08/02/2018

Urbanas

Mas muitas criaturas sempre me disseram sabe vida

que eu devia acordar

cedo para dar

milho pras galinhas ou botar

as máquinas maravilhosas

para andar

pra cima do pescoço das pessoas já que era

costume favorito e esporte predileto

aqui na terra

eu ficava

tirando borboletas das gavetas e espiando

as formigas

ao invés de aeroplanos.

Leomar Fróes

Acerca da mentira

Porque é que, na maior parte das vezes, os homens na vida quotidiana dizem a verdade? Certamente, não porque um deus proibiu mentir. Mas sim, em primeiro lugar, porque é mais cômodo, pois a mentira exige invenção, dissimulação e memória. Por isso Swift diz: “Quem conta uma mentira raramente se apercebe do pesado fardo que toma sobre si; é que, para manter uma mentira, tem de inventar outras vinte”. Em seguida, porque, em circunstâncias simples, é vantajoso dizer diretamente: quero isto, fiz aquilo, e outras coisas parecidas; portanto, porque a via da obrigação e da autoridade é mais segura que a do ardil. Se uma criança, porém, tiver sido educada em circunstâncias domésticas complicadas, então maneja a mentira com a mesma naturalidade e diz, involuntariamente, sempre aquilo que corresponde ao seu interesse; um sentido da verdade, uma repugnância ante a mentira em si, são-lhe completamente estranhos e inacessíveis, e, portanto, ela mente com toda a inocência.
Friedrich Nietzsche, in Humano, demasiado humano

Sacramentos

Fonte: Google Imagens

Sociedades se constroem quando os homens concordam sobre coisas grandes. A amizade acontece quando os homens concordam sobre coisas pequenas. Faz tempo escrevi um artigo longo sobre um tema que esqueci. O dito artigo levou um dos meus leitores do sul de Minas a escrever-me uma carta. Escreveu-me não para comentar o artigo – irrelevante –, mas para dizer que ficara comovido porque, num certo lugar, eu falara sobre “o cheiro bom do capim-gordura”. A partir dessa imagem, a um tempo visual e nasal – pois havia a visão do campo de capim-gordura e o cheiro do capim-gordura –, ele se pôs a descrever sua experiência diária: passava, de manhãzinha, sol ainda não nascido, por um campo coberto de capim-gordura. “O silêncio verde dos campos...” E havia a névoa misteriosa que tudo envolvia. De vez em quando, o barulhinho de algum regato que corria invisível, coberto pela vegetação. E, saindo dele, como se fosse sua respiração, seu mais profundo segredo, o perfume. Mistério. Mistério, essa palavra misteriosa. Em inglês, a palavra mistério se escreve “mystery”. Pois um dia, por inspiração imediata, passei a escrevê-la de uma forma diferente: misteerie. “Mist” é neblina. E “eerie” quer dizer assombroso, que provoca medo. Acho que minha grafia, inspirada na poesia, é melhor que a grafia do dicionário, derivada da etimologia. Essa é a minha contribuição para a língua inglesa. É isso que se sente de manhãzinha, sozinho, ao caminhar pelos campos de capim-gordura. Não há igreja, templo ou santuário que se lhe compare. Essas caixas de tijolo e cimento que os empresários da religião constroem para engaiolar o sagrado, na maior parte das vezes provocam-me o sentimento oposto, de horror estético. Deus deve ter muito mau gosto... Pois é: quando li aquela carta imediatamente me descobri amigo daquele homem distante. Se não me equivoco, o seu nome era Gerson e vive em Poços de Caldas. Sempre que vejo capim-gordura me lembro dele. De todo o palavrório que escrevi naquele artigo, o que sobrou, o que valeu, foi uma imagem imobilizada num momento eterno: o capim-gordura, com o seu cheiro bom...
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

