31/08/2026
O quarto em desordem
Na curva perigosa dos cinquenta
derrapei neste amor. Que dor! que
pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor
que não se sabe como é feita: amor,
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais defeso, corpo! corpo, corpo,
verdade tão final, sede tão vária,
e esse cavalo solto pela cama,
a passear o peito de quem ama.
Carlos Drummond de Andrade, em Fazendeiro do ar
O imagista
Quando o homem desaparecer, que será
das coisas? Morrerão da mesmice de ser. De serem apenas aquele poste
ali na esquina, a fonte sorrateira, a bela tabuleta inutilmente
colorida, os pacientes relógios sobreviventes. Morrerão da mesmice
de serem e não mais parecerem.
Quando o homem desaparecer, que será
das coisas, que será de Deus?
Mário Quintana, em Caderno H
Antiperipléia
— E o senhor quer me levar,
distante, às cidades? Delongo. Tudo, para mim, é viagem de volta.
Em qualquer ofício, não; o que eu até hoje tive, de que meio
entendo e gosto, é ser guia de cego: esforço destino que me praz.
E vão me deixar ir? Em dês que o meu
cego seô Tomé se passou, me vexam, por mim puxam, desconfiam
discorrendo. Terra de injustiças.
Aqui paramos, os meses, por causa da
mulher, por conta do falecido. Então, prendam a mulher, apertem com
ela, o marido rufião, aí esses expliquem decerto o que nem se
deu. A mulher, terrível. Delegado segure a alma do meu seô Tomé
cego, se for capaz! Ele amasiava oculto com a mulher, Sa Justa,
disso alguém teve ar? Eu provia e governava.
Mas não cismo como foi que ele no
barranco se derrubou, que rendeu a alma. Decido? Divulgo: que as
coisas começam deveras é por detrás, do que há, recurso;
quando no remate acontecem, estão já desaparecidas. Suspiros.
Declaro, agora, defino. O senhor não me perguntou nada. Só dou
resposta é ao que ninguém me perguntou.
Mulheres dôidas por ele, feito Jesus,
por ter barba. Mas ele me perguntava, antes. — “É bonita?” Eu
informava que sendo. Para mim, cada mulher vive formosa: as
roxas, pardas e brancas, nas estradas. Dele gostavam — de um
cego completo — por delas nem não poder devassar as formas nem
feições? Seô Tomé se soberbava, lavava com sabão o corpo, pedia
roupas de esmola. Eu, bebia.
Deandávamos, lugar a lugar, sem
prevenir que já se estava no vir para aqui. Tenho culpas retapadas.
A gente na rua, puxando cego, concerne que nem se avançar navegando
— ao contrário de todos.
Patrão meu, não. Eu regia — ele
acompanhava: pegando cada um em ponta do bordão, ocado com recheios
de chumbo. Bebo, para impor em mim amores dos outros? Ralhavam, que,
passado já de idade de guiar cego, à mão cuspida, mesmo eu assim,
calungado, corcundado, cabeçudão. Povo sabe as ignorâncias. Então,
eu, para também não ver, hei-de recordar o alheio? Bebo. Tomo, até
me apagar, vejo outras coisas. Ele carecia de esperar, quando eu me
perfazia bêbedo deitado. Me dava conselhos. Cego suplica de ver
mais do que quem vê.
Tinha inveja de mim: não via que eu
era defeituoso feioso. Tinha ódio, porque só eu podia ver essas
inteiras mulheres, que dele gostavam! Puxar cego é feito tirar um
condenado, o de nenhum poder, mas que adivinha mais do que a
gente? Amigos. O roto só pode mesmo rir é do esfarrapado. Me dava
vontade de leve nele montar, sem freio, sem espora...
A gente cá chegou, pois é. A mulher
viu o cego, com modos de não-digas, com toda a força guardada. Essa
era a diversa, muito fulana: feia, feia apesar dos poderes de Deus.
