28/09/2026

O Mestre e Margarida | 12



Magia negra e sua revelação

Um homem pequeno com um chapéu-coco amarelo esburacado, nariz de batata cor-de-rosa, calça xadrez e botinas envernizadas subiu no palco do Teatro de Variedades com uma bicicleta simples de duas rodas. Ao som de um foxtrote, fez um círculo, e então soltou um grito triunfante, que fez sua bicicleta se empinar. Depois de dar uma volta sobre a roda traseira, o homenzinho ficou de pernas para o ar, deu um jeito de desparafusar a roda dianteira em movimento e a empurrou para os bastidores, e depois continuou seu caminho sobre uma roda, rodando os pedais com as mãos.
Em um selim no alto de um grande mastro metálico de uma só roda entrou uma loira roliça de maiô e uma saia curtinha coberta de estrelas prateadas e começou a pedalar em círculos. Quando cruzava com ela, o homenzinho dava gritos de saudação e tirava o chapéu-coco da cabeça com o pé.
Finalmente, surgiu uma criancinha de uns oito anos com rosto senil, ziguezagueando no meio dos adultos em um velocípede de duas rodas minúsculo, ao qual estava acoplada umaenorme buzina de automóvel.
Depois de fazer algumas acrobacias, todo o bando, ao rufar alarmante do tambor da orquestra, foi rodopiando até a ponta mais extrema do palco e os espectadores das primeiras filas soltaram gritos de admiração e pularam para trás em suas cadeiras, porque tiveram a impressão de que toda a troica ia desabar com seus veículos sobre a orquestra.
Mas as bicicletas pararam exatamente naquele momento em que as rodas dianteiras ameaçavam escorregar para o abismo sobre as cabeças dos músicos. Com um grito bem alto de “urra!”, os ciclistas saltaram de seus veículos, fazendo saudações, enquanto a loira mandava beijos no ar para o público, e a criancinha tocou sua buzina de som engraçado.
Os aplausos sacudiram o prédio e uma cortina azul veio dos dois lados e encobriu os ciclistas. As luzes verdes perto das portas com a inscrição “Saída” se apagaram, e na rede dos trapézios, sob a cúpula, bolas brancas se acenderam como o sol. Era o intervalo antes da última parte.
A única pessoa que não se interessava nem um pouco pelas maravilhas da tecnologia das bicicletas da família Giulli era Grigóri Danílovitch Rímski. Ele estava sentado em seu gabinete na mais completa solidão, mordendo os lábios finos, e volta e meia um espasmo passava por seu rosto. Ao extraordinário sumiço de Likhodiêiev, somou-se o desaparecimento completamente imprevisível do administrador Variênukha.
Rímski sabia para onde ele tinha ido, mas ele tinha ido e... não tinha voltado! Rímski dava de ombros e murmurava consigo mesmo:
— Mas por quê?
Que coisa estranha: para uma pessoa tão prática como o diretor financeiro, o mais fácil de tudo seria, é claro, telefonar para onde Variênukha tinha ido e procurar saber qual tinha sido seu fim e, no entanto, até as dez horas da noite ele não se decidira a fazer isso.
Às dez, praticando um verdadeiro ato de violência contra si mesmo, Rímski tirou o fone do gancho para então descobrir que o aparelho estava mudo. O mensageiro informou que os demais telefones do prédio também estavam com defeito. Esse acontecimento, claro, desagradável, mas não sobrenatural, sabe-se lá por que abalou definitivamente o diretor financeiro. Ao mesmo tempo, estava feliz: a necessidade de telefonar se esvaiu.
No momento em que a lâmpada vermelha sobre a cabeça do diretor financeiro acendeu e começou a piscar, anunciando o início do intervalo, o mensageiro entrou e informou que o artista estrangeiro havia chegado. O diretor financeiro, sabe-se lá por quê, estremeceu e, ficando ainda mais sombrio do que uma nuvem carregada, dirigiu-se para os bastidores para receber o artista visitante, pois não havia mais ninguém para fazer isso.
