06/10/2026

Outra barata

 



Boto o papel na máquina, para alinhavar estas mal traçadas, e eis que na ponta da mesa surge silenciosa baratinha, e…
— Que nojo! — Exclama, em alguma parte do país, minha leitora.
— E, sabe? fica me contemplando.
— Gostou de sua cara. Meus cumprimentos.
— Então decidi: vou escrever sobre a baratinha.
— Mas você não podia inventar assunto mais cronicável? Esse é de morte.
— Sei que é de morte, e certamente vou matá-la antes de fazer a crônica. Narrarei a contemplação e morte da baratinha.
— O que você devia fazer, antes de mais nada, era dedetizar sua casa, viu?
— Pensa que não dedetizei? Este é o primeiro motivo de meu interesse pela baratinha. Não por todas, ou por qualquer. Por esta. Resistiu à dedetização, veio me olhar face a face. Tem alguma coisa a me dizer.
— Veio desafiá-lo, é isso.
— É possível. Mas também é possível que tenha vindo em missão de paz. Quer talvez explicar-me que as baratas, pelo menos as baratinhas, não são aquilo que a gente está pensando delas há milênios.
— Você é um boboca.
— Obrigado. Mas Oswaldo Goeldi era um grande artista, e simpatizava com a barata sem uma perna que todas as noites circulava no seu ateliê, ceando restos de cola. Fazia companhia ao gravador, madrugada alta.
— Bem, o Goeldi…
— E Manuel Bandeira me contou, um dia, que Joanita Blank, flor de pessoa, absolutamente limpa de corpo e hábitos, chamava de amiga uma baratona frequentadora de sua mesa de trabalho. Queriam que ela a esmagasse com uma chinelada. “Eu, matar uma amiga?!”, protestou Joanita.
— Mas você disse que vai matar a sua.
— Disse que vou matar, mas não estou bem certo disso. Ela começou a me cativar, como se diz no Principezinho. Não é todos os dias que uma barata fica parada diante de um homem, tranquila, tranquila.
— Nem todos os dias que um homem fica parado diante de uma barata, tranquilo, tranquilo.
— Me encara com tanta confiança que seria uma sujeira matá-la.
— Sujeira é a própria barata, você não desconfia?
— Sei que eu e ela não vamos nos entender por palavras, como eu e você não estamos nos entendendo neste momento. A comunicação tem de ser de outro jeito. Estou me esforçando por entender a barata, você não vê logo?
— Francamente: se você começa por não se entender comigo, como é que vai se entender com uma porcaria dessa?
— De qualquer modo, tento. A iniciativa é dela. Você me garante que sou superior a esse bicho. Como então vou recusar o diálogo, tornando-me inferior a uma baratinha?
— Esse orgulho, essa falsa humildade…
— Ora, você está cultivando preconceitos femininos com relação à barata. Joanita deve ser a única exceção. Todas as outras mulheres do planeta não admitem que se tente lançar uma ponte entre a barata e o homem, pelo menos para troca de pontos de vista.
— Não ataque as mulheres em bloco. É demagogia. Pensa que eu não tenho sensibilidade? Se alguém me provasse que barata sofre como a gente, e se ela não fosse tão repugnante…
— Aí está. Para você ter pena da barata, era preciso que ela não fosse barata. Fosse um inseto encantador, como a borboleta.
— Talvez você tenha razão. Gostar do que é bonito não tem valor. O Goeldi…
— Viu? Você passou a compreender a primeira letra da barata. Não é “i” de imunda, é “m” de miséria. Pobre ser miserável, condenado a destruir e ser destruído. Criação triste da natureza.
— Começo a ter pena da baratinha.
— Mas agora é tarde. Ela está se movendo, não parece mais disposta a uma aliança comigo. Retomou o ar dissimulado. Vou matá-la.
— Não faça isso, espere…
— Pronto. Matei.
— Monstro!
Ah, mulheres, mulheres!

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Nenhum comentário:

Postar um comentário