Os cuidadores de nossos irmãos

Apesar dos benefícios do fogo, há 150 mil anos os humanos ainda eram criaturas marginais. Agora eles podiam espantar leões, se aquecer durante noites frias e queimar uma ou outra floresta. Mas, considerando todas as espécies juntas, possivelmente o número de humanos vivendo entre o arquipélago indonésio e a Península Ibérica ainda não passava de 1 milhão, um mero ponto no radar ecológico.
Nossa espécie, Homo sapiens, já estava presente no palco do mundo, mas, até então, estivera apenas vivendo sua vidinha num canto da África. Não sabemos exatamente onde ou quando animais que podem ser classificados como Homo sapiens evoluíram pela primeira vez a partir algum tipo anterior de humano, mas a maioria dos cientistas concorda que há 150 mil anos a África Oriental estava povoada por sapiens que se pareciam exatamente como nós. Se um deles aparecesse em um necrotério moderno, o patologista local não notaria nada peculiar. Graças às bênçãos do fogo, eles tinham mandíbulas e dentes menores que seus ancestrais, ao passo que tinham cérebros enormes, iguais aos nossos em tamanho.
Os cientistas também concordam que há cerca de 70 mil anos, sapiens da África Oriental se espalharam na península Arábica e de lá rapidamente tomaram o território da Eurásia.
Quando o Homo sapiens chegou à Arábia, a maior parte da Eurásia já era ocupada por outros humanos. O que aconteceu com eles? Há duas teorias conflitantes. A “teoria da miscigenação” conta uma história de atração, sexo e miscigenação. À medida que os imigrantes africanos se espalharam pelo mundo, eles procriaram com outras populações humanas, e as pessoas, hoje, são resultado dessa miscigenação.
Por exemplo, quando os sapiens chegaram ao Oriente Médio e à Europa, encontraram os neandertais. Esses humanos eram mais musculosos que os sapiens, tinham cérebro maior e eram mais bem adaptados a climas frios. Usavam ferramentas e fogo, eram caçadores exímios e, ao que parece, cuidavam dos doentes e debilitados (arqueólogos encontraram ossos de neandertais que viveram por muitos anos com várias deficiências físicas, indícios de que eram cuidados por seus parentes). Os neandertais muitas vezes são retratados em caricaturas como o arquetípico “homem das cavernas” bruto e estúpido, mas indícios recentes mudaram essa imagem.
De acordo com a teoria da miscigenação, quando o Homo sapiens se espalhou por terras neandertais, os sapiens procriaram com neandertais até que as duas populações se fundiram. Se isso for verdade, então os eurasianos de hoje não são sapiens puros. São uma mistura de sapiens e neandertais. De forma semelhante, quando chegaram à Ásia Oriental, os sapiens se misturaram com os locais Homo erectus, de forma que os chineses e coreanos são uma mistura de sapiens e Homo erectus.
A visão oposta, chamada de “teoria da substituição”, conta uma história muito diferente – uma história de incompatibilidade, repulsa e, talvez, até mesmo genocídio. Sapiens e neandertais tinham anatomias diferentes, e muito provavelmente hábitos de acasalamento e até mesmo odor corporal diferentes. Provavelmente tinham pouco interesse sexual uns pelos outros. Mesmo que um Romeu neandertal e uma Julieta sapiens se apaixonassem, não poderiam produzir descendentes férteis porque o abismo genético separando as duas populações já era intransponível. As duas populações teriam permanecido distintas, e quando os neandertais morreram, ou foram mortos, seus genes teriam morrido com eles. De acordo com essa teoria, sapiens substituíram todas as populações humanas anteriores sem se misturar com nenhuma delas. Nesse caso, a origem de todas as linhagens humanas existentes pode ser atribuída exclusivamente à África Oriental de 70 mil anos atrás.
Muita coisa depende desse debate. De uma perspectiva evolutiva, 70 mil anos é um intervalo relativamente curto. Se a teoria da substituição estiver correta, todos os humanos existentes têm mais ou menos a mesma bagagem genética, e as distinções raciais entre eles são desprezíveis. Mas se a teoria da miscigenação estiver correta, pode muito bem haver entre africanos, europeus e asiáticos diferenças genéticas que remontam a centenas de milhares de anos atrás. Trata-se de uma dinamite política que poderia fornecer matéria-prima para teorias raciais explosivas.
Nas últimas décadas, a teoria da substituição prevaleceu entre os cientistas. Tinha bases arqueológicas mais sólidas e era politicamente mais correta (os cientistas não tinham desejo algum de abrir a caixa de Pandora do racismo ao afirmar a existência de uma diversidade genética significativa entre as populações humanas modernas). Mas isso terminou em 2010, quando foram publicados os resultados de um esforço de quatro anos para mapear o genoma dos neandertais. Geneticistas conseguiram coletar DNA intacto de fósseis de neandertais em quantidade suficiente para fazer uma comparação detalhada com o DNA de humanos contemporâneos Os resultados desconcertaram a comunidade científica.
Revelou-se que de 1% a 4% do DNA das populações modernas no Oriente Médio e na Europa são DNA de neandertal. Não é uma grande quantidade, mas é significante. Um segundo choque veio meses depois, quando foi mapeado o DNA extraído do dedo fossilizado de Denisova. Os resultados comprovaram que até 6% do DNA humano dos melanésios e dos aborígenes australianos modernos são DNA denisovano!
Se esses resultados forem válidos – e é importante ter em mente que estão sendo realizadas mais pesquisas que podem tanto corroborar quanto modificar essas conclusões –, os defensores da teoria da miscigenação acertaram em pelo menos alguns aspectos. Mas isso não significa que a teoria da substituição esteja completamente errada. Uma vez que os neandertais e os denisovanos contribuíram apenas com uma pequena proporção de DNA para nosso genoma atual, é impossível falar de uma “fusão” entre os sapiens e outras espécies humanas. Embora as diferenças entre elas não fossem grandes o suficiente para evitar completamente a geração de descendentes férteis, eram suficientes para fazer que tais contatos fossem muito raros.
