04/03/2022

Eles criariam esta guerra se já não houvesse uma guerra criada para que lutem

Red ganha uma batalha entre frotas estelares no futuro distante do Filamento 2218. Enquanto a grande Gallumfry se inclina em direção ao planeta, lançando uma chuva de cápsulas de fuga, enquanto as estações de batalha murcham como flores lançadas ao fogo, enquanto as bandas de rádio chiam com triunfos e naves ligeiras mergulham para escapar de perseguições, enquanto armas ecoam seus últimos argumentos no espaço mudo, ela escapa. O triunfo parece rápido e sem graça. Ela costumava adorar esse fogo. Agora, só a lembra de quem não está lá.
Ela escala fio acima, se consolando no passado.
Red raramente procura a companhia de outros como ela. São todos esquisitos — decantados depois de terem sido considerados divergentes em algum ponto de seu desenvolvimento. Ou os mais divergentes de todos: aqueles que decantaram a si mesmos. Eles não ficam em paz, e continuam os jogos na rosa celestial. Eles se destrincham do resto, introduzem assimetria.
Eles criariam esta guerra se já não houvesse uma guerra criada para que lutem, ela pensa.
Mas ela busca companhia agora, em um dos lugares onde sempre encontra.
O sol castiga as ruas de Roma. Um homem com um rosto magro e um nariz fino e uma coroa de louros passa acompanhado pelo Teatro de Pompeia. Outros o interceptam, convidam-no a entrar. Uma multidão está esperando nas sombras: os senadores, seus servos, e outros.
— Você já sentiu que está sendo seguido? Que a Comandante está espionando você? — Red pergunta a um dos outros.
Um senador oferece a César uma petição.
— Seguido? — diz o homem com o nariz quebrado à sua esquerda. — Pelos inimigos, às vezes. Pela Agência? Se a Comandante quisesse nos espionar, poderia ler nossas mentes.
César desconsidera a petição, mas os senadores o rodeiam.
— Alguém está seguindo meus rastros, mas some assim que penso em pegá-lo — diz Red.
— Agente inimigo — diz a mulher à sua direita.
— Mas são em excursões minhas, viagens de pesquisa, não de contra-ataque. Como um agente inimigo saberia para onde eu vou?
Um senador puxa uma adaga. Ele tenta esfaquear César pelas costas, mas César segura sua mão.
— Se for a Comandante — diz o homem com o nariz quebrado —, por que se preocupar?
Ela franze a testa.
— Eu gostaria de saber se a minha lealdade está sendo testada.
O homem que teve a mão segurada grita por ajuda em grego. Adagas deslizam das bainhas dos senadores.
— Isso acabaria com o propósito do teste — observa a mulher. — Ah, deixe disso, nós vamos perder a diversão.
Ela tem um sorriso largo e uma lâmina longa.
César grita algumas palavras, mas elas se perdem no tumulto do ataque dos assassinos. Red dá de ombros e suspira e se junta a eles. A guerra oferece poucas chances de extravasamento, e ela não pode ser vista dispensando uma. O sangue gruda em suas mãos. Ela lava depois, em outro rio, bem longe.
Folhas esvoaçam nos bosques de Ohio quando os gansos pousam. Um deles se afasta dos demais gansos e se aproxima dela. Red pondera sobre o destino do último ganso a lhe trazer uma carta e sente um momento de culpa.
Há um barbante ao redor do pescoço do ganso, e do barbante pende uma bolsa de couro fino.
Suas mãos tremem ao abrirem a bolsa. Seis sementes repousam lá dentro, diminutas lágrimas carmesins com ainda mais diminutos números entalhados em suas superfícies, de um a seis. Sobre o couro, em uma tinta azul demais para aquele continente ou filamento, a caligrafia que ela conhece bem, mesmo que só tenha visto uma vez, traça: Você confia em mim?
Ela se senta no bosque, sozinha.
Ela confia.
Red confia nela até os ossos, a ponto de ter que pensar por um longo tempo para se dar conta do que desconfiar implicaria — o que essas sementes podem ser, o que podem fazer a Red, se estiver errada.
Ela come as três primeiras sementes uma a uma. Deveria se sentar debaixo de um baobá, mas em vez disso afunda sob uma castanheira, rodeada de seus frutos espinhosos.
Quando cada carta se abre em sua mente, ela a enquadra no palácio da memória. Ela tece as palavras em cobalto e lápis-lazúli, unindo-as ao manto de Maria nos afrescos de São Marcos, à tinta sobre porcelana, à cor de uma rachadura em uma geleira. Recusa-se a deixá-la escapar.
A terceira semente, com sua terceira carta, faz Red desfalecer.
Ela acorda com o farfalhar de castanhas secas para descobrir as últimas três sementes ainda em sua mão fechada, mas a bolsa de couro desaparecida. Ela ouve passos no bosque e os persegue: uma sombra dispara lá na frente, sempre fora de alcance, e então some, e ela cai ofegante de joelhos no bosque vazio.

