Que suplício que foi o jantar!
Felizmente, Sabina fez-me sentar ao pé da filha do Damasceno, uma
Dona Eulália, ou mais familiarmente Nhá-loló, moça bem graciosa,
um tanto acanhada a princípio, mas só a princípio. Faltava-lhe
elegância, mas compensava-a com os olhos, que eram soberbos e só
tinham o defeito de se não arrancarem de mim, exceto quando desciam
ao prato; mas Nhã-loló comia tão pouco, que quase não olhava para
o prato. De noite cantou; a voz era como dizia o pai, “muito
mimosa”. Não obstante, esquivei-me. Sabina veio até à porta, e
perguntou-me que tal achara a filha do Damasceno.
– Assim, assim.
– Muito simpática, não é? acudiu
ela; falta-lhe um pouco mais de corte. Mas que coração! é uma
pérola. Bem boa noiva para você.
– Não gosto de pérolas.
– Casmurro! Para quando é que você
se guarda? para quando estiver a cair de maduro, já sei. Pois, meu
rico, quer você queira quer não, há de casar com Nhá-loló.
E dizia isto a bater-me na face com os
dedos, meiga como uma pomba, e ao mesmo tempo intimativa e resoluta.
Santo Deus! seria esse o motivo da reconciliação? Fiquei um pouco
desconsolado com a ideia, mas uma voz misteriosa chamava-me à casa
do Lobo Neves; disse adeus a Sabina e às suas ameaças.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

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