Do corredor, onde soavam campainhas de aviso, curiosos espiavam o grande camarim, sob diversos pretextos. Lá havia ilusionistas de capas vistosas e turbantes, um patinador com uma jaqueta branca de tricô, um contador de histórias pálido de tanto pó de arroz e um maquiador.
O famoso recém-chegado espantou a todos com seu fraque de comprimento sem precedentes e corte magnífico, e também por ter aparecido com uma meia-máscara negra. Mas o mais admirável era os dois companheiros do especialista em magia negra: um alto de xadrez com um pincenê rachado e um gato preto e gordo, que, quando entrou no camarim nas duas patas traseiras, sentou-se no sofá completamente à vontade, apertando os olhos para as lâmpadas de maquiagem.
Rímski se esforçou para colocar um sorriso no rosto, o que fez sua expressão ficar azeda e maldosa, e então cumprimentou o mago mudo, sentado ao lado do gato no sofá. Não houve aperto de mão. Em compensação, o atrevido sujeito de roupa xadrez se anunciou ao diretor financeiro, denominando-se “assistente do cavalheiro”. Esta circunstância deixou o diretor financeiro admirado mais uma vez: no contrato, decididamente não havia menção alguma a qualquer assistente.
Com um jeito extremamente forçado e seco, Grigóri Danílovitch quis saber do tal de xadrez que havia despencado sobre sua cabeça onde estavam os equipamentos do artista.
— Nosso diamante celestial, valiosíssimo senhor diretor — respondeu o assistente do mago, com a voz trêmula —, nosso equipamento está sempre conosco. Aqui está ele! Eins, zwei, drei! — E, depois de girar seus dedos nodosos diante dos olhos de Rímski, de repente tirou de trás da orelha do gato o próprio relógio de ouro e a correntinha de Rímski que até então estavam no bolso de seu colete sob o paletó abotoado, a correntinha trespassada em uma casa do botão.
Rímski apalpou a barriga involuntariamente, os presentes suspiraram e o maquiador que espiava pela porta grasnou, concordando.
— É seu querido relógio? Queira pegá-lo — disse o de xadrez, sorrindo casualmente e estendendo ao perplexo Rímski a palma da mão suja com seu pertence.
— Qual é a ordem, messire? — perguntou Fagot ao mascarado.
— Bom, fazer o quê? — retrucou o mago, pensativo. — São pessoas como outras quaisquer. Gostam de dinheiro, mas sempre foi assim... A humanidade gosta de dinheiro, independentemente do que seja feito: de couro, de papel, de bronze ou ouro. Bom, são levianas... fazer o quê... a misericórdia às vezes bate em seus corações... são pessoas comuns... em geral fazem lembrar as pessoas de antigamente... só que o problema habitacional as corrompeu... — E ordenou em voz alta: — Coloquem a cabeça no lugar.
Mirando com esmero, o gato enterrou a cabeça no pescoço e esta se assentou perfeitamente, como se nunca tivesse se ausentado de lá. E o principal, não ficou sequer uma cicatriz no pescoço. O gato espanou o fraque e o peitilho da camisa de Bengálski com as patas e os vestígios de sangue desapareceram. Fagot ergueu Bengálski, colocando-o de pé, enfiou em seu bolso um maço de dinheiro e o conduziu para fora do palco, com as seguintes palavras:
— Fora daqui! Sem você é mais divertido.
Olhando ao redor insanamente, e cambaleando, o mestre de cerimônias conseguiu se arrastar até o extintor de incêndio e ali se sentiu mal. Então soltou um grito penoso:
— Minha cabeça, minha cabeça!
Entre os que correram até ele, também estava Rímski. O mestre de cerimônias chorava, tentava apanhar algo no ar, balbuciava:
— Devolvam minha cabeça! Devolvam a cabeça! Peguem o apartamento, os quadros, mas devolvam a cabeça!
