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Rita Preta acorda se sentindo ainda
pior que no dia anterior. O cansaço deixa seus pensamentos
desordenados e o corpo parece se render. Está dormindo pouco e sem o
descanso adequado, o sono contínuo deu vez aos cochilos
intermitentes sem que lhe permitissem repousar o suficiente. Além da
angústia pelo sumiço do filho, ela vê surgir um crescente
sentimento de culpa, que a atormenta de maneira constante. Primeiro,
pela briga que antecedeu o desaparecimento de Cid; se fosse menos
impulsiva, poderia ter contornado a situação sem a agressividade
cultivada ao longo da vida para se proteger, evitando assim as mágoas
e o que se seguiu. Depois, porque ela não se preocupou com o fato de
o filho não estar em casa quando voltou do trabalho. Tinha ido ao
encontro do namorado. Bebeu, conversou, depois aceitou passar duas
horas num hotel barato no centro da cidade. Por fim, esperou pela
carona, no caminhão que ele dirigia, para voltar para casa. Se
distraiu dos dissabores da vida, seja pelo leve torpor do álcool,
pelos efeitos do orgasmo, ou ainda pela visão abrangente que tinha
da cidade ao viajar num caminhão por ruas e viadutos; ou por tudo
isso junto.
Aquela perspectiva de mirar a cidade
de cima a fascina, e todas as vezes que Jorge a leva para qualquer
lugar conduzindo o caminhão, Rita fala de seu desejo de aprender a
dirigi-lo. Ele promete ensinar, quer impressioná-la, mesmo que
esteja cético sobre sua capacidade de pedalar sequer uma bicicleta,
que dirá manobrar um veículo pesado. Por mais que fosse incrédula
em relação a um bom número de desejos, aquele em particular é
alimentado com a esperança de poder realizá-lo. Mas, enquanto não
aprende a dirigir, ela trafega pela noite de Salvador — com Jorge
quase nunca é durante o dia —, mal ou bem iluminada, contemplando
a cidade e sua gente, o traçado das ruas, o esplendor e a sobriedade
convivendo nos distintos espaços. Mesmo quando a bebida lhe cai mal
e o sexo não é bom, resta admirar as ruas, a chuva, a brisa, as
luzes, o mar e os morros, os rios correndo como esgoto, a lua e os
vales, os edifícios com vidros espelhados e os casebres com tijolos
à mostra, e o concreto que macula o horizonte com elevados e
passarelas suspensas para pedestres. Naquelas horas, ela não é mãe
nem trabalhadora. É apenas uma mulher sentindo, de forma simples,
que ama viver.
“Mãe, Cid não voltou. O que será
que aconteceu?”
A pergunta esmaga o peito de Rita
Preta, por ela não ter uma resposta satisfatória, por não tentar
dar nenhuma outra e por ficar em silêncio quando se espera dela a
verdade, mesmo que não a tenha. Para se esquivar desse vazio, ela
anuncia:
“Preciso contar o que está
acontecendo no trabalho. Se faltar mais um dia, corro o risco de
perder o emprego. Depois, vou voltar à delegacia e procurar nos
hospitais”, diz enquanto recolhe a caneca de café da mesa. “Vou
pedir dinheiro a Fátima. Já não tenho mais nada para o transporte.
Gastei tudo indo até a delegacia e levando vocês para não ficarem
sozinhos em casa.”
“É verdade o que estão dizendo?
Que ele foi levado pela polícia?”
“Quem disse?”
“Você, minha mãe”, Cainho se
senta à mesa enquanto olha para Rita como se suplicasse por uma
resposta. “Será que ele fugiu? Cid disse que ia embora de casa no
dia em que vocês brigaram.”
“Eu repeti o que seu Aranha e dona
Conceição disseram, mas nem eles têm certeza. De qualquer maneira,
voltei à delegacia e dei a informação. Vão me dizer se ele fez
algo errado e se está em algum lugar”, Rita responde, irritada,
como se necessitasse confrontar o filho. “Ontem zanzei pelo bairro,
levei a foto de Cid, perguntei a um e a outro; nada. Disseram que uns
meninos que jogavam bola viram ele ser abordado. Encontrei alguns
garotos depois de muito andar e eles não sabiam também”, diz sem
olhar para Cainho, se movimentando entre a sala e a cozinha em busca
de tarefas por fazer. “Prometi um trocado se alguém me der uma
informação concreta. Se alguém aparecer aqui, mande voltar mais
tarde.”
“Se ele foi embora, não foi para
longe”, ela tenta minimizar a gravidade da situação enquanto
enfia na bolsa pedaços de papéis com anotações difusas e um
batom. “E o que você está querendo dizer? Que a culpa dele ter
sumido é minha?” Rita encara Cainho com o ar grave. “O que você
sabe da vida? Só me faltava essa.”
