04/11/2026

Pé-duro, chapéu-de-couro

 


— Qué buscades, los vaqueros.
— Una, ay, novilleja, una...
Góngora

Reunindo redondo mais de meio milhar de vaqueiros, na cidade baiana de Cipó, no São João deste ano, para desfile, guarda-de-honra, jogos de vaquejada e homenagem recíproca entre o Chefe da Nação e os simples cavaleiros do Sertão Ulterior, o que Assis Chateaubriand moveu — além de colocar sob tantos olhos os homens de um ofício grave e arcaico, precisado de amparo, e de desferir admodo um comando de poesia — foi algo de coração e garra, intento amplo, temero, indiminuível: a inauguração dinâmica de um símbolo.

I

Antigo veio o tema: o de estrênuos pegureiros, que lutavam com anjos, levantavam suas tendas e vadeavam os desertos — Caldeia a Canaã um rastro de rebanhos, e o itinerário do espírito.
E velho o idílio — “... eleláthei boúkos...” — retente, trescantado: o ruro, o zagal, as faias, um vão amor e a queixa, de “quanto gado vacum pastava e tinha...”
Sem embargo, o epos, e por bem que cedo, aqui, em ciclo e gestas se fizesse no folclore, emergiu só mais tarde na literatura.
De começo, nossa volumosa lida pastoril, subalterna e bronca, desacertava das medidas clássicas, segundo se sente do árcade:

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado,
De tosco trato, de expressões grosseiro...

II

Mas o boi e o povo do boi, enquanto tudo, iam em avanço, horizontal e vertical, riscando roteiros e pondo arraiais no país novo.
No Centro, no Sul, ao Norte, a Oeste, por mão de trechos do interior fechado e aberto, e na beira das fronteiras, na paz e na guerra, se aviava o gado, com sua preia, sua cria, sua riqueza, seu negócio — léu de bando, contrabando, abactores e abigeatos — e as peripécias de um trato animado e primitivo, obrigador de gente apta e fundador de longa tradição rusticana.
Gaúchos meridionais, peões mato-grossenses, pastoreadores marajoaras, e outros de muita parte para dentro desses extremos geográficos; mais obtidos, porém, e contados como vaqueiros propriamente, os do rugoso sertão que ajunta o Norte de Minas, porção da Bahia, de Sergipe, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande, Ceará, Piauí, Maranhão, Goiás.
Através dessa quantidade de cerrados, gerais, carrascos campos, caatingas, serras sempre ou avaras várzeas, planaltos, chapadas e agrestes, regiões pouco fáceis, espalharam-se, na translação das boiadas, os gadeiros são-franciscanos com querência de espaço, sertanistas subidores, barões do couro, e seus servos campeiros, mais ou menos curibocas, herdeiros idealmente do índio no sentido de acomodação ao ruim da terra e da invenção de técnicas para paliá-lo. Nossos, os vaqueiros.

III

Assim a apanhou Alencar — a figura afirmativa do boieiro sertanejo — passando-a na arte como avatar romântico, daí tomado, bem ou mal, por outros, à maneira regional ou realista, mais indesviado da sugestão sã de epopeia, porquanto sua presença — esportiva, equestre, viril, virtualmente marcial — influi esse tom maior romanceável, aqui como nos países de perto, de vulto pecuário análogo, valendo ver em exemplos, tais o “rodeo” e a “vaqueria general” no Doña Bárbara, como respondem, em si e no modus novelístico de seu emprego, aos mesmos episódios postos pelos nossos autores: sentido de refletir, no herói que a supera, a violência da natureza circundante.
[...]

Guimarães Rosa, em Ave, palavra

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