30/11/2025

O Super-Homem das Alagoas


Ninguém sabe até hoje como o incêndio começou. O velho casarão, no centro da cidade, ardeu feito velho apaixonado por garotinha. A rua, deserta um segundo antes do primeiro grito, se encheu de palpiteiros, basbaques, gozadores...
O corpo de bombeiros demorou porque todos os telefones das imediações estavam com defeito. Alguns diálogos botavam mais lenha na fogueira:
– Nunca entendi por que chamam esses caras de bravos soldados do fogo. Se ainda fosse da água...
– Deve ser porque nunca tem água.
De fato, tinha mais cachaça na área que água da bica. Um carro-pipa fora providenciado, mas batera numa ambulância dirigida por um bêbado. Vários uniformes se desentendiam. Um comandante conservava prudente distância. Era um sujeito adiposo e inepto, ex-torturador e próspero comerciante no ramo de extintores especiais para prédios condenados. Dois policiais militares, que davam segurança à boca-de-fumo mais próxima, tentavam conter um chileno, radicado em Niterói, conhecido como El Apagadíssimo, que aparecia em toda sorte de sinistros, tentando tirar uma casquinha.
No auge da confusão, chegou a reportagem de TV e todo mundo começou a rasgar as roupas e a se sujar de fuligem pra aparecer na telinha. Um compositor interiorano radicado aqui compôs um tema na hora e deu declarações sobre a nova fase de seu trabalho. O refrão era: “ai, ai, ai, ai, ai, dantes os dentes rangerrugiam nos assíduos acidentes”.
Quando o espetáculo ameaçava perder o pique, um homem saiu das chamas com uma criança nos braços.
A plebe foi acometida por aquele colapso do senso crítico que antecede a exaltação de atos considerados virtuosos no consenso da mediocridade (dá-lhe, Blanc!).
Senhoras aureoladas de bobs, envoltas nas encardidas mortalhas dos roupões de ílorzinha, experimentaram, na libido atrofiada, o êxtase das protagonistas de novela. Parasitas e vadias viam nele o Salvador. De todas as bocas maltratadas, do fundo dos pulmões corroídos, das gargantas pustemadas, das línguas saburrosas, dos dentes cariados, ééé, brotou a palavara mágica, espécie de aborto espontâneo que acontece toda vez que a boçalidade é fecundada pela farsa:
– Herói! Herói!
No dia seguinte, os jornais celebraram a vinda do novo Messias. Fotos indesmentíveis, como disse um Ministro, e editoriais candentes colocaram suaves cataplasmas na ferida nacional: um brasileiro íntegro.
A euforia fincara seus estandartes no coração da miséria. Os bares fervilhavam de palhaços que voltavam a crer em si mesmos. Donas de casa suspirosas encontravam motivação, alento – e até mesmo um certo tesãozinho – na figura redentora. Nunca o pavilhão auriverde drapejou tão garboso nos mastros de empresas antes maculadas pela corrupção. Economistas que serviram à ditadura militar diziam, modestamente, de olhos úmidos:.
– São os primeiros frutos da economia de mercado. Dom Saulo Castilho não perdeu a ocasião de perpetrar um soneto inesquecível. O final era assim:

“Ao contrário do mulato mequetrefe
move-o o charme sutil de um grande chefe,
um Cristo a redimir o balneário.
Espelhem-se, medíocres operários,
que só se preocupam com o que comem
no saco elefantal do Super-Homem!”

O assessor de imprensa da Presidência da República anunciou o novo Imposto sobre Atos Heroicos.
Quarenta e oito horas depois do portento, a mãe da criança – uma menininha de dez anos que, infelizmente, faleceu por falta de atendimento médico – veio a público:
– É minha filha que foi sequestrada mês passado quando meus outros sete filhos moireram fuzilados numa chacina lá no morro.
Nosso herói foi convidado a depor. Todos ansiavam pelo esclarecimento do lamentável equívoco. Mas, vida ingrata, a abstinência de cocaína a que se viu forçado o Cid Campedor pelo acúmulo de solenidades e homenagens, teve consequência inesperada: uma crise de choro e a confissão de coautoria em inúmeros crimes. No caso em questão, a soldo de uma quadrilha de traficantes, mantinha a menina em cárcere privado, e, cedendo a impulsos bestiais, tinha acabado de agarrá-la quando ouviu os gritos de fogo.
Suplementos culturais publicaram matérias de vários especialistas em mente humana, unânimes quanto à intratabilidade do inconsciente. Um defendeu o uso de remédios. Todos defenderam os respectivos bolsos.
O tal compositor apareceu na TV, no horário vago entre dois pastores da Igreja da Graça Estelionatária., falou de seu novo trabalho e cantou o refrão de um hit inédito: “ai, ai, ai, ai, dentes de dantes já não mordem como antigamantes”.
Dom Saulo Castilho deu um pulinho no Vaticano, pra meter o pau na Teologia da Libertação.
O assessor de imprensa – já tá ficando chato, ô babaca! – deu marcha a ré.
Donas de casas frustradas passaram a bater nos filhos pra que não se transformassem num monstro igual aquele. E, cheias de ódio, persignavam-se.
Nos bares, piadas sem graça tentam fazer frente à ressaca.
Vosso um tanto amargo cronista cometerá o pecado da reiteração: com os heróis, todo cuidado é pouco. Às vezes, o valente que irrompe das chamas com a criança no colo não passa de um estuprador que não teve tempo de largar a vítima.
Mas, sei lá, não se desesperem. Como disse o Médici, vem aí a próxima Copa do Mundo.

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

2 comentários:

  1. Acabei de ler essa crônica com a Natália Bancária, vocês provavelmente nunca a conhecerão, mas sabe como é... não precisam.
    Ela disse que o estilo do cronista é agressivo.
    Uma vez já me proclamei cronista.
    Hoje não mais.
    Não sou agressivo...

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  2. Ontem o Ethan Cronista (não agressivo...) leu essa crônica comigo. Vocês provavelmente o conhecerão, sabe como é... é preciso.
    Ele leu outras também, me fazendo ter uma crise de riso.
    Quando ele comentou ontem, mudou a linha do tempo.
    Eu poderia mudar novamente com esse comentário.
    Mas não aceito as implicações futuras de alterar o passado.
    Deveria cancelar esse comentário.
    Estamos num paradoxo.

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