07/10/2026

Correnteza

 


8

Rita Preta acorda se sentindo ainda pior que no dia anterior. O cansaço deixa seus pensamentos desordenados e o corpo parece se render. Está dormindo pouco e sem o descanso adequado, o sono contínuo deu vez aos cochilos intermitentes sem que lhe permitissem repousar o suficiente. Além da angústia pelo sumiço do filho, ela vê surgir um crescente sentimento de culpa, que a atormenta de maneira constante. Primeiro, pela briga que antecedeu o desaparecimento de Cid; se fosse menos impulsiva, poderia ter contornado a situação sem a agressividade cultivada ao longo da vida para se proteger, evitando assim as mágoas e o que se seguiu. Depois, porque ela não se preocupou com o fato de o filho não estar em casa quando voltou do trabalho. Tinha ido ao encontro do namorado. Bebeu, conversou, depois aceitou passar duas horas num hotel barato no centro da cidade. Por fim, esperou pela carona, no caminhão que ele dirigia, para voltar para casa. Se distraiu dos dissabores da vida, seja pelo leve torpor do álcool, pelos efeitos do orgasmo, ou ainda pela visão abrangente que tinha da cidade ao viajar num caminhão por ruas e viadutos; ou por tudo isso junto.
Aquela perspectiva de mirar a cidade de cima a fascina, e todas as vezes que Jorge a leva para qualquer lugar conduzindo o caminhão, Rita fala de seu desejo de aprender a dirigi-lo. Ele promete ensinar, quer impressioná-la, mesmo que esteja cético sobre sua capacidade de pedalar sequer uma bicicleta, que dirá manobrar um veículo pesado. Por mais que fosse incrédula em relação a um bom número de desejos, aquele em particular é alimentado com a esperança de poder realizá-lo. Mas, enquanto não aprende a dirigir, ela trafega pela noite de Salvador — com Jorge quase nunca é durante o dia —, mal ou bem iluminada, contemplando a cidade e sua gente, o traçado das ruas, o esplendor e a sobriedade convivendo nos distintos espaços. Mesmo quando a bebida lhe cai mal e o sexo não é bom, resta admirar as ruas, a chuva, a brisa, as luzes, o mar e os morros, os rios correndo como esgoto, a lua e os vales, os edifícios com vidros espelhados e os casebres com tijolos à mostra, e o concreto que macula o horizonte com elevados e passarelas suspensas para pedestres. Naquelas horas, ela não é mãe nem trabalhadora. É apenas uma mulher sentindo, de forma simples, que ama viver.