Mas queria, fatal. Ajoelhou para me pedir, para eu ao meu Seô Cego
mentir. Procedi. — “Esta é bonita, a mais!” — a ele afirmei,
meus créditos. O cego amaciou a barba. Ele passeou mão nos braços
dela, arrojo de usos. Soprou, quente como o olho da brasa. Tive
nenhum remorso. Mas os dois respiravam, choraram, méis,
airosos.
Se encontravam, cada noite, eu
arrumando para eles antes o redor, o amodo e o acômodo, e estava de
longe, tomando conta. O marido desgostava dela, druxo homem, de
estrambolias, nem vinha em casa. Alguém maldou? Cego esconde mais
que qualquer um, qualquer logro. E quem vigia como eu? Ela me dava
cachaças, comida. Ele me fiava a féria. Me tratavam. O que podia
durar, assim, às estimas fartas?
A vida não fica quieta. Até ele se
despenhar no escuro, do barranco, mortal. Vinha de em-delícias. A
mulher aqui persiste — para miar aos cães e latir aos gatos. Que é
que eu tenho com o caso... Todos fazem questão de me chamar de
ladrão. Cego não é quem morre?
Todos tendo precisão de mim, nos
intervalos. A mulher, maluca, instando que eu a ele reproduzisse
suas porvindas belezas. Seô Tomé dessas sozinhas nossas não
contrárias conversas tirando ciúme, com porfias e más zangas. Mas
eu reportava falseado leal: que os olhos dela permitiam brilhos, um
quilate dos dentes, aquelas chispas, a suma cor das faces. Seô
Tomé, às barbas de truz, sorvia também o deleite de me descrever o
que o amor, ele não desapaixonava. Só sendo cego quem não deve
ver? Mas o marido, imoral, esse comigo bebia, queria mediante meus
conluios pegar o dinheiro da sacola... Eu, bêbedo e franzino,
ananho, tenho de emendar a doideira e cegueira de todos?
Deixassem — e eu deduzia e
concertava. Mas ninguém espera a esperança. Vão ao estopim no fim,
às tantas e loucas. Por mais, urjo; me entenda. Aqui, que ele se
desastrou, os outros agravam de especular e me afrontar, que me
deparo, de fecho para princípio, sem rio nem ponte.
Dia que deu má noite. Ele se errou,
beira o precipício, caindo e breu que falecendo. Não pode ter sido
só azares, cafifa? De ir solitário bravear, ciumado, boi em bufo,
resvalou... e, daí, quebrado ensanguentado, terrível, da terra.
Ou o marido, ardido por matar e roubar
— empuxou o outro abaixo no buracão — seu propósito? Cego
corre perigo maior é em noites de luares...
E seô Tomé, no derradeiro, variava:
falando que começava a tornar a enxergar! Delírios, de paixão,
cobiçação, por querer, demais, avistar a mulher — os traços —
aquela formosura que, nós três, no desafeio, a gente tinha tanto
inventado. Entrevendo que ela era real de má-figura, ele não pode,
desiludido em dor, ter mesmo suicidado, em despenho? O pior cego é o
que quer ver... Deu a ossada.
Ou, ela, visse que ele ia ver, havia
de mais primeiro querer destruir o assombroso, empurrar o qual, de
pirambeira — o visionável! Caráter de mulher é caroços e
cascas. Ela, no ultimamente, já se estremecia, de pavôres de amor,
às vezes em que ele, apalpador, com fortes ânsias, manuseava a cara
dela, oitivo, dedudo. Ar que acontece...
Se na hora eu estava embriagado,
bêbedo, quando ele se despencou, que é que sei? Não me
entendam! Deus vê. Deus atonta e mata. A gente espera é o resto da
vida.
A mulher diz que me acusa do crime,
sem avermelhação, se com ela eu não for ousado... O marido,
terrível, supliquento, diz que eu é que fui o barregão...
Terríveis, os outros, me ameaçam, às injúrias... O senhor
não diz nada. Tenho e não tenho cão, sabe? Me prendam! Me larguem!