Sendo assim, como devemos entender as relações biológicas entre sapiens, neandertais e denisovanos? Claramente, não eram espécies completamente distintas, como são os cavalos e os jumentos. Por outro lado, não eram apenas populações diferentes da mesma espécie, como os buldogues e os spaniels. A realidade biológica não é em preto e branco. Há também áreas cinza importantes. Quaisquer duas espécies que tenham evoluído de um único ancestral, como os cavalos e os jumentos, foram, em algum momento, apenas duas populações da mesma espécie, como os buldogues e os spaniels. Com o tempo, as diferenças entre elas se acumularam, até que elas seguiram caminhos evolutivos separados. Deve ter havido um ponto em que as duas populações já eram bem diferentes uma da outra, mas ainda capazes, em raras ocasiões, de ter relações sexuais e gerar descendentes férteis. Então houve mutação em mais um ou dois genes, e esse último fio que as conectava se perdeu para sempre.
Ao que parece, há cerca de 50 mil anos, sapiens, neandertais e denisovanos se encontravam nesse limite. Eram espécies quase separadas, mas não totalmente. Como veremos no próximo capítulo, os sapiens já eram bem diferentes dos neandertais e dos denisovanos não só em seu código genético e em seus traços físicos, como também sua capacidade cognitiva e habilidades sociais. Mas ainda era igualmente possível, em raras ocasiões, que um sapiens e um neandertal tivessem um filho. Portanto, as populações não se fundiram – mas alguns genes sortudos de neandertais pegaram uma carona no Expresso Sapiens. É um tanto perturbador – e, talvez, fascinante – pensar que nós, sapiens, possamos em algum momento ter tido relações sexuais com um animal de uma espécie diferente e gerado descendentes.
Mas se neandertais, denisovanos e outras espécies humanas não simplesmente se miscigenaram com os sapiens, por que desapareceram? Uma possibilidade é que o Homo sapiens as levou à extinção. Imagine um bando de sapiens chegando a um vale nos Bálcãs onde os neandertais viviam há centenas de milhares de anos. Os recém-chegados começaram a caçar os cervos e a colher as nozes e as bagas que eram tradicionalmente a base alimentar dos neandertais. Os sapiens eram melhores caçadores e coletores – graças à superioridade de sua tecnologia e de suas habilidades sociais –, de modo que se multiplicaram e se espalharam. Os neandertais, menos engenhosos, tinham cada vez mais dificuldade para se alimentar. Sua população definhou e pouco a pouco desapareceu, exceto, talvez, por um ou dois membros que se uniram a seus vizinhos sapiens.
Outra possibilidade é que a competição por recursos tenha irrompido em violência e genocídio. A tolerância não é uma marca registrada dos sapiens. Nos tempos modernos, uma pequena diferença em cor de pele, dialeto ou religião tem sido suficiente para levar um grupo de sapiens a tentar exterminar outro grupo. Os sapiens antigos teriam sido mais tolerantes para com uma espécie humana totalmente diferente? É bem possível que, quando os sapiens encontraram os neandertais, o resultado tenha sido a primeira e mais significativa campanha de limpeza étnica na história.
O que quer que tenha acontecido, os neandertais (e outras espécies humanas) apresentam um dos grandes “e ses” da história. Imagine o que poderia ter acontecido se os neandertais ou denisovanos tivessem sobrevivido ao lado do Homo sapiens. Que tipos de cultura, sociedade e estrutura política teriam surgido em um mundo em que várias espécies humanas diferentes coexistissem? Como, por exemplo, as fés religiosas teriam se desenvolvido? O livro do Gênesis teria declarado que os neandertais descenderam de Adão e Eva, Jesus teria morrido pelos pecados dos denisovanos, e o Corão teria reservado lugares no Paraíso para todos os humanos corretos, independentemente da espécie? Os neandertais teriam recebido um lugar no sistema de castas hindu, ou na vasta burocracia da China imperial? A Declaração da Independência dos Estados Unidos teria considerado como uma verdade evidente que todos os membros do gênero Homo foram criados iguais? Karl Marx teria instado os trabalhadores de todas as espécies a se unirem?
Nos últimos 10 mil anos, o Homo sapiens esteve tão acostumado a ser a única espécie humana que é difícil para nós concebermos qualquer outra possibilidade. A ausência de irmãos ou irmãs torna fácil imaginar que somos o epítome da criação e que um cisma nos separa do resto do reino animal. Quando Charles Darwin sugeriu que o Homo sapiens era apenas mais uma espécie animal, as pessoas ficaram furiosas. Ainda hoje, muitos se recusam a acreditar nisso. Se os neandertais tivessem sobrevivido, ainda conceberíamos a nós mesmos como uma criatura distinta? Talvez tenha sido exatamente por isso que nossos ancestrais eliminaram os neandertais. Eles eram similares demais para se ignorar, mas diferentes demais para se tolerar.
Se a culpa é dos sapiens ou não, o fato é que, tão logo eles chegavam a um novo local, a população nativa era extinta. Os últimos remanescentes do Homo soloensis datam de cerca de 50 mil anos atrás. O Homo denisova desapareceu logo depois. Os neandertais sumiram há cerca de 30 mil anos. Os últimos humanos diminutos desapareceram da ilha de Flores há aproximadamente 12 mil anos. Deixaram para trás alguns ossos, ferramentas de pedra, uns poucos genes em nosso DNA e uma porção de perguntas sem resposta. Também deixaram a nós, Homo sapiens, a última espécie humana.
Qual o segredo do sucesso dos sapiens? Como conseguimos nos instalar tão rapidamente em tantos habitats distantes e tão diversos em termos ecológicos? Como condenamos todas as outras espécies humanas ao esquecimento? Por que nem mesmo os neandertais, fortes, de cérebro grande e resistentes ao frio, conseguiram sobreviver a nosso ataque violento? O debate continua a se alastrar. A resposta mais provável é propriamente aquilo que torna o debate possível: o Homo sapiens conquistou o mundo, acima de tudo, graças à sua linguagem única.
Yuval Noah Harrari, in Sapiens: uma breve história da humanidade

