma escopeta carregada e estava correndo para o convés quando foi interceptado e desarmado por Kerfoot.
Várias vezes me perguntei por que Wolf Larsen não o matava e acabava logo com isso. Mas ele apenas dava risada e parecia gostar. Havia uma excitação envolvida, o mesmo tipo, talvez, que incita certos homens a domesticar feras selvagens.
— A vida de um homem fica mais emocionante — ele me explicou — quando está nas mãos de outro. O homem é um apostador nato e a vida é a maior coisa que pode apostar. Quanto maior aquilo que está em jogo, maior a emoção. Por que eu me negaria o prazer de provocar a alma de Leach até quase explodir? Nesse sentido, faço um bem a ele. A intensidade do sentimento é mútua. Ele está levando uma vida superior à de seus companheiros de proa, embora não saiba disso. Ele possui algo que os outros não possuem: um propósito, algo a fazer e resolver, um objetivo que o absorve por completo, o desejo de me matar, a esperança de me ver morto. Falo sério, Hump, ele está vivendo de maneira profunda e elevada. Duvido que alguma vez ele tenha vivido com tamanha urgência e intensidade, e às vezes eu o invejo, honestamente, ao vê-lo enfurecido no extremo das paixões e dos sentidos.
— Ah, mas é uma covardia, uma covardia! — gritei. — Você está em vantagem.
— De nós dois, eu e você, quem é mais covarde? — ele me perguntou a sério. — Se a situação o aborrece, você compromete sua consciência ao tomar parte dela. Se você fosse mesmo corajoso, fiel a si mesmo, uniria forças com Leach e Johnson. Mas você tem medo, tem medo. Você quer viver. A vida dentro de você grita para seguir vivendo, não importa quanto custe, então você vive de maneira ignominiosa, em desacordo com seus maiores sonhos, pecando contra todo esse código de conduta desprezível em que você acredita, e se houvesse inferno, sua alma estaria mergulhando de cabeça nele. Bah! Assumo o papel mais corajoso. Não cometo pecado algum, pois sou fiel aos estímulos da vida que há dentro de mim. Ao menos sou sincero com minha alma, coisa que você não é.
Algo calava fundo naquelas palavras. No fim das contas, pode ser que eu assumisse o papel do covarde. E quanto mais eu pensava no assunto, mais claro ficava que minha obrigação comigo mesmo era proceder como ele havia sugerido, unindo forças com Johnson e Leach na tentativa de matá-lo. Nessa hora, creio, entrou em jogo a consciência austera de minha ascendência puritana, que me inclinava para atitudes sinistras e sancionava até mesmo o assassinato como uma conduta justificável. Dediquei algum tempo à ideia. Livrar o mundo daquele monstro seria um ato moral como poucos. A humanidade ficaria melhor e mais feliz com isso, a vida ficaria mais bela e mais doce.
Ponderei sobre a questão por muito tempo, deitado na cama, sem conseguir dormir, revisando os elementos da situação em um desfile eterno. Conversei com Leach e Johnson sobre o assunto, aproveitando as vigias noturnas em que Wolf Larsen se recolhia à cabine. Os dois tinham perdido a esperança, Johnson por causa do temperamento abatido, Leach porque já estava esgotado pela luta vã que havia arrancado todas as suas energias. Certa noite, porém, ele segurou minha mão com firmeza e disse:
— Considero você um homem correto, sr. Van Weyden. Mas fique onde está e mantenha a boca fechada. Apenas cuide da sua vida. Somos homens mortos, estou certo disso, mas talvez você possa nos fazer um favor na hora em que mais precisarmos.
E já no dia seguinte, quando a ilha Wainwright surgiu a barlavento, quase pelo través, Wolf Larsen abriu a boca para profetizar. Depois de atacar Johnson e ser atacado por Leach, tinha acabado de descer o braço nos dois.
— Leach — disse ele —, você sabe que cedo ou tarde vou matar você, não sabe?
A resposta foi um rosnado.
— Quanto a você, Johnson, antes que eu acabe com você, ficará tão farto da vida que se jogará ao mar. Você verá que estou certo. — E depois acrescentou para mim, à parte: — Estou apenas dando uma sugestão. Aposto um mês de salário que ele a aproveitará.
Eu nutria a esperança de que suas vítimas encontrassem uma oportunidade para fugir durante o reabastecimento dos barris de água, mas Wolf Larsen havia escolhido bem a posição do barco. O Ghost ancorou a quase um quilômetro da rebentação, numa praia deserta. Nela desembocava um desfiladeiro profundo com paredões íngremes de rocha vulcânica que homem nenhum poderia escalar. Ele próprio desembarcou na praia, e ali, sob sua supervisão direta, Leach e Johnson encheram os pequenos barris e os fizeram rolar pela areia. Não teriam a chance de escapar num bote e ganhar a liberdade.
Harrison e Kelly, no entanto, tentaram fazer justamente isso. Os dois integravam a tripulação de um dos botes e sua missão era transitar entre a escuna e a praia, trazendo um barril de cada vez. Logo antes do jantar, quando estavam partindo rumo à praia com um barril vazio, desviaram o curso à esquerda para contornar o promontório que entrava mar adentro e os separava da liberdade. Do outro lado de sua base espumante ficavam os belos vilarejos dos colonos japoneses e vales receptivos que penetravam fundo no interior da ilha. Se alcançassem terra firme, teriam condições de desafiar Wolf Larsen.
Eu tinha percebido que Henderson e Smoke ficaram vagando pelo convés a manhã toda, e então entendi o motivo. Eles sacaram os rifles e se divertiram abrindo fogo contra os desertores. Foi uma exibição cruel de tiro ao alvo. No início, as balas atingiram a superfície da água nos dois lados do bote, sem oferecer perigo, mas, à medida que os homens continuavam remando com todas as forças, eles iam mirando cada vez mais perto.
— Vou tirar o remo direito de Kelly, fique olhando — disse Smoke, caprichando na mira.
Eu estava olhando pela luneta e vi a pá do remo se espatifar quando ele atirou. Henderson resolveu imitar o parceiro e escolheu o remo direito de Harrison. O bote começou a girar no lugar. Os outros dois remos foram quebrados em instantes. Os homens continuaram tentando remar com os pedaços que sobraram, mas estes também saíram voando de suas mãos com novos disparos. Kelly arrancou uma tábua do fundo e começou a remar com ela, mas teve as mãos perfuradas pelas farpas, deu um grito de dor e terminou por soltá-la. Por fim, eles desistiram e deixaram o bote à deriva até serem rebocados de volta à escuna por um outro bote, enviado da praia por Wolf Larsen.
Ao entardecer, recolhemos a âncora e partimos. Tínhamos pela frente três ou quatro meses de caça no território das focas. A perspectiva era realmente sombria e continuei desempenhando minhas funções com o coração pesado. Um desânimo quase fúnebre parecia tomar conta do Ghost. Wolf Larsen tinha se recolhido na cama com uma de suas estranhas e torturantes dores de cabeça. Harrison manejava o timão com ar abatido, quase desmoronando, como se oprimido pelo peso da própria carne. Os outros estavam quietos e taciturnos. Encontrei Kelly agachado a sotavento da escotilha do castelo de proa, com a cabeça entre os joelhos, numa atitude de inexprimível desalento.
Johnson estava na ponta do castelo de proa, olhando fixamente para a espuma do talha-mar, e me horrorizei ao lembrar a sugestão feita por Wolf Larsen. Daria resultado, provavelmente. Pedi que se afastasse dali, tentando interromper seus pensamentos mórbidos, mas ele abriu um sorriso triste e se recusou a obedecer.
Leach me abordou quando eu estava retornando à popa.
— Quero pedir um favor, sr. Van Weyden — disse. — Se um dia você tiver a sorte de retornar a São Francisco, poderia procurar Matt McCarthy? É o meu velho. Reside na Colina, atrás da padaria Mayfair, e cuida de uma sapataria que todos conhecem, não será difícil encontrá-lo. Diga que passei a vida me arrependendo dos problemas que lhe trouxe e das coisas que fiz, e… diga-lhe apenas que Deus o abençoe, por mim.
Assenti com a cabeça, mas falei:
— Todos nós vamos voltar para São Francisco, Leach, e você irá comigo ao encontro de Matt McCarthy.
— Queria poder acreditar em você — ele respondeu, apertando a minha mão —, mas não consigo. Wolf Larsen acabará comigo, estou certo. A esperança que tenho é que ele seja rápido.
E quando ele se afastou percebi que havia um desejo semelhante em meu coração. Se precisava ser feito, que fosse de uma vez. Eu estava sendo tragado pelo desânimo geral. O pior parecia inevitável e passei horas vagando pelo convés, atormentado pelas ideias repulsivas de Wolf Larsen. Qual era o sentido daquilo tudo? Que grandeza podia haver numa vida que permitia tamanha destruição de almas humanas? Essa vida, no fim das contas, era sórdida e desprezível, e quanto antes terminasse, melhor. Que seja logo! Também me debrucei sobre a amurada e fiquei olhando o mar por um longo período, convencido de que cedo ou tarde eu afundaria no esquecimento de suas profundezas verdes e gélidas.