A mulher esteja quase grávida. Me chamo Prudencinhano. Agora o cego
não enxerga mais... A culpa cai sempre é no guiador?
Só se inda hei outras coisas, por
ter, continuadas de recomeçar; então Deus não é
mundial? Temo que eu é que seja terrível.
E o senhor ainda quer me levar, às
suas cidades, amistoso?
Decido. Pergunto por onde ando.
Aceito, bem-procedidamente, no devagar de ir longe. Voltar, para fim
de ida. Repenso, não penso. Dou de xingar o meu falecido, quando as
saudades me dão. Cidade grande, o povo lá é infinito.
Vou, para guia de cegos, servo de dono
cego, vagavaz, habitual no diferente, com o senhor, Seô
Desconhecido.
Guimarães Rosa, em Tutameia
Um apólogo
Era uma vez uma agulha, que disse a um
novelo de linha:
— Por que está você com esse ar,
toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa
neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê?
Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e
falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora
não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa
o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua
vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os
vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você
é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é
que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que
furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás,
obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante
do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é
que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o
caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo,
ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira
chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em
casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não
andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da
agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.
Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a
melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos
de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima
no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só
se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a
eles, furando abaixo e acima.
A linha não respondia nada; ia
andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela,
silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir
palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta,
calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de
costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no
pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia
seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou
a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa
vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha
espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto
compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro,
arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a
linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que
vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da
elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas,
enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para
o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada;
mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência,
murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em
abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí
ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para
ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor
de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha
a muita linha ordinária!
Machado de Assis, em Gazeta de Notícias, 1º de março de 1885
30/08/2026
Momento num café
Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto
largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação
feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
Manuel Bandeira, em Estrela da manhã
Capítulo Terceiro – Todo trem é uma rua que caminha
•••
Chegara o sábado. Ricardo e Roberto
só trabalhavam meio expediente e aproveitavam um pedaço da tarde
para ver a beleza do Rio. Aquela beleza que nunca antes os
entusiasmara tanto. Mas o Rio, quando os ardores de verão
desapareciam, quando o céu se vestia daquele azul de fim de abril e
que aumentava ainda mais de azul saudando o mês de maio... Ah! O Rio
de Janeiro em toda a sua beleza e esplendor. O mar emborcando de
verde nas bordas da cidade. O verde mais verde e luminoso das
montanhas. O encantamento dos jardins. A delícia suave da Gávea
guardando a umidade das suas matas e dos seus parques. A elegância
de Laranjeiras com os seus solares tradicionais. E por cima de tudo a
dignidade do Pão de Açúcar, levando turistas e gente dos outros
estados (dos outros estados porque eles como bons cariocas nunca
tinham subido nem sequer até à Urca) para descortinar a magia da
Guanabara, espojando-se aos revérberos do sol. E ainda por cima o
Cristo de braços abertos, como se fosse uma grande pomba da paz,
abençoando e se extasiando ante tanta maravilha.
Almoçaram quietamente em um
restaurante agradável na rua São José e retornavam, como Ricardo
dizia, à realidade do nosso mundo. Um mundo que começava na Central
do Brasil. Na estação D. Pedro Segundo, coroado pela singularidade
da favela e pela pedreira de São Diogo. Depois caminharia até a
ponte de Lauro Miller, onde rezava a lenda que o engenheiro se
suicidara com medo que a ponte desabasse com o correr dos trens e do
tempo. Ele se fora, mas a ponte continuava viva e continuaria ainda
por muitos anos...
Aos sábados até os trens pareciam
conhecer o dia. Não enchiam tanto. Ou porque o regresso era mais
cedo ou porque muita gente continuasse com o mesmo horário de
trabalho. Para eles não, eram uns favorecidos pela sorte.
Conseguiram sentar-se calmamente num
Campo Grande. Pena que não fosse horário do Mangaratiba, que ia
direto a Deodoro e de lá até Bangu.