07/02/2018

5 a seco - lua cheia

Uma noite prodigiosa

A noite foi também prodigiosa. Detive-me um momento diante da casa de meu conhecido e olhei para dentro através das janelas. “Ali mora um homem” — pensei — “que leva avante seu trabalho ano após ano, que lê e comenta textos, procura interrelações entre as mitologias pré-asiáticas e indicas, e sente satisfação com isto, pois crê no valor de seu trabalho, crê na ciência, de quem é fiel servidor; acredita no valor do saber, que se deva acumular cultura, pois crê no progresso e no desenvolvimento. Não viveu a guerra nem a revolução das bases do pensamento humano feita por Einstein (‘Isso é algo que diz respeito somente aos matemáticos’ — pensa ele); não percebe em absoluto que em seu redor se está preparando a próxima guerra; considera odiosos os judeus e os comunistas; é um bom menino, irreflexivo, alegre, que se considera importante e invejável”. Assim mesmo resolvi entrar; fui recebido por uma criada de avental branco, que por algum pressentimento me fez notar com exatidão onde deixava meu chapéu e o sobretudo; introduziu-me numa sala cauda e luminosa, rogou-me que esperasse; aí, em vez de rezar uma oração ou dormitar um pouco, segui um impulso brincalhão e apanhei a primeira coisa que estava a meu alcance, era uma gravura e representava o poeta Goethe, um ancião cheio de caráter, genialmente penteado e com o rosto muito bem modelado, no qual não faltava nem o célebre fogo do olhar nem o traço de solitário com um ligeiro véu de cortesia detalhes que devem ter exigido grande trabalho ao artista Conseguira ele dar a este demoníaco ancião, sem prejuízo de sua profundidade, um ar algo acadêmico e ao mesmo tempo teatral de autodomínio e probidade, e o representara, enfim como um senhor formoso em sua ancianidade, próprio para adornar qualquer casa burguesa. Provavelmente a estampa não fosse mais estúpida que as outras dessa classe; todos aqueles nobres redentores, apóstolos, heróis, intelectuais e estadistas, confeccionados por aplicados artífices, me irritavam mais talvez pelo virtuosismo com que eram tratados. Fosse como fosse, talvez devido à minha irritabilidade habitual, aquela vã e pretensiosa representação do velho Goethe despertou em mim uma dissonância fatal e me deu a entender que não estava no lugar devido. Ali era o ambiente familiar dos grandes mestres belamente estilizados e das grandezas nacionais, e não dos lobos da estepe. Se o dono da casa se tivesse apresentado, ter-me-ia sido fácil retirar-me em seguida com aceitáveis pretextos. Mas foi a dona da casa quem entrou e me conformei com a sorte, embora estivesse prenunciando desgraça. Cumprimentamo-nos, e ao primeiro desacordo seguiram-se outros mais sonoros. A senhora elogiou minha boa aparência, embora eu estivesse mais que convencido do muito que mudara desde o nosso último encontro; já ao apertar-me os dedos gotosos, fez-me recordar minhas terríveis dores reumáticas. E logo perguntou como ia minha mulher, tendo eu lhe dito que ela me havia abandonado e que o nosso casamento estava desfeito. Estávamos alegres quando entrou o professor. Ele também me cumprimentou alegremente, e o falso e o cômico da situação chegaram logo a um belo clímax. Trazia um jornal à mão, um diário que assinava, órgão do partido militarista exaltado, e após haver-me dado a mão, apontou o jornal e disse que nele havia um artigo sobre um indivíduo que tinha o mesmo nome que eu, um tal de Haller, articulista, que devia ser um indivíduo sem pátria, pois zombara do Kaiser e afirmara que sua pátria não era menos culpada da guerra do que os países inimigos. Que espécie de indivíduo devia ser!? A redação respondera energicamente a esse tipo e o expusera à execração pública. Passamos a outro assunto quando viu que o tema não me interessava, e nem de longe ocorreu a ambos a possibilidade de aquele monstro estar sentado à sua frente, no entanto, a verdade é que estava, pois o horrível indivíduo era eu. Deixa para lá! para que perturbar e assustar as pessoas! Ri para dentro, sabendo que lá se fora a esperança de sentir algo agradável àquela noite. Recordo-me claramente do instante em que o professor começou a falar de Haller, o traidor de sua pátria. Foi aí que o horrendo sentimento de depressão e desespero, que progressivamente crescia em meu interior desde a cena do enterro, se materializou numa rude opressão, chegou ao clímax de uma angústia corporal (no ventre), despertando dentro de mim um terrível e sufocante presságio. Tive a impressão de que algo estava à minha espera, de que se aproximava um perigo. Felizmente anunciaram que o jantar estava à mesa. Passamos à sala de jantar, e enquanto me esforçava por dizer ou perguntar algo sem importância, comi mais do que de costume e me senti cada vez mais digno de lástima. Santo Deus — pensava continuamente — por que nos sacrificas tão severamente? Percebi claramente que meus anfitriões também não se sentiam à vontade e que sua cordialidade era forçada, fosse porque eu me comportasse de maneira tão lamentável, fosse em consequência talvez de algum desentendimento doméstico. Não houve uma só pergunta que me fizessem que recebesse de mim uma resposta exata; logo me vi embaraçado em minhas mentiras e tive de lutar contra o asco que cada palavra me causava. Por fim, à guisa de mudar de assunto, comecei a falar-lhes a propósito do enterro que presenciara naquela manha. Mas não consegui encontrar o tom; minhas recorrências o humor soaram vazias e cada vez mais nos afastávamos uns os outros. Em meu interior o Lobo da Estepe arreganhava os dentes com ironia; e ao chegar a sobremesa, o silêncio já havia tomado conta de nós três. Regressamos à sala de estar onde tomamos café e licor na esperança de que isso pudesse animar-nos. Mas ali, entretanto, voltou a cair-me sob a vista a figura do príncipe dos poetas, embora estivesse colocado sobre uma cômoda a um canto da sala. Sem conseguir livrar-me dele, levantei-me e apanhei-o de novo, embora ouvisse em meu interior a advertência de que estava prestes a cometer uma indelicadeza. De tal forma me senti obcecado pelo insustentável da situação que achei chegado o momento de animar meus anfitriões, arrastá-los para fora de sua comodidade e colocá-los de acordo comigo, senão, do contrário, sobreviria certamente uma explosão.
Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe

Objetos perdidos

Os guarda-chuvas perdidos.. aonde vão parar os guarda-chuvas perdidos? E os botões que se desprenderam? E as pastas de papéis, os estojos de pince-nez, as maletas esquecidas nas gares, as dentaduras postiças, os pacotes de compras, os lenços com pequenas economias, aonde vão parar todos esses objetos heteróclitos e tristes? Não sabes? Vão parar nos anéis de Saturno, são eles que formam, eternamente girando, os estranhos anéis desse planeta misterioso e amigo.
Mário Quintana, in Sapato florido

Street Art, de Innerfields, em Hamburgo, Alemanha


Senhor imagina?