Jack London, in O Lobo do Mar

03/11/2022

Felipe Duram | Viva a Vida

Contemplando nas coisas do mundo desde o seu retiro, lhe atira com o seu apage, como quem a nado escapou da tormenta

Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:
Com sua língua ao nobre o vil decepa:
O Velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por Tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra, o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

Gregório de Matos

As primeiras quinze vidas de Harry August | Capítulo 9

Jenny.
Ela falava com um sotaque de Glasgow que sua mãe tentou corrigir, mas não conseguiu. Sua mãe era o tipo de pessoa progressista, que sempre seguia em frente na vida, seu pai era um retrógrado que ficava para trás, e como resultado ambos permaneceram exatamente onde sempre estiveram até um dia depois do aniversário de 18 anos de Jenny, quando enfim se separaram para nunca mais se verem na vida.
Eu a encontrei outra vez, na minha sétima vida.
Foi durante uma conferência de pesquisa em Edimburgo. Meu crachá dizia “Professor H. August, University College London”, e o dela “Dra. J. Munroe, Cirurgiã”. Eu me sentei três fileiras atrás dela durante uma palestra incrivelmente entediante sobre a interação dos íons de cálcio no sistema nervoso periférico e, fascinado, observei sua nuca. Eu ainda não havia visto seu rosto, por isso não podia ter certeza de que era ela, mas eu sabia. À noite serviram bebidas e uma refeição, que consistia de um frango que havia passado do ponto e purê de batata com ervilhas empapadas. Uma banda tocava os sucessos dos anos 1950. Esperei até que os dois homens em sua companhia ficassem bêbados o bastante para irem para a pista de dança e a deixassem sozinha com seus pratos imundos e a toalha de mesa amarrotada. Sentei-me a seu lado e lhe estendi a mão.
— Harry — apresentei-me.
— Professor August? — corrigiu ela ao ler meu crachá.
— Doutora Munroe, nós já nos conhecemos.
— É mesmo? Não consigo...
— Você cursou medicina na Universidade de Edimburgo e, no primeiro ano, viveu numa casinha em Stockbridge com quatro garotos que tinham medo de você. Você foi babá dos gêmeos da casa vizinha para conseguir uns trocados e decidiu que queria ser cirurgiã ao ver um coração ainda batendo na mesa de operação.
— É isso mesmo — murmurou ela, virando um pouco mais o corpo na cadeira para me olhar. — Mas sinto muito, ainda não consigo lembrar quem você é.
— Não tem problema. Eu era um dos garotos amedrontados demais para falar com você. Quer dançar?
— O quê?
— Quer dançar comigo?
— Eu... ah, meu Deus. Você está tentando me dar uma cantada? É isso?
— Sou um homem muito bem-casado — menti. — Moro com minha família em Londres e não tenho más intenções com você. Admiro seu trabalho e não gosto de ver uma mulher ser largada sozinha. Se preferir, durante a dança podemos conversar sobre os últimos progressos na tecnologia de imagem e sobre se a predisposição genética é mais importante do que os estímulos de desenvolvimento sensorial para o crescimento do caminho neural durante a infância e a pré-adolescência. Dança comigo?
Jenny hesitou. Seus dedos rolaram a aliança de ouro cravejada com três diamantes, mais espalhafatosa do que a que lhe comprei em outra vida, uma vida que se apagara havia muito tempo. Ela olhou a pista de dança, imaginou que no meio daquela multidão nada de ruim poderia acontecer e ouviu a banda começar a tocar outra música ideal para manter as barreiras do protocolo social.
— Tudo bem — disse ela pegando minha mão. — Espero que esteja em dia com os certificados em bioquímica.
Nós dançamos.
Perguntei se era difícil ser a primeira mulher em seu departamento.
Ela riu e respondeu que só os idiotas a julgavam por ser mulher — e ela os julgava por ser idiotas.
— A vantagem é que eu posso ser mulher e uma cirurgiã boa pra cacete, mas eles nunca vão passar de idiotas — explicou.
Perguntei se ela se sentia só.
— Não — respondeu Jenny após um instante.
Não era. Tinha colegas de quem gostava, colegas a quem respeitava, família, amigos.
Tinha dois filhos.
Jenny sempre quisera ter filhos.
Fiquei imaginando se ela gostaria de ter um caso comigo.
Ela perguntou quando eu parei de temê-la a ponto de ficar tão solto na pista de dança.
Eu disse que tinha passado uma eternidade, mas que ela ainda era linda e eu sabia todos os seus segredos.
— Você não ouviu a parte em que eu falei dos meus amigos e colegas de profissão, da família e dos filhos?
Sim, eu ouvira tudo, e tudo isso pesou dentro de mim quando falei com ela, gritou para que eu fosse embora e a deixasse sozinha, que a vida dela já era completa e não precisava de mais complicações. Perguntei-lhe qual deveria ser o tamanho da minha atração para, mesmo sabendo de tudo aquilo, sussurrar palavras sedutoras ao pé de seu ouvido.
— Palavras sedutoras? É assim que você chama isso?
Fuja comigo, falei, ao menos por uma noite. O mundo vai continuar girando, tudo vai acabar, e as pessoas vão esquecer.
Por um instante ela pareceu tentada, então seu marido se aproximou e a pegou pela mão, e ele era leal, amoroso, completamente são e o que ela queria, e ela estava mais tentada pela aventura do que por mim.
Será que eu teria feito as coisas de outra forma se soubesse o que aconteceria com Jenny Munroe?
Talvez não.
Parece que, no fim das contas, o tempo não é tão sábio.

