— Qué buscades, los vaqueros.
— Una, ay, novilleja, una...
Góngora
Reunindo redondo mais de meio milhar
de vaqueiros, na cidade baiana de Cipó, no São João deste ano,
para desfile, guarda-de-honra, jogos de vaquejada e homenagem
recíproca entre o Chefe da Nação e os simples cavaleiros do Sertão
Ulterior, o que Assis Chateaubriand moveu — além de colocar sob
tantos olhos os homens de um ofício grave e arcaico, precisado de
amparo, e de desferir admodo um comando de poesia — foi algo
de coração e garra, intento amplo, temero, indiminuível: a
inauguração dinâmica de um símbolo.
I
Antigo veio o tema: o de estrênuos
pegureiros, que lutavam com anjos, levantavam suas tendas e vadeavam
os desertos — Caldeia a Canaã um rastro de rebanhos, e o
itinerário do espírito.
E velho o idílio — “... eleláthei
boúkos...” — retente, trescantado: o ruro, o zagal, as
faias, um vão amor e a queixa, de “quanto gado vacum pastava e
tinha...”
Sem embargo, o epos, e por bem
que cedo, aqui, em ciclo e gestas se fizesse no folclore, emergiu só
mais tarde na literatura.
De começo, nossa volumosa lida
pastoril, subalterna e bronca, desacertava das medidas clássicas,
segundo se sente do árcade:
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado,
De tosco trato, de expressões
grosseiro...
II
Mas o boi e o povo do boi, enquanto
tudo, iam em avanço, horizontal e vertical, riscando roteiros e
pondo arraiais no país novo.
No Centro, no Sul, ao Norte, a Oeste,
por mão de trechos do interior fechado e aberto, e na beira das
fronteiras, na paz e na guerra, se aviava o gado, com sua preia, sua
cria, sua riqueza, seu negócio — léu de bando, contrabando,
abactores e abigeatos — e as peripécias de um trato animado e
primitivo, obrigador de gente apta e fundador de longa tradição
rusticana.
Gaúchos meridionais, peões
mato-grossenses, pastoreadores marajoaras, e outros de muita parte
para dentro desses extremos geográficos; mais obtidos, porém, e
contados como vaqueiros propriamente, os do rugoso sertão que ajunta
o Norte de Minas, porção da Bahia, de Sergipe, Pernambuco, Paraíba,
Rio Grande, Ceará, Piauí, Maranhão, Goiás.
Através dessa quantidade de cerrados,
gerais, carrascos campos, caatingas, serras sempre ou avaras várzeas,
planaltos, chapadas e agrestes, regiões pouco fáceis,
espalharam-se, na translação das boiadas, os gadeiros
são-franciscanos com querência de espaço, sertanistas subidores,
barões do couro, e seus servos campeiros, mais ou menos curibocas,
herdeiros idealmente do índio no sentido de acomodação ao ruim da
terra e da invenção de técnicas para paliá-lo. Nossos, os
vaqueiros.
III
Assim a apanhou Alencar — a figura
afirmativa do boieiro sertanejo — passando-a na arte como avatar
romântico, daí tomado, bem ou mal, por outros, à maneira regional
ou realista, mais indesviado da sugestão sã de epopeia, porquanto
sua presença — esportiva, equestre, viril, virtualmente marcial —
influi esse tom maior romanceável, aqui como nos países de perto,
de vulto pecuário análogo, valendo ver em exemplos, tais o “rodeo”
e a “vaqueria general” no Doña Bárbara, como respondem,
em si e no modus novelístico de seu emprego, aos mesmos
episódios postos pelos nossos autores: sentido de refletir, no herói
que a supera, a violência da natureza circundante.
[...]
Guimarães Rosa, em Ave, palavra

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