29/10/2026

Oração para desaparecer



6.

— Ele veio jogar as cinzas da mãe no rio do ouro.
Jorge entrou na minha vida no momento em que ouvi esta frase. Quem disse foi Fátima, irmã de Florice. Explicava que ele avisou que viria para deixar as cinzas da mãe no rio do ouro e ficaria uns dias, e isso foi, para todos, uma surpresa muito feliz. Eu não o vi nessa hora, o nome dele chegou antes, sonoro, gostoso de dizer: Jorge. Perguntaram se ele estava bem, parecia que sim, sempre foi forte, mas sentia muito a falta da mãezinha. Ele chegaria logo, foi buscar o carro na frente da rodoviária, assim ficaria mais fácil levar as bagagens. Depois soube que era o rio Douro, claro, mas na hora escutei um pouco diferente.
Compreendi essa frase no meio de uma confusão de vozes na chegada à Braga.
Quando falavam rápido eu não entendia nada do português deles, nada mesmo, todos ao mesmo tempo, era uma massa de vozes. Uma palavra ou outra saltava, desisti de compreender. Ocupei meu tempo carregando as malas e bolsas que levamos com presentes, roupas, comidas, coisas, todos se abraçando e com tanto a dizer e eu atordoada por tudo, tentava ser útil e silenciosa para disfarçar meu desentendimento.
Não sabia que eram trigêmeas. Três Florices abraçadas, idênticas, vestidas com os mesmos tons de sobriedade mas diferentes nos detalhes, reagiam ao encontro com choro ou riso, nisso variavam, mas eram iguais e falavam ao mesmo tempo. Maria Florice, Maria de Fátima, Maria de Lourdes estavam juntas de novo para comemorar os setenta anos de suas vidas. Cada uma viveu setenta, eram então duzentos e dez anos, faziam a conta o tempo todo, gostavam de comparar quem fez mais isso ou aquilo, riam das próprias asneiras.
A casa para onde iríamos era o lugar onde nasceram e viveram com os pais. Florice e Lourdes mudaram por causa dos trabalhos dos maridos, mas Fátima quis ficar. Sempre quis estar em Aboim, cuidar de tudo, limpar as lápides dos familiares no cemitério, a guardiã dos mortos.
Falavam rápido, aos sobressaltos, até que Jorge chegou. Veio dirigindo a carrinha de Aboim até Braga para nos buscar, caberíamos todos. E ele está aqui? Sim, veio jogar as cinzas da mãe no rio do ouro, essa foi a sequência exata do diálogo entre eles. Acho importante falar tudo sobre Jorge a partir de agora. A entrada dele na minha vida transforma muitas coisas.

— E é por causa dele que estás aqui?
— Sim. Porque ele sabia do seu trabalho. Poucos sabem, não é?
— Poucos, sim. Preciso dos clientes, mas não sou fácil de encontrar. Tenho de mudar sempre de lugar para que não me encontrem. Não é uma vida fácil. Continua, Aparecida, já temos de encerrar a entrevista de hoje, mas preciso saber sobre Jorge.

