Não tinha nem uma hora que chegara a
Candeia e Samuel já estava na rua da Matriz, segundo a referência
da velha. Tudo rápido demais. Achou que levaria mais algum tempo
para, enfim, estar diante de sua avó e de seu pai. O que diria? Não
pensou em palavras para dizer, mas lembrava da voz de Mariinha, letra
por letra, pedindo que fosse encontrá-los.
Se pudesse, mataria o pai. Nunca
matou, não tinha arma, não tinha ideia do tamanho do homem. Eram
anos de motivos, especialmente pelos últimos quinze dias, o rosto de
Mariinha, o fio de voz, os quatro pedidos. Respirou fundo e foi.
Não demorou a achar a casa, era a
maior da rua, perto da igreja. Tudo continuava morto. Olhou ao redor
antes de chamar por alguém naquele portão. Portas e janelas
fechadas com tijolos. Mato crescendo por cima das telhas, saindo das
frestas, raízes quebrando o piso das calçadas e varandas, vencendo
a pedra. As casas distribuídas acompanhando o desenho da praça. Em
muitas delas ainda era possível ler as palavras escritas com tinta
velha e descascada. “Barbearia Santo Antônio”. “Lanches Santo
Antônio”. “Pousada Santo Antônio”. “Restaurante Santo
Antônio”. Marcas borradas de um passado que ele não compreendia.
Uma coragem súbita tomou conta dos
seus pés novamente. Era a besta-fera, ele acreditava. A vida que
levara nos últimos dias fazia parecer mais possível acreditar no
Mal. Puxou o papel do bolso, precisava ler mais uma vez as oito
palavras e o número já cravados na memória e fazer o que tinha de
ser feito ali.
Bateu palmas com a barriga encostada
no portão de ferro, fechado com corrente e cadeado. Um jardim na
frente, o mato tomando conta de tudo. O mato e os gatos. Coisa de
oito, nove, e cada vez chegava mais. As duas janelas estavam fechadas
com tijolos. Era uma casa grande, com alpendre, cadeira de balanço
enferrujada. Havia uma grade na frente da porta de madeira e não
demorou duas palmas para que a porta de dentro se abrisse e surgisse
uma mulher de dificílima descrição.
— A senhora é d. Niceia?
— E você é Samuel.
Não era uma pergunta. Não era um
sorriso. Não era uma acolhida.
— A senhora me conhece?
— Não. E nem você. Mas sei quem
você é.
Tinha cara e conversa de louca.
— Está com fome? — perguntou a
velha.
— Muita.
— Tá se vendo pela cara.
…
— Veio do Juazeiro?
— Foi.
— E não trouxe nada pra mim?
— Não.
— Sua mãe mandou.
— Mandou, mas eu não trouxe.
…
— Veio como?
— A pé.
— O caminho todo?
— Foi.
— Quantos dias?
— Uns quinze.
— Dezesseis.
— Como a senhora sabe?
— Eu sei.
…
— E o Manoel?
— Que Manoel?
— O seu filho.
— Ah, sim. Meu Manoel… — fez
nuvem de choro em seu rosto, baixou a cabeça, deixando à mostra os
cabelos raros e brancos.
— Ele mora aqui na cidade?
— Isso não é mais uma cidade.
— Mora onde?
— É mistério de Deus. Ele tem
muitos.
— Ele se mudou daqui faz tempo?
— …
Não houve resposta. Ela olhava para
Samuel, somente.
— Então ele mora aqui?
— Não adianta tentar entrar. —
Segurou a porta com as duas mãos, mudou o rosto, agora tinha raiva.
— Ele está vivo?
— Tá com fome?
— Muita.
A mudança de assunto foi
bem-sucedida.
— Tá se vendo. E sujo, carecido de
banho.
Samuel tinha certeza de que ela o
chamaria para entrar e depois, talvez mais tarde ou no dia seguinte,
poderia perguntar os detalhes do que aconteceu com Manoel, seu pai.
Se estivesse morto, pouparia o seu trabalho. Talvez ficasse lá uns
tempos, a ideia de uma casa para dormir era tudo de que ele precisava
depois de dezesseis dias como um cão de rua. Se ela notou que ele
estava carecido de banho, o convite viria a seguir, ele pensou. Mas
não veio. Algo dizia que Manoel morava lá e estava escondido,
talvez pressentindo que o filho não o buscara para pedir a bênção.
Niceia voltou a falar:
— Já escureceu e daqui a pouco vai
chover. Você saia daqui, vá andando pelo mato. Segue aqui na rua,
passa da matriz e do cemitério, entra nos matos mesmo, sempre reto,
sem dobrar. Quando avistar um pé de goiaba, aí dobra pro rumo da
direita, que tem um canto coberto pra dormir. Entra correndo e dorme,
o temporal vem forte.
Bateu a madeira velha da porta com
força e sumiu. Nenhum rastro de som lá por dentro. Por todo esse
tempo Samuel permanecia com a barriga colada no portão de ferro e a
mulher de cabelos desgrenhados do outro lado. Não foi assim que
Mariinha descreveu a velha Niceia. Não foi assim que ele imaginou o
encontro com sua avó.
Ela chamou a chuva, pediu que viesse.
Antes, pouco antes, o céu estava limpo, sem dar sinal nenhum de que
as nuvens estavam para chorar. Todas as nuvens do céu choraram ao
mesmo tempo.
Socorro Acioli, em A cabeça do santo

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