Claire North, in As primeiras quinze vidas de Harry August

O homem com poderes especiais

Eternamente

Sou composto do formal e do material. Nenhum deles deixará de existir, pois não surgiram da inexistência. Cada componente meu será decomposto em outros componentes do universo, e assim por diante, eternamente. Eu existo como resultado dessa decomposição, bem como meus genitores e os seus antepassados.
Nada nos impede de afirmar isso, nem a hipótese de que o cosmos é administrado por períodos definidos.

Marco Aurélio, in Meditações

Carta ao ministro

Caro sr. Ministro:

No momento em que lhe escrevo estas mal traçadas, V. Exª. ainda não é. Prepara-se para ser. O ato de sua nomeação vaga no ar, à maneira de um débil fumo, e só se tornará realidade, dessas realidades que a gente apalpa e ferra o dente, quando o Diário Oficial o recolher em suas páginas conspícuas. Não importa. Já os abraços, num tropismo comovedor, voaram em bando no rumo do seu apartamento e lhe envolveram e confortaram as espáduas pré-ministeriais. O leiteiro de V. Exª. percebeu algo de insólito na atmosfera (a fumacinha do decreto, sem dúvida) e foi congratular-se com a cozinheira de V. Exª., que assumiu ares misteriosos e graves. O chofer de V. Exª. passou a ser assediado por gregos e goianos, o jornaleiro de V. Exª.a mostrou-lhe, sorrindo, a manchete com o seu nome e, mais abaixo, a sua aprazível verônica; a manicura de V. Exª… Silenciemos a manicura. Mas por todos esses signos se comprova que começou, como dizem os jornalistas mais cultos, a sacralidade de V. Exª., e que os astros abriram em sua vida nova picada.
Caro sr. Ministro, sou fraco, e imagino por mim, quando se cogitou de meu nome para segundo tesoureiro da comissão comemorativa do centenário do último banho de chuveiro em Copacabana, a emoção complexa que ora viaja a rede nervosa de V. Exª. É um alvoroço, um arrepio suave, uma inquietação branda, uma pressa de amanhecer, uma suspeita vaga de que tudo seja ilusão, um temor de que à última hora certa egrégia pessoa pratique alguma falseta, um rir e um pular íntimos, um desejo de dar cambalhota e de fazer discurso… Sei muito bem o que são essas coisas. Acredite: constituem o melhor do melhor, e o que vem depois, como sensação, não corresponde.
Já pensou V. Exª., sr. Ministro, na hora imprópria em que o convidaram (ou vão convidá-lo, pois o Lourival às vezes se demora) para assumir esse belo título? As eleições vêm aí a toque de caixa, e depois delas, novas eleições. V. Exª. terá de fazer força pelos outros, com ar de quem não faz, e o pior é que o seu nome não constará de cédula alguma. Assim, pois, é só o tempo de sentar-se e levantar-se. Daqui a um ano e meio (no máximo, e, se não chover, antes) estará V. Exª. de mesa arrumada, pronto para entregá-la Deus sabe a quem, e que são dezoito meses na vida de um homem? V. Exª. ficará ministro, como no dizer do poeta Paul Valéry, nome, aliás, que será de bom efeito citar nas recepções de madame Mineur:

le temps d’un sein nu
entre deux chemises!

É pouco. V. Exª., muito humanamente, pensa em reformas. O Brasil está sendo reformado a partir de 1500, e não seria decoroso interromper essa tradição saudável. Mas como que V. Exª. terá tempo de reformar algo mais além das cortinas do seu gabinete?
Leia V. Exª. a Carta de guia de ministros, editada nos bons tempos pela livraria Quaresma. Lá se diz que a ministrança de cinco anos é dádiva do Senhor, a de quatro não é má, a de três, só com escritura de promessa em cartório, a de ano e meio é caso de responder pelo expediente, não mais. V. Exª. vai ser e não ser, qual novo Hamleto. De qualquer modo, bonne chance, e aceite as expressões de minha cordial simpatia e inútil solidariedade.

Carlos Drummond de Andrade, in Fala, Amendoeira

02/11/2022

Maestro Spok e o baterista Adelson da Silva | Jazz Sinfônica Brasil

Da morte. Odes Mínimas XXIX

Te sei. Em vida
Provei teu gosto.
Perda, partidas
Memória, pó
Com a boca viva provei
Teu gosto, teu sumo grosso.
Em vida, morte, te sei.