Amal El-Mohtar e Max Gladstone, in É assim que se perde a guerra do tempo

Capítulo Quarto | O Gurufim


Curando tudo que se podia curar, Antão não recebia dinheiro. Para Ananias, por mais que se esforçasse, nunca aparecia uma maneira de realizar qualquer grande milagre. Também não passava de um modesto anjo e que tinha sido pequenininho. Consolava-se pensando assim.
Mas Antão não curou seu Antoninho Verdureiro. Noite bem madura e apenas duas velas acendendo o ambiente onde o relógio morto predominava.
Antão, armado de Raça Dura no colo, como sempre, pensava. Bateram com os nós dos dedos na porta. Primeiro de leve, depois nervosamente. Logo, logo a voz de Dona Maria José anunciou angústia.
Ananias pulou célere de dentro do quarto.
– Seu Antão, seu Ananias!...
Antão abriu a tramela e deu com os olhos arregalados da mulher saltando pelo rosto pálido onde os cabelos desgrenhados davam um colorido ainda mais trágico às suas feições.
– Entre.
Entrou, trêmula. Balbuciou.
– Venha, seu Antão. Logo. Seu Antoninho, lá...
– Mas o que aconteceu?
– Ninguém sabe muito. Deu um trubufe nele lá e ele se pastifou no chão.
– Mas no dia de Natal ainda falei com ele. Estava bem. Contente.
– É porque o senhor não viu ele na missa do galo. Já estava com mostras de esquisitice. Agora o médico já foi chamado e até o padre. A família é meio herégica, mas nessa hora de juntar os nó cum Deus, a coisa destroca toda.
Se meteram pra lá, atravessando o escuro da noite, as ruas cheias de capinzal, pernilongo e pobreza de prefeitura. Entraram na casa e cumprimentaram a todos respeitosamente.
Padre Santa Helena, ainda esbaforido pela pressa, acabara de dar extrema-unção. Fitou os dois homens tão pobres e tão humildes que falavam com tanta doçura. Falavam baixinho, ao contrário das três Marias, tão esganiçadas e chatas e achatadas. Que mal poderiam fazer aquelas pobres criaturas? Mas haveria uma hora, tamanha a pressão que lhe faziam, que seria forçado a tomar uma atitude. Naturalmente tinham vindo ali por um ato de solidariedade humana. Porque não haveria milagre que salvasse aquele homem morto. Milagre era no tempo de Nosso Senhor Jesus Cristo. E isso já ia bem longe, dobrando a esquina dos séculos.
Olhou mais os homens e eles inocentemente retribuíram o seu olhar com o sorriso mais suave que se pudesse imaginar. Ia ser duro ter que agir. Preferia não julgar e antes de retirar-se fez uma promessa dentro do seu coração de que cada noite antes de dormir e na missa rezaria a Deus por aqueles homens, certamente ignorantes de tudo quanto se fazia contra as suas pessoas.
Espalharam-se os visitantes para que passassem e olharam com respeito os santos, medo no olhar até.
A casinha tinha luz de eletricidade que doía nos olhos.
Dona Maria José já penetrara no quarto para fazer a reportagem. No dia seguinte, jacaré, que só come coisa podre e tem bafo trágico, se criava na voz dela, detalhando para Dona Cordélia. Tinha morte, velório, facada, enforcamento, estava ela no posto. Mesmo quando não via jornal, não sabia de crimes, de nascimentos ruins com cesariana, esbarro de bondes, engavetamentos de trem, viradas de carro, ela ia contar as novelas que ouvira na Rádio Nacional, e só se lembrava de colorir sombriamente aqueles pedaços:
– Sabe, Dona Cordélia? Aí ele viu que o violinista não era filho dela. De quem Paulo é filho? Diga, mulher perjura! Carlota não tinha voz. Ele apertava as mãos no pescoço dela, que era mais macio que seda, palha de seda... – Dava o grito igualzinho ao de Carlota.
Dona Cordélia sentia-se excitadíssima, colocava-se no lugar de todas as mulheres enforcadas, violentadas, adulteradas, menosprezadas, dava pancada na roupa, no sabão, na água e só conseguia balbuciar: “Que coisa!...”.
Dentro tinha muito povo. Dona Bárbara ajudou a introduzir os dois no quarto. O quarto se enchia mais para ver Antão. Antão entrou e se concentrou nessa hora.
Nem Ananias sabia o que o irmão pensava nesses momentos. Tinha uma prece? Devia ter. Quais seriam as palavras? Ninguém sabia. Pensava, rezava mexendo os lábios docemente, fechando e abrindo os olhos. E seu olhar adquiria um brilho singular, vitorioso, dominador.
O quarto ainda se encheu de mais gente e expectativa. Dona Maria José trepou no arranha-céu de sua curiosidade para não perder nada. E aquele mundaréu junto, se misturando, de humanidade suada, se comprimindo, se promiscuindo, poluía o mau cheiro da câmara da morte. Suor acre de barro pegado, suor de pedreira e enxada. O suor de barro melado e ácido de corpos. De células mortas, calos de mão, precisava ser forte mesmo para dinamizar o transpirar da terra.
Seu Antoninho Verdureiro ainda vivia, mas nada se poderia fazer mais. Nem o médico, nem o padre, nem os santos. Já era bem tempo. Assim ele descansava de roubar os outros na verdura, na quitanda. Antão pensaria isso? Ananias também? Seu Polydoro, que fazia questão de escrever o nome com ipsilone no meio e apertava a mão do velho português contra a vela, por acaso não seria vítima dos mesmos pensamentos?
Talvez sim, talvez não. O importante era segurar a vela, forçando-a entre os dedos, para que o pobre diabo encontrasse luz na porta que logo teria de transpor. Os olhos se abrindo, se fechando, prendendo o resto de luz como se os fosse aprisionando numa redoma. E escorria a baba viscosa. A boca se escancarando num roncar, mostrando os cacos de dentes escuros, o céu da boca limoso, tudo querendo prender a vida e enxotar a morte. As mãos crispadas contra o brancor da vela quase com raiva. Ter de morrer quando agora economizara trinta contos de réis escondidos. E todo mundo sabia disso, estaria no forro do boné? Enterrado na quitanda ou dentro de uma lata no fundo do quintal?
Nem bem desse o prego, iam escavocar tudo. Nem bem ficasse a mesa fria do seu corpo, haveria corrida em todas as direções e cavando e nada encontrando, só minhocas, cacos de garrafas, dinheiro nenhum.
Ananias abanou a cabeça, afastando a ideia. Não. Antão nunca pensaria nisso em sua prece muda. Seria outro o objeto do seu pensar de santo. Com ele, Ananias, ninguém poderia ter certeza...
O frio começou a descer pelos pulsos do português. Dona Bárbara, que tinha prática de apalpar galinhas e praticar ajuda em nascimentos, segurou no pé sebento, não antes sem arranhar o pulso nas unhas compridas do velho. Disse que o frio subia também. Quando os frios se encontrassem, davam um nó e o povo poderia procurar o dinheiro.
Antão abanou a cabeça. Dona Maria José prendeu a suspiração. Dona Bárbara soltou uma lágrima obrigatória que desceu aos saltos pelas escadas das rugas. A luz da vela foi abafando a respiração do velho e pouco mais os frios se encontraram.
Mais engrossadas as horas, no envelhecer da noite, começou a gurufinar o português. Arranjaram bancos e encheram o quintal, pois a casa já estava estourando de população. Além disso, o seu Antoninho Verdureiro, colocado na mesa com a toalha de um lençol barato, com quatro velas duramente acesas, tinha adquirido, com a morte, uma cara parva, barbada, terrosa, inexpressivamente besta. Estava o desgraçado estupidamente morto, sem jeito, sem deixar saudades, a provocar lembranças ou arrancar suspiros. Nem pena chegava a dar. Nem mesmo a vela, substituída de vez em quando, nova, viçosa, esbanjando luz, conseguia dar um tom além do anedótico naquela cara-pedaço de canteiro de hortaliças. O quente do verão propalava mais ainda o fedor do apodrecimento, o cheiro de sujo, de mijo. Uma quitanda de micróbios se fragmentando, se devorando, se consumindo. Um horror.
Lá fora tinha estrelas, fazia calor no escuro sem vento. Alguém começou a ideia da vaquinha e a história quase sempre se repetiu. Mais dinheiro para a pinga do que para o café e o pão. Depois do primeiro embalo, se conversava de tudo menos lembrar as grandes qualidades do defunto esquecido, abandonado na companhia da mesma sombra que o perseguira em vida.
Alguns contavam histórias engraçadas até. Palavrão serrava a conversa num desabuso naturalíssimo. Outros, aventuras de caçadas onde as onças eram maiores que um leão e as espingardas faziam verdadeiros milagres de pontaria. Gente até jogava porrinha com palitos de fósforos já usados.
Rosinea chegou, olhou a contragosto, disfarçando mesmo aquela coisa que era o defunto. Tentou se constranger para impressionar se algum presente estivesse de olho nela. Saiu pressurosamente da sala e foi se postar no meio de Dona Bárbara e Dona Cordélia; e Dona Cordélia não deixava de dizer que coisa. Se bem que com pouca emoção, porque a morte evidente não conseguia ter a grande tragédia que Dona Maria José sabia usar nas contações. Naquele momento exato falavam sobre o morto. E o morto nem parecia aquilo lá dentro. O morto de fora tinha mais vida e significava qualquer coisa.
De repente as três ensaiaram se cutucar ao mesmo tempo e ouve um entrechoque de cotovelos.
– Espie só a fita da Taninha. Taninha só casou mais ele porque queria dar nome à filha. Sempre falou dele como bacorinho de chiqueiro, como sujo de casinha. Como se o pobre fosse que nem Sapucaia.
– Que coisa, mas não é?
Então no olhar de Dona Cordélia (e estava custando) se passou o sacrifício do holocausto. Era agora todas as pessoas que morreram abandonadas, exploradas, injustiçadas.
Quiterinha se chegou para Taninha, porque “chegara” a hora de dizer qualquer coisa ao seu ouvido. Aí todas as mulheres entrechocaram os cotovelos.
Só Antão permanecia impassível, distanciado, no seu papel de santo, de tudo que se comentava. Mas Ananias, como anjo, olhava tudo. Sapecava uma maliciazinha aqui e outra acolá. Se arrependia um pouco porque aquilo poderia contar no exame de fim de ano da pré-santidade... Melhor observar estrelas, olhar o jogo, escutar as mentiras dos caçadores.
Passou-se um tempinho e Taninha soltou o grito, alto, agudo, impressionante, enchendo a noite de fantasmas apressados... Pôs a mão no coração, revirejou os olhos e tombou penosamente. Correu gente para acudir.
Algumas balançaram a cabeça e se explicaram de maneira cochichosa.
– Não disse que Quiterinha foi avisar que estava chegando a hora?
Levaram Taninha para dentro do quarto e afrouxaram as grossas peças da intimidade. Abanaram que abanaram. Abriram as janelas.
Antão foi chamado. Rezou mudo, falou com o olhar e ela foi melhorando.
Taninha peneirou as lágrimas e foi dizendo:
– Magine, seu Antão. O senhor, que é santo, pode compreender. Ele morreu, ele se passou, e eu que fui tudo na vida para ele. E a minha maior mágoa, seu Antão, foi que ele morreu e nem me disse onde escondeu os trinta contos. Não teve fé nem confiança em mim. Nem fé, nem confiança, nem caridade. O que seremos da gente, meu Deus!...
Rosinea se levantou, ajeitou a blusa na cintura fina e deitou importância.
– Preciso me recolher. Amanhã tenho que sair muito cedo, pegar o maria-fumaça, gramar a viagem em pé por causa da minha aula de violino.
Olhou ainda que disfarçando para dentro e divisou o nariz afilado de seu Antoninho Verdureiro, que continuava duro, estupidamente morto dentro das velas renovadas.