“Mãe, Cid não voltou. O que será que aconteceu?”
A pergunta esmaga o peito de Rita Preta, por ela não ter uma resposta satisfatória, por não tentar dar nenhuma outra e por ficar em silêncio quando se espera dela a verdade, mesmo que não a tenha. Para se esquivar desse vazio, ela anuncia:
“Preciso contar o que está acontecendo no trabalho. Se faltar mais um dia, corro o risco de perder o emprego. Depois, vou voltar à delegacia e procurar nos hospitais”, diz enquanto recolhe a caneca de café da mesa. “Vou pedir dinheiro a Fátima. Já não tenho mais nada para o transporte. Gastei tudo indo até a delegacia e levando vocês para não ficarem sozinhos em casa.”
“É verdade o que estão dizendo? Que ele foi levado pela polícia?”
“Quem disse?”
“Você, minha mãe”, Cainho se senta à mesa enquanto olha para Rita como se suplicasse por uma resposta. “Será que ele fugiu? Cid disse que ia embora de casa no dia em que vocês brigaram.”
“Eu repeti o que seu Aranha e dona Conceição disseram, mas nem eles têm certeza. De qualquer maneira, voltei à delegacia e dei a informação. Vão me dizer se ele fez algo errado e se está em algum lugar”, Rita responde, irritada, como se necessitasse confrontar o filho. “Ontem zanzei pelo bairro, levei a foto de Cid, perguntei a um e a outro; nada. Disseram que uns meninos que jogavam bola viram ele ser abordado. Encontrei alguns garotos depois de muito andar e eles não sabiam também”, diz sem olhar para Cainho, se movimentando entre a sala e a cozinha em busca de tarefas por fazer. “Prometi um trocado se alguém me der uma informação concreta. Se alguém aparecer aqui, mande voltar mais tarde.”
“Se ele foi embora, não foi para longe”, ela tenta minimizar a gravidade da situação enquanto enfia na bolsa pedaços de papéis com anotações difusas e um batom. “E o que você está querendo dizer? Que a culpa dele ter sumido é minha?” Rita encara Cainho com o ar grave. “O que você sabe da vida? Só me faltava essa.”
Cainho se cala, e seu rosto é a expressão do descontentamento. Não é preciso declarar nada, não é preciso dizer que, se a mãe não tivesse brigado com o irmão, isso não teria acontecido. Ele permanece sentado, olhando para a ponta dos dedos, e não se volta de novo para Rita, nem nada diz. Seus gestos descortinam um cansaço anterior ao seu tempo, àquela vida, mesmo que não saiba como expressar.
Rita Preta termina de enfiar os objetos na bolsa com gestos furiosos. No fundo, parece querer de alguma maneira retardar tudo o que tem para fazer fora de casa até que Cid apareça ou envie notícias. Ela sai para voltar segundos depois. Procura algo na mesa de vidro e em seguida no balcão que serve como divisória entre a sala e a minúscula cozinha. Ergue a chave e volta para a porta. “Cuide do seu irmão; telefone se Cid aparecer.”
Rita se dirige à casa de Fátima. Enviou uma mensagem de voz um pouco antes, perguntando se ela poderia emprestar uma quantia até a próxima semana. Elas saem juntas para o ponto de ônibus. Rita conta tudo o que fez no dia anterior e Fátima mantém sua expressão atenta. A vizinha procura confortá-la: Cid tem que aparecer, e se o que disseram sobre a polícia é verdade, ela vai descobrir. Rita Preta pergunta: se o filho fosse recolhido por algum delito, os policiais ou o juizado de menores não teriam por obrigação informar aos pais (pensando consigo mesma “eu sou ‘os pais’”)? Então conta que ligou para o pai de Cid e ele não deu a devida importância, além de tentar culpá-la pelo que aconteceu. Rita ressalva que no fundo não queria telefonar para ele, afinal havia criado os filhos sozinha, mas precisava saber se Cid o tinha procurado querendo abrigo ou mesmo pedindo algum dinheiro para ir mais longe, embora ela duvidasse que o pai fosse capaz de abrir a casa da família ou desse algo para o filho.
Elas se despedem. No trajeto, Rita viaja em pé no ônibus e segura a bolsa à sua frente. Faz uma prece em silêncio pelos filhos, embora sinta que nenhuma reza, nenhum encanto, conseguirá protegê-la dessa aflição sem nome. Aquele crescente é perturbador, uma enxurrada carregando detritos, mas ela mantém os olhos no horizonte através das janelas e se estimula para não se distrair, precisa fazer tudo ao seu alcance para que o filho volte. Rita se prepara para os próximos embates, e em seu estômago guarda apenas um copo de café preto doce, coado ainda pela manhã. Ela não contou a Cainho nem a Fátima sobre a falta de apetite. A ansiedade a fazia se sentir com o estômago cheio, como se os alimentos consumidos dias atrás não tivessem sido digeridos.

Depois de contar o que havia acontecido à supervisora e ao gerente da loja numa sala isolada e refrigerada a ponto de parecer o interior de uma câmara fria, Rita Preta deixa o supermercado evitando cruzar com os colegas para não ter que responder às perguntas sobre o desaparecimento do filho. Mais cedo ou mais tarde todos saberão, pois não há segredos nem discrição naquele ambiente. Ao entregar a bolsa para que o segurança a reviste na saída da loja, ressoam as palavras do gerente: estava liberada naquele dia, mas ele não poderia arcar com o ônus de sua ausência por muito tempo. Assim como Rita se reportava a ele como superior hierárquico, ele devia satisfação ao seu chefe, e arriscaria sua função se permitisse ausências prolongadas de qualquer funcionário sem justificativa amparada na legislação trabalhista. No entanto, como Rita havia sido uma boa colaboradora naqueles mais de dois anos em que trabalhava no supermercado, ele se empenharia junto ao setor de recursos humanos para antecipar suas férias, ajustando todo o cronograma milimetricamente desenhado de forma a não impactar as vendas de fim de ano.
Vendas, metas, bom desempenho. Rita não chega a ter aversão a essas palavras em meio à sua aflição, mas não consegue alcançar seus significados, por mais esforço que faça. São como as lembranças do fim da infância: sua avó andando sem rumo pela terra, armazenando sacas de sal na casa de paredes rachadas, trazidas durante meses da feira da cidade, junto com as compras mirradas. Faltava tudo, menos sal e loucura. Aquelas palavras ecoavam em sua memória como os murmúrios sem sentido de Carmelita repetindo como uma aparição: o rio se estreitava como sua garganta, o rio se estreitava como sua garganta, o rio morreria junto com ela. Rita, menina, acreditava que era a dor da má sorte e da insânia pela morte dos que estavam à sua volta. Durante muito tempo, seu maior temor era terminar como sua avó, amargurada, vagando pela terra e repetindo palavras sem sentido.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

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