Hilda Hilst

Zeca Bunéu e outros

III

“O meu nome é Xoxombo. Só na escola é que eu digo o meu nome todo, quando a professora pergunta. E digo também que nasci da minha mãe, senhora Domingas João, negra, a sô pessora diz que isso não precisa dizer, e do meu pai, senhor capitão Bento de Jesus Abano, mulato, a sô pessora também quer que eu diga misto, mas é como eu gosto dizer. Nasci na Ingombota, ando na terceira e tenho nove anos. A sô pessora é boa mas eu não gosto dela. Quando os meninos começam-me fazer pouco chamando Xoxombo-macaco e outras coisas, ela aparece sempre mas eu não gosto. Diz eu sou coitadinho não tenho culpa de ser assim escuro e que a minha alma é igual me agarra e quer ser como mamãe, mas eu não gosto dela porque naquele dia levei minha mandioca cozida para o lanche e o Antoninho, o filho do sô Antunes da quitanda, estava comer o pão dele com a manteiga e começou-me fazer pouco. A sô pessora puxou-lhe nas orelhas, lhe tirou o pão, deitou fora minha mandioca e me deu-me o pão dele. Mas eu não aceitei e chorei. Eu queria mesmo era minha mandioca, minha mãe tinha-me dado para o lanche.”
Mais ou menos assim é a lembrança daquele caderno do Xoxombo e, nalgumas folhas, na sua letra redonda, ele tinha escrito conversas e confusões lá do musseque. Mas não continuou contar as histórias; adiantou fazer desenhos de asneiras e um dia sá Domingas encontrou, deu-lhe com o pau de funji, rasgou e queimou o caderno. Só que o Zeca, com seu espírito curioso, estava espreitar a surra no Xoxombo, foi ainda apagar o fogareiro e salvou uns bocados. Alguns deitei fora, só tinha desenhos de malandro; o resto eu guardei porque o Xoxombo escrevia coisas que ele pensava e que, sempre que eu leio, fico também a pensar.

1.

Numa noite, depois deste caso, o musseque ficou muito calmo e nem tinha vento no ar, as folhas dos paus não mexiam. Albertina estava ainda no hospital e os pais do Zeca Bunéu tinham saído para visitar os primos do Kinaxixi.
Nesse fim de jantar, sá Domingas veio sentar na porta com Xoxombo, Carmindinha e Tunica brincando suas rodas e, mais daí a bocado, foi don’Ana quem chegou sozinha, as meninas tinham deitado já. Vinha para sunguilar com a vizinha, sabia era dia de capitão Bento chegar, queria-lhe ajudar a encher o tempo.
A noite estava escura ainda; a lua, escondida atrás do Tanque d’Água, não dava luz para as brincadeiras que sempre gostávamos fazer. Assim, a chegada de don’Ana foi recebida com alegria, os meninos correram para a senhora e começaram pedir para contar as histórias ou pôr adivinhas, como só ela é que sabia.
Sentindo esse barulho, Zeca Bunéu, que já estava para dormir, recomendação de dona Branca antes de sair, veio também. Este menino gostava mesmo ouvir as histórias. Sabia já, quando o pai chegasse e não lhe encontrasse na cama, ia apanhar surra, mas nada, ficava na mesma.
Na janela do meu quarto eu assistia triste, todos a sentar à volta de don’Ana, sá Domingas abanando o calor. Minha madrasta não deixava eu ir, dizia que essas conversas de cazumbis é história de negros e, quando ela falava assim, eu lembrava a minha falecida mãe, ficava a chorar e espreitava bem com os ouvidos para apanhar o que don’Ana contava e o silêncio amigo me trazia.
Mas o Zeca era saliente, gostava se meter:
— Ená! Mas camucala e diquixe é o quê então?
Os outros meninos estavam assustados e, sempre que ele falava, riam, faziam-lhe pouco mas era também para assustar o medo que sentiam. Só Zeca não tinha vergonha, o que ele queria era saber, cantar no grupo com os outros e tudo. Por isso, quando nessa noite don’Ana acabou contar essa história dumas meninas que foram pôr tatuagens, o Zeca interrompeu:
— Don’Ana, a senhora deixa só eu contar também minha história?
— Ih, menino! Criança que pede muito, recebe cagalhão! Sempre a pedir, sempre a pedir! Não fica mais calado?
Mais curiosa, sá Domingas falou para don’Ana deixar o Zeca contar. O Xoxombo desatou a rir, Tunica e Carmindinha fizeram-lhe pouco, mas ele começou na mesma. E contou que era uma vez uma rapariga que foi com a quinda dela cheia de mandiocas, batata-doce e galinhas para oferecer na avó que morava na mata. Aí, no caminho, apareceu o senhor Onça e começou-lhe falar...
— Xê, Zeca! Cala-te a boca! — gritou o Xoxombo, rindo.
— Elá, menino, então? ’tá interromper assim o teu mais-velho? — protestou don’Ana.
— Não é, don’Ana! É o Zeca ’tá aldrabar. Essa história não é assim, a professora adiantou contar lá na escola. Nome dela é o Capuchinho Vermelho, eu sei mesmo...
Tunica e Carmindinha, batendo a palma da mão na boca, começaram a correr em volta do Zeca Bunéu, troçando e rindo:
— Uatobo! Uatobo!
Mas nem assim ficou derrotado, não senhor. Virou para don’Ana, pôs cara séria e falou com muito jeito:
— Ai don’Ana! Se eu contasse a história com a menina do chapéu vermelho ser comida no lobo, ninguém que percebia, não é? Na nossa terra tem menina assim? E tem lobo na mata? Ora pópilas, tem mas é onça! É por isso eu conto assim...
Acabando de rir, as mães concordaram e mandaram calar os filhos. O Zeca contou até no fim, quando apareceram os caçadores da sanzala da menina, deram uma surra no senhor Onça que ele morreu. Sukuama! Esse Zeca, cada mentira que ele meteu aí na história! Mas toda a gente gostou, é verdade.
Com os risos e os barulhos dos meninos, gostando as adivinhas que don’Ana punha, minha madrasta veio-me tirar da janela e nem dei conta a chegada de capitão Abano. Mas durante o resto da noite fiquei ainda acordado a pensar o Zeca e o Xoxombo e naquelas coisas que o menino tinha escrito no caderno. Na imaginação do Zeca e na esperteza do Xoxombo, parecia mesmo um mais-velho; e também essas conversas do meu pai e da minha madrasta, conversas antigas faladas na cama quando o sono não vem. Cadavez eram mais, o pior era mesmo no fim do mês. Xoxombo e Zito contavam que os pais e as mães falavam muito esses casos do preço das coisas de comer, na quitanda de sô Antunes. Ele só dizia que era a guerra, mas não aviava o que as mães mandavam os miúdos buscar e andava ameaçar que só ia vender com dinheiro, não queria aceitar mais vale.
Foi assim que, numa tarde, no caminho da escola, o Xoxombo pelejou no Antoninho. Xoxombo disse que o pai dele estava ficar gordo com a nossa fome e ele respondeu que as nossas famílias eram negros matumbos. Que o pai fazia negócio com os arcos dos barris, com as garrafas vazias, com pneus velhos, sucata e que as nossas famílias eram mangonheiros.
Xoxombo não esperou dar café nem nada. Deitou a saca no chão, agarrou-lhe na capanga; o Antoninho deu-lhe um pontapé e começaram lutar, os outros é que separaram. O filho do capitão Abano contou, depois, que tinha pelejado porque, de manhã, sô Antunes lhe mandou embora sem açúcar branco nem a manteiga. A Tunica não ouviu ele dizer na mãe e começou pedir manteiga e então sá Domingas bateu-lhe na cara. Xoxombo, quando viu a Tunica chorar com a chapada e sá Domingas sair embora triste, no quintal, jurou na palma da mão que ia pelejar no Antoninho.
Mas o que doeu mesmo mais no Xoxombo foi aquela tarde dos brinquedos.