Todo assim, o que minha vocação pedia era um fazendão de Deus, colocado no mais tope, se braseando incenso nas cabeceiras das roças, o povo entoando hinos, até os pássaros e bichos vinham bisar. Senhor imagina? Gente sã valente, querendo só o Céu, finalizando. Mas diverso do que se vê, ora cá ora ali lá. Como deu uma moça, no Barreiro-Novo, essa desistiu um dia de comer e só bebendo por dia três gotas de água de pia benta, em redor dela começaram milagres. Mas o delegado-regional chegou, trouxe os praças, determinou o desbando do povo, baldearam a moça para o hospício de dôidos, na capital, diz-se que lá ela foi cativa de comer, por armagem de sonda. Tinham o direito? Estava certo? Meio modo, acho foi bom. Aquilo não era o que em minha crença eu prezava. Porque, num estalo de tempo, já tinham surgido vindo milhares desses, para pedir cura, os doentes condenados: lázaros de lepra, aleijados por horríveis formas, feridentos, os cegos mais sem gestos, loucos acorrentados, idiotas, héticos e hidrópicos, de tudo: criaturas que fediam. Senhor enxergasse aquilo, o senhor desanimava. Se tinha um grande nôjo. Eu sei: nôjo é invenção, do Que-Não-Há, para estorvar que se tenha dó. E aquela gente gritava, exigiam saúde expedita, rezavam alto, discutiam uns com outros, desesperavam de fé sem virtude ― requeriam era sarar, não desejavam Céu nenhum. Vendo assaz, se espantava da seriedade do mundo para caber o que não se quer. Será acerto que os aleijões e feiezas estejam bem convenientemente repartidos, nos recantos dos lugares. Se não, se perdia qualquer coragem. O sertão está cheio desses. Só quando se jornadeia de jagunço, no teso das marchas, praxe de ir em movimento, não se nota tanto: o estatuto de misérias e enfermidades. Guerra diverte ― o demo acha.
Mire veja! um casal, no Rio do Borá, daqui longe, só porque marido e mulher eram primos carnais, os quatro meninos deles vieram nascendo com a pior transformação que há! sem braços e sem pernas, só os tocos... Arre, nem posso figurar minha ideia nisso! Refiro ao senhor! um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale do Arassuaí, discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencarna, por progresso próprio, mas que Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança! sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. E o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar ― é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada ― erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos doidos ― não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver ― a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim! Mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é sua instrução do senhor…
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

06/02/2018

Round about midnight

Um vulto suspeito
e o pulo de um susto
à solta no peito
no beco sem saída
caminhos a esmo
o leque de abismos
entre um eco
e seus mesmos.
Paulo Leminski

Não desista

Eu sei, eu sei. Às vezes parece que nada adianta, que nada vai dar certo, que quem escapar da miséria, do assaltante, da bala perdida e da bomba do terrorista a epidemia pega, e que o fim dos tempos está ali na esquina. Mas pense o seguinte: você pertence a uma raça de vencedores. Os antepassados de toda a sua raça — a humana — têm, todos, as mesmas características positivas em comum. Todos, sem exceção, atingiram a maturidade, pelo menos sexual. Todos sobreviveram a pestes, guerras, má nutrição e desastres naturais e chegaram à idade de ter filhos. E todos — olha só a sua sorte — eram férteis. Não eram, necessariamente, todos heterossexuais, mas pelo menos uma vez na vida foram. E, por acidente ou não, tiveram pelo menos um filho com um parceiro do outro sexo.
Quer dizer, você pertence a uma linhagem admirável que nunca se deixou abater e venceu todos os obstáculos para que você e a sua raça estivessem aqui hoje, se queixando da vida. Você mesmo não se dá conta do que passou para existir. Do seu feito, do seu mérito em sair do nada — ou quase nada, uma larva — e ficar desse tamanho. Não pense que você estava sozinho no sêmen do seu pai. Que era moleza, só chegar no útero da sua mãe assoviando e pimba, fecundar o óvulo. Havia milhões de outros espermatozoides no sêmen do seu pai, naquela particular jornada. Milhões. E não era, assim, como a São Silvestre, em que já se conhece antes os prováveis vencedores. Ou como a Fórmula Um, em que o resto da equipe trabalha para um vencedor designado. Ninguém é favorito, ninguém é azarão na corrida para o óvulo. E não tem aquela de “Passa, irmãozinho”, “Não, passa você”. Era cada um por si. E você venceu! O espermatozoide que deu em você derrotou milhões de espermatozoides que deram em nada e chegou na frente. Aquele berro que você deu ao nascer foi um grito de vitória, um “Primeirão!” em linguagem de recém-nascido, guardado na garganta durante nove meses. E você tinha todas as razões para festejar. Como hoje tem todas as razões para se sentir um vencedor, membro de uma casta de vencedores — os que nasceram, os que estão aí. Pense naqueles espermatozoides que não conseguiram. Que tinham o mesmo objetivo, a mesma vontade de ser alguma coisa na vida, e fracassaram. Para eles não adiantava chegar em segundo. Não havia vice. E nem repescagem. Ou chegavam em primeiro ou estavam condenados a não existir. E o primeiro, o primeirão, foi você. Deveria constar do nosso currículo. “Vencedor da Corrida para o Óvulo”, o local e a data. E não deveríamos precisar de nenhuma outra referência ou prova de capacidade.

