143.
Tenho mais pena dos que sonham o
provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o
longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e
acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples,
para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes
dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da
verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser
imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à
costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da
direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva
dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a
própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e
independente; o outro submisso das contingências do que acontece.
Por isso amo as paisagens impossíveis
e as grandes áreas desertas dos piamos onde nunca estarei. As épocas
históricas passadas são de pura maravilha, pois desde logo não
posso supor que se realizarão comigo. Durmo quando sonho o que não
há; vou despertar quando sonho o que pode haver.
Debruço-me, de uma das janelas de
sacada do escritório abandonado ao meio-dia, sobre a rua onde a
minha distração sente movimentos de gente nos olhos, e os não vê,
da distância da meditação. Durmo sobre os cotovelos onde o
corrimão me dói, e sei de nada com um grande prometimento. Os
pormenores da rua parada onde muitos andam destacam-se-me com um
afastamento mental: os caixotes apinhados na carroça, os sacos à
porta do armazém do outro, e, na montra mais afastada da mercearia
da esquina, o vislumbre das garrafas daquele vinho do Porto que sonho
que ninguém pode comprar. Isola-se-me o espírito de metade da
matéria. Investigo com a imaginação. A gente que passa na rua é
sempre a mesma que passou há pouco, é sempre o aspeto flutuante de
alguém, nódoas de movimento, vozes de incerteza, coisas que passam
e não chegam a acontecer.
Anotação com a consciência dos
sentidos, antes que com os mesmos sentidos…
A possibilidade de outras coisas... E,
de repente, soa, de detrás de mim no escritório, a vinda
metafisicamente abrupta do moço.
Sinto que o poderia matar por me
interromper o que eu não estava pensando. Olho-o, voltando-me, com
um silêncio cheio de ódio, escuto antecipadamente, numa tensão de
homicídio latente, a voz que ele vai usar para me dizer qualquer
coisa. Ele sorri do fundo da casa e dá-me as boas-tardes em voz
alta. Odeio-o como ao universo. Tenho os olhos pesados de supor.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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