E esta? Em Março de 1975, e mais
acentuadamente no mês seguinte, chegaram-nos rumores a Portugal do
desagrado do governo espanhol, então presidido por Carlos Arias
Navarro, quanto aos caminhos, perigosos em seu entender, que a
revolução portuguesa estava tomando. A derrota do golpe militar
direitista de 11 de Março, de que o general Spínola havia sido
inspirador e chefe, teve como imediata consequência o revigoramento
das forças políticas de esquerda, incluindo as organizações
sindicais. Ao que parece, Arias Navarro entrou em pânico, a tal
ponto que, num encontro com o vice-secretário de Estado
norte-americano Robert Ingersoll, manifestou a ideia de que Portugal
era uma séria ameaça para Espanha, não só pelo desenvolvimento
que a situação ali estava tomando mas também pelo apoio exterior
que poderia obter e que seria hostil a Espanha. O passo seguinte,
segundo Arias Navarro, poderia ser a guerra. Da informação que,
acto contínuo, Ingersoll transmitiu ao secretário de Estado Henry
Kissinger, consta o seguinte: “Espanha estaria disposta a lançar
sozinha o combate anticomunista se necessário. É um país forte e
próspero. Não quer pedir ajuda, mas confia em que terá a
cooperação e a compreensão dos seus amigos, não só no interesse
de Espanha, mas também de todos aqueles que pensam da mesma
maneira”. Numa outra conversação em 9 de Abril com Wells Stabler,
embaixador dos Estados Unidos, Arias Navarro disse que “o Exército
espanhol conhece os perigos do comunismo pela experiência da Guerra
Civil e está totalmente unido”.
E esta? Nós, aqui, preocupados em pôr
de pé, contra os mil ventos e marés de dentro e os que estavam a
ser preparados de fora, um futuro mais digno para Portugal, e os
nossos vizinhos, nuestros hermanos, a tramarem com os Estados Unidos
uma guerra que provavelmente nos deixaria destruídos e, não
duvidemos, malferida a própria Espanha. Depois das conversações
que Franco manteve no passado com a Alemanha de Hitler com vista à
partilha, pataca a mim, pataca a ti, das colónias portuguesas,
pairava agora sobre as nossas cabeças a ameaça explícita de uma
invasão à qual talvez só tenha faltado o sim dos Estados Unidos.
Terei de dizer que não foi para isto
que escrevi A jangada de pedra?
José Saramago, em O caderno
Nenhum comentário:
Postar um comentário