Vinha a invasão dos vendedores de
tudo.
– Sorte grande, minha gente. Cobra,
jacaré, elefante.
A mulher caminhava entre os bancos,
pelo corredor vazio. Falara sardonicamente para um rapazola:
– Veado, moço?
Mas ouvira a resposta que não
esperava.
– Vaca, dona.
Disfarçava ante o riso dos outros e
procurava entre os bilhetes.
– Vaca não tem.
– Pensei que tinha.
Os jornais apareciam aos borbotões.
Os menos afamados no meio dos outros, os mais baratos também no meio
dos outros.
– O Globo, A Noite e O Diário.
Mas a voz do homem forçava o Radical,
porque os grandes crimes vinham cheirando a sangue no Radical e na
Vanguarda.
– Pentes, agulhas, carretel de
linhas e espelhos.
Até santinhos e santões apareciam
nessa hora antes de o trem apitar a partida. São Jorge no seu cavalo
matando o seu dragão, pequeno. Santa Luzia carregando a travessa com
os olhos, grande. São João com os seus cabelos bem encaracolados e
com o carneirinho no ombro, pequeno. Santa Terezinha do Menino Jesus
carregando rosas, bem grande...
– Cosme e Damião a senhora tem?
– Puxa, com o diabo de tanto santo a
senhora vem procurar logo um que não tem.
Ricardo falou, olhando a paisagem
humana, e sorriu com bondade.
– Essa gente é gente, Roberto. Essa
gente sabe viver e sabe sofrer. É gente de carne mesmo. E eu gosto
da vida deles. A verdade é essa.
Seu olhar adquiriu um tom melancólico
e ao mesmo tempo profundamente cismativo.
– Sei. Mas hoje é o dia. Não se
esqueça, sábado. Nós combinamos que uma resposta será dada.
– Eu sei. Eles vão embora na
segunda-feira. Voltarão segunda-feira...
O trem apitou e foi uma correria de
gente que vendia procurando as plataformas para descer.
Mal as rodas deram aquele canto de
viagem, um menino de três anos, feinho de doer, vestido
grotescamente, imitando o trajar de menino rico, abriu num berreiro
danado.
– Água, mamãe. Tou cum sede...
A humanidade se comoveu. Sede já é
uma coisa horrível em gente grande, quanto mais numa criancinha.
O menino esganiçava.
Alguém perguntou piedosamente.
– Por que não foi no varejo, dona?
Lá, se não dessem água, tinha refresco de limão, laranja,
groselha e tamarindo.
– Não deu nem tempo. Eu não podia
perder esse trem. Já vinha numa agonia danada, quando saltei na
Praça Quinze. Nunca que chegava um bonde “Barcas”. Cheguei aqui
estrebuchando. Esse meu filho pesava como chumbo.
A criança aumentava o berreiro. Todo
mundo tentava consolar a criança. Que esperasse um pouquinho. Quando
chegasse em Engenho de Dentro, pediriam ao fiscalpara demorar a
apitar. Teriam tempo de correr no varejo e trazer um copo de qualquer
coisa.
Mas o menino arroxeava de gritar. A
mãe não sabia que fazer com a criança no colo. Ninava-a, falava
doçura, prometia, mas nada. O barulho era de desenvolver ao máximo
qualquer pequena dor de cabeça provocada pelo abafamento.
Conseguiram falar com o cobrador,
combinaram demorar dois minutos a mais em Engenho de Dentro. Todo
mundo se ligando naquela infelicidade comum.
O trem parou. O fiscal combinou. O
apito atrasou dois minutos e um voluntário correu até o varejo e
veio voando com um copo de refresco de tamarindo. Aproximou-se
ofegante e quis ser ele mesmo o intérprete da sua boa ação. Levou
o copo à boca da criança e surpresa imensa apareceu: o menino bateu
no copo, empurrou a mão e vociferou:
– Num quero.
Aí a coisa mudou.