* * *
Eu sei, eu sei. Às vezes parece que a corrida para o óvulo não terminou, que aquela era apenas uma prova eliminatória e a outra, a que vale, duraria toda a vida, você contra outros espermatozoides que deram certo. Só os campeões, competindo por dinheiro, sucesso e posição no mundo, em vez de no útero. Com a diferença de que, nesta corrida, contam origem, diploma e pistolão, e uma minoria tem mais possibilidade de vitória do que a maioria. Mas não desanime. Convença-se de que você é um vencedor e vem de uma longa linha de vencedores, que prevaleceram apesar de tudo. E se tudo o mais falhar... Bem, a chance de você ganhar na Mega Sena é exatamente igual à de o seu espermatozoide ser o primeiro a chegar ao óvulo. Quer dizer, você já tem uma história de boa sorte.
Luís Fernando Veríssimo, in Amor veríssimo

Janela sobre perguntas

Sofia Opalski tem muitos anos, ninguém sabe quantos, ninguém sabe se ela sabe. Tem apenas uma perna, anda em cadeira de rodas. As duas estão bem gastas, ela e a cadeira de rodas. A cadeira tem parafusos frouxos, e ela também.
Quando ela cai, ou quando cai a cadeira, Sofia chega, do jeito que der, até o telefone e disca o único número do qual se lembra. E pergunta, lá do fim do tempo:
– Quem sou eu?

Muito longe de Sofia, em outro país, está Lucia Herrera, que tem três ou quatro anos de vida. Lucia pergunta, lá do princípio do tempo:
– O que quero eu?
Eduardo Galeano, in Mulheres

Ladrões no terraço

— Tem paciência, filhinha, já decidi. Hoje vamos ao cinema de qualquer maneira.
— Mas, Dago, ainda não preparei os sanduíches para o aniversário do Guilherme…
— O Guilherme que pare de fazer anos e de dar festa com sanduíches divinos-maravilhosos. Ao cinema!
— E o Barriga? A gente vai deixar o garoto sozinho em casa? Ele é de morte.
— Chame o Italianinho do 301 para fazer companhia a ele. Assim o Barriga sossega. Ao ci-ne-ma!
D. Neusa sempre achando razões para ficar em casa, trabalhando. Cinema ali pertinho, inaugurado há um mês, filme de Buñuel chamando, marido insistindo. E quando marido escande sílabas, mesmo sendo ótimo como aquele, paira ameaça sobre o casamento. Ela cedeu.
Italianinho acudiu pressuroso ao chamado. No 301, também os pais haviam saído, e a patota de adolescentes curtia uma festinha à base de som incrementado e luzes psicodélicas, de que, obviamente, estavam excluídos os menores de doze anos.
— Que que a gente vai fazer?
— Atirar setas e bolinhas na rua. Bolinhas nos carecas, e setas nas perucas das coroas.
— Só nos carecas e nas coroas, não. Em todo mundo.
— Tá.
Subiram os dois, de mansinho, pela escada de serviço, munidos de zarabatanas, bolinhas, setas e muita disposição. A chuvinha ranzinza peneirava, eles nem sentiam. E começou o ataque silencioso na noite. Não tão silencioso, pois corriam de um lado para outro, esbarrando aqui e ali, emitindo ruídos abafados de prazer quando atingiam o alvo — dava para perceber que alguma coisa de estranho se passava no terraço.
Juju, de ouvido afiado, num instante em que o som amortecia na festa, correu ao apartamento de seu Ivo:
— Está na hora da batida.
— Que batida? Vocês prometeram que só haveria chopinho. E o síndico não permite festa de brotos com batida.
— O senhor não morou. Batida para pegar ladrão. Tem gente mexendo no terraço. Escute.
Escutou. Mexiam e paravam. Mexiam e paravam. Ladrões, na certa. Havia dias que vinham frequentando os terraços de edifícios daquele trecho de rua, “limpando” antenas, canos, torneiras, roupas, tudo. Alertados, síndicos e condôminos planejaram um serviço de vigilância. Ao menor sinal suspeito, os próprios moradores de cobertura dariam caça aos larápios, já que os vigias noturnos, como se sabe, têm sono pesado.
Seu Ivo achou prudente telefonar para os moradores das coberturas vizinhas, que compareceram imediatamente. Subiram os três, cada um de calibre 45 em punho. Entreaberta a porta do terraço, detiveram-se no penúltimo degrau, à espreita. Sentindo aproximação de gente (ladrões, sem dúvida), Barriga e Italianinho, tomados de pânico, meteram-se na casa de máquinas. Ladrões avançando, ladrões se escondendo dos outros ladrões — era a situação, debaixo de chuva mansa, durante um silêncio de dez minutos.
— Não vão ficar a noite inteira na casa de máquinas — ponderou seu Ivo. — Esperemos.
E continuaram os três, respiração suspensa, mão no gatilho, aguardando.
Concluindo que se tratava de alarme falso, Italianinho e Barriga foram saindo de leve, pé ante pé, agachados junto à mureta.
— É agora — comandou baixinho seu Ivo. — Vamos atirar pra valer, mas nos pés.
As armas foram baixando lentamente, para a pontaria. Súbito, seu Ivo exclamou, trêmulo, gago:
— Não atirem! Não é o que nós pensamos!
— Está doido, seu…?
— Doido nada. São os moleques!
Seu Ivo reconhecera o Barriga, pelo volume abdominal característico. Entraram rápido no terraço, em direção contrária à dos meninos, para pegá-los desprevenidos. Os dois tentaram fugir, no passo de ema selvagem. Mas Italianinho sentiu uma coisa úmida e cálida escorrer-lhe pelo short, e quedou-se, desamparado, enquanto Barriga dava no pé.
Os homens estavam pálidos.
— Quase que nós matávamos esses diabos!
Voltando do cinema, d. Neusa comentou:
— Viu, Dago? Viu no que dá essa mania de ir ao cinema? A gente paga para ver Catherine Deneuve de perna cortada, e na volta, por pouco pouco, encontra nosso filhinho defunto!
Carlos Drummond de Andrade, in 70 historinhas

05/02/2018

Jorge Vercilo - Leve (versão em inglês)

Coragem

Do adversário de verdade flui uma coragem sem limites para dentro de você.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

