29/09/2026

Dúvida

Velha governanta do filósofo Descartes; avarenta e pechincheira, desconfia de tudo e de todos, menos dela.

Mário Quintana, em Caderno H

O cozer das pedras, o roer dos ossos



1
Do pó ao chão de terra seca


“Pai nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no céu…”, rezava em coro aquele pobre povo que velava a céu aberto o corpo de Mirtão. O aumentativo do apelido do homem fazia referência a seu já morto corpo enorme, esticado por demais desde que se entendia por gente, assustando os moradores inocentes da vila onde vivera. “[…] O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido…”, continuavam as vozes tristes. O rastro de temor deixado nas ruas pelo tamanho do homem que ali jazia era um paradoxo: mesmo bruto e assustador, não dava a ninguém razão para se esconder quando o assistia passar. Afinal, todos ali sabiam de Mirtão e sua mãe, Dona Hermina, uma senhorinha pequenina e encolhida pela idade, que amava o filho porque, acima de tudo, ele prolongara sua existência. Ora, não fosse o agora corpo morto, a velha teria sido enterrada muito antes que há quatro anos, quando morreu de morte morrida que chegara com a idade. Tinha-se esta certeza na vila: ela teria sido assassinada pelo marido bebum se o agora defunto não o tivesse arrancado a desgostosa vida depois de uma briga de bar em que os dois riscaram faca até um sucumbir de tanto sangue derramar. Mirtão era herói e vilão, assustador e salvador, filho amado e destinado pelo padre a queimar nas labaredas não celestiais, pois havia de pagar pelos pecados que cometera. “[…] E não nos deixeis cair em tentação…”, o caixão do homenzarrão estava no solo, ao lado do buraco cavado até beirar o corpo de sua amada mãe. Seguiram a tradição: o filho vai por cima. As vozes das mulheres cortavam o silêncio daquele cemitério enquanto se sobrepunham às dos homens na reza conhecida. O coro era uniforme, e uma ou duas das muitas crianças ali presentes se arriscavam a acompanhar o clamor. Estavam descalças e sem camisas, mesmo as meninas, com os cabelos desgrenhados coroando suas cabeças grandes. A maioria delas vestia apenas calcinha; e os meninos, cueca. Poucas ousaram pôr uma regatinha surrada para esconder do sol as costas. Tinham cinco ou seis anos, e demonstravam sua inocência agarradas às pernas dos que foram prestar favor ao enterro. A respeito de tudo o que as cercava naquele instante, sabiam apenas que Mirtão não voltaria, e isso as acalmava, porque ele estar nas ruas era uma das razões contadas pelos pais para segurá-las em casa o dia todo. As mulheres, mães e rezadeiras, usavam chinelos ralos, com os cabelos bem-arrumados e as unhas aparadas, mostrando respeito à figura que agora partira. Os homens, usando chapéus de palha feitos por eles mesmos, alguns esburacados e outros ainda verdes, seguravam as enxadas envelhecidas que tanto cavaram a cova quanto cobririam de terra o corpo quando fosse hora de devolver Mirtão ao pó. O conhecido calor de trinta e seis graus fazia todos suarem, e algumas das crianças, observando o momento boquiabertas, chegavam a sentir o gosto salgado que escorria por suas testas, desenhando suas bochechas e seguindo caminho para as bocas. Caramelo, adestrado pelo coveiro a se manter em silêncio nos enterros, estava ao pé do povo suado, ofegante e sem latir, deitado de bucho para baixo e pescoço erguido, atento ao corpo no caixão destampado. A cena era boa para o cão: depois daquilo, seu dono receberia uns trocados por ter enterrado mais um em seu quintal, e isso garantiria o jantar dos dois, que só tinham costume diário de almoçar. O círculo de gente fechava a cova de três palmos e meio de fundura, fazendo as sombras largas das cabeças delinearem a borda da circunferência projetada no solo. A mata da caatinga, seca e inclinada na direção da ventania, cercava à distância aquelas pessoas, rondando o terreno do coveiro e limitando a área do cemitério. Cruzes de madeira estavam entortadas e cravadas no chão, de forma desorganizada, alertando que, sob aquele solo amarelado que há muito não via chuva, descansavam outros corpos. No limite do terreno estava a cabana de taipa do proprietário, ela que com quatro paredes baixas erguidas e um teto de folhas secas de palmeira, ardia sob o sol e deixava exposta parte dos pedaços de paus sustentantes do barro que a dava forma. “[…] Mas livrai-nos do mal, amém…”, findaram o rito, enquanto o corpo era retirado do caixão e enrolado na velha rede que o envolveria sob terra até que o primeiro verme resolvesse satisfazer sua fome com as carnes de Mirto Aroeira Pereira Santino, que eternamente ali estaria, cumprindo sua parte na mais imprevisível profecia para o bicho-homem.

Patrick Torres, em O cozer das pedras, o roer dos ossos

28/09/2026

Mariana Aydar e Mestrinho | Preciso do Seu Sorriso

Hagar, o Horrível

Eu sei o que é primavera

Bem sei que é uma vaidade dizer em plena primavera que eu sei o que é primavera. Às vezes porém sou tão humilde que os outros me chamam a atenção. É uma humildade feita de gratidão talvez excessiva, é feita de um eu de criança, de susto também de criança. Mas, desta vez, quando percebi que estava humilde demais com a alegria que me era dada pela vinda da primavera chuvosa, dessa vez apossei-me do que é meu e dos outros.
Sei o que é primavera porque sinto um perfume de pólen no ar, que talvez seja o meu próprio pólen, sinto estremecimentos à toa quando um passarinho canta, e sinto que sem saber eu estou reformulando a vida. Porque estou viva. A primavera torturante, límpida e mortal que o diga, ela que me encontra cada ano tão pronta para recebê-la. Bem sei que é uma perturbação de sentidos. Mas, por que não ficar tonta? Aceito esta minha cabeça à chuva tremeluzente da primavera, aceito que eu existo, aceito que os outros existam porque é direito deles e porque sem eles eu morreria, aceito a possibilidade do grande Outro existir apesar de eu ter rezado pelo mínimo e não me ter sido dado.
Sinto que viver é inevitável. Posso na primavera ficar horas sentada fumando, apenas sendo. Ser às vezes sangra. Mas não há como não sangrar pois é no sangue que sinto a primavera. Dói. A primavera me dá coisas. Dá do que viver. E sinto que um dia na primavera é que vou morrer. De amor pungente e coração enfraquecido.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Fé

Uma vez, da janela, vi um homem
que estava prestes a morrer,
comendo banana amassada.
A linha do seu queixo era já de fronteiras,
mas ele não sabia, ou sabia?
Como posso saber?
Comia, achando gostoso,
me oferecendo corriqueiro, todavia
inopinado perguntou
— ou perguntou comum como das outras vezes? —
como será a ressurreição da carne?
É como nós já sabemos, eu lhe disse,
tudo como é aqui, mas sem as ruindades.
‘Que mistério profundo!’ ele falou
e falou mais, graças a Deus, pousando o prato.

