127.
Não me indigno, porque a indignação
é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os
nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não
sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou
fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas
queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha
ideia de os achar belos.
Só lamento o não ser criança, para
que pudesse crer nos meus sonhos, o não ser doido para que pudesse
afastar da alma de todos os que me cercam, E tomar o sonho por real,
viver demasiado os sonhos deu-me este espinho à rosa falsa da minha
sonhada vida: que nem os sonhos me agradam, porque lhes acho
defeitos.
Nem com pintar esse vidro de sombras
coloridas me oculto o rumor da vida alheia ao meu olhá-la, do outro
lado.
Ditosos os fazedores de sistemas
pessimistas! Não só se amparam de ter feito qualquer coisa, como
também se alegram do explicado, e se incluem na dor universal.
Eu não me queixo pelo mundo. Não
protesto em nome do universo. Não sou pessimista. Sofro e queixo-me,
mas não sei se o que há de mal é o sofrimento nem sei se é humano
sofrer. Que me importa saber se isso é certo ou não?
Eu sofro, não sei se merecidamente.
(Corça perseguida.)
Eu não sou pessimista, sou triste.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

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