Um recepcionista foi correndo em busca de um médico. Tentaram acomodar Bengálski em um sofá do camarim, mas ele começou a se debater, ficou violento. Foram obrigados a chamar uma ambulância. Quando o pobre do mestre de cerimônias foi levado, Rímski correu de volta para o palco e viu que novas maravilhas estavam acontecendo ali. Ah, sim, naquele momento, ou um pouco antes, o mago, junto com sua poltrona desbotada, havia desaparecido do palco, e, a propósito, é preciso dizer que o público nem sequer notou, seduzido que estava com aquelas coisas excepcionais que Fagot desdobrava no palco.
Depois de despachar o vitimado mestre de cerimônias, Fagot anunciou ao público:
— Agorinha, depois de nos livrarmos desse chato, vamos abrir uma loja para damas!
E imediatamente o chão do palco cobriu-se com tapetes persas, surgiram enormes
espelhos, iluminados nas laterais por tubos esverdeados. Entre os espelhos, vitrines, e nelas os espectadores, alegres e aturdidos, viram vestidos parisienses, de diversas cores e cortes. Isso só em algumas vitrines. Já em outras apareceram centenas de chapéus para damas, com plumas e sem plumas, com fivelas e sem, centenas de sapatos — pretos, brancos, amarelos, de couro, de cetim, de camurça, com tiras, com pedrinhas. Entre os sapatos apareceram estojos de perfumes, montanhas de bolsas de couro de antílope, de camurça, de seda e, entre elas — verdadeiras pilhas de pequenos estojos alongados de ouro cinzelado em que se costuma colocar o batom.
Vai saber o diabo de onde saiu uma moça ruiva com uma toalete preta de gala, uma moça bonita em todos os sentidos, não fosse por uma estranha cicatriz no pescoço que a desfigurava, com um sorriso de proprietária ao lado das vitrines.
Fagot, sorrindo, malicioso e doce, anunciou que a casa estava realizando, sem cobrar nada, a troca de vestidos e calçados femininos velhos por novos modelos parisienses e novos calçados parisienses. Ele acrescentou o mesmo com relação às bolsas e ao restante.
O gato começou a arrastar a pata traseira e com a dianteira fazia uns gestos, próprios de porteiros quando abrem uma porta.
Mesmo afônica e com a língua presa, a moça começou a cantar docemente algo pouco compreensível, mas, a julgar pelos rostos femininos da plateia, muito sedutoramente:
— Guerlain, Chanel nº 5, Mitsouko, Narcisse Noir, vestidos de gala, vestidos para coquetéis...
Fagot se contorcia, o gato fazia reverências, a moça abria vitrines de vidro.
— Por favor! — vociferava Fagot. — Sem constrangimento ou cerimônia!
O público estava agitado, mas ninguém se atrevia a ir até o palco. Finalmente, uma morena saiu da décima fileira da plateia e, sorrindo, digamos, como se desse na mesma e não tivesse nenhuma importância para ela, passou pela escada lateral e subiu ao palco.
— Bravo! — gritou Fagot. — Vamos cumprimentar a primeira cliente! Uma cadeira, Behemoth! Vamos começar pelos calçados, madame!
A morena sentou-se na poltrona e imediatamente Fagot despejou um amontoado de sapatos no tapete diante dela. A morena tirou o sapato do pé direito, experimentou um lilás e pisou pelo tapete, examinando o salto.
— Será que não vai me apertar? — perguntou de forma pensativa. Ao que Fagotexclamou, ofendido:
— O que é isso, o que é isso! — e o gato miou também, ofendido.
— Vou levar esse par, monsieur — disse a morena com orgulho, calçando também o outro sapato.
Os sapatos velhos da morena foram jogados para trás da cortina, para onde também seguiu ela mesma, acompanhada da moça ruiva e de Fagot, que levava vários vestidos da última moda em cabides. O gato ajudava, atarantado, e, para dar um ar de importância, pendurou uma fita métrica no pescoço.
Um minuto depois, a morena saiu de trás da cortina com um vestido que fez um suspiro rodopiar por toda a plateia. A audaciosa mulher, admiravelmente mais bela, parou diante do espelho, moveu os ombros desnudos, tocou os cabelos na nuca e virou-se, tentando ver as próprias costas.
— A casa pede que aceite isso como recordação — disse Fagot, oferecendo à morena um estojo aberto com um frasco.
