sexta-feira, 4 de novembro de 2022

O Lobo do Mar | Capítulo 16


Não posso dizer que havia vantagem na posição de imediato, a não ser não precisar mais lavar pratos. Eu desconhecia até as mais simples obrigações de meu posto e teria me saído muito mal não tivesse contado com a solidariedade dos marujos. Não tinha o menor domínio das minúcias envolvendo o cordame e a mastreação, e menos ainda do posicionamento e do ajuste das velas, mas os marujos, especialmente Louis, se esforçaram para me colocar a par de tudo e não enfrentei muitos problemas com meus subordinados.
Com os caçadores, a história foi outra. Familiarizados com o mar em diferentes graus, eles me tomavam como uma espécie de piada. Na verdade, eu mesmo via isso como uma piada, um homem totalmente alheio ao mar ocupando o posto de imediato; mas ser visto como uma piada pelos outros era bem diferente. Eu nunca reclamei, mas Wolf Larsen exigia que a mais rigorosa etiqueta marítima fosse observada com relação a mim, o que não acontecera com o pobre Johansen, e à custa de muitas discussões, ameaças e protestos ele acabou mantendo os caçadores na linha. Eu era o “sr. Van Weyden” da proa à popa, e o próprio Wolf Larsen só se dirigia a mim como “Hump” extraoficialmente.
Era divertido. Se o vento virasse alguns pontos durante o jantar, quando eu saía da mesa ele dizia:
Sr. Van Weyden, tenha a bondade de pôr a retranca a boreste.
Então eu subia até o convés, acenava para Louis e pedia que me explicasse o que era necessário fazer. Alguns minutos depois, havendo digerido as instruções e aprendido a manobra, eu dava as minhas ordens. Lembro que, numa das primeiras ocorrências desse tipo, Wolf Larsen surgiu bem no instante em que eu começava a passar as ordens. Ficou fumando seu charuto e acompanhou tudo em silêncio até o fim, depois veio caminhando a meu lado, a barlavento, em direção à popa.
Hump — ele disse —, ou melhor, perdão, sr. Van Weyden, o senhor está de parabéns. Creio que já pode devolver as pernas de seu pai ao túmulo dele. Descobriu que tem pernas próprias e aprendeu a ficar em pé com elas. Com um pouco mais de operação do cordame, ajuste de velas e experiência com tempestades, poderá terminar a viagem apto a comandar qualquer escuna.
Foi durante esse período, entre a morte de Johansen e a chegada à região das focas, que passei minhas horas mais agradáveis a bordo do Ghost. Wolf Larsen era atencioso, os marujos me ajudavam e eu estava livre da presença irritante de Thomas Mugridge. E tomo a liberdade de dizer que, com o passar dos dias, comecei a ter um orgulho secreto de mim mesmo. Por mais fantástica que fosse a minha situação, a de um marinheiro de água doce ocupando a segunda posição na cadeia de comando, eu estava conseguindo me virar um tanto bem. Tive orgulho disso durante aquele breve período e aprendi a amar o sobe e desce do Ghost arfando sob meus pés, singrando para o noroeste em águas tropicais, até a ilhota em que nos reabasteceríamos de água.
Mas essa felicidade não era plena. Era relativa, um período de sofrimento menor intercalando um passado e um futuro de enorme sofrimento. Afinal o Ghost, pelo menos do ponto de vista de seus marinheiros, era o barco mais infernal que se podia conceber. Eles nunca tiveram um único instante de paz ou alívio. Wolf Larsen guardou rancor do atentado contra sua vida e da surra no castelo de proa e dedicou suas manhãs, tardes, noites e madrugadas a tornar a existência deles intolerável.
Ele conhecia bem a psicologia das coisas pequenas, e por meio delas foi capaz de manter a tripulação sempre à beira da loucura. Vi Harrison ser retirado da cama para guardar um pincel no local adequado, acompanhado pelas duas vigias em descanso, que também foram forçadas a acordar para vê-lo cumprir a tarefa. Uma coisa pequena, sem dúvida, mas quando temos uma mente capaz de multiplicar por mil os expedientes dessa natureza podemos começar a imaginar o estado mental dos homens no castelo de proa.