Adélia Prado, em Bagagem

À sociedade

Meu entendimento é ou não suficiente para este trabalho?
Se for, eu o empregarei como um instrumento fornecido pela natureza universal.
Se não, eu o delegarei para alguém mais capacitado — caso não haja um motivo para não delegar — ou farei o meu melhor com o auxílio do homem que, com o suporte da minha faculdade hegemônica, poderá fazer o que é proveitoso e adequado ao bem coletivo. Afinal, tudo o que faço, sozinho ou não, deve ser orientado somente pelo proveito e pela adequação à sociedade.

Marco Aurélio, em Meditações

O Mestre e Margarida | 12



Magia negra e sua revelação

Um homem pequeno com um chapéu-coco amarelo esburacado, nariz de batata cor-de-rosa, calça xadrez e botinas envernizadas subiu no palco do Teatro de Variedades com uma bicicleta simples de duas rodas. Ao som de um foxtrote, fez um círculo, e então soltou um grito triunfante, que fez sua bicicleta se empinar. Depois de dar uma volta sobre a roda traseira, o homenzinho ficou de pernas para o ar, deu um jeito de desparafusar a roda dianteira em movimento e a empurrou para os bastidores, e depois continuou seu caminho sobre uma roda, rodando os pedais com as mãos.
Em um selim no alto de um grande mastro metálico de uma só roda entrou uma loira roliça de maiô e uma saia curtinha coberta de estrelas prateadas e começou a pedalar em círculos. Quando cruzava com ela, o homenzinho dava gritos de saudação e tirava o chapéu-coco da cabeça com o pé.
Finalmente, surgiu uma criancinha de uns oito anos com rosto senil, ziguezagueando no meio dos adultos em um velocípede de duas rodas minúsculo, ao qual estava acoplada umaenorme buzina de automóvel.
Depois de fazer algumas acrobacias, todo o bando, ao rufar alarmante do tambor da orquestra, foi rodopiando até a ponta mais extrema do palco e os espectadores das primeiras filas soltaram gritos de admiração e pularam para trás em suas cadeiras, porque tiveram a impressão de que toda a troica ia desabar com seus veículos sobre a orquestra.
Mas as bicicletas pararam exatamente naquele momento em que as rodas dianteiras ameaçavam escorregar para o abismo sobre as cabeças dos músicos. Com um grito bem alto de “urra!”, os ciclistas saltaram de seus veículos, fazendo saudações, enquanto a loira mandava beijos no ar para o público, e a criancinha tocou sua buzina de som engraçado.
Os aplausos sacudiram o prédio e uma cortina azul veio dos dois lados e encobriu os ciclistas. As luzes verdes perto das portas com a inscrição “Saída” se apagaram, e na rede dos trapézios, sob a cúpula, bolas brancas se acenderam como o sol. Era o intervalo antes da última parte.
A única pessoa que não se interessava nem um pouco pelas maravilhas da tecnologia das bicicletas da família Giulli era Grigóri Danílovitch Rímski. Ele estava sentado em seu gabinete na mais completa solidão, mordendo os lábios finos, e volta e meia um espasmo passava por seu rosto. Ao extraordinário sumiço de Likhodiêiev, somou-se o desaparecimento completamente imprevisível do administrador Variênukha.
Rímski sabia para onde ele tinha ido, mas ele tinha ido e... não tinha voltado! Rímski dava de ombros e murmurava consigo mesmo:
— Mas por quê?
Que coisa estranha: para uma pessoa tão prática como o diretor financeiro, o mais fácil de tudo seria, é claro, telefonar para onde Variênukha tinha ido e procurar saber qual tinha sido seu fim e, no entanto, até as dez horas da noite ele não se decidira a fazer isso.
Às dez, praticando um verdadeiro ato de violência contra si mesmo, Rímski tirou o fone do gancho para então descobrir que o aparelho estava mudo. O mensageiro informou que os demais telefones do prédio também estavam com defeito. Esse acontecimento, claro, desagradável, mas não sobrenatural, sabe-se lá por que abalou definitivamente o diretor financeiro. Ao mesmo tempo, estava feliz: a necessidade de telefonar se esvaiu.
No momento em que a lâmpada vermelha sobre a cabeça do diretor financeiro acendeu e começou a piscar, anunciando o início do intervalo, o mensageiro entrou e informou que o artista estrangeiro havia chegado. O diretor financeiro, sabe-se lá por quê, estremeceu e, ficando ainda mais sombrio do que uma nuvem carregada, dirigiu-se para os bastidores para receber o artista visitante, pois não havia mais ninguém para fazer isso.
Do corredor, onde soavam campainhas de aviso, curiosos espiavam o grande camarim, sob diversos pretextos. Lá havia ilusionistas de capas vistosas e turbantes, um patinador com uma jaqueta branca de tricô, um contador de histórias pálido de tanto pó de arroz e um maquiador.
O famoso recém-chegado espantou a todos com seu fraque de comprimento sem precedentes e corte magnífico, e também por ter aparecido com uma meia-máscara negra. Mas o mais admirável era os dois companheiros do especialista em magia negra: um alto de xadrez com um pincenê rachado e um gato preto e gordo, que, quando entrou no camarim nas duas patas traseiras, sentou-se no sofá completamente à vontade, apertando os olhos para as lâmpadas de maquiagem.
Rímski se esforçou para colocar um sorriso no rosto, o que fez sua expressão ficar azeda e maldosa, e então cumprimentou o mago mudo, sentado ao lado do gato no sofá. Não houve aperto de mão. Em compensação, o atrevido sujeito de roupa xadrez se anunciou ao diretor financeiro, denominando-se “assistente do cavalheiro”. Esta circunstância deixou o diretor financeiro admirado mais uma vez: no contrato, decididamente não havia menção alguma a qualquer assistente.
Com um jeito extremamente forçado e seco, Grigóri Danílovitch quis saber do tal de xadrez que havia despencado sobre sua cabeça onde estavam os equipamentos do artista.
— Nosso diamante celestial, valiosíssimo senhor diretor — respondeu o assistente do mago, com a voz trêmula —, nosso equipamento está sempre conosco. Aqui está ele! Eins, zwei, drei! — E, depois de girar seus dedos nodosos diante dos olhos de Rímski, de repente tirou de trás da orelha do gato o próprio relógio de ouro e a correntinha de Rímski que até então estavam no bolso de seu colete sob o paletó abotoado, a correntinha trespassada em uma casa do botão.
Rímski apalpou a barriga involuntariamente, os presentes suspiraram e o maquiador que espiava pela porta grasnou, concordando.
