A
Arlinda, Hilda, Lucivone e Márcia
Sopra
a falsa tempestade do ventilador e põe o quarto em movimento
Um
piano circulando pássaro cego atravessando paredes
Nuvem
pensamento flor
Tudo
tão rápido, múltiplos momentos
Pelo
espaço as pernas trôpegas gozam sem sossego
Como
morcegos sem asas
Pelo
firmamento voam as casas
É o
amor
Ele
carrega elefantes para adormecer na cama
É o
amor pendurando crocodilos nos armários
E
apenas ele faz possível esse improviso do provável
Instante
imaginário entre ciganas atrizes
Ilusória
flor, ilusória ilha, ilusório voo dos dedos tateando cicatrizes
Ardente
pedra onde exploram salamandras o sal e o fogo imaginários
É o
amor como planta extraindo clorofila das desertas paredes
mineralizadas
E
sempre o piano atravessando circunstâncias, madrugadas
Janelas
sem primaveras
Verões
náufragos em trópicas piscinas de soda limonada
Nada
consola tua ausência, é o amor
(Ai
quem dera fossem as guerras)
Em
desalinho costuram o destino estrelas aquarianas
E a
persistência das ervas vai fabricando musgo verde cobrindo pedras,
cinzas e alguns sobreviventes
Meu
coração batido pelos ventos ladra exilado ao plenilúnio do quarto
É
quase um cão
Não
mordeu, não lambeu, nem roeu seu derradeiro osso
Assiste
em vão a própria missa numa tempestade de sarnas
Ultrapassa
fronteiras sem fronteiras onde jamais se ouve o próprio ladrar das
almas
O
último ensaio tão previsível nos astros
Erro
meu próprio salto, caio do trapézio
Nenhum
beijo no espelho e nenhum beijo na sépia do retrato.
José Carlos Capinan, em Cancioneiro geral
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