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Do pó ao chão de terra seca
“Pai nosso que estais no céu,
santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita
a Vossa vontade, assim na Terra como no céu…”, rezava em coro
aquele pobre povo que velava a céu aberto o corpo de Mirtão. O
aumentativo do apelido do homem fazia referência a seu já morto
corpo enorme, esticado por demais desde que se entendia por gente,
assustando os moradores inocentes da vila onde vivera. “[…] O pão
nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas, assim como
nós perdoamos a quem nos tem ofendido…”, continuavam as vozes
tristes. O rastro de temor deixado nas ruas pelo tamanho do homem que
ali jazia era um paradoxo: mesmo bruto e assustador, não dava a
ninguém razão para se esconder quando o assistia passar. Afinal,
todos ali sabiam de Mirtão e sua mãe, Dona Hermina, uma senhorinha
pequenina e encolhida pela idade, que amava o filho porque, acima de
tudo, ele prolongara sua existência. Ora, não fosse o agora corpo
morto, a velha teria sido enterrada muito antes que há quatro anos,
quando morreu de morte morrida que chegara com a idade. Tinha-se esta
certeza na vila: ela teria sido assassinada pelo marido bebum se o
agora defunto não o tivesse arrancado a desgostosa vida depois de
uma briga de bar em que os dois riscaram faca até um sucumbir de
tanto sangue derramar. Mirtão era herói e vilão, assustador e
salvador, filho amado e destinado pelo padre a queimar nas labaredas
não celestiais, pois havia de pagar pelos pecados que cometera. “[…]
E não nos deixeis cair em tentação…”, o caixão do homenzarrão
estava no solo, ao lado do buraco cavado até beirar o corpo de sua
amada mãe. Seguiram a tradição: o filho vai por cima. As vozes das
mulheres cortavam o silêncio daquele cemitério enquanto se
sobrepunham às dos homens na reza conhecida. O coro era uniforme, e
uma ou duas das muitas crianças ali presentes se arriscavam a
acompanhar o clamor. Estavam descalças e sem camisas, mesmo as
meninas, com os cabelos desgrenhados coroando suas cabeças grandes.
A maioria delas vestia apenas calcinha; e os meninos, cueca. Poucas
ousaram pôr uma regatinha surrada para esconder do sol as costas.
Tinham cinco ou seis anos, e demonstravam sua inocência agarradas às
pernas dos que foram prestar favor ao enterro. A respeito de tudo o
que as cercava naquele instante, sabiam apenas que Mirtão não
voltaria, e isso as acalmava, porque ele estar nas ruas era uma das
razões contadas pelos pais para segurá-las em casa o dia todo. As
mulheres, mães e rezadeiras, usavam chinelos ralos, com os cabelos
bem-arrumados e as unhas aparadas, mostrando respeito à figura que
agora partira. Os homens, usando chapéus de palha feitos por eles
mesmos, alguns esburacados e outros ainda verdes, seguravam as
enxadas envelhecidas que tanto cavaram a cova quanto cobririam de
terra o corpo quando fosse hora de devolver Mirtão ao pó. O
conhecido calor de trinta e seis graus fazia todos suarem, e algumas
das crianças, observando o momento boquiabertas, chegavam a sentir o
gosto salgado que escorria por suas testas, desenhando suas bochechas
e seguindo caminho para as bocas. Caramelo, adestrado pelo coveiro a
se manter em silêncio nos enterros, estava ao pé do povo suado,
ofegante e sem latir, deitado de bucho para baixo e pescoço erguido,
atento ao corpo no caixão destampado. A cena era boa para o cão:
depois daquilo, seu dono receberia uns trocados por ter enterrado
mais um em seu quintal, e isso garantiria o jantar dos dois, que só
tinham costume diário de almoçar. O círculo de gente fechava a
cova de três palmos e meio de fundura, fazendo as sombras largas das
cabeças delinearem a borda da circunferência projetada no solo. A
mata da caatinga, seca e inclinada na direção da ventania, cercava
à distância aquelas pessoas, rondando o terreno do coveiro e
limitando a área do cemitério. Cruzes de madeira estavam entortadas
e cravadas no chão, de forma desorganizada, alertando que, sob
aquele solo amarelado que há muito não via chuva, descansavam
outros corpos. No limite do terreno estava a cabana de taipa do
proprietário, ela que com quatro paredes baixas erguidas e um teto
de folhas secas de palmeira, ardia sob o sol e deixava exposta parte
dos pedaços de paus sustentantes do barro que a dava forma. “[…]
Mas livrai-nos do mal, amém…”, findaram o rito, enquanto o corpo
era retirado do caixão e enrolado na velha rede que o envolveria sob
terra até que o primeiro verme resolvesse satisfazer sua fome com as
carnes de Mirto Aroeira Pereira Santino, que eternamente ali estaria,
cumprindo sua parte na mais imprevisível profecia para o
bicho-homem.
Patrick Torres, em O cozer das pedras, o roer dos ossos

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