— É seu querido relógio? Queira pegá-lo — disse o de xadrez, sorrindo casualmente e estendendo ao perplexo Rímski a palma da mão suja com seu pertence.
— Qual é a ordem, messire? — perguntou Fagot ao mascarado.
— Bom, fazer o quê? — retrucou o mago, pensativo. — São pessoas como outras quaisquer. Gostam de dinheiro, mas sempre foi assim... A humanidade gosta de dinheiro, independentemente do que seja feito: de couro, de papel, de bronze ou ouro. Bom, são levianas... fazer o quê... a misericórdia às vezes bate em seus corações... são pessoas comuns... em geral fazem lembrar as pessoas de antigamente... só que o problema habitacional as corrompeu... — E ordenou em voz alta: — Coloquem a cabeça no lugar.
Mirando com esmero, o gato enterrou a cabeça no pescoço e esta se assentou perfeitamente, como se nunca tivesse se ausentado de lá. E o principal, não ficou sequer uma cicatriz no pescoço. O gato espanou o fraque e o peitilho da camisa de Bengálski com as patas e os vestígios de sangue desapareceram. Fagot ergueu Bengálski, colocando-o de pé, enfiou em seu bolso um maço de dinheiro e o conduziu para fora do palco, com as seguintes palavras:
— Fora daqui! Sem você é mais divertido.
Olhando ao redor insanamente, e cambaleando, o mestre de cerimônias conseguiu se arrastar até o extintor de incêndio e ali se sentiu mal. Então soltou um grito penoso:
— Minha cabeça, minha cabeça!
Entre os que correram até ele, também estava Rímski. O mestre de cerimônias chorava, tentava apanhar algo no ar, balbuciava:
— Devolvam minha cabeça! Devolvam a cabeça! Peguem o apartamento, os quadros, mas devolvam a cabeça!
Um recepcionista foi correndo em busca de um médico. Tentaram acomodar Bengálski em um sofá do camarim, mas ele começou a se debater, ficou violento. Foram obrigados a chamar uma ambulância. Quando o pobre do mestre de cerimônias foi levado, Rímski correu de volta para o palco e viu que novas maravilhas estavam acontecendo ali. Ah, sim, naquele momento, ou um pouco antes, o mago, junto com sua poltrona desbotada, havia desaparecido do palco, e, a propósito, é preciso dizer que o público nem sequer notou, seduzido que estava com aquelas coisas excepcionais que Fagot desdobrava no palco.
Depois de despachar o vitimado mestre de cerimônias, Fagot anunciou ao público:
— Agorinha, depois de nos livrarmos desse chato, vamos abrir uma loja para damas!
E imediatamente o chão do palco cobriu-se com tapetes persas, surgiram enormes
espelhos, iluminados nas laterais por tubos esverdeados. Entre os espelhos, vitrines, e nelas os espectadores, alegres e aturdidos, viram vestidos parisienses, de diversas cores e cortes. Isso só em algumas vitrines. Já em outras apareceram centenas de chapéus para damas, com plumas e sem plumas, com fivelas e sem, centenas de sapatos — pretos, brancos, amarelos, de couro, de cetim, de camurça, com tiras, com pedrinhas. Entre os sapatos apareceram estojos de perfumes, montanhas de bolsas de couro de antílope, de camurça, de seda e, entre elas — verdadeiras pilhas de pequenos estojos alongados de ouro cinzelado em que se costuma colocar o batom.
Vai saber o diabo de onde saiu uma moça ruiva com uma toalete preta de gala, uma moça bonita em todos os sentidos, não fosse por uma estranha cicatriz no pescoço que a desfigurava, com um sorriso de proprietária ao lado das vitrines.
Fagot, sorrindo, malicioso e doce, anunciou que a casa estava realizando, sem cobrar nada, a troca de vestidos e calçados femininos velhos por novos modelos parisienses e novos calçados parisienses. Ele acrescentou o mesmo com relação às bolsas e ao restante.
O gato começou a arrastar a pata traseira e com a dianteira fazia uns gestos, próprios de porteiros quando abrem uma porta.
Mesmo afônica e com a língua presa, a moça começou a cantar docemente algo pouco compreensível, mas, a julgar pelos rostos femininos da plateia, muito sedutoramente:
— Guerlain, Chanel nº 5, Mitsouko, Narcisse Noir, vestidos de gala, vestidos para coquetéis...
Fagot se contorcia, o gato fazia reverências, a moça abria vitrines de vidro.
— Por favor! — vociferava Fagot. — Sem constrangimento ou cerimônia!
O público estava agitado, mas ninguém se atrevia a ir até o palco. Finalmente, uma morena saiu da décima fileira da plateia e, sorrindo, digamos, como se desse na mesma e não tivesse nenhuma importância para ela, passou pela escada lateral e subiu ao palco.
— Bravo! — gritou Fagot. — Vamos cumprimentar a primeira cliente! Uma cadeira, Behemoth! Vamos começar pelos calçados, madame!
A morena sentou-se na poltrona e imediatamente Fagot despejou um amontoado de sapatos no tapete diante dela. A morena tirou o sapato do pé direito, experimentou um lilás e pisou pelo tapete, examinando o salto.
— Será que não vai me apertar? — perguntou de forma pensativa. Ao que Fagotexclamou, ofendido:
— O que é isso, o que é isso! — e o gato miou também, ofendido.
— Vou levar esse par, monsieur — disse a morena com orgulho, calçando também o outro sapato.
Os sapatos velhos da morena foram jogados para trás da cortina, para onde também seguiu ela mesma, acompanhada da moça ruiva e de Fagot, que levava vários vestidos da última moda em cabides. O gato ajudava, atarantado, e, para dar um ar de importância, pendurou uma fita métrica no pescoço.
Um minuto depois, a morena saiu de trás da cortina com um vestido que fez um suspiro rodopiar por toda a plateia. A audaciosa mulher, admiravelmente mais bela, parou diante do espelho, moveu os ombros desnudos, tocou os cabelos na nuca e virou-se, tentando ver as próprias costas.
— A casa pede que aceite isso como recordação — disse Fagot, oferecendo à morena um estojo aberto com um frasco.
— Merci — respondeu a morena, soberanamente, e foi para a plateia pela escada. Enquanto andava, os espectadores saltavam e tocavam no estojo.
Então, de todos os lados, como uma avalanche, mulheres foram para o palco. Em meio ao rebuliço geral de vozes, risinhos e suspiros, ouviu-se uma voz masculina: “Não vou permitir uma coisa dessas!”, e outra feminina: “Seu déspota, pequeno-burguês! Assim você vai quebrar meu braço!” Mulheres desapareciam atrás da cortina, deixavam seus vestidos e saíam com novos. Toda uma fileira de damas sentada em banquinhos de pés dourados batia energicamente os calçados novos no tapete. Fagot se ajoelhava, manejando uma calçadeira de metal. O gato, atolado no meio de um monte de bolsas e sapatos, zanzava de um lado para o outro entre as vitrines e os banquinhos. A moça do pescoço deformado aparecia e desaparecia e chegou até mesmo ao ponto de ficar papeando inteiramente em francês, e o mais impressionante era que todas as mulheres a compreendiam mesmo com meias palavras, até as que não sabiam uma palavra sequer de francês.