— Merci — respondeu a morena, soberanamente, e foi para a plateia pela escada. Enquanto andava, os espectadores saltavam e tocavam no estojo.
Então, de todos os lados, como uma avalanche, mulheres foram para o palco. Em meio ao rebuliço geral de vozes, risinhos e suspiros, ouviu-se uma voz masculina: “Não vou permitir uma coisa dessas!”, e outra feminina: “Seu déspota, pequeno-burguês! Assim você vai quebrar meu braço!” Mulheres desapareciam atrás da cortina, deixavam seus vestidos e saíam com novos. Toda uma fileira de damas sentada em banquinhos de pés dourados batia energicamente os calçados novos no tapete. Fagot se ajoelhava, manejando uma calçadeira de metal. O gato, atolado no meio de um monte de bolsas e sapatos, zanzava de um lado para o outro entre as vitrines e os banquinhos. A moça do pescoço deformado aparecia e desaparecia e chegou até mesmo ao ponto de ficar papeando inteiramente em francês, e o mais impressionante era que todas as mulheres a compreendiam mesmo com meias palavras, até as que não sabiam uma palavra sequer de francês.
Admiração geral foi provocada por um homem que se enfiou no palco. Ele anunciou que sua esposa estava gripada e por isso pedia que lhe dessem algo para levar-lhe. Para provar que era realmente casado, o cidadão prontificou-se em apresentar a certidão. A declaração do marido dedicado foi recebida com gargalhadas e Fagot vociferou que acreditava nele como em si próprio, mesmo sem a certidão, e entregou ao cidadão dois pares de meias de seda, e o gato incluiu de sua parte um pequeno estojo de batom.
As mulheres atrasadas irrompiam no palco, e dali transbordavam bem-aventuradas com vestidos de baile, robes com dragões, trajes sóbrios e pequenos chapéus apoiados sobre uma sobrancelha.
Então Fagot anunciou que, dali a exatamente um minuto, em função da hora tardia, a loja ficaria fechada até a noite do dia seguinte, e uma incomensurável confusão tomou conta do palco. As mulheres agarravam sapatos apressadamente, sem experimentá-los. Uma, feito um furacão, irrompeu para trás da cortina, arrancou ali mesmo seu traje e se apossou da primeira coisa que apareceu pela frente — um chambre de seda com estampa de buquês enormes de flores. Além disso, conseguiu agarrar dois estojos de perfumes.
Exatamente depois de um minuto, houve um disparo de pistola, os espelhos desapareceram, as vitrines e os banquinhos se dissiparam, o tapete evaporou no ar, assim como a cortina. A última coisa que desapareceu foi a altíssima montanha de vestidos e calçados velhos, e o palco ficou novamente austero, vazio e desnudo.
E foi aqui que um novo personagem se intrometeu.
Um barítono agradável, sonoro e muito insistente foi ouvido do camarote número dois:
— De qualquer maneira, cidadão artista, seria desejável que, sem perder mais tempo, o senhor revelasse diante dos espectadores a técnica de suas mágicas, em especial a das cédulas de dinheiro. Seria desejável, também, o retorno do mestre de cerimônias ao palco. Os espectadores estão agitados sobre o destino dele.
O barítono pertencia a ninguém menos que o convidado de honra daquela noite, Arkádi Apollônovitch Sempleiárov, presidente da Comissão de Acústica dos Teatros Moscovitas.
Arkádi Apollônovitch estava no camarote com duas damas: a mais velha usava trajes caros e da moda, e a outra — jovenzinha e bonitinha — trajes mais simples. A primeira, como se soube durante a redação do relatório, era a esposa de Arkádi Apollônovitch; a segunda, sua parente distante, atriz iniciante e promissora, que viera de Sarátov e estava morando no apartamento de Arkádi Apollônovitch e sua esposa.
— Pardon! — retrucou Fagot. — Peço desculpas, aqui não há nada a ser revelado, tudo está claro.
— Não, sinto muito! A revelação é totalmente necessária. Sem isso esses brilhantes números deixarão má impressão. A massa de espectadores exige explicações.