Cainho se cala, e seu rosto é a
expressão do descontentamento. Não é preciso declarar nada, não é
preciso dizer que, se a mãe não tivesse brigado com o irmão, isso
não teria acontecido. Ele permanece sentado, olhando para a ponta
dos dedos, e não se volta de novo para Rita, nem nada diz. Seus
gestos descortinam um cansaço anterior ao seu tempo, àquela vida,
mesmo que não saiba como expressar.
Rita Preta termina de enfiar os
objetos na bolsa com gestos furiosos. No fundo, parece querer de
alguma maneira retardar tudo o que tem para fazer fora de casa até
que Cid apareça ou envie notícias. Ela sai para voltar segundos
depois. Procura algo na mesa de vidro e em seguida no balcão que
serve como divisória entre a sala e a minúscula cozinha. Ergue a
chave e volta para a porta. “Cuide do seu irmão; telefone se Cid
aparecer.”
Rita se dirige à casa de Fátima.
Enviou uma mensagem de voz um pouco antes, perguntando se ela poderia
emprestar uma quantia até a próxima semana. Elas saem juntas para o
ponto de ônibus. Rita conta tudo o que fez no dia anterior e Fátima
mantém sua expressão atenta. A vizinha procura confortá-la: Cid
tem que aparecer, e se o que disseram sobre a polícia é verdade,
ela vai descobrir. Rita Preta pergunta: se o filho fosse recolhido
por algum delito, os policiais ou o juizado de menores não teriam
por obrigação informar aos pais (pensando consigo mesma “eu sou
‘os pais’”)? Então conta que ligou para o pai de Cid e ele não
deu a devida importância, além de tentar culpá-la pelo que
aconteceu. Rita ressalva que no fundo não queria telefonar para ele,
afinal havia criado os filhos sozinha, mas precisava saber se Cid o
tinha procurado querendo abrigo ou mesmo pedindo algum dinheiro para
ir mais longe, embora ela duvidasse que o pai fosse capaz de abrir a
casa da família ou desse algo para o filho.
Elas se despedem. No trajeto, Rita
viaja em pé no ônibus e segura a bolsa à sua frente. Faz uma prece
em silêncio pelos filhos, embora sinta que nenhuma reza, nenhum
encanto, conseguirá protegê-la dessa aflição sem nome. Aquele
crescente é perturbador, uma enxurrada carregando detritos, mas ela
mantém os olhos no horizonte através das janelas e se estimula para
não se distrair, precisa fazer tudo ao seu alcance para que o filho
volte. Rita se prepara para os próximos embates, e em seu estômago
guarda apenas um copo de café preto doce, coado ainda pela manhã.
Ela não contou a Cainho nem a Fátima sobre a falta de apetite. A
ansiedade a fazia se sentir com o estômago cheio, como se os
alimentos consumidos dias atrás não tivessem sido digeridos.
Depois de contar o que havia
acontecido à supervisora e ao gerente da loja numa sala isolada e
refrigerada a ponto de parecer o interior de uma câmara fria, Rita
Preta deixa o supermercado evitando cruzar com os colegas para não
ter que responder às perguntas sobre o desaparecimento do filho.
Mais cedo ou mais tarde todos saberão, pois não há segredos nem
discrição naquele ambiente. Ao entregar a bolsa para que o
segurança a reviste na saída da loja, ressoam as palavras do
gerente: estava liberada naquele dia, mas ele não poderia arcar com
o ônus de sua ausência por muito tempo. Assim como Rita se
reportava a ele como superior hierárquico, ele devia satisfação ao
seu chefe, e arriscaria sua função se permitisse ausências
prolongadas de qualquer funcionário sem justificativa amparada na
legislação trabalhista. No entanto, como Rita havia sido uma boa
colaboradora naqueles mais de dois anos em que trabalhava no
supermercado, ele se empenharia junto ao setor de recursos humanos
para antecipar suas férias, ajustando todo o cronograma
milimetricamente desenhado de forma a não impactar as vendas de fim
de ano.
Vendas, metas, bom desempenho. Rita
não chega a ter aversão a essas palavras em meio à sua aflição,
mas não consegue alcançar seus significados, por mais esforço que
faça. São como as lembranças do fim da infância: sua avó andando
sem rumo pela terra, armazenando sacas de sal na casa de paredes
rachadas, trazidas durante meses da feira da cidade, junto com as
compras mirradas. Faltava tudo, menos sal e loucura. Aquelas palavras
ecoavam em sua memória como os murmúrios sem sentido de Carmelita
repetindo como uma aparição: o rio se estreitava como sua garganta,
o rio se estreitava como sua garganta, o rio morreria junto com ela.
Rita, menina, acreditava que era a dor da má sorte e da insânia
pela morte dos que estavam à sua volta. Durante muito tempo, seu
maior temor era terminar como sua avó, amargurada, vagando pela
terra e repetindo palavras sem sentido.
Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

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