José Luandino Vieira, in Nosso Musseque

Verso avulso


Suavidade do musgo nos muros gretados.

Mário Quintana, in Caderno H

A Lua Vem da Ásia | Cap. 71

Quando em 1934 atravessei sozinho o deserto de Iguidi, tendo por única companhia um casal de borboletas, ocorreu-me a aventura mais surpreendente que pode acontecer a um homem vivo ou morto, e que procurarei resumir em três linhas. Foi o caso que um dia despertei transformado em mulher e, nessa qualidade, fui pouco depois recrutado para o harém do sultão do Marrocos, onde servi como pude durante um ano e quatorze dias. (Minha experiência nesse setor só deve interessar a mim mesmo, e manda o recato que eu me abstenha de entrar em maiores detalhes sobre o assunto, a menos que a isso me obrigue a minha consciência na hora derradeira).
Livre do impetuoso sultão, por haver recuperado com a ajuda de um famoso cirurgião de Casablanca meus atributos mais masculinos, consegui transpor a nado o estreito de Gibraltar, que não me pareceu tão estreito quanto dizem, e fui dar com o nariz na pequena cidade de Tarifa, onde uns pescadores me recolheram e por pouco não me enterraram como morto, dado o meu extremo estado de fraqueza. Ressuscitado graças aos cuidados e carinhos da bela filha de um dos meus salvadores, que se apaixonou por mim à primeira vista, quinze dias depois já lhe arranjava um filho ou pelo menos me esforçava bastante para isso, do que resultou ter eu que fugir às pressas para o porto de Cádiz, num barco roubado ao pai e que vendi pela bagatela de seiscentas pesetas. Em Cádiz engordei três quilos e fui apresentado a um áulico do rei Afonso XIII que era pederasta passivo e que me obteve todas as facilidades para chegar até a fronteira de Portugal, que transpus disfarçado em espantalho numa noite de fortíssimo temporal.
Em Portugal vivi de 1935 a 1939 — primeiro em Évora, depois em Leiria e, por último, finalmente, em Coimbra, onde fiz de novo o primeiro ano de Direito e fui preso como traficante de cocaína e de escravas brancas, embora o meu ramo verdadeiro fossem a morfina e o lenocínio puro e simples, como fartamente pude provar em juízo. Deportado arbitrariamente pelos beleguins do Sr. Salazar, acabei indo dar com os costados nas terras do Ceará, ao norte do Brasil, onde funcionei como sacristão durante onze meses e fundei, nas horas vagas, o Partido Anarquista Nacional, que por excesso de anarquia de alguns membros teve duração efêmera. Amasiado com a viúva de um fabricante de velocípedes, que dispunha de algum recurso e me amava perdidamente, acabei um dia embarcando com ela para a capital do país, que era Rio de Janeiro e não Buenos Aires como eu pensava, e onde fomos imediatamente presos por causa de um pacote de maconha que eu trazia preso às cuecas e do qual não tinha o menor conhecimento a viúva. Solto à custa de todo o dinheiro que trazia e após haver inculpado seriamente a viúva no caso (consta que ela ainda está presa até hoje) instalei-me no bairro de Copacabana com uma roleta viciada que consegui roubar de um parque de diversões, e em pouco tempo era um dos homens mais ricos da cidade, com três automóveis e um iate anfíbio. Eleito senador da República, exerci o mandato apenas por uns poucos meses, pois numa das muitas revoluções que frequentemente assolam o país fui despojado de todos os meus haveres e ainda obrigado a procurar asilo na vizinha república do Uruguai, como exilado político e herói interamericano. No Uruguai tive de aprender o uruguaio, que é uma língua extremamente parecida com o espanhol e que me foi de grande proveito para o futuro, pois ainda é a mesma língua que se fala na República Argentina, aonde fui ter em princípios de 1943. Em Buenos Aires, onde estive apenas duas horas devido ao perfeito serviço de policiamento local, fui fichado como anarquista, comunista, trotsquista e terrorista, além de traficante de tóxicos e explorador do lenocínio, tendo sido posto a ferros num navio cargueiro que estava de saída do porto e que me levou, em menos de uma semana, até a Terra do Fogo. Ali, batendo o queixo de frio, fui entregue à minha própria sorte, com a ordem terminante de abandonar o país (pois ainda era a Argentina) dentro de vinte e quatro horas, fosse a nado ou de helicóptero ou por qualquer outro meio que julgasse mais rápido e aconselhável. Com a larga experiência de natação que me dera meu passado político, atirei-me ao mar assim que pude e nadei, em estilo crawl, até uma das ilhas Malvinas, que pertencem ao domínio britânico e onde fui recebido com as honras de atleta. Em Port-Stanley, onde permaneci durante todo um ano, fui sucessivamente professor de natação, mascate, noivo oficial de três raparigas lindíssimas, agente secreto de uma potência que não posso mencionar, barman, ilusionista numa trupe de saltimbancos e, por último, exilado político mais uma vez, por ter sido apanhado em flagrante de adultério com a mulher do governador da cidade.
Só me lembro de que algum tempo depois eu almoçava em Tóquio com o poeta Paul Claudel, que era ali embaixador da França ou coisa que o valha, e que trazia três escapulários dependurados no pescoço e vinte medalhas de Nossa Senhora distribuídas por diversas partes do corpo, como proteção em caso de morte súbita e imprevista, a que estava sujeito embora pertencesse à Academia Francesa. Com uma corrente de ouro que lhe consegui roubar, acompanhada do competente relógio, obtive fundos para instalar-me com uma pequena fábrica de pirulitos na cidade de Sendai, onde me naturalizei japonês com o nome de Akiito Furuashi, em homenagem ao príncipe herdeiro do império e a um cavalo de corridas que eu conhecera no prado de Longchamp. Desse meu período nipônico, a recordação mais grata que guardo é a do haraquiri que praticou sob as minhas barbas um obeso sacerdote xintoísta apaixonado por uma gueixa de rara beleza, e cujo cadáver ainda quente eu saqueei com grande proveito e discrição, embora tremendo dos pés à cabeça. Quando o primeiro-ministro Hiroshida mandou fechar minha fábrica de pirulitos, atrás da qual eu mantinha um pequeno bordel onde se podia fumar ópio dia e noite, já eu estava rico o suficiente para desnaturalizar-me japonês e tornar-me de novo um apátrida cidadão do mundo, sem outra preocupação que a de viver a minha vida e de cumprir fielmente o destino que Deus me reservou entre os medíocres e os medrosos de todos os países.