José Mauro de Vasconcelos, in Rua Descalça

03/03/2022

A noite grande

Sem o coaxar dos sapos ou o cri-cri dos grilos
como é que poderíamos dormir tranquilos
a nossa eternidade? Imagina
uma noite sem o palpitar das estrelas
sem o fluir misterioso das águas.
Não digo que a gente saiba que são águas
estrelas
grilos...
— morrer é simplesmente esquecer as palavras.
E conhecermos Deus, talvez,
sem o terror da palavra DEUS!

Mário Quintana, in Esconderijos do tempo

João Bosco no Museu celebra Aldir Blanc

Enigma

Ela estava vestida de uniforme listrado de empregada, mas falava como dona de casa. Viu-me subir as escadas cheia de embrulhos e parando para sentar nos degraus – os dois elevadores estavam enguiçados. Ela morava no quinto andar, eu no sétimo. Subiu comigo segurando alguns de meus embrulhos numa das mãos, e na outra o leite que comprara. Quando chegou ao quinto andar, botou o leite em casa dela entrando pela porta de serviço, depois fez questão de segurar meus embrulhos e de subir comigo até o sétimo.
Que mistério era esse: falava como dona de casa, seu rosto era o de dona de casa, e no entanto estava uniformizada. Sabia do incêndio que eu sofrera, imaginava a dor que eu sentira, e disse: mais vale a pena sentir dor do que não sentir nada.
– Tem pessoas – acrescentou – que nunca ficam nem deprimidas, e não sabem o que perdem.
Explicou-me, logo a mim, que a depressão ensina muito.
E – juro – acrescentou o seguinte: “A vida tem que ter um aguilhão, senão a pessoa não vive.” E ela usou a palavra aguilhão, de que eu gosto.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

Uma dupla

 


Aos quatro anos você era uma garotinha sorridente, curiosa e dinâmica. Você se esgoelava por qualquer motivo. Olhos úmidos, Margherita chocava você com um amor expansivo e mediterrâneo. Com ela, você passa facilmente do riso às lágrimas, dos gritos às canções. Juntas, vocês formam uma dupla. É um carnaval permanente. Entre os ímpetos de sua mãe e sua animação, tento achar um meio-termo, calmo e regular como o curso de um rio batavo. Nunca consigo. Nesses casos, só me resta a birra. Fico amuado, mas logo duas vozes se unem para me tirar desse estado.
Quando eu não estava viajando pela província ou pelo exterior, era a mim que cabia o privilégio de levar você à escola. E era eu que ia buscar você na escola no fim da tarde. Eu apreciava muito aquele tempo só nosso, aqueles quinze minutos de trajeto de ida e de volta. Já de manhã, você começava a fazer perguntas. Diabinha de saia, parecia esquecer que sou lento. Sobretudo de manhã. Eu precisava de algum tempo para atingir o nível da sua conversa. Com quatro anos, você não tinha papas na língua. A agitação da cidade não interferia em nossa conversa particular. Estávamos a sós no mundo. Eu tinha olhos apenas para você, Béa. Ouvidos apenas para a nossa conversa. Uma conversa que você animava com canções e risos, de acordo com o seu humor do momento.
— Papai, medicina é um médico mulher?
— Mmm…
— A minha amiga Laetitia, ela diz que é…

Atravessávamos um pedaço do 10º distrito e três ruas depois chegávamos ao 9º. Quase todos os dias, encontrávamos os mesmos pedestres apressados, os mesmos comerciantes chineses lavando a soleira de seus bares-tabacarias, as mesmas crianças em seus carrinhos, os mesmos adolescentes de patinete. Aos seus olhos, tudo podia se animar como num passe de mágica. A menor coisa atraía sua atenção, tão viva desde que você saltava da cama. Animada, primeiro acenava para os soldados com a mão e depois gritava “Oi, soldados!” para os quatro homens de guarda, de uniforme de combate e metralhadora em punho que percorriam, marchando a passos largos, a rua que conduzia à sinagoga do bairro. Os soldados respondiam às suas saudações. De repente pressentíamos uma impaciência às nossas costas. Alguns passantes franziam a testa, outros se mostravam incomodados porque íamos andando devagar no nosso pedaço de calçada, em vez de andar na cadência frenética deles. Por que apressar o passo se tínhamos a vida inteira pela frente? Agarradas a seus celulares, aquelas pessoas esbarravam em todo mundo tanto na rua como nos corredores subterrâneos do metrô. Em algumas manhãs estávamos despreocupados e tagarelas, em outras, estranhamente silenciosos. Esses momentos de cumplicidade eram o maior privilégio do dia.