Confissões de uma manicure

O que a gente escuta neste salão não convém publicar, meu filho. Mas posso contar umas coisinhas. Às vezes não entendo nada do que falam e me concentro nas cutículas ou na pintura nos cantos de uma unha.
Tem de tudo: unhas delicadas, grossas, maltratadas, roídas, bichadas. E história para todo gosto. Por exemplo, o marido da minha cliente menos avarenta senta num banquinho e lê sempre o mesmo livro: Bucólicas. Um homem sereno, com cara de bode e uma bandeirinha do Brasil espetada na gola da camisa. Que diabo ele tanto admira nessas bucólicas? É verdade que a esposa dele é uma mulher triste, e mais triste ainda quando escolhe um esmalte cor de palha para pintar as unhas. Será o livro uma história da mulher do leitor? Não sei. O que eu sei é que quando acabo meu trabalho ela diz: “Azevedão, espicha a gaita”. Estranho: Azevedão não é grande nem grandioso, a voz dele é mais fina que a de uma menina mimada. O fato é que o Azevedão das Bucólicas me dá uma gorjeta que garante o sorvete do meu filho. As outras mulheres vêm sozinhas, mas todas leem revistas de fotos e fofocas de famosos, nenhuma lê Bucólicas; aliás, nenhuma é triste, ninguém abre um livro neste salão de beleza. E se fosse só de beleza… Falo sério: aqui sobra feiura, sobra tanta coisa, nem te conto. Todas querem ter mãos lindas, mas o tempo é cruel, meu filho. Às vezes me espanto quando vejo um anelão de ouro num dedo de bruxa e, quando olho a cara da mulher, penso: como é que esse diabo casou? E eu, como é que eu me juntei com um safado que logo me largou e trocou por outra? Aí penso nas unhas que limpo e pinto, e digo para mim mesma: eu faço a mão dessas mulheres, e o que essas mãos fazem? Trabalham? Lavam roupa e louça? Contam dinheiro? Fazem sexo? Quer dizer, ajudam a fazer sexo?
Essas mãos traem?
E como! Ouvi cada história de unhas traidoras, unhas pintadas por mim, dezenas de mãos adúlteras. Cansei de ouvir nome de hotel, nome de motel, nome de amante. Uma dessas mãos me disse: “Ericleuza, minha querida, será que ele vai gostar das minhas unhas roxas?”.
Eu conhecia o marido dela, um senhor alinhado, magro que nem caniço, mais paciente do que um chinês. Mas não era chinês, era brasileiro mesmo, coitado.
“O doutor? Unhas roxas? Não sei. Talvez não.”
Ela deu uma gargalhada: “O doutor não olha para as minhas mãos, sua tonta. O outro olha”.
E eu não sabia o que dizer, porque não conhecia o outro. Então a madame me disse que ia com o outro toda semana a um motel na Marginal do Tietê, bem depois do presídio. Ela até tirou um cartão da bolsa e me deu: Amor Perdido Amor. Nome esquisito. Por que a palavra amor duas vezes? Perdido por perdido, uma vez não bastava? E a mulher ainda me disse: “Vai lá, minha querida, Amor Perdido Amor é baratinho. E ninguém nos vê”.
Olhei os brilhantes nas mãos dela e pensei: que coroa corajosa! Que mulher ousada! Usa anel de brilhante em São Paulo e ainda frequenta pardieiro.
E os homens que fazem as mãos?
Vaidosos até o tutano, meu filho. Mas como são educados! Colocam as mãos de príncipe no meu regaço. Falam menos do que as mulheres, alguns são mais exigentes, nenhum lê Bucólicas nem se interessa pelas fotos de mulheres nas revistas. Mas ai de mim se meu alicate falhar! Mãos de seda, nunca pegaram pau de enxada, só cabo de guarda-chuva. Quando chove, é um desfile de cabos finos. Eles não falam de motel, acho que são homens fiéis, ou vai ver que nenhum é indiscreto. Eles dizem “Obrigado, Ericleuza”, pagam e vão embora. No mês passado, um deles… Ah, que homem distinto. Lembro que era calado, mas não era carrancudo nem bucólico, só sério. Quando terminei de pintar as unhas dele, reparei nas sobrancelhas. Que olhos, meu filho! Soprou o esmalte com tanta delicadeza que me comoveu. Senti o sopro no meu rosto, um ventinho morno, suave. Aí ele me olhou tanto, e com tanta ternura, que acreditei em alguma coisa: acreditei numa coisa tão linda que meu corpo tremeu, e eu senti aquela quentura…
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