Pois, esse dia da chegada pareceu durar umas quarenta horas, de tão intenso. Só percebo agora, que preciso recontar. No caminho Florice me avisou que Fátima era a mais interessada nos Ressurrectos. Olhou para mim pela primeira vez perguntando qual seria meu nome, afinal, porque sabia que cheguei sem nada.
— Aparecida, como combinamos — Florice respondeu por mim.
— Eu sei, mas a menina precisa de um sobrenome, acho que pode ser Reis. Aparecida dos Reis, que tal? Se gostam, está bem, pois foi assim que ficou registrado no caderno da prefeitura, já está lá seu nome como voluntária no projeto dos bordados minhotos. Não pediram documentos, eu mesma anotei.
— Fátima é mesmo engraçada — foi Lourdes quem disse. — Ela arranja tudo como quer, faz de conta que está pedindo uma opinião e segue do jeito que acha certo de qualquer forma. Sempre foi assim.
Florice era uma mulher de pensamento prático, concreto, uma dona de casa impecável, maternal, cuidadosa, legado de uma vida como enfermeira. Fátima era conectada com o mundo, com as causas ao seu redor, não gostava de cuidar de casa, queria estar sempre cercada de pessoas e de movimento. Lourdes, um amor de criatura. Distraída, filósofa, batizou a fábrica de vinhos do marido com o nome Beijos de Beber, uma mulher com a cabeça constantemente acima das nuvens, lendo, pensando.
Já eu não tive tempo de pensar, de dizer sim ou não, perguntar o que é isso de bordado minhoto, já estava decidido que essa seria minha ocupação em Aboim, além de ajudar Fátima com a vida na casa, no alto de uma colina naquela vila de poucas casas e de frio lancinante. Isso tudo foi tratado na estrada entre Braga e Aboim, fui comunicada. Queria chamar dona Fátima, por respeito, mas ela não permitiu.
Quando o cansaço calou a todas por um tempo, fez-se silêncio e pude ver o Minho pela janela. Na frente de todas as moradas havia uma construção alta, comprida e estreita, com uma cruz em cima, e cheguei a achar que eram túmulos. Perguntei por que enterravam as pessoas assim, no jardim, na frente de casa. Pareceu piada.
— São espigueiros, menina. Nada trágico ou dramático, apenas espigueiros onde se armazenam cereais.
Claro que a resposta foi de Fátima. Riram de mim, da minha primeira vez no Minho, desconhecendo tudo. Jorge tentou ser discreto, mas também riu e olhou pelo retrovisor. Era jovem, usava óculos escuros, não pude ver direito o seu rosto, mas vi seu tamanho, um homem que ocupava todo o espaço, as mãos firmes na direção do carro, as pernas, olhei o que pude, tentei ser discreta, mas tempos depois ele disse que percebeu que eu esticava o pescoço. Ele nos deixou em casa e teria de ir resolver algo com urgência, não pude ver direito.
Só consegui ter um pouco de paz à noite, antes do jantar. Quando chegamos à casa levamos muitas horas descarregando todas as bagagens, fazendo comida para mais tarde, e logo entrei na rotina porque isso era mais fácil do que tentar conversar ou entender qualquer coisa. Arrumei a mesa para seis pessoas, sem fazer as contas, porque assim mandaram. Ocupava-me com o leva e traz de pratos e taças, mais vinho, até soar a campainha com a chegada do sexto convidado que faltava.
Era Jorge, com três ramalhetes de flores e uma cestinha de queijos e geleias. Não trouxe vinho como manda o costume português porque sei que nessa casa só se toma Beijos de Beber, ele disse, sendo coberto de abraços por todos. Só então reparei que era este o nome de todas as garrafas de vinho da casa, as vazias e as duas caixas cheias, Beijos de Beber.
Apresentaram-me como Aparecida enquanto eu estava na cozinha, lavando copos e taças. Florice falou que me desenterraram em Almofala e me assustei, derrubei uma taça e quebrei dentro da pia, não esperava esse assunto. Fernando explicou que poderíamos falar dos Ressurrectos naturalmente enquanto estivéssemos a sós, a família e eu. Jorge é da família. E disse que não valia a pena sofrer por aquele enigma imenso de ressurgir em outra terra, não tem muito o que remoer sobre isso, é assim. A mãe de Jorge era prima das Marias, sabiam de tudo.
Quando por fim nos sentamos para jantar o assunto era a minha vida. As duas irmãs já sabiam dos detalhes: que eu falava desde o primeiro dia, que não tinha nenhuma memóriaalém dos sonhos, da reação emocional ao sino e ao mar, das pistas esparsas que guardo sobre mim. Minha esperança era de que Fátima tivesse alguma informação sobre o que eu poderia fazer para me salvar, mas minha ausência total de lembranças também a espantava. Sua opinião sobre os Ressurrectos era muito prática e concreta: era preciso levantar e seguir até que alguma verdade fosse revelada. Sem jamais parar a vida, porque tudo acontecera por um esforço do destino para que eu pudesse continuar vivendo. Há o destino, mas há a vontade, ela disse. Morrer teria sido mais fácil que atravessar um túnel de terra, há um motivo para que esta sua vida prossiga.