Certa manhã, eu ia levando você para a escola, você me fez uma pergunta com o máximo de atenção e de afeição na voz. Sem prejulgar o objeto da interrogação, eu sabia que aquela pergunta devia ter muita importância para você. E sem dúvida para mim também.
Você fez uma pausa demorada, administrando um longo silêncio que era sinônimo de suspense. Dentro de mim, uma pequena brisa de impaciência começava a apontar. Eu tentava parecer natural. Nenhuma palavra estava autorizada a sair da minha boca enquanto você se mantivesse em silêncio. Estávamos perto da sua escola. Uma passagem para pedestres, depois uma estação Vélib de compartilhamento de bicicletas, e era só atravessar o cruzamento, caminhar pela rua e entrar no prédio com portão azul-brilhante. Lá dentro, os pais frequentemente se surpreendiam com o tamanho modesto do pátio pavimentado, mas também com a brancura das paredes, que dava ao edifício uma aparência elegante.
Da impaciência eu começava a me dirigir para as praias da inquietude. Depois do silêncio você sorriu para mim, como para interromper minha angústia nascente. De repente, com uma certa brutalidade, perguntou:

— Papai, por que você dança quando anda?
— Hmmm…
Minha surpresa não era fingida. Você voltou ao ataque.
— Isso, isso.
Não tive energia para protestar.
— Você dança assim quando você anda, está vendo?
E você, juntando o gesto à palavra, saracoteou na minha frente. Eu tentava pôr ordem nos pensamentos. Aquilo me tocou. Eu tinha uma espécie de véu de umidade diante dos olhos. E a clara impressão de que as paredes de Paris faziam suas palavras ecoar nos meus ouvidos. Eu sentia uma ponta de crueldade em sua voz, Béa. Os antigos nômades que compõem minha árvore genealógica dizem que a verdade sai da boca das crianças e a gratidão, dos olhos da vaca que acaba de parir. Esse provérbio, que até então eu achava idiota, nunca me pareceu tão exato quanto naquela manhã. Você, minha filhinha, você me remetia à verdade com uma dose de afeição não desprovida de firmeza.

Suas palavras continuavam a rodar na minha cabeça.
Eu não podia mais me esquivar.
Ao encetar a última linha reta que leva a sua escola, cumprimentei com a cabeça um dos pais. Você me puxou pela manga do paletó para me mostrar que havia reconhecido o pai apressado. Meu cérebro acabava de dar uma volta para voltar à sua pergunta. E me perguntei por que danço há todos esses anos, quando só havia uma coisa a fazer.
Uma coisa,
uma só.
Andar,
andar direito,
como todo mundo.

No momento em que eu empurrava a porta da escola, você deve ter sentido o meu tormento, porque voltou ao nosso diálogo num tom mais leve.
— Papai, você sabe andar de patinete?
— Não sei… nunca tentei.
— Papai, você sabe andar de bicicleta? Como a mamãe!
— ….
— Eu sei andar de bicicleta. Nunca vi você numa bicicleta.

Abdourahman A. Waberi, in Por que você dança quando anda?

Religião de horrores

Esta religião [o cristianismo] foi fundada sobre sangue, sofrimento, renúncia, sacrifício e martírio. É uma religião de horrores. [Em O Evangelho segundo Jesus Cristo] o meu diabo até diz “é preciso ser Deus para se gostar tanto de sangue”, o que soa como um soco no estômago. O próprio diabo diz a Jesus, quando ele sacrifica a ovelha a mando de Deus, “você não aprendeu nada”, quer dizer, não aprendeu a respeitar a vida, a resistir.

José Saramago, in As palavras de Saramago

Calvin

 

Sex appeal

Bella Lynn era minha prima e provavelmente a moça mais bonita do oeste do Texas. Tinha sido condutora da banda da El Paso High School e Miss Sun Bowl em 1946 e 1947. Mais tarde, ela foi para Hollywood para se tornar uma starlet. Mas não deu certo. A viagem começou mal por causa do sutiã dela. Não era um sutiã com enchimento tradicional, mas sim feito para você enchê-lo de ar, como um balão. Dois balões.
Tio Tyler, tia Tiny e eu fomos ao aeroporto para vê-la partir. Num DC-6 bimotor. Nenhum de nós jamais tinha andado de avião na vida. Ela disse que estava uma pilha de nervos, mas não parecia. Estava simplesmente linda com um suéter de angorá rosa. Seus seios estavam muito grandes.
Nós três ficamos olhando para o avião dela, acenando, até ele avançar bastante rumo a Califórnia e Hollywood e depois desaparecer. Ao que parece, nessa hora o avião também atingiu uma certa altitude e, por causa da pressão na cabine, o sutiã de Bella Lynn foi pelos ares. Quer dizer, explodiu. Felizmente, ninguém em El Paso ficou sabendo disso. Até para mim ela só contou vinte anos depois. Mas eu não acredito que tenha sido por isso que ela nunca se tornou uma starlet.
O jornal de El Paso vivia publicando fotos dela. Uma vez, durante uma semana, lá estavam elas todo santo dia… quando ela estava saindo com Rickie Evers. Rickie Evers tinha acabado de se divorciar de uma atriz de cinema famosa. O pai dele era um proprietário de hotéis milionário e morava na cobertura do Hotel del Norte em El Paso.
Rickie Evers veio para a cidade para assistir ao National Golf Open, e Bella Lynn estava determinada a sair com ele. Fez reservas para o jantar no Del Norte e disse que era para eu ir com ela, que, com onze anos, eu já não era tão criança para ter algumas lições de sex appeal.
Eu, de fato, não sabia nada sobre sex appeal. Sexo parecia ter algo a ver com ficar maluco. Os gatos agiam de um jeito bem maluco em relação à coisa toda, e todas as estrelas de cinema pareciam malucas. Bette Davis e Barbara Stanwyck eram definitivamente malvadas. Bella Lynn e as amigas se escarrapachavam no Court Café debaixo de topetes Pompadour e ficavam soltando fumaça pelas narinas feito dragões enraivecidos.
Elas estavam todas muito empolgadas com o National Golf Open. “Uma mina de ouro! Um poço de petróleo bem aqui no nosso quintal!”
Wilma, a melhor amiga de Bella Lynn, queria ir com a gente para o Hotel Del Norte, mas Bella Lynn não deixou. Um princípio básico do sex appeal, ela me disse, é trabalhar sempre sozinha. Não importava se a outra mulher fosse feia ou bonita… isso simplesmente atrasava e complicava qualquer operação.