Admiração geral foi provocada por um homem que se enfiou no palco. Ele anunciou que sua esposa estava gripada e por isso pedia que lhe dessem algo para levar-lhe. Para provar que era realmente casado, o cidadão prontificou-se em apresentar a certidão. A declaração do marido dedicado foi recebida com gargalhadas e Fagot vociferou que acreditava nele como em si próprio, mesmo sem a certidão, e entregou ao cidadão dois pares de meias de seda, e o gato incluiu de sua parte um pequeno estojo de batom.
As mulheres atrasadas irrompiam no palco, e dali transbordavam bem-aventuradas com vestidos de baile, robes com dragões, trajes sóbrios e pequenos chapéus apoiados sobre uma sobrancelha.
Então Fagot anunciou que, dali a exatamente um minuto, em função da hora tardia, a loja ficaria fechada até a noite do dia seguinte, e uma incomensurável confusão tomou conta do palco. As mulheres agarravam sapatos apressadamente, sem experimentá-los. Uma, feito um furacão, irrompeu para trás da cortina, arrancou ali mesmo seu traje e se apossou da primeira coisa que apareceu pela frente — um chambre de seda com estampa de buquês enormes de flores. Além disso, conseguiu agarrar dois estojos de perfumes.
Exatamente depois de um minuto, houve um disparo de pistola, os espelhos desapareceram, as vitrines e os banquinhos se dissiparam, o tapete evaporou no ar, assim como a cortina. A última coisa que desapareceu foi a altíssima montanha de vestidos e calçados velhos, e o palco ficou novamente austero, vazio e desnudo.
E foi aqui que um novo personagem se intrometeu.
Um barítono agradável, sonoro e muito insistente foi ouvido do camarote número dois:
— De qualquer maneira, cidadão artista, seria desejável que, sem perder mais tempo, o senhor revelasse diante dos espectadores a técnica de suas mágicas, em especial a das cédulas de dinheiro. Seria desejável, também, o retorno do mestre de cerimônias ao palco. Os espectadores estão agitados sobre o destino dele.
O barítono pertencia a ninguém menos que o convidado de honra daquela noite, Arkádi Apollônovitch Sempleiárov, presidente da Comissão de Acústica dos Teatros Moscovitas.
Arkádi Apollônovitch estava no camarote com duas damas: a mais velha usava trajes caros e da moda, e a outra — jovenzinha e bonitinha — trajes mais simples. A primeira, como se soube durante a redação do relatório, era a esposa de Arkádi Apollônovitch; a segunda, sua parente distante, atriz iniciante e promissora, que viera de Sarátov e estava morando no apartamento de Arkádi Apollônovitch e sua esposa.
— Pardon! — retrucou Fagot. — Peço desculpas, aqui não há nada a ser revelado, tudo está claro.
— Não, sinto muito! A revelação é totalmente necessária. Sem isso esses brilhantes números deixarão má impressão. A massa de espectadores exige explicações.
— Parece que a massa de espectadores — rebateu o palhaço insolente, interrompendo Sempleiárov — não tem nada a declarar. Mas, levando em consideração o seu profundo e respeitável desejo, Arkádi Apollônovitch, que assim seja, eu farei uma revelação. Porém, para isso, permita-me mais um numerozinho?
— Por que não? — respondeu Arkádi Apollônovitch, com ar condescendente. — Mas com uma revelação, sem falta!
— Sim, senhor, sim, senhor. Então permita-me perguntar, onde o senhor estava ontem à noite, Arkádi Apollônovitch?
Diante dessa pergunta descabida e, digamos, indelicada, o rosto de Arkádi Apollônovitch ficou alterado, realmente bastante alterado.
— Ontem à noite Arkádi Apollônovitch estava em uma reunião da Comissão de Acústica — declarou de forma muito arrogante sua esposa. — Mas não estou entendendo o que isso tem a ver com magia.
— Ouiii, madame! — confirmou Fagot. — É natural que a senhora não entenda. Mas, quanto à reunião, está totalmente enganada. Quando saiu para a referida reunião, que, diga-se de passagem, nem estava marcada para ontem, Arkádi Apollônovitch dispensou seu motorista perto do edifício da Comissão de Acústica em Tchístie Prudý (o teatro inteiro silenciou) e, sozinho, tomou um ônibus até a rua Ielôkhovskaia para fazer uma visita a uma atriz do teatro itinerante do distrito, Mílitsa Andrêievna Pokobátko, e com ela passou cerca de quatro horas.
— Ai! — alguém soltou uma exclamação de sofrimento em meio ao silêncio absoluto.
De repente a jovem parente de Arkádi Apollônovitch soltou uma gargalhada baixa e terrível.
— Tudo está esclarecido! — exclamou ela. — Eu já desconfiava disso fazia muito tempo. Agora está claro porque aquela besta quadrada ganhou o papel de Luisa!
E, agitando-se repentinamente, bateu na cabeça de Arkádi Apollônovitch com seu pequeno e grosso guarda-chuva lilás.
O pérfido Fagot, também chamado Korôviev, gritou:
— Vejam, veneráveis cidadãos, um dos casos de revelação que Arkádi Apollônovitch arrumou com tanta impertinência!
— Como você se atreve, sua infame, a encostar em Arkádi Apollônovitch? — perguntou a esposa com um ar terrível, levantando-se no camarote em todo seu tamanho gigante.
Um segundo e breve acesso de riso satânico tomou conta da jovem parente.
— E quem mais do que eu — respondeu ela, rindo — se atreveria a encostar nele! — E pela segunda vez o estalido seco do guarda-chuva batendo na cabeça de Arkádi Apollônovitch ressoou no teatro.
— Polícia! Prendam-na! — gritou a esposa de Sempleiárov com uma voz tão terrível que muitos sentiram o coração gelar.
Então o gato apareceu na ribalta e esbravejou para o teatro inteiro ouvir com uma voz humana:
— A sessão acabou! Maestro! Execute uma marcha!!
O enlouquecido maestro, sem se dar conta do que estava fazendo, agitou a batuta, e a orquestra não começou a tocar, nem mesmo a soar ou a retumbar, mas precisamente, seguindo a expressão repulsiva do gato, executou uma marcha incrível, de uma rudeza sem precedentes.
Por um momento pareceu que as palavras dessa marcha, pouco inteligíveis, mas muito audaciosas, tinham sido ouvidas outrora em um café-cantante, sob o brilho das estrelas do sul:

