141.
Paisagem de chuva
Em cada pingo de chuva a minha vida
falhada chora na natureza. Há qualquer coisa do meu desassossego no
gota a gota, na bátega a bátega com que a tristeza do dia se
destorna inutilmente por sobre a terra.
Chove tanto, tanto. A minha alma é
húmida de ouvi-lo. Tanto... A minha carne é líquida e aquosa em
torno à minha sensação dela.
Um frio desassossegado põe mãos
gélidas em torno ao meu pobre coração.
As horas cinzentas alongam-se,
emplaniciam-se no tempo; os momentos arrastam-se.
Como chove!
As biqueiras golfam torrentes mínimas
de águas sempre súbitas. Desce pelo meu saber que há canos um
barulho perturbador de descida de água. Bate contra a vidraça,
indolente, gemedoramente, a chuva; Uma mão fria aperta-me a garganta
e não me deixa respirar a vida.
Tudo morre em mim, mesmo o saber que
posso sonhar! De nenhum modo físico estou bem. Todas as maciezas em
que me reclino têm arestas para a minha alma. Todos os olhares para
onde olho estão tão escuros de lhes bater esta luz empobrecida do
dia para se morrer sem dor.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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