Mafalda


Emprenhar pelos ouvidos

No tímpano da primeira arcada à direita do altar-mor da Igreja da Madre de Deus, no Recife, está um quadro figurando a anunciação à Virgem Maria e ao mesmo tempo a concepção do seu divino Filho. Nossa Senhora ajoelhada ouve o anjo mensageiro do Altíssimo e, das alturas, desce em diagonal um raio luminoso, alcançando a orelha esquerda da Mãe de Deus.
O eflúvio do Espírito Santo impregna a Santa Virgem de sua potência criadora. Emprenhar vem de impraegnare, impregnar.
É uma expressiva materialização, a lo divino, da frase feita popular, empregada na acepção dos que formam opinião e julgamento pelos critérios orais, murmúrios, boatos, rumores, a ouvida vaga da antiga processualística.
Para a antiguidade mitológica, a fecundação podia independer do contato masculino e das vias naturais receptivas. Os inumeráveis casos de gravidez sine concubito motivaram debates judiciários na Idade Média e os tribunais davam ganho de causa às esposas dos cavaleiros cruzados que combatiam na Terra Santa fecundando as mulheres a distância e em sonhos. Mani, a égide da mandioca, foi gerada em sonhos no ventre de sua mãe.
A lição clássica era idêntica. Júpiter concebera Minerva e a trouxera na cabeça. Juno concebera Marte comendo uma flor que crescia em Olene, na Acaia, e Hebe nascera pela demasiada ingestão de alfaces selvagens. Ci tivera Jurupari por ter saboreado abundantes cocuras-do-mato, a porumã, Pourouma cecropiifolia, Aubl. A Cobra-Grande amazônica engravida as cunhãs pela irradiação de sua presença nas águas e não ejaculação do sêmen. No romance de Dona Ausenda, tão popular pelos séculos XV e XVI, cita-se uma açucena que cualquier mujer que la come, luego se siente preñada. É corrente, por essa fecundação via oral, dizer o povo comer, como sinônimo de copular. Certas frutas predispõem à prenhez. “Tempo de caju, tempo de menino.” Sobre o pequi (Caryocar brasiliensis, Camb), o Imperador D. Pedro II, na jornada à Cachoeira de Paulo Afonso em 1859, informou: “O meu guia foi um Fulano de Tal Calaça (Manuel José Gomes), conhecedor deste sertão até Juazeiro, e dos Cariris Novos, onde, segundo me disse, as mulheres emprenham na estação do pequi, excelente fruta, mas um tanto enjoativa, para ele, por causa do oroma, pronúncia dele”.
Dos evangelistas, apenas Lucas (I,35) registra as palavras do anjo: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra”.
Durante séculos discutiu-se a forma material da divina concepção.
A tradição oriental mais poderosa indicava o ouvido, por que por ele entravam o conhecimento, a sabedoria, a palavra de Deus. Toda pregação e ensino eram orais e não escritos. Ouvidos e não olhos. O ouvido era o centro do equilíbrio, da estabilidade física. Um distúrbio no ouvido interno impossibilitaria a direção uniforme e a marcha em linha reta.
Essa doutrina prevaleceu sem maiores disputas. Na noite de 23 de dezembro de 428, na Basílica de Constantinopla, o Arcebispo Proclus pregou sobre a maternidade de Maria, afirmando o que era então ortodoxo: “Le Christ est sorti du sein de la Vierge comme il y est entré, par l’ouïe”.
No momento, o Arcebispo Proclus, de Bizâncio, era a lei de Deus para todo o Oriente, e não o Pontífice de Roma, Celestino I.
Essa imagem veio atravessando tempo e credulidade no âmbito popular. Em fevereiro-março de 1534, François Rabelais, que em 1530 se fizera bachelier em Medicina, na Faculdade de Montpellier, faz nascer o seu Gargantua pela orelha esquerda da Senhora Gargamelle. O percurso fora o seguinte: “Par cet inconvénient furent ou dessus relâchés les cotyledons de la matrice, par lesquels sursauta l’enfant, et entra en la veine creuse, où la dite veine se part en deux, prit son chemin à gauche et sortie par l’oreille senestre”. A intenção irreverente não se fundamentava numa evocação de velho conceito outrora verídico, mas naquele princípio do século XVI, o nascimento de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, não excepcionava dos demais partos, dentro da obstetrícia normal. Escolhendo o nascimento auricular, Rabelais sugeria o exemplo fisiologicamente monstruoso, e localizava a orelha esquerda, justamente aquela onde incide o jorro cintilante do Espírito Santo e que ainda se representa, contemporaneamente, na Igreja da Madre de Deus, no Recife.
O mistério seria a fecundação que, no século V, o Arcebispo Proclus reafirmava ter sido pela orelha, e ainda, vindo ao mundo também por esse conduto. Saíra como entrara, pelo ouvido.
Rabelais não perdeu a oportunidade zombeteira, pelo tempo em que a pilhéria ocorria: “Car je vous dis qu’à Dieu rien n’est impossible, et, s’il voulait, les femmes auraient dorévant ainsi leurs enfants par l’oreille”.
O povo não discutiria o poder de Deus mas já se impusera a uniformidade do parto para todos os viventes, vivíparos e ovíparos.
Quando o Brasil se povoou, essa crendice desaparecera há muitos séculos, mas a frase permanecia nova e própria para os que emprenhavam pelos ouvidos, tendo a voz humana o poder fecundador, porque era hálito, sopro orgânico, criador de Vida, como fizera Jeová na argila manejada pelas suas mãos potentes.
O Prof. Menezes de Oliva estudou mais detidamente esse motivo no seu excelente Você sabia por quê? (Rio de Janeiro, 1962).
Luís da Câmara Cascudo, in Coisas que o povo diz

04/02/2018

Capítulo 1 - Óbito do Autor


Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo; diferença radical entre este livro e o Pentateuco.
Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia - peneirava - uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa ideia no discurso que proferiu à beira de minha cova: –“Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado.” Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego, como quem se retira tarde do espetáculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas três senhoras, - minha irmã Sabina, casada com o Cotrim, -- a filha, um lírio-do-vale, - e... Tenham paciência! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anônima, ainda que não parenta, padeceu mais do que as parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, epiléptica. Nem o meu óbito era coisa altamente dramática... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro anos, não parece que reúna em si todos os elementos de uma tragédia. E dado que sim, o que menos convinha a essa anônima era aparentá-lo. De pé, à cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extinção.
- Morto! morto! dizia consigo.
E a imaginação dela, como as cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o voo desde o Ilisso às ribas africanas, sem embargo das ruínas e dos tempos, - a imaginação dessa senhora também voou por sobre os destroços presentes até às ribas de uma África juvenil... Deixá-la ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu me restituir aos primeiros anos. Agora, quero morrer tranquilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma.
Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma ideia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade.
Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.
Machado de Assis, in Memórias póstumas de Brás Cubas

Busca da felicidade

“Há casos em que a felicidade consiste não em se achar o que se busca e deseja, senão em se não achar.”
Padre Antônio Vieira