As reclamações não cessavam, é claro, e pequenos conflitos explodiam sem parar. Bordoadas eram distribuídas e sempre havia dois ou três homens feridos pelas mãos da besta humana que os comandava. Uma reação conjunta era impossível por causa da grande quantidade de armas de fogo à disposição da baiuca e da cabine. Leach e Johnson foram as duas vítimas especiais do temperamento diabólico de Wolf Larsen, e o ar de melancolia profunda que havia se instalado na expressão e no olhar de Johnson partia o meu coração.
Com Leach era diferente. Não era fácil domar a fera rebelde dentro dele. Parecia possuído por uma fúria insaciável que não deixava espaço para lamentações. Seus lábios tinham se deformado num ricto permanente que, à mera visão de Wolf Larsen, desatava em um rosnado horrível, ameaçador e, suponho eu, inconsciente. Eu o via seguir Wolf Larsen com o olhar como uma fera diante do domador, com aquele rosnado que brotava no fundo da garganta e vibrava entre os dentes.
Uma vez, no convés, em um dia claro, toquei em seu ombro antes de passar uma ordem. Ele estava de costas para mim e, ao sentir o contato da minha mão, pulou alto e bem longe, virando a cabeça e rosnando. Por um instante, tinha pensado que eu era o homem que tanto odiava.
Tanto ele como Johnson teriam matado Wolf Larsen na primeira oportunidade, mas esta nunca chegou. Wolf Larsen era astuto demais, e além disso eles não possuíam armas adequadas. Usando somente os punhos, nunca teriam a menor chance. O capitão atacou Leach vezes sem conta e este sempre revidava como um lince, usando punhos, dentes e unhas, até restar estirado no convés, exausto ou inconsciente. Mesmo assim, Leach estava sempre disposto a novos embates. Todo seu lado diabólico estava mobilizado contra o lado diabólico de Wolf Larsen. Bastava os dois aparecerem ao mesmo tempo no convés para se atracarem com impropérios, rosnados e socos, e também vi Leach arremeter contra Wolf Larsen sem aviso ou provocação. Certa feita, ele tirou a faca da bainha e a arremessou, errando Wolf Larsen por centímetros. Em outra ocasião, deixou cair uma espicha de aço do alto do joanete da mezena. Era uma manobra difícil de calcular em um navio balançante, mas a ponta afiada da espicha desceu os vinte metros assobiando e quase acertou a cabeça de Wolf Larsen bem no momento em que ele saía pela escotilha da cabine, penetrando cinco centímetros na tábua sólida do convés. Outra vez ainda, ele se infiltrou na baiuca, apoderou-se de uma escopeta carregada e estava correndo para o convés quando foi interceptado e desarmado por Kerfoot.
Várias vezes me perguntei por que Wolf Larsen não o matava e acabava logo com isso. Mas ele apenas dava risada e parecia gostar. Havia uma excitação envolvida, o mesmo tipo, talvez, que incita certos homens a domesticar feras selvagens.
A vida de um homem fica mais emocionante — ele me explicou — quando está nas mãos de outro. O homem é um apostador nato e a vida é a maior coisa que pode apostar. Quanto maior aquilo que está em jogo, maior a emoção. Por que eu me negaria o prazer de provocar a alma de Leach até quase explodir? Nesse sentido, faço um bem a ele. A intensidade do sentimento é mútua. Ele está levando uma vida superior à de seus companheiros de proa, embora não saiba disso. Ele possui algo que os outros não possuem: um propósito, algo a fazer e resolver, um objetivo que o absorve por completo, o desejo de me matar, a esperança de me ver morto. Falo sério, Hump, ele está vivendo de maneira profunda e elevada. Duvido que alguma vez ele tenha vivido com tamanha urgência e intensidade, e às vezes eu o invejo, honestamente, ao vê-lo enfurecido no extremo das paixões e dos sentidos.