Sua excelência
De passarinhos gostava,
E para si
Belas mocinhas tomava!!!

Mas pode ser que não fosse nenhuma dessas palavras, mas outras com essa mesma música, com letras extremamente inadequadas. O importante não é isso, o importante é que, depois de tudo, algo parecido com uma babel teve início no Teatro de Variedades. A polícia correu até o camarote dos Sempleiárov, os curiosos subiam nas divisórias, ouviam-se explosões infernais de gargalhadas, gritos raivosos, abafados pelo retinir dourado dos pratos da orquestra.
[…]

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

27/09/2026

Caetano Veloso e Cézar Mendes | João

Pulando a cerca!

1641 – Mbororé

As missões

Chegam os mamelucos da região de São Paulo, caçadores de índios, devastadores de terras: avançam ao som da caixa, bandeira estendida e ordem militar, troar de guerra, vento de guerra, através do Paraguai. Trazem longas cordas com colares para os índios que agarrarão, e venderão como escravos nas plantações do Brasil.
Os mamelucos ou bandeirantes estão há anos arrasando as missões dos jesuítas. Das treze missões do Guayrá, não sobram mais que pedras e carvão. Novas comunidades evangélicas nasceram do êxodo, águas abaixo do Paraná; mas os ataques, incessantes, continuam. Nas missões, a serpente encontra os passarinhos reunidos e engordados, milhares de índios treinados para o trabalho e a inocência, sem armas, fáceis para o bote. Sob a tutela dos sacerdotes, os guaranis partilham uma vida regulada, sem propriedade privada nem dinheiro nem pena de morte, sem luxo nem escassez, e caminham para o trabalho ao som das flautas. Nada podem suas flechas de taquara contra os arcabuzes dos mamelucos, que provam os aços de suas alfanjes fendendo em duas partes as crianças e que como troféu levam tiras esfarrapadas de batinas e caravanas de escravos.
Mas desta vez uma surpresa espera pelos invasores. O rei da Espanha, assustado pela fragilidade destas fronteiras, ordenou que entregassem armas de fogo aos guaranis. Os mamelucos fogem em debandada.
Das casas brotam penachos de fumaça e cantos de alabança a Deus. A fumaça, que não é de incêndio e sim de lareiras, celebra a vitória.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Sétimo caderno de Kindzu



