03/09/2026

Sopra a falsa tempestade

A Arlinda, Hilda, Lucivone e Márcia

Sopra a falsa tempestade do ventilador e põe o quarto em movimento
Um piano circulando pássaro cego atravessando paredes
Nuvem pensamento flor
Tudo tão rápido, múltiplos momentos
Pelo espaço as pernas trôpegas gozam sem sossego
Como morcegos sem asas
Pelo firmamento voam as casas
É o amor
Ele carrega elefantes para adormecer na cama
É o amor pendurando crocodilos nos armários
E apenas ele faz possível esse improviso do provável
Instante imaginário entre ciganas atrizes
Ilusória flor, ilusória ilha, ilusório voo dos dedos tateando cicatrizes
Ardente pedra onde exploram salamandras o sal e o fogo imaginários
É o amor como planta extraindo clorofila das desertas paredes mineralizadas
E sempre o piano atravessando circunstâncias, madrugadas
Janelas sem primaveras
Verões náufragos em trópicas piscinas de soda limonada
Nada consola tua ausência, é o amor
(Ai quem dera fossem as guerras)
Em desalinho costuram o destino estrelas aquarianas
E a persistência das ervas vai fabricando musgo verde cobrindo pedras, cinzas e alguns sobreviventes
Meu coração batido pelos ventos ladra exilado ao plenilúnio do quarto
É quase um cão
Não mordeu, não lambeu, nem roeu seu derradeiro osso
Assiste em vão a própria missa numa tempestade de sarnas
Ultrapassa fronteiras sem fronteiras onde jamais se ouve o próprio ladrar das almas
O último ensaio tão previsível nos astros
Erro meu próprio salto, caio do trapézio
Nenhum beijo no espelho e nenhum beijo na sépia do retrato.

José Carlos Capinan, em Cancioneiro geral

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