— Parece que a massa de espectadores — rebateu o palhaço insolente, interrompendo Sempleiárov — não tem nada a declarar. Mas, levando em consideração o seu profundo e respeitável desejo, Arkádi Apollônovitch, que assim seja, eu farei uma revelação. Porém, para isso, permita-me mais um numerozinho?
— Por que não? — respondeu Arkádi Apollônovitch, com ar condescendente. — Mas com uma revelação, sem falta!
— Sim, senhor, sim, senhor. Então permita-me perguntar, onde o senhor estava ontem à noite, Arkádi Apollônovitch?
Diante dessa pergunta descabida e, digamos, indelicada, o rosto de Arkádi Apollônovitch ficou alterado, realmente bastante alterado.
— Ontem à noite Arkádi Apollônovitch estava em uma reunião da Comissão de Acústica — declarou de forma muito arrogante sua esposa. — Mas não estou entendendo o que isso tem a ver com magia.
— Ouiii, madame! — confirmou Fagot. — É natural que a senhora não entenda. Mas, quanto à reunião, está totalmente enganada. Quando saiu para a referida reunião, que, diga-se de passagem, nem estava marcada para ontem, Arkádi Apollônovitch dispensou seu motorista perto do edifício da Comissão de Acústica em Tchístie Prudý (o teatro inteiro silenciou) e, sozinho, tomou um ônibus até a rua Ielôkhovskaia para fazer uma visita a uma atriz do teatro itinerante do distrito, Mílitsa Andrêievna Pokobátko, e com ela passou cerca de quatro horas.
— Ai! — alguém soltou uma exclamação de sofrimento em meio ao silêncio absoluto.
De repente a jovem parente de Arkádi Apollônovitch soltou uma gargalhada baixa e terrível.
— Tudo está esclarecido! — exclamou ela. — Eu já desconfiava disso fazia muito tempo. Agora está claro porque aquela besta quadrada ganhou o papel de Luisa!
E, agitando-se repentinamente, bateu na cabeça de Arkádi Apollônovitch com seu pequeno e grosso guarda-chuva lilás.
O pérfido Fagot, também chamado Korôviev, gritou:
— Vejam, veneráveis cidadãos, um dos casos de revelação que Arkádi Apollônovitch arrumou com tanta impertinência!
— Como você se atreve, sua infame, a encostar em Arkádi Apollônovitch? — perguntou a esposa com um ar terrível, levantando-se no camarote em todo seu tamanho gigante.
Um segundo e breve acesso de riso satânico tomou conta da jovem parente.
— E quem mais do que eu — respondeu ela, rindo — se atreveria a encostar nele! — E pela segunda vez o estalido seco do guarda-chuva batendo na cabeça de Arkádi Apollônovitch ressoou no teatro.
— Polícia! Prendam-na! — gritou a esposa de Sempleiárov com uma voz tão terrível que muitos sentiram o coração gelar.
Então o gato apareceu na ribalta e esbravejou para o teatro inteiro ouvir com uma voz humana:
— A sessão acabou! Maestro! Execute uma marcha!!
O enlouquecido maestro, sem se dar conta do que estava fazendo, agitou a batuta, e a orquestra não começou a tocar, nem mesmo a soar ou a retumbar, mas precisamente, seguindo a expressão repulsiva do gato, executou uma marcha incrível, de uma rudeza sem precedentes.
Por um momento pareceu que as palavras dessa marcha, pouco inteligíveis, mas muito audaciosas, tinham sido ouvidas outrora em um café-cantante, sob o brilho das estrelas do sul:

Sua excelência
De passarinhos gostava,
E para si
Belas mocinhas tomava!!!

Mas pode ser que não fosse nenhuma dessas palavras, mas outras com essa mesma música, com letras extremamente inadequadas. O importante não é isso, o importante é que, depois de tudo, algo parecido com uma babel teve início no Teatro de Variedades. A polícia correu até o camarote dos Sempleiárov, os curiosos subiam nas divisórias, ouviam-se explosões infernais de gargalhadas, gritos raivosos, abafados pelo retinir dourado dos pratos da orquestra.
[…]

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

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