Vesti o que considerava o vestido mais maravilhoso que eu já tinha visto na vida. Musselina suíça de bolinhas lilases, com mangas bufantes e saia-balão. Tia Tiny fez uma trança embutida no meu cabelo. Eu ainda não usava batom, mas passei um pouco de Merthiolate na boca. Tia Tiny me fez lavar a boca, mas beliscou minhas bochechas. Bella Lynn pôs um vestido matador de crepe marrom com ombreiras, uma maquiagem escura matadora e sapatos pretos de salto alto. Chegamos cedo ao hotel. Ela se sentou numa poltrona de encosto alto no lobby, usando óculos escuros. Cruzou as pernas. Meias de seda pretas. Eu avisei a ela que as costuras estavam tortas, mas ela disse que costuras levemente tortas tinham sex appeal. Ela me deu uma moeda de vinte e cinco centavos para que eu fosse comprar um refrigerante, mas em vez disso eu só fiquei subindo e descendo a escada. Era uma escada linda, larga e curva, forrada com um tapete de veludo vermelho e com um corrimão curvo. Eu corria até o alto da escada e ficava embaixo do lustre, com um sorriso de rainha. Depois, descia bem lenta e elegantemente até lá embaixo, deslizando a mão de leve pelo corrimão de mogno. Então, corria de novo até lá em cima. Fiz isso uma porção de vezes, até que finalmente me pareceu que já devia estar na hora de comer. Bella Lynn disse que tinha adiado as reservas, porque Evers ainda não tinha dado as caras. Comprei um Hershey’s com amêndoas e me sentei a algumas poltronas de distância. Sussurrando, ela me mandou parar de chutar o assento. Ela fumava Pall Malls, só que os chamava de Pell Mells.

Reconheci o famoso Evers e seu pai milionário no instante em que entraram. Logo depois, eles foram para o salão do restaurante com alguns outros homens. Todos com chapéus de caubói e botas, salvo Evers, que estava com um terno risca de giz e sem chapéu. Mas eu teria percebido que eram eles só pela cara de má que Bella Lynn estava fazendo, agora de piteira. Ela tirou os óculos escuros e nós entramos. Bella Lynn disse ao maître que um imprevisto tinha feito o acompanhante dela se atrasar e que apenas nós duas iríamos jantar.
Eu queria bife de frango frito, mas ela disse que era muito chinfrim. Então, pediu medalhão para nós duas. De bebida, um Manhattan para ela e um Shirley Temple para mim. Só que ela acabou tendo que tomar um Shirley Temple também, porque só tinha dezoito anos. Ela disse ao garçom que tinha esquecido de botar a carteira de motorista na bolsa. Que chato.
Havia uma garrafa de uísque em cima da mesa dos homens e todos eles, salvo Rickie Evers, estavam fumando charuto.
“Então, como é que você vai fazer para conhecer o homem?”, eu perguntei a ela.
“Eu te falei. Sex appeal. Assim que o meu olhar cruzar com o dele, eu vou fazer com que ele venha até aqui e pague os nossos maravilhosos medalhões pra nós.”
“Até agora ele ainda não olhou pra cá.”
“Olhou sim, mas fingiu que não olhou… esse é o sex appeal dele. Mas ele vai olhar de novo e, quando olhar, eu simplesmente vou olhar para ele como se ele fosse o cachorro velho mais reles e sarnento que já vi na minha vida.”
Rickie Evers, de fato, olhou para ela, e foi exatamente desse jeito que ela olhou para ele, como se estivesse se perguntando como podiam ter deixado alguém como ele entrar ali. Dois segundos depois, ele estava parado atrás da cadeira vazia.
“Posso me sentar com vocês?”
“Bom, um imprevisto fez o meu acompanhante se atrasar. Talvez você possa se sentar com a gente por alguns minutos.”
“O que vocês estão bebendo?”, ele perguntou.
“Shirley Temples”, respondi, mas ela disse que estava tomando um Manhattan. Ele pediu ao garçom que trouxesse um Shirley Temple para mim e Manhattans para ele e para a senhorita. O garçom não disse nada sobre a identidade dela.
“Eu sou Bella Lynn e esta é a minha priminha, Lou. Desculpe, eu não guardei o seu nome”, ela disse, embora soubesse perfeitamente qual era o nome dele.
Quando ele falou o nome, ela disse: “O seu pai e o meu jogam golfe juntos”.
“Vocês vão ao torneio de golfe amanhã?”, ele perguntou.
“Eu ainda não sei. Multidões são tão desagradáveis. Mas a Lou está louca para ir.”
Eles acabaram decidindo ir ao torneio de golfe no dia seguinte para que eu não ficasse decepcionada. Era a última coisa que eu queria fazer, mas no dia seguinte eles já tinham esquecido quanto eu supostamente estava louca para ir.
Eles tomaram seus Manhattans, depois vieram coquetéis de camarão e os medalhões. Na sobremesa, Baked Alaska, que eu achei sensacional.
Depois do jantar eles pretendiam rodar as boates de Juárez, motivo das confabulações, acima do licor de menta, sobre como me levar para casa. Bella Lynn sugeriu um táxi, mas ele insistiu que eles podiam me deixar em casa antes de atravessar a fronteira.
Bella Lynn foi retocar a maquiagem. Eu não fui, ainda não sabia que era praxe você ir, para avaliar a situação.

Quando ela se afastou da mesa, Rickie Evers deixou seu isqueiro de ouro cair no chão e, ao se abaixar para pegá-lo, passou a mão pela minha perna e acariciou a parte interna do meu joelho.
Pus uma colherada de Baked Alaska na boca e perguntei como será que eles faziam aquilo. Ele pegou o isqueiro do chão e disse que meu queixo estava lambuzado de sorvete. Quando o limpou com o enorme guardanapo de linho, ele roçou o braço no meu peito. Fiquei constrangida; ainda não usava nem sutiã de menina-moça.
Bella Lynn voltou do toalete andando sem pressa, com suas costuras tortas, fingindo não notar que todos os homens estavam olhando para ela. O restaurante inteiro tinha ficado olhando para Bella Lynn e Rickie Evers durante todo o jantar. Acho que o ajudante de garçom mexicano viu o que Evers fez quando deixou o isqueiro cair.