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia

A morte do pai II

Minha mãe morrera um ano antes. Uma semana após a morte de meu pai, eu estava na casa dele, sozinho. Era em Arcadia, e o mais perto que eu chegara daquela casa em algum tempo fora ao passar pela autoestrada a caminho de Santa Anita.
Eu era desconhecido para os vizinhos. O funeral acabara, e eu me dirigi à pia, enchi um copo d’água, bebi-o, depois saí.
Sem saber que outra coisa fazer, peguei a mangueira, abri a água e comecei a aguar os arbustos. Cortinas correram enquanto eu estava parado no gramado da frente. Depois eles começaram a sair de suas casas. Uma mulher veio do outro lado da rua.
– Você é Henry? – ela me perguntou.
Respondi-lhe que era Henry.
– Conhecíamos seu pai há anos.
Aí o marido aproximou-se.
– Conhecemos sua mãe também – ele disse.
Eu me curvei e fechei a mangueira.
– Não querem entrar? – perguntei.
Eles se apresentaram como Tom e Nellie Miller, e entramos em casa.
– Você é a cara do seu pai.
– É, é o que me dizem.
Sentamo-nos e ficamos olhando uns para os outros.
– Oh – disse a mulher –, ele tinha tantos quadros. Devia gostar de quadros.
– É, gostava, né?
– Eu adoro aquele quadro do moinho no pôr do sol.
– Pode ficar com ele.
– Oh, posso?
A campainha tocou. Eram os Gibsons. Eles me disseram que também tinham sido vizinhos de meu pai durante anos.
– Você é a cara do seu pai – disse a Sra. Gibson.
– Henry nos deu o quadro do moinho.
– Isso é ótimo. Eu adoro aquele quadro do cavalo azul.
– Pode ficar com ele, Sra. Gibson.
– Oh, não está falando sério.
– Sim, está tudo bem.
A campainha tornou a tocar, e outro casal entrou. Deixei a porta entreaberta. Logo um homem enfiou a cabeça.
– Eu sou Doug Hudson. Minha esposa está no cabeleireiro.
– Entre, Sr. Hudson.
Outros chegaram, a maioria aos pares. Começaram a circular pela casa.
– Vai vender a casa?
– Acho que vou.
– É um bairro adorável.
– Estou vendo.
– Oh, eu adoro aquela moldura, mas não gosto do quadro.
– Leve a moldura.
– Mas que vou fazer com o quadro?
– Jogue no lixo. – Olhei em volta. – Se alguém vir um quadro que goste, por favor, leve.
Pegaram. Em breve as paredes estavam nuas.
– Você precisa dessas cadeiras?
– Não, na verdade, não.
Passantes entravam da rua, e nem todos se davam o trabalho de apresentar-se.
– E o sofá? – perguntou alguém em voz muito alta. – Você quer?
– Não quero o sofá – eu disse.
Levaram o sofá, depois a mesa do café da manhã e as cadeiras.
– Tem uma torradeira aí, não tem, Henry?
Levaram a torradeira.
– Não precisa dos pratos, precisa?
– Não.
– E a prataria?
– Não.
– E a chaleira e o liquidificador?
– Levem.
Uma das senhoras abriu um armário na varanda dos fundos.
– E todas essas frutas em conserva? Você jamais vai poder comer tudo isso.
– Tudo bem, peguem todos um pouco. Mas tentem dividir igualmente.
– Oh, eu quero os morangos!
– Oh, eu quero os figos!
– Oh, eu quero a geleia!
As pessoas saíam e voltavam, trazendo outras consigo.
– Escuta, tem uma garrafa de uísque aqui no armário! Você bebe, Henry?
– Deixe o uísque.
A casa estava ficando lotada. A descarga do banheiro funcionou. Alguém derrubou um copo da pia e quebrou-o.
– É melhor ficar com esse aspirador, Henry. Pode usar ele em seu apartamento.
– Tudo bem, vou ficar.
– Ele tinha umas ferramentas de jardinagem na garagem. E elas?
– Não, é melhor eu ficar com essas.
– Dou quinze dólares pelas ferramentas de jardinagem.
– Tudo bem.
Ele me deu quinze dólares e eu lhe dei a chave da garagem. Em breve se podia ouvi-lo rolando o aparador de grama para sua casa no outro lado da rua.
– Você não devia ter vendido todo aquele equipamento a ele por quinze dólares, Henry. Valia muito mais.
Não respondi.
– E o carro? Já tem quatro anos.
– Acho que vou ficar com o carro.
– Dou cinquenta dólares por ele.
– Acho que vou ficar com o carro.
Alguém enrolou o tapete da sala da frente. Depois disso, começaram a perder o interesse. Em breve restavam apenas três ou quatro, depois foram-se todos. Deixaram-me a mangueira do jardim, a cama, a geladeira e o fogão, e um rolo de papel higiênico.
Saí e fechei a porta da garagem. Dois meninos passaram de patins. Pararam quando eu fechava as portas da garagem.
– Está vendo aquele cara?
– Estou.
– O pai dele morreu.
Foram em frente. Eu peguei a mangueira, abri a torneira e comecei a aguar as rosas.