– Ah!, você não quer? Pois bebo
eu.
Virou o copo goela abaixo. Correu a
devolver no varejo e só teve tempo de escutar o trem apitar e
começar a andar. Pulou na plataforma e foi ajudado por mãos de boa
vontade.
O menino chorava ainda.
Um bombeiro gordo e moreno, que devia
pelo menos ter vinte anos de serviços prestados à coletividade,
inclinou-se para a mulher e aconselhou:
– Tenho visto de tudo na vida, dona.
Incêndio, afogamento e naufrágio, mas... mas... se fosse meu
filho...
Foi o que fez a mãe. Debruçou o
menino feio no colo e sapecou-lhe duas imorredouras palmadas.
Naquelas palmadas se traduzia a vontade de pelo menos duzentas mãos
naquele carro.
Aí o menino choramingou, choramingou,
foi fechando os olhos e, para alívio de todos, adormeceu.
– Ricardo, você prometeu. Hoje é
sábado.
Ricardo riu e bateu de leve nos ombros
de Roberto, acalmando-o.
– Você vai se espantar com a minha
decisão. Eu não voltarei com eles. Eu vou permanecer.
– Mas como? Nós seremos ricos de
novo, Ricardo.
– Não. Não irei. Eu descobri a
verdade e vou trabalhar para essa gente.
– Mas de que maneira?
– Não sei. Na hora Deus me indicará
um jeito.
– Você está brincando, Ricardo. E
eu?
Ricardo olhou estranhamente para o
irmão, mas mesmo assim nos seus olhos existiam um mundo de ternura e
compreensão.
– Pois você volta com eles. Só
isso.
– Você vai preferir ficar nesse
mundo de sacrifícios? Nesse mundo de viagens intermináveis, num
universo de uma casinha modesta e apertada, em vez de...
– Certo. Em vez de um mundo egoísta
e falso. Cínico e de desamor. Vou ficar. E quando vocês partirem,
claro que sentirei a sua falta.
– E Mabel? Mabel é nossa mãe.
– Mabel será feliz. Vai esquecer
tudo que passou e voltar ao seu modo de olhar a felicidade. O tempo
milagroso tudo apaga, menos as rugas da velhice.
– Você crê, Ricardo?
– Mas o tempo ameniza as rugas da
velhice.
Fez uma pausa e foi tomado de uma
certa emoção.
– E quando todos partirem, deixarei
até o emprego. Não vou mais trabalhar. Só minha alma trabalhará.
Vou viver mais próximo dessa gente e ajudá-la.
– De que modo?
– Na hora resolveremos: Deus e eu.
– Ricardo, Ricardo! Como poderá
você viver sem nada?
– É suficiente a base. Pedirei que
me deixem a casa em troca do bem a que terei direito. Tendo essa base
tudo se resolverá.
– E se eu quiser ficar? Eu não o
deixarei por nada. Você foi a única pessoa naminha vida que
significou carinho para mim. E se eu quiser ficar?
Ricardo sentiu um nó na garganta.
– Não exigiria tanto de você. Mas
se você ficasse seria uma festa no meu coração.
– E não sentiremos falta de nada do
que já tivemos?
– Eu nunca mais senti falta. Desde o
primeiro dia que fugi obrigatoriamente daquela fatuidade. Nunca mais
eu voltaria a defrontar-me com aquela que foi o meu amor. Você sabe
que estou falando a verdade...
Roberto meneou a cabeça, incrédulo.
– Estranho deixar o mundo de ricos
para experimentar um mundo, ao que me parece, de renúncias.
– Estranho, por que, meu irmão? Faz
muito tempo um homem chamado Gotama, o Buda, abandonou as pompas e
riquezas do seu palácio para viver entre os pobres... e foi feliz.
Mais tarde outro homem, Francisco de Assis, também deixou o mundo do
luxo para conviver com os menos favorecidos, não é verdade?
– Mas eles eram santos!
– Em suas épocas não o foram
considerados como tal. Pelo menos no princípio.