Sentei entre Evers e Bella Lynn no enorme Lincoln preto. As janelas subiam e desciam quando ele apertava um botão, até mesmo as de trás. Havia um isqueiro no painel, e Evers roçava na minha perna quando se esticava para alcançá-lo e de novo no meu peito quando acendia os Pell Mells de Bella Lynn.
Paramos em frente à garagem.
“Que tal um beijo de boa-noite, pequena Lou?”, ele perguntou. Bella Lynn riu. “Ora, ela ainda nem fez quinze anos.” Quando ela estava saindo do carro, ele mordeu o meu pescoço.
Bella Lynn entrou comigo para pegar um xale e seu vidrinho de perfume Tabu.
“Viu como é a coisa do sex appeal que eu te falei, Lou? É moleza!” Entrei para ouvir Inner Sanctum com tio Tyler e tia Tiny. Eles ficaram felizes feito crianças com a notícia de que
Bella Lynn ia sair com o ex-marido da estrela de cinema mais bonita do mundo.
“Como será que ela conseguiu isso?”, tio Tyler se perguntou.
“Ué, Tyler… você sabe que a nossa Bella Lynn é a coisa mais linda que existe a oeste do Mississippi!”
“Não. Foi o sex appeal”, eu disse a eles.
Os dois arregalaram os olhos para mim.
“Olha aqui, eu nunca mais quero ouvir você usar esse termo, entendeu, menina?”, disse tia Tiny, com uma cara de dar medo. Ela ficou igualzinha à Mildred Pierce.

Lucia Berlin, in Manual da faxineira: Contos escolhidos

02/03/2022

Rosa | Pixinguinha e Otávio de Souza, 1937


A valsa de Pixinguinha repousava esquecida na voz de Orlando Silva até Marisa Monte relançá-la em 1991, acompanhada pelo pianista e compositor japonês Ryuichi Sakamoto, em seu segundo álbum solo, Mais.
Uma façanha surpreendente, porque, se a belíssima melodia de Pixinguinha era de construção sofisticada, a enorme letra de Otávio de Souza já soava arcaica quando foi lançada por Orlando Silva em 1937. Tanto na construção rebuscada das frases quanto no abuso de palavras que começavam a cair em desuso, hoje relegadas aos dicionários, como “olor”, “lanceado”, “remir”, “olente”… Mas as literatices inflamadas não impediram o retumbante sucesso na época, em grande parte ajudado por “Carinhoso”, o lado A do 78 rpm lançado pela RCA Victor.
“Tu és divina e graciosa / Estátua majestosa do amor / Por Deus esculturada / E formada com ardor / Da alma da mais linda flor / De mais ativo olor / Que na vida é preferida pelo beija-flor.”
Orlando teria conhecido as duas músicas quando participou de uma serenata a convite de Pixinguinha. Era a festa de um casamento em Bangu, e a certo momento da noite o compositor mostrou a letra que João de Barro tinha feito para o choro “Carinhoso” e também a então inédita “Rosa”. Faro apurado, Orlando quis gravar as duas, o que fez numa única sessão, em 28 de maio de 1937, para o disco lançado um mês depois.
Na época da gravação de Orlando Silva, compositores como Noel Rosa, Ary Barroso e Lamartine Babo já tinham incorporado com sucesso a linguagem coloquial das ruas às suas canções, muitas delas usando construções e termos que poderiam ser escritos hoje. Apesar de seu romantismo exacerbado (ou por isso mesmo), “Rosa” bateu fundo no coração do público de Orlando. E refloresceu mais bela ainda cinco décadas depois na voz de Marisa, em gravação intimista, que contou apenas com o piano e os teclados de Sakamoto e a cuíca de Armando Marçal.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

Dona doida

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

Adélia Prado, in Bagagem

Correio elegante

Junho de 1999. Festa junina. Friozinho. Cheiro de pinhão.
– Oi. Queria mandar um correio elegante pra uma menina da minha classe.
– Sim. São cinquenta centavos. Uma ficha azul.
Destacou a ficha com as mãos gordinhas.
– Aqui.
– Pode ditar o texto.
– Tá. É… “Flávia. Você é a menina mais bonita da minha vida. Mais bonita até que a Mili das Chiquititas. Eu te amo. Assinado: Anônimo”.
– Certo. Agora me mostra a Flávia pra eu poder entregar.
– Tá. Tá vendo a barraca da pescaria?
– A-hã.
– Então. Ali na frente não tem uma menina alta?
– Hum… Eu só tô vendo uma baixinha.
– Não, ela é aquela alta, com um vestido bonito.
– Alta com vestido bonito? Não tô vendo. Só vejo uma baixinha com um vestido de estampa feia de floresta.
– Ela é a alta, meio magra, com vestido bonito e cabelo dourado.
– Meio magra? Não tem nenhuma.
– É, não muito magra. Meio normal. Mas linda.
– Tem uma moça linda na frente da barraca da pipoca.
– Não. É na pescaria mesmo.
– Gente… onde?! Tem um grupo de rapazes, duas velhinhas e uma menina de um metro e cinquenta, gordinha, com o vestido estranho.
– Ela é a que está comendo um cachorro-quente e segurando dois pastéis. Viu?
– … a… ahn… então é a gordinha?
– Pode ser. Meio gordinha, mas muito bonita. Muito.
– Tá certo. Tem razão. Eu entrego.
– Tá.

Ruth Manus, in Pega lá uma chave de fenda: e outras divagações sobre o amor

Estrela | Conde e Dayanne

Do mal

 Citius venit malum quam revertitur. [O mal chega mais rápido do que parte]

Sidney Vieira, in 500 Provérbios em Latim

Alfafa para os magrinhos!

Quinze quilos de maconha foram queimados ontem no Instituto de Pesquisas Biológicas.
Até 1969 (não recordo com precisão a data da lei), não constituía crime o consumo de maconha, apenas o traficante era punido. E nisto já havia uma contradição: se não era criminoso o consumo, porque proibir o tráfico?
Hoje a contradição legal deixou de existir, quem fuma também vai para a prisão. Quem fuma maconha, bem entendido. Pois destruir brônquios e pulmões com o cigarro não é considerado crime. Pelo contrário, dá status e é característica de homens que sabem o que querem.
Não sei se algum dia entenderei o que se passa na cabeça de um legislador. O que sei é que eles não aprendem nada da História. Houve época em que o café era considerado tóxico, só homens — e olhe lá — podiam bebê-lo. Bach, se não me engano, tem uma cantata, a Cantata da Moça que Tomava Café, o que na época, era inadmissível numa moça de família. Quem imaginaria hoje que o cafezinho nosso de cada dia já teve tal fama?
— Divertida justiça que um rio limita, erro aquém, verdade além dos Pirineus, disse outro cronista também perplexo. Já estive em país onde a municipalidade financia bares para que os jovens se reúnam para degustar a canabis. Em alguns bares, há um aviso na porta: “Proibida a entrada a maiores de 18 anos”.
Enfim, cada cabeça uma sentença.
Em outubro de 71, noticiou-se na crônica policial dos jornais uma ocorrência que merece uma atenção maior das pessoas que se preocupam com o problema do tóxico. Otacílio de Oliveira Escobar, residente em um modesto barraco da vila Cai n’Água, foi preso por tráfico de maconha. Os policiais que foram apreender a muamba no barraco do Otacílio encontraram quilos e quilos de esterco bovino, seco e esfarelado.
Segundo Otacílio, os clientes nunca reclamaram da qualidade da mercadoria. Pelo contrário, “os amizades ficavam pirados, todo mundo muito louco”. Um dos clientes comentou o cheiro da erva, considerado fora do comum. Otacílio tranquilizou-o:
— É erva nordestina. Da boa. Muito mais forte.
E mais pirado ainda ficou o magro.
Conheço outra historinha ainda. A de uma moça que ofereceu a um magrinho um cristal de LSD. O magro subiu pelas paredes, sem saber que havia ingerido partículas de grafite.
Não tenho nada contra os assim chamados tóxicos, tampouco contra a magrinhagem. Gente boa como Freud, Huxley e Van Gogh curtiam certos estimulantes. Já afirmei diversas vezes que certas drogas podem excitar o cérebro, quando se tem cérebro. O que me entristece, é ver toda uma geração que não sabe mais falar, que nem sabe fazer amor, encerrados dentro de si mesmos, olhando para o próprio umbigo. Se ao menos fosse para o umbigo do outro, talvez nesse olhar já existisse o germe de uma comunicação.
Minha modesta sugestão aos homens preocupados com os tóxicos: que tal oficializar o consumo da maconha? Não se forneceria maconha aos magros, é claro. Nem estou sugerindo esterco de vaca, gosto muito deles para sugerir isto. Mas que tal alfafa? Por um lado, entre a canabis sativa e a medicago sativa a magrinhagem não faz distinção alguma. Por outro, seria um estímulo à agricultura gaúcha.