Em geral vocês todos se lembram de tudo em algum momento, ela continuou, as coisas começam a voltar, pouco a pouco, nos sonhos, depois um jorro de lembranças; os nomes das pessoas, dos lugares, costuma ser assim, mas sua porta está fechada. A porta da sua memória não abre daqui, é preciso ter paciência, retomar a vida de outro jeito. Fátima falava disso enquanto passava um pedaço do pão no azeite e enchia a taça de alguém, como se quase morrer, nascer de novo, sair da terra não fosse coisa de sofrer ou de ter angústia.
Quando comecei a perguntar o motivo, a razão de tudo, o sentido de estar ali sem lembrar, sendo alguém que perdeu o poder sobre a própria vida, vi o quanto Fátima é uma mulher menos paciente que a irmã. Interpretou como se me queixasse deles e me disse que eu deveria agradecer porque estava sendo acolhida em uma família onde eu poderia caber, um dia, se merecesse fazer parte, se aprendesse que o destino é forjado pela faca do segredo, que há golpes e erros e que para todo corte há uma cura. Jorge olhou assustado para mim, adivinhando meu constrangimento. Foi a primeira vez que cruzamos olhares. Eu tinha mesmo vontade de chorar, mas de raiva, não de tristeza. Vontade de responder, de dizer desaforos, mas não podia e, no mais, ela tinha toda razão.
Daquele ponto da minha vida, ela disse, ou eu aceitava as mãos que me tiraram do buraco, moldando meus meses iniciais a uma nova modalidade de vida, ou saía rumo ao nada. Existem Ressurrectos por todos os lados e poucos tiveram a minha sorte. Muitos estão no meio das ruas contando alto de onde vieram sem que ninguém acredite, sem que ninguém diga para onde ir.
Emendou lembrando da matéria de jornal que leu sobre um pedinte em Istambul, que explicava em francês sua história, de como apareceu na Turquia sem fazer ideia do que o levou até lá, mostrava o buraco de onde saiu, virou atração pela loucura, coitado.
Cada palavra era um golpe seco, uma sinceridade dolorosa, a dor da verdade da minha condição, sem nenhum alívio ou disfarce, sem camadas, a verdade crua de que estou perdida no século, no tempo, no vácuo de uma existência sem nome, essa coisa que nos faz gente eu não tinha, a ideia de pátria e de ser parte da história, eu não tinha. Ainda não tenho. Era preciso aguardar mais um pouco, confiar na possível benevolência do destino.
Até lá eu seria Aparecida dos Reis, disse Lourdes, tentando acalmar os ânimos, levantando um brinde a mim. Era a mais silenciosa das três, mas agiu com muita sensibilidade para que mudássemos o assunto. Depois brindamos ao aniversário delas. Contaram que isso aconteceu, o nascimento de três meninas, porque sua mãe via sempre três andorinhas pousadas no galho de uma árvore do jardim de sua família, quando estava grávida. Era este o bordado de um pano colorido em cima da lareira, emoldurado. Relembravam as histórias da infância, algumas coisas eu não entendia; quando falavam todas ao mesmo tempo a conversa virava uma massa de sons confusos.
— E o Jorge, como está levando a vida?
Enfim um pequeno vale de silêncio para que Jorge pudesse falar de Catarina, sua mãe. Ele me olhou. Disse que achava por bem me explicar, se apresentar a mim, aquele homem todo, de voz grave, adocicado pela gentileza. Desde o começo notei sua atenção comigo, uma curiosidade impossível de disfarçar. Sua mãe era prima das três, cresceram juntas em Aboim até que ela foi estudar em Coimbra. Casou-se com um diplomata moçambicano e mudaram para a África, onde Jorge nasceu e cresceu, até vir estudar em Lisboa. Catarina ficou na Ilha de Moçambique. Entendi sua história enquanto ele falava do pedido da mãe, dos lugares onde deveria jogar as suas cinzas.
O primeiro era em Aboim, na casa onde tinha nascido. O segundo, no rio Douro. O terceiro era mesmo na Ilha de Moçambique, diante da capela de Nossa Senhora do Baluarte. Jorge tinha um mundo inteiro dentro dele, seus tataravós eram macuas e, mesmo não tendo sido criado com eles, entendia da religião, dos antepassados, esse era o tema do seu doutorado, a história dos macuas.
— Não tenho data certa para voltar. Estou arrumando a casinha para escrever minha tese aqui em Aboim. Preciso desse tempo de solidão.