Um guia embriagado

Já me cansavam aqueles dias em casa de Assane. Que esperava? Nem Surendra nem Assane me podiam ajudar a procurar Gaspar, o perdido filho de Farida. Se lhes pedia conselho eles recolhiam os ombros, incapazes de responder. Para eles meu assunto era coisa estranha, de um outro mundo.
Nesse entrequando, eles me certificaram que a aldeia de Euzinha havia sido atacada e ninguém nela mais residia. Euzinha devia agora estar no campo de deslocados. Lá, com toda a certeza, residia agora a mulher que sabia do destino de Gaspar. Porém, como chegar até ela? Os matos eram demasiado mortais. Ninguém aceitaria me acompanhar. Antoninho, o ajudante da loja, ao cabo de muita saliva, disse conhecer alguém que poderia me conduzir pelos aforas. Deveríamos ir ao bar, lá se encontrava o desditoso cujo.
Essa noite eu e Antoninho fomos ao bar. Entrei e me deixei no balcão, escutando as vozes distantes dos presentes, quase todos embriagados. Muitos aproveitavam as duas horas de electricidade que o gerador da administração distribuía pelo povoado. E se agremiavam na cervejaria, a juntar conversa, amolecendo fraquezas em voz alta. Mais que os outros todos, dois homens se discutiam. Antoninho identificou os tais. Um gordo, enormão, balalaica carecendo de botões. Sendo chamado de Abacar Ruisonho. O outro, denominado Quintino Massua, homem nervoso, tão magro que uma ideia, só de ter peso, lhe fazia transpirar. Pois este Quintino levantava o copo e celebrava as boas graças:
— Vou ficar rico, cheio da mola.
Os presentes se riam, sem dar outro crédito que não fosse o de brincriação. E erguiam os copos, festejosos. Antoninho me segredou, em rápida pincelada, o retrato de Abacar Ruisonho. O homem era o chefe dos serviços de segurança, vacilando entre o ruim e o perdoável. Pois ele chegava onde quer que não fosse, abanava um cartão, nomeado que estava para intimar, intimidar e lavrar em acta. Seu permanente serviço era contar os viventes, conhecer quantos deslocados chegavam do campo. Passava o dia de esquina em esguelha, numerando: um, dois, por aí avinte... Empilhavam-se os números, baralhavam-se as pessoas. E recomeçava a contagem. Às vezes, rebentavam-lhe as fúrias: que esta gente nunca está quieta, grande porra! Uma coisa era certa: o gordo nem mau seria. Pelo menos, o magro Quintino não se amedrontava com o gordo Abacar. O magricelas se declarava, de juramentos para cima:
— Estou a dizer: amanhã sou eu que vou distribuir favores. É bom vocês ficarem em concordâncias comigo. Quem estiver contra mim não vai cheirar quinhenta.
Todos se descuidavam da verdade, migrados no fumo daquele bar, longe da vida real. E aclamavam no actual pobre o futuro falso rico. Se queria era engordar a fantasia. Fazia-se a festa sem nenhum ingrediente que não fosse a miséria de entrar num copo e afogar tristezas.
O único que não encontrava graça era o gordo Abacar. Sério como uma segunda-feira, reprovava as proclamações de Quintino Massua.
— São bebedeiras politicamente incorrectas.
Nesse momento, entrou no bar um homem estranho, pendurando uma pistola no vasto cinto. Ao sentir a presença do cujo, os presentes se entrelinharam, caladinhos, metidos com seus líquidos assuntos. Perguntei a Antoninho quem era o chegado.
— Esse é o Shetani. É melhor a gente se emborar.
O silêncio se instalou no bar. Contudo, naquele momento, Quintino Massua se desimportou, alheio aos perigos. Para comprovações, subiu numa cadeira e proclamou-se autor de feitos muito comentados em toda a vila:
— Aquelas notas de dinheiro que apareceram na praia: quem foi que rasgou-lhes? Eu mesmo, próprio Quintino.
O gordo Abacar ruminou cerveja, empapou argumento. Os presentes deixaram as graças e se abotoaram consigo mesmos. Antoninho me puxou pelo braço insistindo que deveríamos ir embora:
— Por favor de Deus, vamos para casa!
A brincadeira resvalava nos perigos, o assunto das notas era matéria de muito-o-quê. Shetani já comichava a mão sobre o cinto, deitando um nervo sobre a pistolenta. Mas o magrinho Quintino, discursador, prosseguia:
— Vejam motivo do sofrimento de hoje. É porquê?
Virando-se para mim me perguntou se eu sabia o real motivo dos cajueiros não florirem. Abacar me falou, ten-tando me tranquilizar:
— Não ligue. Isto é atraso, ignorância bravia. Vale a pena insistir? Vale a pena esclarecer esta gente? Eu sempre acho que sim. Do menos o mal: afinal, grão a grão o papa se enche de galinhas.
Hospitaleiro, o volumoso Abacar me ofereceu um espaço no balcão, a seu lado. Enquanto bebia, desembolsava mais ditados:
— No papar é que está o ganho!
O homem aproximou-me o bafo. Pensei que, postos os modos de confidência, fosse falar em sussurro. Mas usou o mesmo tom de xipalapala entupido:
— Vou-lhe confessar: me irrita esse Quintino é só por gosto que tenho nele. O gajo não compreende que eu lhe quero proteger. Quando lhe trato assim, faz conta um doentio, é para esses grandes pensarem ele é tonto, suas palavras são sempre de tira-e-põe. Você sabe: em terra de cego quem tem um olho fica sem ele.
Súbito, uma enorme explosão estrondeou. A luz sacudiu-se, por segundos, depois desfaleceu. No escuro, calados, aguardámos nova explosão. Apenas uma voz se fez ouvir:
— Cabrões, foi aqui mesmo!
Quem estaria disparando? O exército ou os bandos? Contra quem estariam disparando? Alguém riscou um fósforo, uma vela se acendeu no balcão. Depois, vários xipefos se iluminaram e foram distribuídos pelas mesas. Quintino foi o primeiro a voltar às falas, retomador da folia.
— Você, então? Nada se fala?
O homem se aproximou de mim, eu já estava sem remédio: metido na disputa. Mais queria ficar de fora, alheio à conversa perfurada, mais eu estava com o pescoço dentro dela. Nervoso, o homem me empastou com seu hálito:
— Você estrangeiro, escuta. Nesta terra se passam muitas merdas, todos tem medo de falar. Eu sei quem está a matar aqui. Não são só os bandos. Há outros, também.
Os bebedeiros se encolheram: as palavras de Quintino soaram como a explosão de há pouco. Quintino insistia: há coisas que todos sabem mas ninguém diz.
— Agora, em Moçambique, a guerra é como se fosse uma machamba.
E se explicou: a guerra gerava altos tacos, cada um semeava uma guerra particular. Cada um punha as vidas dos outros a render. Aquele silêncio estava agora demasiado mortal. Se escutou, então, a voz rosnante de Shetani:
— Esse gajo tem os dias descontados!
Quintino prosseguiu destemeroso, ignorando a presença do antigo combatente:
— É por isso essa guerra não acaba nunca mais. É assim, exactamesmo. Este Abacar também sabe, só não fala porque é um merda, filho de uma diarreia.
Aquilo era a gota transbordando. Abacar ficou calado, marsupial. Nem eu notara que estivesse tão bebido. O ex-cesso de álcool lhe dava uma aparência compenetrada. Bambavam-lhe as pernas, a barriga toda de fora, parêntesis curvo do peso. De repente, porém, arremessou a mão fechada contra a cara de Quintino que caiu, instantâneo, em ruidoso chapinhar. Ficou ali, todo inerte, esmãozinhado. Em volta, um círculo de vozes lhe chamava:
— Quintino, acorde!
Não respondia coisa nem coisa. Seria que ele, pessoalmente, tinha morrido? Perguntei, de inocente. Em redor, os outros se mancharam a rir. Eu não me afligisse, aquilo era muito costumeiro: o magrito acabava sempre assim as noites, no encosto do chão. Abacar se chegou até mim, amaciando os nós dos dedos.
— Tive que lhe arrear. Não tenho gosto de bater. É só para calar o gajo.
Foi então que, naquela penumbra ponteada de lamparinas, surgiu uma mulher acompanhada de um cão de dimensões. Antoninho me sussurrou: aquela era Juliana Bastiana, a prostituta cega. Olhei a dita enquanto o silêncio regressava àquele lugar fumarento. Shetani chamou Abacar e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. Os dois se riram, alto e mau som. A cega abria caminho entre as mesas. A mão dela, ao de leve, tocava o dorso do animal: assim se guiava.
— Estou ouvir o cheiro de um homem de fora. Quem sabe me trazem notícia do meu brigadeiro...
Suspirava saudades que nem convinham a uma mulher sabida e cursada em contrabandalheiras. Seu modo de ser cega fazia que não parecesse uma dessas trampalhonas, virabazucas. Ela se chegou, me cheirou. A saia dela se apertava no corpo, o rabo quase nem devia respirar.
— Não tenhas medo do cão. Ele é mais bondoso que muitos desses, disse apontando para a multidão.
Me pediu ser paga, juntou logo três copos. Mandou o cão para fora, o bicho que esperasse por ela. Obediente o cachorro meteu as pernas entre o rabo e saiu. Olhei em redor, a conversa embaretecera, risos rolando em risos. Nem parecia ter havido o tiroteiro, há segundos. Não parecia mesmo haver lá fora, tudo se resumindo àquele barzito. A cega pareceu adivinhar meus pensamentos.