Janer Cristaldo, in A Força dos Mitos 

Capítulo nove | O negro



Quando chegaram ao terreiro, os guerreiros carregando o negro demasiado assustado, a comunidade cercou. Descobriram os olhos do animal e todos se assombraram, os que soam e o animal. Estava suando e respirava com dor, a boca enorme de muitos dentes, o tamanho em dobro dos dentes para morderem até o osso. E todos se interrogaram se não seria inimigo de perigo bastante, melhor que fosse matado ou deitado ao quarto mar. E entoavam que era feroz, olhava com ferocidade, tinha mãos largas, dobraria um curumim de seu tempo como se fosse um galho seco, certamente alimentado por mordeduras furtivas, traiçoeiras, nas mãos e nos pescoços dos que soam. Deve comer sem fogo, bichos ainda vivos que tenham o azar de abeirar sua mão, sua boca. Insistiam:
vejam os dentes, a força dos dentes, o amplo da boca, tão grande toca para um animal de tão pouco espírito.
E o negro se enchia de ar, lutando contra seus próprios pulmões acelerados, intensos. Estava amarrado e não poderia mal algum. Mas era o contrário do que prometiam as sapiências da comunidade. Não aparentava mansidão. Estava robustecido e desorientado na pressa e no medo, teria certamente suas ganas de ferir. Sobrevivia. Não se deitava a morrer, não era alegre com morrer, era propenso à vida. E os guerreiros lhe puseram as lâminas junto ao pescoço e o encararam com suas mais tenebrosas expressões de guerra. E os guerreiros sentiram muita necessidade de matar e as femininas suplicavam que assim fosse. Mais gritavam as femininas em alvoroço e os curumins e as curatãs afugentaram para estremecerem longe seu pavor. Mediram-lhe os braços, as pernas, como teria ossos largos, a cabeça pesada sobre os ombros, o olhar cintilante, com urgência. Então, Pai Todo chefiou:
façam-no beber porque lhe acontece sede. Façam-no deitar porque lhe acontecem dores no corpo e sono. Soprem-lhe as folhas, afastem os insectos. Exalem fumos. Este pouco de animal é ao nosso cuidado. Será vivo. Sua vida é por nossa dignidade.
E a comunidade inteira se atarefou obediente mas assustadiça. Os negros que por ali haviam passado eram mandados para muito embora. Não havia costume de os tratar como da dignidade dos que soam. Havia uma perplexidade insanável entre todos. Ainda assim, chefiados, cumpriam com a gentileza com que a Verdadeiríssima Divindade havia entoado abaeté para que os abaeté fossem existidos.
Foram atar o curumim negro no exterior da aldeia. Cobertos seus olhos, novamente o passaram para lá da entrada secreta da cerca e o foram meter a caminho do areal. Ponderavam um cárcere que o deixasse a salvo dos piores predadores, mas distante um bocado da aldeia, para nem escutar nem cheirar. Atado e sem fuga possível, o negro já mais descansado foi descoberto dos olhos e ficou ao luar sem outro ruído ou expressão. Era deitado à espera. Esperou.
Os guerreiros acorreram à comunidade novamente e fizeram notícia de cuidado e brio. Pai Todo chefiou que por três noites assim ficasse o negro atado. Haveria de provar sua paciência para a paz e merecer ser libertado. Aparentado da escuridão, entenderam depois os abaeté, um jacaré mínimo viu oportunidade de adentrar a boca ressonante do negro e viveu no seu peito. Bem notaram que o sono lhe troava muito mais alto, e que em seu interior se fazia escutar um crepitar e até um movimento se via nas substâncias mais moles da barriga e acima da barriga, por vezes muito junto da garganta. Imediato, o bafo do negro mudou para insuportável e todos o lamentaram por se tornar pior. Era mais torto também. E comunicavam ao pajé para que ele repensasse a sorte do animal e até verificasse como não prometia mansidão, por ser curumim muito robusto que haveria de maturar para uma força ameaçadora. Mas o santo chefiava que o cuidado se mantivesse e que o negro estava a cargo da alegria abaeté sem hesitar. E todos o iam ver aos fundos onde o haviam amarrado e pasmavam a pegar-lhe nos membros e a espreitarem também boca toda, a suspeitar do jacaré que lhe fora viver dentro. Era, até ali, sem palavra. O negro, atónito e sempre esperador, seguia sem tentar expressão alguma. Certamente por ser ignorante, sem sapiência, sem conteúdo demasiado, muito ao jeito de outras feras de aspecto mais inesperado. O negro era quieto como uma onça quieta que não tivesse importância em ser amarrada e observada de perto com empurrões e algumas batidas. Batiam-lhe para que se virasse um pouco, para que subisse o braço, o outro braço, a perna, abrisse as pernas, mostrasse os baixios extremamente externos, grandes demasiado. Comentavam que a sua espécie era de dimensões fartas. O tapir também crescia assim. E comentavam que o animal escuro era quieto mas insolente, demorava sempre um pouco a cumprir o movimento a que o obrigavam. E cumpria bufando, estaria perto de uma mordedura, de uma tentativa de ataque. Que bom era estar tão amarrado e indefeso. Que boa era a guerra dos abaeté, implacável, certeira, obstinada, sagrada.
comunidade toda se punha a caminho para espreitar de perto a fera tão parecida com alguém. Até as femininas que, entre o asco e o fascínio, comparavam o negro ao boto e à onça, à cobra e à ave escura. Falavam de tudo quanto fosse também desiluminado e estabeleciam pertenças como se a Verdadeiríssima Divindade houvesse decidido que as vidas negras eram semelhantes obrigatoriamente. E, entre o asco e o fascínio, muitas femininas assumiam gostar de como se compunha o corpo do animal, tão protuberante, tão largo. As patas, entoavam algumas femininas entusiasmadas, são pequenas rochas divididas por dedos. E riam. Quando alguém perguntava se haveriam de lhe mexer, mexer no corpo nocturno da fera, todas negavam. Longe iam os tempos em que se negociava com os predadores. Essas necessidades de paz eram antigas e a maturação da mata havia sanado a condenação das femininas aos inimigos. Claro que nenhuma