Calaram-se. Entretanto, Ricardo fez
renascer a conversa.
– Enquanto sobrar o resto do nosso
último ordenado, já que a família não precisará dispor dele
agora, viveremos humildemente. E quando acabar Deus nos ajudará.
Creia. “Os lírios não tecem, nem bordam. Os pássaros do Senhor
enchem o mundo apenas com a beleza dos seus cantos...”
Roberto decidira.
– Juro que eu ficarei com você, meu
irmão. Será o meu acompanhamento na mais estranha de todas as
aventuras.
– Você verá que não. Que tudo é
tão simples. Vamos deixar que cresçam nossos cabelos e nossas
barbas. Andaremos como dois velhinhos, na calma absoluta. Eu terei
noventa e seis e você oitenta e seis. Só isso. E na maior ternura
nos aproximaremos da bondade do coração humano. E essa bondade só
existe nas mãos de Deus. E todos podem tocar nas mãos de Deus,
contanto que haja a sinceridade no âmago do coração.
José Mauro de Vasconcelos, em Rua Descalça
1637 – Mystic Fort
Da descrição de John Underhill,
puritano de Connecticut, sobre uma matança de índios pequot.
Eles não sabiam nada de nossa
chegada. Estando perto do forte, nos encomendamos a Deus e suplicamos
Sua assistência em tão pesada empresa...
Não pudemos outra coisa além de
admirar a Divina Providência quando nossos soldados, inexperientes
no uso das armas, lançaram uma carga tão cerrada que parecia que o
dedo de Deus tivesse posto fogo na mecha. Ao romper do dia, a
andanada provocou terror nos índios, que estavam profundamente
adormecidos, e escutamos os gritos mais cheios de lamento. Se Deus
não tivesse preparado os corações nossos para o Seu serviço,
teríamos sido movidos à comiseração. Mas havendo Deus nos
despojado de piedade, nos dispusemos a cumprir nosso trabalho sem
compaixão considerando o sangue que os índios tinham derramado
quando trataram barbaramente e assassinaram a uns trinta de nossos
compatriotas. Com nossas espadas na mão direita e nossas carabinas
ou mosquetões na mão esquerda, atacamos...
Muitos morreram queimados no
forte... Outros foram forçados a sair e nossos saldados os recebiam
com as pontas das espadas. Caíram homens, mulheres e crianças; os
que escapavam de nós, caíam nas mãos de nossos índios aliados,
que esperavam na retaguarda. Segundo os índios pequot havia umas
quatrocentas almas nesse forte, e nem mesmo cinco conseguiram escapar
de nossas mãos. Grande e lastimável foi a visão do sangue para os
jovens soldados que nunca tinham estado na guerra, vendo tanta almas
que jaziam de boca arfante no chão e tão amontoadas que em algumas
partes não se podia passar.
Se poderia perguntar: por que tanta
fúria? (Como alguém disse.) Não deveriam os cristãos ter mais
clemência e compaixão? E eu respondo recordando a guerra de David.
Quando um povo chegou a tal ponto de sangue e pecado contra Deus e o
homem, David não respeita as pessoas, e sim as rasga e destroça com
sua espada e lhes dá a morte mais terrível. Às vezes as escrituras
declaram que as mulheres e as crianças devem perecer junto a seus
pais. As vezes se dão casos diferentes, mas não vamos discutir isso
agora. Suficiente luz recebemos da Palavra de Deus, para nossos
procederes.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
29/08/2026
Fragmento de uma elegia
Naquela face, redonda e cálida,
Corriam livres, em claro friso
De força e graça, de terno e turvo,
Os jogos deleitosos de Jacinto
E as aventuras de Jasão.
Era uma face redonda e cálida
Que transformara em carne e dança
A pedra obscura que a contemplasse,
Tão criadora essa medusa
Fora, ostentada pelos cabelos,
Pelas serpentes que deitariam
Semente sempre, veneno nunca...