Fernando quis saber sobre a tese e assim começou um passeio pela mente de Jorge nos guiando pelo mundo inteiro, falando não só dos macuas, mas de lugares que conheceu, das coisas que viveu com seus pais e sozinho, das suas viagens por todo o continente africano, das lembranças da mãe, da sua adoção, das iguarias estranhas que comeu e bebeu, da vontade de abrir a cabeça para o total, sempre olhando para mim, para todos. Eu não estava entendendo muito bem, de vez em quando eu levantava, pegava um prato, levava uma taça, trazia uma garrafa, mas uma frase ficou marcada para mim: “O barco de cada um está em seu próprio peito”. Era um provérbio macua.
Aceitei o vinho, o Beijos de Beber, fiquei tonta rapidamente. Aceitei receber aquela noite como um alívio. Sabia que dali em diante tudo iria mudar. Jorge tomou conta da casa, aos poucos sua voz encheu os espaços, elas o adoravam como se ainda fosse um menino. Ele as reverenciava como se fossem a marca de vida de sua mãe, respeitava Fernando com brilho nos olhos e eu participava de um encontro daqueles destinos. Até que Jorge começou a falar comigo de novo.
— Eu conheço o Brasil, Aparecida. Estive no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.
— Ela não lembra de nada, a pobrezinha, nem adianta — Lourdes apressou-se em me salvar, um pouco bêbada.
— Sim. Uma Ressurrecta. Lembro do dia em que avisaram da sua chegada. Vocês lembram? — Jorge disse.
— A chegada de Aparecida? Avisaram a quem?
— Ao senhor Afonso, seu pai. Não disseram o nome, mas é ela. Acho que eu tinha uns dez anos quando estive aqui de férias com meus pais. Chegou um homem, sentaram-se ali no sofá. Já se conheciam, parece que por carta. Deu a notícia de morte de uma pessoa e depois disse que trazia um outro recado, que uma mulher brasileira surgiria na família, alguns anos adiante. Foi uma previsão bem adiantada, pois Cida chegou vinte e cinco anos depois. Seria a última Ressurrecta, a primeira mulher e com ela terminaria a missão de vocês, e o senhor Afonso levantou as mãos para o céu, assim, dando graças. Não sei se havia mais algum detalhe, a senhora se lembra, dona Fátima?
— Nunca tinha ouvido falar disso, vocês sabiam?
— Chegando a Lisboa vou procurar na caderneta de meu pai, ele tomava nota de tudo. Há uma parte em que escreveu muitas coisas que conversava sobre os Ressurrectos, mas nunca li. A caligrafia é muito atrapalhada, mas justo a mim ele confiou o caderno — Florice respondeu.
— E justo para a senhora chegou Aparecida — Jorge sorriu.
Jorge e seu conhecimento, sua presença no dia do anúncio da minha chegada; ele e sua memória, sua seriedade e gentileza, era a primeira chave das descobertas que eu precisava fazer a partir de então.
Disfarcei a angústia apressando a limpeza dos pratos que já estavam na pia. Pedi licença para começar a arrumar as coisas, eu sentia a obrigação de colaborar, todos perceberam, é claro, mudaram de assunto. Combinamos o dia seguinte, a reunião seria às duas da tarde. Não sei que reunião era essa, mas meu nome estava lá e eu deveria ir. Precisávamos dormir. Todos levaram as coisas para a cozinha, arrumamos depressa o que foi possível. Doze mãos cuidam bem de uma casa. Jorge foi embora depois de abraçar a todos e acenar de longe para mim.
Um quarto só meu, o mais alto, todo em madeira, miúdo, o mínimo para viver. Adormeci rapidamente de tanto cansaço e consegui sonhar.
O primeiro sonho em Aboim da Nóbrega me despertou no meio da madrugada. Uma missa parecida à que ouvi na Igreja dos Mártires, não tão tranquila, não tão em ordem, havia uma confusão, as badaladas do sino, alguma coisa aconteceu, fora da igreja as pessoas se arrumavam em círculo. Anotei no Livro das Visões que talvez meu corpo não fosse cristão, constantemente tocava uma música na minha cabeça mas eu não reconhecia as palavras, só a melodia, que relembrei por inteiro. Cantei para adormecer de novo, chamar a calma, chamar o vento, chamar qualquer coisa que me desse esperança.
Não consegui mais dormir depois do sonho porque pensava em Jorge, no pequeno baú de cinzas de sua mãe que ele carregava, na missão de jogar parte a parte em vários lugares, refazendo o trajeto do seu amor. A voz de Jorge estava espalhada por toda extensão da minha cabeça vazia, desocupada de memórias, tudo só para ele, só para os detalhes do seu corpo, as mãos, o porte de caçador, de repente meus pensamentos já eram outros, esqueci dos Ressurrectos, dos sonhos, só tinha para mim o eco daquela voz, as palavras, macua, Moçambique, o sotaque dele, seu olhar pousava em mim com atenção, ele me enxergou a noite inteira. Paixão e feitiçaria são obras do mesmo fogo.

Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer

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