— Graças a Deus sou cega. Lá fora, o mundo está pior. Por causa essa guerra, já ninguém se compaixona por ninguém.
Ela então contou sua razão de suspirar: aguardava o brigadeiro Silvério Damião, seu amante muito militar, exercendo patentes no exército colonial. Juliana historiava: que o brigadeiro tinha saído em missão recente contra os turras, na defesa da lusitana terra. A cega misturava os tempos, fazia do passado um tempo vigente. De um brusco gesto, meteu todo um braço dentro de sua saca e retirou um molho de envelopes.
— Tudo isso são cartas dele, não passa nenhuma semana que não escreva. Queres ler, estrangeiro?
Segurei as cartas, hesitante. Não li nenhuma. Aproveitei o momento para lhe explicar o motivo da minha presença naquele bar. Quem sabe ela me poderia apontar alguém capaz de me acompanhar em procuras no mato. Juliana Bastiana permaneceu sem resposta, parecia nem lhe chegara meu pedido. Pensei que deveria abrir um pouco dos motivos, lhe devia uma explicação. Mas ela me interrompeu:
— Há um motivo de amor?
— Sim, há.
— Então, não preciso saber mais.
Sorri, agradecido. Mantinha as cartas na mão, com delicado respeito, como se ela me pudesse ver. Devagar fui pousando os envelopes sobre a mesa. Os homens me olhavam, desdenhosos. Eu, um de fora, gozava a companhia de Bastiana. Baixei a voz e o gesto para não criar caso. As caras em volta eram de nenhuns amigos. Antoninho, só então reparei, já tinha saído do bar. Juliana me pareceu adivinhar o sentimento:
— Não tenha medo. Esses gajos é que tem razão para terem medo.
Só o brigadeiro Silvério, seu distante amante, era um homem muito inteiro, sem minhufas de ninguém. Era por isso que os outros sempre se irritavam quando ela anunciava o breve regresso do militar.
Voltei ao assunto da minha pergunta. Adiantei que se tratava de procurar uma criança há muito abandonada. Juliana lançou um terrível pressentimento: se fora há muito tempo, então esse miúdo devia andar com os bandos, patifaristando pelos matos, feito semeador de infernos.
— Mesmo assim lhe quero encontrar, respondi.
Eu queria ganhar tempo, entreter a prostituta a ver se ela se inclinava a deixar cair o nome de alguém que me servisse de guia.
— Tens arma, estrangeiro? Não tens? É muita pena: porque era bom que ensinasses a esse menino maneiras de matar, bons métodos de roubar.
Da bolsa retirou um cigarro e, sem acender, o ajeitou entre os lábios. É só para os outros verem, nem tu sabes quanta inveja vale uma coisa dessas, disse ela abanando o cigarro.
— Encontras o miúdo, mas ficas proibido de lhe dar caneta ou enxada. Isso não dá vida para ninguém. Vale a pena uma arma, estrangeiro. Nestes dias, uma arma é que faz a vida. Rápida e boa.
Do cigarro apagado ela arrancava invisíveis fumaças. Foi rodando a cabeça, espreitando as vozes. Sacudiu a cadeira, para me chamar a atenção. Apontou a mesa ao lado onde estava Shetani.
— Tu não sabes o meu perigo de sentar aqui, sozinha consigo.
Não demorei entender. No fundo do bar, Shetani chamou Bastiana. Usava os modos de espalhador de brasas.
— Anda-te aqui. Quero mostrar-lhe uma coisa.
Bastiana levantou-se com ar grave, apalpando as vozes, seus cinzentos. Ainda quis ajudar. Mas ela rejeitou o meu braço e ordenou que me afastasse. Avançou sem chocar em nada, postou-se diante de Shetani.
— O que é?
— Dá a tua mão, quero oferecer-lhe um presente.
— Vai para o mato, o seu lugar é lá.
— Estou-te a dizer, Bastiana. É um presente, uma encomenda que fui dado por um brigadeiro colonial.
A prostituta estremeceu, seus olhos sorriram, vagaluminosos. Deu um passo em frente, seu corpo se firmava como um credo. Shetani afastou a mesa, ergueu-se com vagares. Segurou a mão de Juliana Bastiana, abriu-lhe os dedos com força.
— Toma, Juliana Bastiana.
Colocou-lhe nas mãos uma qualquer coisa, ninguém percebeu o que era. Conforme apalpou a oferenda, o rosto dela foi abrandando o sorriso e, aos poucos, se fechou em mágoa. Até que gritou um arregalado lamento e chorou. Veio até à minha mesa, desta vez chocando-se nas demais cadeiras, cambaleoa.
— O que é, Juliana? Que te fizeram, conta-me.
Ajudei a se sentasse, seu corpo estava tenso, parecia ter tomado o freio nos nervos. Em seu rosto se desprendiam gotas de grossa tristeza, ensopando o pó-de-arroz. Voltei a pedir que me explicasse o que sucedera.
— Olha, vê o que fizeram com meu cão.
E abriu as mãos. Nelas estavam duas orelhas cortadas, ainda sangrando, inundando de vermelho a concha de seus dedos. Eu nem me pensei. Empurrei a cadeira, avancei sobre o milícia. Mas no caminho o braço da prostituta me travou, em aflição.
— Onde vais?
— Ele tem que aprender, Juliana. Alguém deve...
— Fica quieto, seu burro.
Juliana gritara aquelas palavras. Levantou os braços no ar, balburdiando gestos, palavras de arder. Me puxou para o assento com força, os desempregados olhos confirmavam sua cega decisão de me reter. Por fim, vendo-me vencido, soprou aliviada como se escapassem reticências de sua alma.
— Ele não fez por mal, estrangeiro.
— Como não fez por mal?
— Tu não entendes. Fui eu que pedi a Shetani para ele fazer isso. O bicho estava doente, eu que não tinha coragem...
Desandei, incapaz de ouvir. Saí até à porta para apanhar fresco. Passei por Shetani. Uma outra prostituta se nichara, entretanto, sobre as suas pernas dava ternuras merecidas pelos vencedores. Juliana permanecia sentada, bebendo em silêncio.
As horas se foram dissolvendo, a espuma desceu nos copos. A noite, às tantas, recebeu as despedidas, na cervejaria foram crescendo as cadeiras. Juliana Bastiana insistiu em pagar, retirou o dinheiro das roupas íntimas. Depois, os trocos voltaram ao sutiã. As moedinhas tilintintaram, pareciam rir com cócegas dos seios. Fui último a sair. Demorei a contar os pés, quantos os legítimos meus. Sem dar conta eu tinha ultrapassado os meus níveis.
Inspirei o ar da noite. Lá fora a multidão se desapinhava. Alguém puxava o Quintino pelos braços. Depositaram-lhe no passeio, ele estava destinado a dormir sob o lençol das estrelas. Um braço me repuxou, era Juliana Bastiana. Arrastou-me para ela, me cochichou:
— Esse que está aí, todo entornado no passeio.
— Esse o quê?
— É ele que entende do mato, pode andar lá mais à vontadinha que os bichos.
— Quintino?
— O próprio. Ele é que lhe pode conduzir onde você quer.
A cega afastou-se, mão dada com uma outra prostituta. Todos se haviam ido, me deixando só com o bêbado. Longe, um rádio ainda machucava o silêncio. Sentei para esperar uma pausa na inconsciência do homem. Estávamos só nós, eu e o embriagado Quintino, relentando-nos no cacimbo da noite. Uma saudade de Farida me inundou. Voltaria a ver aquela mulher? Ou jamais me poderia servir daquela formosura? Afinal, em meio da vida sempre se faz a inexistente conta: temos mais ontens ou mais amanhãs? O que eu desejava era que o tempo se adiasse, parado como o barco naufragado.
O bêbado, entretanto, não havia meio. O sono se descalçara na minha cabeça, tão convidançante que, para resistir, me subiu uma agonia. Me levantei, decidido a passear-me pelas redondezas. Nunca fui mancha-prazeres: tristeza sempre eu tratei no remédio de uma canção. Entoei uma melodia antiga, enquanto caminhava sob o perfume dos canhoeiros.
Decidi voltar, de madrugada, para procurar Quintino. Ansiava em saber a sua resposta sobre o serviço de me conduzir. Repente, um vulto saiu do escuro. Calafriorento, me defendi, atirando o desconhecido ao chão. No meio da luta, senti no corpo do suposto as palpitantes saliências: era uma mulher, seus seios estavam colocados à minha disposição.
— É você, afinal?
Carolinda, a esposa do administrador, se emancipou da penumbra, desfez-se da silhueta. Com a luta, a roupa se havia esfarrapado. Agora, no claro da luz, ela se enfeitava com seu próprio corpo, fosse era a abelha florindo. Atirava o pescoço para trás, no provoco de um riso. A língua, matreira, espreitava à soleira da boca. De passagem, Carolinda me fez lembrar Farida. Qualquer coisa as igualava, rosto em rosto. Ou será que o fogo do desejo faz semelhar toda a mulher? As nossas mãos se laçaram, como se temessem a separação. Estávamos perto da igreja, procurámos um lugar urgente.
— Na igreja não, os santos gostam de espreitar.
Demos a volta ao pátio, entrámos no curral da Missão. Dentro havia um xipefo de curta lumieira. Peguei no candeeiro com a mão desocupada e andámos por ali pisando palhas, tropeçando em pés do outro. Era uma dança para a qual ainda não havia sido inventada nenhuma música. Despimo-nos com ânsia. Pendurei o xipefo no chifre do boi e deitámo-nos sobre a palha.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