Naquele corpo, bizarro e tenro,
Hermes se via, quando Afrodite
Lhe dava forma. E a terra, amante
Dos pés dormentes
Que lhe deixavam nas rochas-ubres,
Nas praias-colos, nos campos-ventres
Marcas de macho de asas cortadas,
Abriu-lhe as coxas de pedra ao tenro
Bizarro corpo que gera em sonho
Que, morto, engendra: nada se perde
Na natureza —
alas!
Transforma-se.
Mário Faustino, em O homem e sua hora
Aparência
As coisas nem sempre são tão ruins quanto parecem. Mas quase sempre são.
Millôr Fernandes, em A bíblia do caos
Diário de Bernardo Soares
126.
Tenho grandes estagnações. Não é
que, como toda a gente, esteja dias sobre dias para responder num
postal à carta urgente que me escreveram. Não é que, como ninguém,
adie indefinidamente o fácil que me é útil, ou o útil que me é
agradável. Há mais subtileza na minha desinteligência comigo.
Estagno na mesma alma. Dá-se em mim uma suspensão da vontade, da
emoção, do pensamento, e esta suspensão dura magnos dias; só a
vida vegetativa da alma — a palavra, o gesto, o hábito — me
exprimem eu para os outros, e, através deles, para mim.
Nesses períodos da sombra, sou
incapaz de pensar, de sentir, de querer. Não sei escrever mais que
algarismos, ou riscos. Não sinto, e a morte de quem amasse far-me-ia
a impressão de ter sido realizada numa língua estrangeira. Não
posso; é como se dormisse e os meus gestos, as minhas palavras, os
meus actos certos, não fossem mais que uma respiração periférica,
instinto rítmico de um organismo qualquer.
Assim se passam dias sobre dias, nem
sei dizer quanto da minha vida, se somasse, se não haveria passado
assim. As vezes ocorre-me que, quando dispo esta paragem de mim,
talvez não esteja na nudez que suponho, e haja ainda vestes
impalpáveis a cobrir a eterna ausência da minha alma verdadeira;
ocorre-me que pensar, sentir, querer também podem ser estagnações,
perante um mais íntimo pensar, um sentir mais meu, uma vontade
perdida algures no labirinto do que realmente sou.
Seja como for deixo que seja. E ao
deus, ou aos deuses, que haja, largo da mão o que sou, conforme a
sorte manda e o acaso faz, fiel a um compromisso esquecido.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Vida ao natural
Pois no Rio tinha um lugar com uma
lareira. E quando ela percebeu que, além do frio, chovia nas
árvores, não pôde acreditar que tanto lhe fosse dado. O acordo do
mundo com aquilo que ela nem sequer sabia que precisava como numa
fome. Chovia, chovia. O fogo aceso pisca para ela e para o homem.
Ele, o homem, se ocupa do que ela nem sequer lhe agradece; ele atiça
o fogo na lareira, o que não lhe é senão dever de nascimento. E
ela – que é sempre inquieta, fazedora de coisas e experimentadora
de curiosidades – pois ela nem se lembra sequer de atiçar o fogo:
não é seu papel, pois se tem o seu homem para isso. Não sendo
donzela, que o homem então cumpra a sua missão. O mais que ela faz
é às vezes instigá-lo: “aquela acha”, diz-lhe, “aquela ainda
não pegou.” E ele, um instante antes que ela acabe a frase que o
esclareceria, ele por ele mesmo já notara a acha, homem seu que é,
e já está atiçando a acha. Não a comando seu, que é a mulher de
um homem e que perderia seu estado se lhe desse ordem. A outra mão
dele, a livre, está ao alcance dela. Ela sabe, e não a toma. Quer a
mão dele, sabe que quer, e não a toma. Tem exatamente o que
precisa: pode ter.
Ah, e dizer que isto vai acabar, que
por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao
fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente
sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o
momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. Então,
ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem, e ao
prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja.
Clarice Lispector, em Todos os contos
28/08/2026
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