Boto o papel na máquina, para
alinhavar estas mal traçadas, e eis que na ponta da mesa surge
silenciosa baratinha, e…
— Que nojo! — Exclama, em alguma
parte do país, minha leitora.
— E, sabe? fica me contemplando.
— Gostou de sua cara. Meus
cumprimentos.
— Então decidi: vou escrever sobre
a baratinha.
— Mas você não podia inventar
assunto mais cronicável? Esse é de morte.
— Sei que é de morte, e certamente
vou matá-la antes de fazer a crônica. Narrarei a contemplação e
morte da baratinha.
— O que você devia fazer, antes de
mais nada, era dedetizar sua casa, viu?
— Pensa que não dedetizei? Este é
o primeiro motivo de meu interesse pela baratinha. Não por todas, ou
por qualquer. Por esta. Resistiu à dedetização, veio me olhar face
a face. Tem alguma coisa a me dizer.
— Veio desafiá-lo, é isso.
— É possível. Mas também é
possível que tenha vindo em missão de paz. Quer talvez explicar-me
que as baratas, pelo menos as baratinhas, não são aquilo que a
gente está pensando delas há milênios.
— Você é um boboca.
— Obrigado. Mas Oswaldo Goeldi era
um grande artista, e simpatizava com a barata sem uma perna que todas
as noites circulava no seu ateliê, ceando restos de cola. Fazia
companhia ao gravador, madrugada alta.
— Bem, o Goeldi…
— E Manuel Bandeira me contou, um
dia, que Joanita Blank, flor de pessoa, absolutamente limpa de corpo
e hábitos, chamava de amiga uma baratona frequentadora de sua mesa
de trabalho. Queriam que ela a esmagasse com uma chinelada. “Eu,
matar uma amiga?!”, protestou Joanita.
— Mas você disse que vai matar a
sua.
— Disse que vou matar, mas não
estou bem certo disso. Ela começou a me cativar, como se diz no
Principezinho. Não é todos os dias que uma barata fica parada
diante de um homem, tranquila, tranquila.
— Nem todos os dias que um homem
fica parado diante de uma barata, tranquilo, tranquilo.
— Me encara com tanta confiança que
seria uma sujeira matá-la.
— Sujeira é a própria barata, você
não desconfia?
— Sei que eu e ela não vamos nos
entender por palavras, como eu e você não estamos nos entendendo
neste momento. A comunicação tem de ser de outro jeito. Estou me
esforçando por entender a barata, você não vê logo?
— Francamente: se você começa por
não se entender comigo, como é que vai se entender com uma porcaria
dessa?
— De qualquer modo, tento. A
iniciativa é dela. Você me garante que sou superior a esse bicho.
Como então vou recusar o diálogo, tornando-me inferior a uma
baratinha?
— Esse orgulho, essa falsa
humildade…
— Ora, você está cultivando
preconceitos femininos com relação à barata. Joanita deve ser a
única exceção. Todas as outras mulheres do planeta não admitem
que se tente lançar uma ponte entre a barata e o homem, pelo menos
para troca de pontos de vista.
— Não ataque as mulheres em bloco.
É demagogia. Pensa que eu não tenho sensibilidade? Se alguém me
provasse que barata sofre como a gente, e se ela não fosse tão
repugnante…
— Aí está. Para você ter pena da
barata, era preciso que ela não fosse barata. Fosse um inseto
encantador, como a borboleta.
— Talvez você tenha razão. Gostar
do que é bonito não tem valor. O Goeldi…
— Viu? Você passou a compreender a
primeira letra da barata. Não é “i” de imunda, é “m” de
miséria. Pobre ser miserável, condenado a destruir e ser destruído.
Criação triste da natureza.
— Começo a ter pena da baratinha.
— Mas agora é tarde. Ela está se
movendo, não parece mais disposta a uma aliança comigo. Retomou o
ar dissimulado. Vou matá-la.
— Não faça isso, espere…
— Pronto. Matei.
— Monstro!
Ah, mulheres, mulheres!
Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

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