Charles Bukowski, in Numa Fria

01/11/2022

Hagar, o Horrível

 

Velhos e novos

Dia 11 de novembro de 2008

Dirão alguns que o cepticismo é uma doença da velhice, um achaque dos últimos dias, uma esclerose da vontade. Não ousarei dizer que o diagnóstico seja completamente equivocado, mas direi que seria demasiado cómodo querer escapar às dificuldades por essa porta, como se o estado actual do mundo fosse simplesmente consequência de que os velhos sejam velhos… As esperanças dos jovens nunca conseguiram, até hoje, tornar o mundo melhor, e o sempre renovado azedume dos velhos nunca foi tanto que chegasse para torná-lo pior. Claro que o mundo, pobre dele, não tem culpa dos males de que padece. O que chamamos estado do mundo é o estado da desgraçada humanidade que somos, inevitavelmente composta de velhos que foram novos, de novos que hão-de ser velhos, de outros que já não são novos e ainda não são velhos. Culpas? Ouço dizer que todos as temos, que ninguém pode gabar-se de estar inocente, mas parece-me que semelhantes declarações, que aparentemente distribuem justiça por igual, não passam, quando muito, de espúrias recidivas mutantes do chamado pecado original, servem apenas para diluir e ocultar, numa imaginária culpa colectiva, as responsabilidades dos autênticos culpados. Do estado, não do mundo, mas da vida.
Escrevo isto num dia em que chegaram a Espanha e Itália centenas de homens, mulheres e crianças nas frágeis embarcações que costumam utilizar para alcançar os supostos paraísos de uma Europa rica. À ilha de Hierro, nas Canárias, por exemplo, chegou um barco desses, dentro do qual havia uma criança morta, e alguns náufragos declararam que durante a viagem tinham morrido e sido lançados ao mar vinte companheiros de martírio… Que não me falem de cepticismo, por favor.

José Saramago, in O caderno

Capítulo 18 | Visão do Corredor

No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns instantes para respirar, apalpar-me, convocar as ideias dispersas, reaver-me enfim no meio de tantas sensações profundas e contrárias. Achava-me feliz. Certo é que os diamantes corrompiam-me um pouco a felicidade; mas não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos e os seus presentes. E depois eu confiava na minha boa Marcela; podia ter defeitos, mas amava-me...
– Um anjo! murmurei eu olhando para o teto do corredor.
E aí, como um escárnio, vi o olhar de Marcela, aquele olhar que pouco antes me dera uma sombra de desconfiança, o qual chispava de cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu. Pobre namorado das Mil e Uma Noites!
Vi-te ali mesmo correr atrás da mulher do vizir, ao longo da galeria, ela a acenar-te com a posse, e tu a correr, a correr, a correr, até a alameda comprida, donde saíste à rua, onde todos os correeiros te apuparam e desancaram. Então pareceu-me que o corredor de Marcela era a alameda, e que a rua era a de Bagdá. Com efeito, olhando para a porta, vi na calçada três dos correeiros, um de batina, outro de libré, outro à paisana, os quais todos três entraram no corredor, tomaram-me pelos braços, meteram-me numa sege, meu pai à direita, meu tio cônego à esquerda, o da libré na boleia, e lá me levaram à casa do intendente de polícia, donde fui transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se resisti; mas toda a resistência era inútil.
Três dias depois segui barra fora, abatido e mudo. Não chorava sequer, tinha uma ideia fixa... Malditas ideias fixas!
A dessa ocasião era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcela.

Machado de Assis, in Memórias Póstumas de Brás Cubas

Do Brasil (Vander Lee) | Laura Catarina ft. Mariene de Castro

Alfândega

O que pude oferecer sem mácula foi
meu choro por beleza ou cansaço,
um dente exraizado,
o preconceito favorável a todas as formas
do barroco na música e o Rio de Janeiro
que visitei uma vez e me deixou suspensa.
‘Não serve’, disseram. E exigiram
a língua estrangeira que não aprendi,
o registro do meu diploma extraviado
no Ministério da Educação, mais taxa sobre vaidade
nas formas aparente, inusitada e capciosa — no que
estavam certos — porém dá-se que inusitados e capciosos
foram seus modos de detectar vaidades.
Todas as vezes que eu pedia desculpas diziam:
‘Faz-se de educado e humilde, por presunção’,
e oneravam os impostos, sendo que o navio partiu
enquanto nos confundíamos.
Quando agarrei meu dente e minha viagem ao Rio,
pronto a chorar de cansaço, consumaram:
‘Fica o bem de raiz pra pagar a fiança’.
Deixei meu dente.
Agora só tenho três reféns sem mácula.