Ah, mas é uma covardia, uma covardia! — gritei. — Você está em vantagem.
De nós dois, eu e você, quem é mais covarde? — ele me perguntou a sério. — Se a situação o aborrece, você compromete sua consciência ao tomar parte dela. Se você fosse mesmo corajoso, fiel a si mesmo, uniria forças com Leach e Johnson. Mas você tem medo, tem medo. Você quer viver. A vida dentro de você grita para seguir vivendo, não importa quanto custe, então você vive de maneira ignominiosa, em desacordo com seus maiores sonhos, pecando contra todo esse código de conduta desprezível em que você acredita, e se houvesse inferno, sua alma estaria mergulhando de cabeça nele. Bah! Assumo o papel mais corajoso. Não cometo pecado algum, pois sou fiel aos estímulos da vida que há dentro de mim. Ao menos sou sincero com minha alma, coisa que você não é.
Algo calava fundo naquelas palavras. No fim das contas, pode ser que eu assumisse o papel do covarde. E quanto mais eu pensava no assunto, mais claro ficava que minha obrigação comigo mesmo era proceder como ele havia sugerido, unindo forças com Johnson e Leach na tentativa de matá-lo. Nessa hora, creio, entrou em jogo a consciência austera de minha ascendência puritana, que me inclinava para atitudes sinistras e sancionava até mesmo o assassinato como uma conduta justificável. Dediquei algum tempo à ideia. Livrar o mundo daquele monstro seria um ato moral como poucos. A humanidade ficaria melhor e mais feliz com isso, a vida ficaria mais bela e mais doce.
Ponderei sobre a questão por muito tempo, deitado na cama, sem conseguir dormir, revisando os elementos da situação em um desfile eterno. Conversei com Leach e Johnson sobre o assunto, aproveitando as vigias noturnas em que Wolf Larsen se recolhia à cabine. Os dois tinham perdido a esperança, Johnson por causa do temperamento abatido, Leach porque já estava esgotado pela luta vã que havia arrancado todas as suas energias. Certa noite, porém, ele segurou minha mão com firmeza e disse:
Considero você um homem correto, sr. Van Weyden. Mas fique onde está e mantenha a boca fechada. Apenas cuide da sua vida. Somos homens mortos, estou certo disso, mas talvez você possa nos fazer um favor na hora em que mais precisarmos.
E já no dia seguinte, quando a ilha Wainwright surgiu a barlavento, quase pelo través, Wolf Larsen abriu a boca para profetizar. Depois de atacar Johnson e ser atacado por Leach, tinha acabado de descer o braço nos dois.
Leach — disse ele —, você sabe que cedo ou tarde vou matar você, não sabe?
A resposta foi um rosnado.
Quanto a você, Johnson, antes que eu acabe com você, ficará tão farto da vida que se jogará ao mar. Você verá que estou certo. — E depois acrescentou para mim, à parte: — Estou apenas dando uma sugestão. Aposto um mês de salário que ele a aproveitará.
Eu nutria a esperança de que suas vítimas encontrassem uma oportunidade para fugir durante o reabastecimento dos barris de água, mas Wolf Larsen havia escolhido bem a posição do barco. O Ghost ancorou a quase um quilômetro da rebentação, numa praia deserta. Nela desembocava um desfiladeiro profundo com paredões íngremes de rocha vulcânica que homem nenhum poderia escalar. Ele próprio desembarcou na praia, e ali, sob sua supervisão direta, Leach e Johnson encheram os pequenos barris e os fizeram rolar pela areia. Não teriam a chance de escapar num bote e ganhar a liberdade.
Harrison e Kelly, no entanto, tentaram fazer justamente isso. Os dois integravam a tripulação de um dos botes e sua missão era transitar entre a escuna e a praia, trazendo um barril de cada vez. Logo antes do jantar, quando estavam partindo rumo à praia com um barril vazio, desviaram o curso à esquerda para contornar o promontório que entrava mar adentro e os separava da liberdade. Do outro lado de sua base espumante ficavam os belos vilarejos dos colonos japoneses e vales receptivos que penetravam fundo no interior da ilha. Se alcançassem terra firme, teriam condições de desafiar Wolf Larsen.