se deitaria com o negro, nenhuma lhe mexeria o corpo, seria grotesco. Um filho entre uma feminina e o negro seria também silêncio, uma carne incapaz de entoar, uma refeição para a fome de algum jacaré que o houvesse de caçar. Depois, tocavam-lhe com paus para atiçar o jacaré e riam. Pelo mole da barriga, e acima da barriga, o jacaré se enfurecia e movia passando a cauda de lado para outro e isso era perfeitamente visível. O negro chegava a contorcer-se em dores, tão cheio de uma outra fera, tão estreito para o seu crescimento gigante. E as femininas aterrorizavam-se. Que horror, viver com um jacaré no peito, ser por ele habitado, tão fundo na toca do espírito. Poderia o jacaré morder o espírito se o negro tivesse um. Melhor seria não juntarem suas peles porque os dentes rasgariam tudo e o pajé haveria de se enfurecer por não se ter mantido o inimigo vivo. Umas femininas iam e outras vinham. Traziam os transparentes para se divertirem com aquela estranheza e com aquele medo. Mostravam o negro aos curumins e às curatãs mais pequenas e gostavam de reparar como, mesmo amarrado, fazia medo. Um medo seguro, sem perigo. E como fedia da boca. Fedia demasiado da boca.
Numa tarde, também Altura Verde escolheu o filho para observar o negro e espiar por simples curiosidade. Entoou:
Honra, abeira o animal negro, pensa no seu significado.
E Honra abeirou ascoroso, seu rosto mais guerreiro montado, furioso, ofendido, com vontade de diminuir o inimigo numa dentada só. Mas o tamanho da fera era maior e os olhos redondos gigantes e estranhos fixavam o abaeté fazendo sua leitura também incómoda. E o feio perguntava:
que estás a ver, bicho horrendo, o que vês.
Mas o negro calava sem descodificar a língua do povo dos três mares. Então, Altura Verde quis saber:
Honra, que significa o negro. O que pode significar esse negro para a nossa mata.
E o guerreiro branco respondeu:
não sinto.
O animal, por seu lado, parecia estranhar Honra mais do que aos outros. Estranhava certamente sua pele diferente, como poderia ser um caçado igual ao que se tornara também.
Outros assomaram e empunharam seus rostos de guerra para atormentar o amarrado. Empunharam os rostos muito junto, até suportando o bafo do negro, e o negro resistia. Se houvesse de ser um curumim frágil teria sido desfeito num pranto medroso, cagado de estar caçado, desenganado para morrer. Mas a presa observava também os rostos ferozes com profundidade e talvez ponderasse na réstia de sua inteligência animal o que lhe entoavam. Quando os guerreiros discutiram a imprudência de acolher tal fera, voltando a examinar-lhe os membros, os dentes, os baixios e os piolhos, quiseram muito acabá-lo ali mesmo. Era o melhor. Era mesmo o melhor. Acabá-lo ali como competia à sensatez de proteger a comunidade, tantas femininas e transparentes dependentes de suas valentias. Assim se puseram em brados e moveram nervosamente numa dança para pensarem e gratificarem o sangue por sua fervura. Apontavam as lâminas ao pescoço do negro e o negro inquietou um pouco até inquietar mais porque se levantavam as vozes e o tumulto em seu redor descontrolava bastante. Então, algum guerreiro vociferou:
eu quero, eu quero, a mata quer, a mata é boa, a fera morta é alegria da mata, minha arma é boa, a arma que mata. Eu vou matar.
Poderia ser que apenas aliviasse sua vontade para a perder, mas o negro temeu e entoou, na suja língua branca, um pedido:
Deus me ajude.
E seu bafo fedeu muito entre todos. E todos escutaram e sentiram aquele nojo e Honra entendeu. Honra entoou:
é a língua branca. A língua e o fedor da língua branca, a palavra que apodrece na boca e apodrece a boca.
Os guerreiros espantaram.
E que significou.
Perguntaram. O guerreiro branco respondeu:
suplicou por sua divindade. Evocou sua divindade na mata abaeté.
Altura Verde entoou:
então, a Verdadeiríssima Divindade devorou. Sua esperança é a ingenuidade. Está à mercê. Pobre animal capaz de vocabulário.
E Honra pediu:
posso falar branco com ele.
Altura Verde, apavorado, respondeu:
não. Fecha em tua boca esse perigo. Não te tentes nessas palavras pela pouca importância de um animal tão amarrado e sem uso. Silencia tua boca. Essa língua ainda não é uma arma que saibas usar sem sucumbir também.
Naquele instante, o negro encarou Honra e perguntou:
entendes o que digo, rapaz branco. Entendes o que digo.
O guerreiro branco, confuso, subitamente humilhado por não ser indistinto entre todos os guerreiros da comunidade, escondeu o que escutara e afastou-se. O pai lhe perguntou:
que significou.
E ele, uma e outra vez jurou:
nada.
Honra fugiu dali. Decidiu que o negro lhe perigava tudo. Precisava de morrer. Haveria de tornar para o matar. Era um absurdo que demorassem aquela fera nos cuidados dos abaeté. Era um absurdo pretenderem fazer de uma fera sem educação uma companhia para o mais gentil povo.
Quando anoitecesse, haveria de voltar e passar-lhe uma lâmina no pescoço. Na noite, o negro haveria de morrer como um bocado de ideia que não diferia da cegueira. Pertença da escuridão, quando alguém descobrisse, pensariam todos que a noite o cortara sem reparar. O negro à noite ficava sujeito a tudo quanto não prestava atenção. O mínimo acaso seria bastante para o terminar. Desiluminado da pele, no tempo desiluminado do dia, ninguém julgaria estranho que o animal sucumbisse sem maior razão do que sua própria condição. O guerreiro branco assim pensou e se convenceu. Ia ser muito mais astuto do que os outros. Mais cauteloso do que o santo. Seria surpreendente até para a intuição que os ancestrais inspiravam. O negro era um animal domesticado pelo branco. Traria seus vícios e suas chefias. As presas mansas afeiçoam ao predador, e fazem pelo predador a tocaia, nem que tombem na morte, nem que só a morte seja sua vitória e libertação. Era fundamental impedir aquele perigo. Era absolutamente fundamental.

Valter Hugo Mãe, in As doenças do Brasil