02/03/2022

Correio elegante

Junho de 1999. Festa junina. Friozinho. Cheiro de pinhão.
– Oi. Queria mandar um correio elegante pra uma menina da minha classe.
– Sim. São cinquenta centavos. Uma ficha azul.
Destacou a ficha com as mãos gordinhas.
– Aqui.
– Pode ditar o texto.
– Tá. É… “Flávia. Você é a menina mais bonita da minha vida. Mais bonita até que a Mili das Chiquititas. Eu te amo. Assinado: Anônimo”.
– Certo. Agora me mostra a Flávia pra eu poder entregar.
– Tá. Tá vendo a barraca da pescaria?
– A-hã.
– Então. Ali na frente não tem uma menina alta?
– Hum… Eu só tô vendo uma baixinha.
– Não, ela é aquela alta, com um vestido bonito.
– Alta com vestido bonito? Não tô vendo. Só vejo uma baixinha com um vestido de estampa feia de floresta.
– Ela é a alta, meio magra, com vestido bonito e cabelo dourado.
– Meio magra? Não tem nenhuma.
– É, não muito magra. Meio normal. Mas linda.
– Tem uma moça linda na frente da barraca da pipoca.
– Não. É na pescaria mesmo.
– Gente… onde?! Tem um grupo de rapazes, duas velhinhas e uma menina de um metro e cinquenta, gordinha, com o vestido estranho.
– Ela é a que está comendo um cachorro-quente e segurando dois pastéis. Viu?
– … a… ahn… então é a gordinha?
– Pode ser. Meio gordinha, mas muito bonita. Muito.
– Tá certo. Tem razão. Eu entrego.
– Tá.

Ruth Manus, in Pega lá uma chave de fenda: e outras divagações sobre o amor

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