Eu tinha percebido que Henderson e Smoke ficaram vagando pelo convés a manhã toda, e então entendi o motivo. Eles sacaram os rifles e se divertiram abrindo fogo contra os desertores. Foi uma exibição cruel de tiro ao alvo. No início, as balas atingiram a superfície da água nos dois lados do bote, sem oferecer perigo, mas, à medida que os homens continuavam remando com todas as forças, eles iam mirando cada vez mais perto.
Vou tirar o remo direito de Kelly, fique olhando — disse Smoke, caprichando na mira.
Eu estava olhando pela luneta e vi a pá do remo se espatifar quando ele atirou. Henderson resolveu imitar o parceiro e escolheu o remo direito de Harrison. O bote começou a girar no lugar. Os outros dois remos foram quebrados em instantes. Os homens continuaram tentando remar com os pedaços que sobraram, mas estes também saíram voando de suas mãos com novos disparos. Kelly arrancou uma tábua do fundo e começou a remar com ela, mas teve as mãos perfuradas pelas farpas, deu um grito de dor e terminou por soltá-la. Por fim, eles desistiram e deixaram o bote à deriva até serem rebocados de volta à escuna por um outro bote, enviado da praia por Wolf Larsen.
Ao entardecer, recolhemos a âncora e partimos. Tínhamos pela frente três ou quatro meses de caça no território das focas. A perspectiva era realmente sombria e continuei desempenhando minhas funções com o coração pesado. Um desânimo quase fúnebre parecia tomar conta do Ghost. Wolf Larsen tinha se recolhido na cama com uma de suas estranhas e torturantes dores de cabeça. Harrison manejava o timão com ar abatido, quase desmoronando, como se oprimido pelo peso da própria carne. Os outros estavam quietos e taciturnos. Encontrei Kelly agachado a sotavento da escotilha do castelo de proa, com a cabeça entre os joelhos, numa atitude de inexprimível desalento.
Johnson estava na ponta do castelo de proa, olhando fixamente para a espuma do talha-mar, e me horrorizei ao lembrar a sugestão feita por Wolf Larsen. Daria resultado, provavelmente. Pedi que se afastasse dali, tentando interromper seus pensamentos mórbidos, mas ele abriu um sorriso triste e se recusou a obedecer.
Leach me abordou quando eu estava retornando à popa.
Quero pedir um favor, sr. Van Weyden — disse. — Se um dia você tiver a sorte de retornar a São Francisco, poderia procurar Matt McCarthy? É o meu velho. Reside na Colina, atrás da padaria Mayfair, e cuida de uma sapataria que todos conhecem, não será difícil encontrá-lo. Diga que passei a vida me arrependendo dos problemas que lhe trouxe e das coisas que fiz, e… diga-lhe apenas que Deus o abençoe, por mim.
Assenti com a cabeça, mas falei:
Todos nós vamos voltar para São Francisco, Leach, e você irá comigo ao encontro de Matt McCarthy.
Queria poder acreditar em você — ele respondeu, apertando a minha mão —, mas não consigo. Wolf Larsen acabará comigo, estou certo. A esperança que tenho é que ele seja rápido.
E quando ele se afastou percebi que havia um desejo semelhante em meu coração. Se precisava ser feito, que fosse de uma vez. Eu estava sendo tragado pelo desânimo geral. O pior parecia inevitável e passei horas vagando pelo convés, atormentado pelas ideias repulsivas de Wolf Larsen. Qual era o sentido daquilo tudo? Que grandeza podia haver numa vida que permitia tamanha destruição de almas humanas? Essa vida, no fim das contas, era sórdida e desprezível, e quanto antes terminasse, melhor. Que seja logo! Também me debrucei sobre a amurada e fiquei olhando o mar por um longo período, convencido de que cedo ou tarde eu afundaria no esquecimento de suas profundezas verdes e gélidas.

Jack London, in O Lobo do Mar

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