Adélia Prado, in Bagagem

Palhaço da boca verde

Só o amor em linhas gerais infunde simpatia e sentido à história, sobre cujo fim vogam inexatidões, convindo se componham; o amor e seu milhão de significados. Assim, quando primeiro do mesmo se tem direta notícia, viajava o protagonista, de trem, para Sete-Lagoas. Ele queria conversar com uma mulher.
Ano ou meses antes, lembre-se, desfizera-se na região, por óbito de T. N. Ruysconcellos, empresário e dono, o Circo Carré, absorvidos reportavelmente por outro, o Grande Circo Hânsio-Europeu, dos Mazzagrani, o material e mor parte dos artistas. X. Ruysconcellos, que naquele se afamara como o clown Ritripas ou “Dá-o-Galo”, parecia deixado então do mister circense. Distinguia-se ainda moço, tão bem vestido quanto comedido, nem alegre nem triste, apenas o oposto; bebia, devagar, sem se inebriar.
Vir a falar com aquela mulher oferecia-se seu problema; viver sem precisar de milagres seria lúgubre maldição. Ela na ocasião sendo mulher pública aliás, mas singular do comum, mesmo no nome de guerra não usar, senão o próprio, civil, mais ou menos espanhol, de Mema Verguedo; e, talvez com receio ou por ira no peito, negava-se à conversação: a respeito de outra — Ona Pomona.
Ruysconcellos não ia durar. — Toda hora há moribundos nascendo... — quase se desculpava, inculcava-se firmeza. — Se bons e maus acabam do coração ou de câncer, concluo em mim as duas causas... — e coçava-se a raiz do nariz, isto é, o hilo dos óculos. Mesmo nesses assuntos, pedia a máxima seriedade. Método, queria. Macilento, tez palhiça, cortada a fala de ofegos, mostrava indiferença ao escárnio, a dos condenados.
Mas buscava toda cópia de informação, sobre Ona Pomona, casada e remota no mundo, no México, na Itália. Mema apenas o inteiraria disso, de Ona Pomona tinha sido a amiga. Uma se fora com o Circo Europeu, a outra se refugiara em prostíbulo. Ele esperava, insistia, não podia sair da cidade.
Mema desatendia recados. — Tranquilo esteja! — re-vezes caminhava no quarto, rapariga alongada e mate, com artes elásticas, de contornos secos recortados. — Se quiser, venha — como os outros!... pelo passatempo, não para indagação em particular. — Se bem, bem, logo, logo... Estava ali com extraordinária certeza; dela de alguma maneira contudo se intimidavam os homens, era o seu o ar dos sombrios entre as dobras de uma rosa.
Mentido o modo, proferia: — Cuquito! — por carinho ou desdém. Nada os aproximara, aventura nem namoro. — Sei, nunca me viu... palhaços só notassem a multidão, não dividiam picadeiro, camarim, plateia. Sorria contrária — toda em ângulos a superfície do rosto — o nariz afirmativo, o queixo interrogador. O que não dizia era ter, escondida, a mala, que lhe não pertencia; e cujo conteúdo não descobrira a ninguém.
Entrado ao trem da paciência, Ruysconcellos lia, relia à-toa jornais, sem saltar palavra ou página. — Já vi um homem se afundar e desaparecer dentro de par de sapatos... — tirou os óculos e se acariciava os olhos com as pontas dos dedos. Tinha de Ona Pomona um retrato, queria entender o avesso do passado entre ambos, estudadamente, metia-se nessa música, imagem rendada; o que a música diz é a impossibilidade de haver mundo, coisas. — Inútil... a lucidez — está-se sempre no caso da tartaruga e Aquiles.
Dobrou com distraído cuidado a foto — onde Mema via-se também — partiu-a, ainda mais minucioso, destruindo daí essa outra e errada metade. Maldade nele no momento acaso surgisse, em seu siso, uma ameaça a Mema. De vez em nada, tragava gole. Do alvaiadado Ritripas nem lhe restassem mínimos gestos.
Mema, a ela não deixava de voltar quem vez a pressentisse, como num caroço de pêssego há sobrados venenos, como a um vinagre perfumoso. — Ele nunca teve graça, o que divertia era seu excesso de lógica... — tossiu, por nojo. O que ele imaginava, de amor a Ona Pomona, seria no mero engano, influição, veneta. Sob outra forma: não amava. — Ele não quer ser ele mesmo... — Mema entredisse, em enfogo, frementes ventas — como se da vida alguma verdade só se pudesse apreender através de representada personagem.
Simples escorrida se estreitava no rosa-chá vestido, o amarelo é difícil e agudo. Sem vagar, fumava, devia de não comer e ter febre. Sua maior escuridão estava nas mãos. Abriu aquela mala — em que retinha o que de “Dá-o-Galo” do Circo Carré: narizes de papelão postiços ou reviradas pontas de cera, tintas para a cara, sapatanchas, careca-acrescente, amplas bufonas coloridas.
Vindo de São Paulo o secretário do Circo Américas, papéis na pasta, gravata borboleta, trazia a Ruysconcellos empenhada oferta, em vão. Soubesse de Ona Pomona similar à água e à seda? Do azul em que as coisas se perdem e perduram? Intercedendo, procurou então Mema, propôs também engajá-la, com o jeito de tísica. — Ele não vai! — ela tresconversou, em rebelia, quisesse com as levantadas mãos tapar quaisquer alheios olhos.
Ruysconcellos dissera somente a necessária recusa. — Cuspes de dromedário! — até nisso: praguejava com gentileza. Deu-lhe o pó de palidez, esverdeando-se por volta dos lábios.
— Vê? — o retrato, — a parte que guardara. Era o de Mema... E, então, fora o de Ona o rasgado, aconteceu’que, erro, como pudera?! Fez a careta involuntária: a mais densa blasfêmia. Estava sem óculos; não refabulava. Era o homem — o ser ridente e ridículo — sendo o absurdo o espelho em que a imagem da gente se destrói. Disse: — Só o moribundo é onipotente —; a disfarça. Xênio Ruysconcellos, o álcool não lhe tirava o senso de seriedade e urgência. De pé, implorava, falando em aparte.
Tartamudo: — ... nona... nopoma... nema... — e rir é sempre uma humildade. Mema desatinada escrevera-lhe, insultos. Em fúria, não ouviria ela seu primeiro rogo?
Mema mordida escutou o enviado apelo, apagada a acentuação do rosto. — Ele precisa de dinheiro, de ajuda?! — e seu pensamento virava e mexia, feito uma carne que se assa. — Que venha... — de repente chorou, fundo, como se feliz — ... para o que quiser. Ela estava ali com muita verdade, cheirava a naftalina ou alfazema. O vento acaba sempre depois de alguma coisa que não se sabe.
De dia, de fato, tiveram de romper a porta, havido alvoroço. Na cama jazendo imorais os corpos, os dois, à luz fechada naquele quarto. A morte é uma louca? — ou o fim de uma fórmula. Mas todos morrem audazmente — e é então que começa a não-história.
Falso e exagerado quase tudo o que a respeito se propalou; atesta-se porém que ele satisfeito sucumbiu, natural, de doença de Deus. Mema após, decerto, por própria vontade. Nem foi ele o encontrado em festa de vestes, melhor dizendo estivesse sem roupa qualquer; tãopouco travestida ou empoada Mema, à truã, pintada, ultrajada. Infundado, pois, que saídos de arena ou palco na morte se odiassem. Enfim, podiam, achavam, se abraçavam.

Guimarães Rosa, in Tutameia