02/11/2026

Casa

 



Não tinha nem uma hora que chegara a Candeia e Samuel já estava na rua da Matriz, segundo a referência da velha. Tudo rápido demais. Achou que levaria mais algum tempo para, enfim, estar diante de sua avó e de seu pai. O que diria? Não pensou em palavras para dizer, mas lembrava da voz de Mariinha, letra por letra, pedindo que fosse encontrá-los.
Se pudesse, mataria o pai. Nunca matou, não tinha arma, não tinha ideia do tamanho do homem. Eram anos de motivos, especialmente pelos últimos quinze dias, o rosto de Mariinha, o fio de voz, os quatro pedidos. Respirou fundo e foi.
Não demorou a achar a casa, era a maior da rua, perto da igreja. Tudo continuava morto. Olhou ao redor antes de chamar por alguém naquele portão. Portas e janelas fechadas com tijolos. Mato crescendo por cima das telhas, saindo das frestas, raízes quebrando o piso das calçadas e varandas, vencendo a pedra. As casas distribuídas acompanhando o desenho da praça. Em muitas delas ainda era possível ler as palavras escritas com tinta velha e descascada. “Barbearia Santo Antônio”. “Lanches Santo Antônio”. “Pousada Santo Antônio”. “Restaurante Santo Antônio”. Marcas borradas de um passado que ele não compreendia.
Uma coragem súbita tomou conta dos seus pés novamente. Era a besta-fera, ele acreditava. A vida que levara nos últimos dias fazia parecer mais possível acreditar no Mal. Puxou o papel do bolso, precisava ler mais uma vez as oito palavras e o número já cravados na memória e fazer o que tinha de ser feito ali.
Bateu palmas com a barriga encostada no portão de ferro, fechado com corrente e cadeado. Um jardim na frente, o mato tomando conta de tudo. O mato e os gatos. Coisa de oito, nove, e cada vez chegava mais. As duas janelas estavam fechadas com tijolos. Era uma casa grande, com alpendre, cadeira de balanço enferrujada. Havia uma grade na frente da porta de madeira e não demorou duas palmas para que a porta de dentro se abrisse e surgisse uma mulher de dificílima descrição.
— A senhora é d. Niceia?
— E você é Samuel.
Não era uma pergunta. Não era um sorriso. Não era uma acolhida.
— A senhora me conhece?
— Não. E nem você. Mas sei quem você é.
Tinha cara e conversa de louca.
— Está com fome? — perguntou a velha.
— Muita.
— Tá se vendo pela cara.
…
— Veio do Juazeiro?
— Foi.
— E não trouxe nada pra mim?
— Não.
— Sua mãe mandou.
— Mandou, mas eu não trouxe.
…
— Veio como?
— A pé.
— O caminho todo?
— Foi.
— Quantos dias?
— Uns quinze.
— Dezesseis.
— Como a senhora sabe?
— Eu sei.
…
— E o Manoel?
— Que Manoel?
— O seu filho.
— Ah, sim. Meu Manoel… — fez nuvem de choro em seu rosto, baixou a cabeça, deixando à mostra os cabelos raros e brancos.
— Ele mora aqui na cidade?
— Isso não é mais uma cidade.
— Mora onde?
— É mistério de Deus. Ele tem muitos.
— Ele se mudou daqui faz tempo?
— …
Não houve resposta. Ela olhava para Samuel, somente.
— Então ele mora aqui?
— Não adianta tentar entrar. — Segurou a porta com as duas mãos, mudou o rosto, agora tinha raiva.
— Ele está vivo?
— Tá com fome?
— Muita.
A mudança de assunto foi bem-sucedida.
— Tá se vendo. E sujo, carecido de banho.
Samuel tinha certeza de que ela o chamaria para entrar e depois, talvez mais tarde ou no dia seguinte, poderia perguntar os detalhes do que aconteceu com Manoel, seu pai. Se estivesse morto, pouparia o seu trabalho. Talvez ficasse lá uns tempos, a ideia de uma casa para dormir era tudo de que ele precisava depois de dezesseis dias como um cão de rua. Se ela notou que ele estava carecido de banho, o convite viria a seguir, ele pensou. Mas não veio. Algo dizia que Manoel morava lá e estava escondido, talvez pressentindo que o filho não o buscara para pedir a bênção. Niceia voltou a falar:
— Já escureceu e daqui a pouco vai chover. Você saia daqui, vá andando pelo mato. Segue aqui na rua, passa da matriz e do cemitério, entra nos matos mesmo, sempre reto, sem dobrar. Quando avistar um pé de goiaba, aí dobra pro rumo da direita, que tem um canto coberto pra dormir. Entra correndo e dorme, o temporal vem forte.
Bateu a madeira velha da porta com força e sumiu. Nenhum rastro de som lá por dentro. Por todo esse tempo Samuel permanecia com a barriga colada no portão de ferro e a mulher de cabelos desgrenhados do outro lado. Não foi assim que Mariinha descreveu a velha Niceia. Não foi assim que ele imaginou o encontro com sua avó.
Ela chamou a chuva, pediu que viesse. Antes, pouco antes, o céu estava limpo, sem dar sinal nenhum de que as nuvens estavam para chorar. Todas as nuvens do céu choraram ao mesmo tempo.

Socorro Acioli, em A cabeça do santo

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