11/04/2021

Turco

 


Assim que chegou a Paris, foi cortar o cabelo – coisa que não tivera tempo de fazer ao sair do Rio. O barbeiro, como os de toda parte, procurou logo puxar conversa:
– Eu tenho aqui uma dúvida, que o senhor podia me esclarecer.
– Pois não.
– Eu estava pensando... A Turquia tomou parte na última guerra?
– Parte ativa, propriamente, não. Mas de certa maneira esteve envolvida, como os outros países. Por quê?
– Por nada, eu estava pensando... A situação política lá é meio complicada, não?
Seu forte não era a Turquia. Em todo caso respondeu:
– Bem, a Turquia, devido a sua situação geográfica... Posição estratégica, não é isso mesmo? O senhor sabe, o Oriente Médio...
O barbeiro pareceu satisfeito e calou-se, ficou pensando.
Alguns dias depois ele voltou para cortar novamente o cabelo. Ainda não se havia instalado na cadeira, o barbeiro começou:
– Os ingleses devem ter muito interesse na Turquia, não?
Que diabo, esse sujeito vive com a Turquia na cabeça – pensou. Mas não custava ser amável – além do mais, ia praticando o seu francês:
– Devem ter. Mas têm interesse mesmo é no Egito. O canal de Suez.
– E o clima lá?
– Onde? No Egito?
– Na Turquia.
Antes de voltar pela terceira vez, por via das dúvidas procurou informar-se com um conterrâneo seu, diplomata em Paris e que já servira na Turquia.
– Dessa vez eu entupo o homem com Turquia – decidiu-se.
Não esperou muito para que o barbeiro abordasse seu assunto predileto:
– Diga-me uma coisa, e me perdoe a ignorância: a capital da Turquia é Constantinopla ou Sófia?
– Nem Constantinopla nem Sófia: é Âncara.
E despejou no barbeiro tudo que aprendera com seu amigo sobre a Turquia. Nem assim o homem se deu por satisfeito, pois na vez seguinte foi começando por perguntar:
– O senhor conhece muitos turcos aqui em Paris?
Era demais:
– Não, não conheço nenhum. Mas agora chegou a minha vez de perguntar: por que diabo o senhor tem tanto interesse na Turquia?
– Estou apenas sendo amável – tornou o barbeiro, melindrado. – Mesmo porque conheço outros turcos além do senhor.
– Além de mim? Quem lhe disse que sou turco? Sou brasileiro, essa é boa.
– Brasileiro? – e o barbeiro o olhou, desconsolado. – Quem diria! Eu seria capaz de jurar que o senhor era turco...
Mas não perdeu tempo:
– O Brasil fica é na América do Sul, não é isso mesmo?

Fernando Sabino, in Fernando Sabino na sala de aula

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