29/09/2026

O cozer das pedras, o roer dos ossos



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Do pó ao chão de terra seca


“Pai nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no céu…”, rezava em coro aquele pobre povo que velava a céu aberto o corpo de Mirtão. O aumentativo do apelido do homem fazia referência a seu já morto corpo enorme, esticado por demais desde que se entendia por gente, assustando os moradores inocentes da vila onde vivera. “[…] O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido…”, continuavam as vozes tristes. O rastro de temor deixado nas ruas pelo tamanho do homem que ali jazia era um paradoxo: mesmo bruto e assustador, não dava a ninguém razão para se esconder quando o assistia passar. Afinal, todos ali sabiam de Mirtão e sua mãe, Dona Hermina, uma senhorinha pequenina e encolhida pela idade, que amava o filho porque, acima de tudo, ele prolongara sua existência. Ora, não fosse o agora corpo morto, a velha teria sido enterrada muito antes que há quatro anos, quando morreu de morte morrida que chegara com a idade. Tinha-se esta certeza na vila: ela teria sido assassinada pelo marido bebum se o agora defunto não o tivesse arrancado a desgostosa vida depois de uma briga de bar em que os dois riscaram faca até um sucumbir de tanto sangue derramar. Mirtão era herói e vilão, assustador e salvador, filho amado e destinado pelo padre a queimar nas labaredas não celestiais, pois havia de pagar pelos pecados que cometera. “[…] E não nos deixeis cair em tentação…”, o caixão do homenzarrão estava no solo, ao lado do buraco cavado até beirar o corpo de sua amada mãe. Seguiram a tradição: o filho vai por cima. As vozes das mulheres cortavam o silêncio daquele cemitério enquanto se sobrepunham às dos homens na reza conhecida. O coro era uniforme, e uma ou duas das muitas crianças ali presentes se arriscavam a acompanhar o clamor. Estavam descalças e sem camisas, mesmo as meninas, com os cabelos desgrenhados coroando suas cabeças grandes. A maioria delas vestia apenas calcinha; e os meninos, cueca. Poucas ousaram pôr uma regatinha surrada para esconder do sol as costas. Tinham cinco ou seis anos, e demonstravam sua inocência agarradas às pernas dos que foram prestar favor ao enterro. A respeito de tudo o que as cercava naquele instante, sabiam apenas que Mirtão não voltaria, e isso as acalmava, porque ele estar nas ruas era uma das razões contadas pelos pais para segurá-las em casa o dia todo. As mulheres, mães e rezadeiras, usavam chinelos ralos, com os cabelos bem-arrumados e as unhas aparadas, mostrando respeito à figura que agora partira. Os homens, usando chapéus de palha feitos por eles mesmos, alguns esburacados e outros ainda verdes, seguravam as enxadas envelhecidas que tanto cavaram a cova quanto cobririam de terra o corpo quando fosse hora de devolver Mirtão ao pó. O conhecido calor de trinta e seis graus fazia todos suarem, e algumas das crianças, observando o momento boquiabertas, chegavam a sentir o gosto salgado que escorria por suas testas, desenhando suas bochechas e seguindo caminho para as bocas. Caramelo, adestrado pelo coveiro a se manter em silêncio nos enterros, estava ao pé do povo suado, ofegante e sem latir, deitado de bucho para baixo e pescoço erguido, atento ao corpo no caixão destampado. A cena era boa para o cão: depois daquilo, seu dono receberia uns trocados por ter enterrado mais um em seu quintal, e isso garantiria o jantar dos dois, que só tinham costume diário de almoçar. O círculo de gente fechava a cova de três palmos e meio de fundura, fazendo as sombras largas das cabeças delinearem a borda da circunferência projetada no solo. A mata da caatinga, seca e inclinada na direção da ventania, cercava à distância aquelas pessoas, rondando o terreno do coveiro e limitando a área do cemitério. Cruzes de madeira estavam entortadas e cravadas no chão, de forma desorganizada, alertando que, sob aquele solo amarelado que há muito não via chuva, descansavam outros corpos. No limite do terreno estava a cabana de taipa do proprietário, ela que com quatro paredes baixas erguidas e um teto de folhas secas de palmeira, ardia sob o sol e deixava exposta parte dos pedaços de paus sustentantes do barro que a dava forma. “[…] Mas livrai-nos do mal, amém…”, findaram o rito, enquanto o corpo era retirado do caixão e enrolado na velha rede que o envolveria sob terra até que o primeiro verme resolvesse satisfazer sua fome com as carnes de Mirto Aroeira Pereira Santino, que eternamente ali estaria, cumprindo sua parte na mais imprevisível profecia para o bicho-homem.

Patrick Torres, em O cozer das pedras, o roer dos ossos

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