A fina flor da malandragem

Duzão é piloto, o que dá fuga a essa malandragem. Na madrugada, a bordo de um Mercedes, dirige certo por vias tortas.
Aninha já passou o ferro em várias madames, dizem por aí que pra mais de vinte.
Cabeção tem olhar de rapina e um iceberg no coração, quando entra no banco já vai direto ao caixa.
Colorau não age na quebrada, gosta de fazer mansão.
Lu ganha a vida distribuindo suas ideias através de um pó branco comprimido, a molecada fica alucinada. Nada contra quem mexe, mas ela nunca meteu a mão no pó dos outros.
Vavá não pode ver carro parado que leva, se não der na chave, leva nas costas.
Lourival mete o cano desde criança, o pai se virava no alicate, e nunca teve medo de cerca elétrica.
Como teve problemas de berço, Mariana pega o filho dos outros e devolve por uma quantia mínima.
Julião põe medo em muita gente, também pudera, já enterrou vários com uma pá na mão.
Salete limpou a casa de Sonia, quem deu a fita foi a Rose, que, se bobear, limpa até a casa dos parentes.
Marcio resgatou Sales da cadeia e saiu do presídio pela porta da frente, ninguém fez nada.
Elizabeth quase não ri, é uma espécie de gerente da boca, na rua dizem que ela é a patroa.
Nego Jan vende tudo que pega: relógio, TV, DVD, eletrodomésticos em geral, carro, moto, corrente de ouro, roupa de marca e demais mercadorias. Sua lábia é mais afiada que lâmina de gigolô.
Zoio tem problemas com a injustiça e está no semiaberto, passa o dia na oficina e à noite dorme no terceiro andar. Quando podem, Guida e Preto Will, parceiros de caminhada, o visitam no domingo.
Luciana não tem medo de sangue, já ajudou a cortar vários desconhecidos, muitos cagam de medo de morrer na mão dela.
Wilsinho não tem medo de nada, já passou o revólver até no carro da polícia.
As pessoas acima são suspeitas de ter a coragem de trabalhar e enfrentar o dia a dia com a dignidade que só o sofrimento ensina, e, por mais simples que sejam, nunca se evadiram da responsabilidade de lutar.
A malandragem fica por conta de quem lê.

Sérgio Vaz, em Literatura, pão e poesia

Lady Madonna | Paul McCartney e John Lennon

Do álbum de família, com a mãe, Mary, e o irmão, Mike


Lady Madonna
Paul McCartney e John Lennon

Lady Madonna, children at your feet
Wonder how you manage to make ends meet
Who finds the money when you pay the rent?
Did you think that money was heaven sent?

Friday night arrives without a suitcase
Sunday morning creeping like a nun
Monday’s child has learned to tie his bootlace
See how they run

Lady Madonna, baby at your breast
Wonders how you manage to feed the rest

See how they run

Lady Madonna, lying on the bed
Listen to the music playing in your head

Tuesday afternoon is never-ending
Wednesday morning papers didn’t come
Thursday night your stockings needed mending
See how they run

Lady Madonna, children at your feet
Wonder how you manage to make ends meet

Nunca superei o fato de minha mãe, Mary, ter morrido quando eu tinha quatorze anos. Uma canção que retrata uma mãe muito presente e carinhosa está impregnada com a influência dessa terrível sensação de perda. A questão sobre como Lady Madonna dá um jeito de alimentar o resto (“feed the rest”) é bem tocante para mim, e você não precisa ser um psicanalista para descobrir que eu mesmo fiz parte desse “resto”. Eu devo ter me sentido meio deixado de lado. Sem dúvida, é um tributo à figura materna, um tributo às mulheres.
O meu aspecto predileto da canção é o verso repetido “See how they run”. Vem da cantiga infantil “Three Blind Mice” (“Três ratos cegos”), com aquela nem-um-pouco-carinhosa mulher do fazendeiro que corta as caudas dos ratinhos com a faca de trinchar. Essa referência onfere à canção um ar ligeiramente sombrio. Seja como for, a palavra “run” (“correm”) também tem a ver com as meias-calças. Uma de minhas lembranças duradouras na infância era que, além de outros problemas mais relevantes que as mulheres enfrentavam, de vez em quando aparecia uma meia-calça desfiada ou rasgada que precisava de remendo – “Thursday night, your stockings needed mending”.
Essa repetição, como em “See how they run”, é um dos componentes mais poderosos ao compor uma canção. O termo técnico para essa expressão repetida é “refrain” (“refrão”). Em “Hey Jude”, outra canção desse mesmo período, brincamos com o duplo sentido da palavra “refrain”, que também significa “refrear”: “And anytime you feel the pain/ Hey Jude, refrain”.
Com os Beatles, estávamos sempre operando no limite entre estarmos cientes de como o “refrão” contribuía com a canção e basicamente não termos nem ideia do que estávamos fazendo. Sempre pensei que o segredo dos Beatles tinha a ver com a nossa música ser autodidata. Nunca pensávamos conscientemente no que estávamos fazendo. Fazíamos tudo meio ao natural. Uma mudança de acorde de tirar o fôlego não acontecia porque sabíamos como esse acorde se relacionava com outro acorde. Não éramos capazes de ler partituras nem de escrevê-las, então apenas inventávamos. Meu pai fazia exatamente assim. E quando as coisas surgem ao natural, elas trazem uma certa alegria. É como se você não tentasse fazer acontecer e acontecesse por si mesmo. Isso tem uma certa magia. Muito do que fizemos veio de um profundo senso de fascinação, em vez de estudo. Realmente não estudamos música.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente