31/08/2026

David Gilmour with Romany Gilmour | Between Two Points [Tour Rehearsal]

Desaforos

Por @cartumante

O quarto em desordem

Na curva perigosa dos cinquenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não se sabe como é feita: amor,
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais defeso, corpo! corpo, corpo,

verdade tão final, sede tão vária,
e esse cavalo solto pela cama,
a passear o peito de quem ama.

Carlos Drummond de Andrade, em Fazendeiro do ar

O imagista

Quando o homem desaparecer, que será das coisas? Morrerão da mesmice de ser. De serem apenas aquele poste ali na esquina, a fonte sorrateira, a bela tabuleta inutilmente colorida, os pacientes relógios sobreviventes. Morrerão da mesmice de serem e não mais parecerem.
Quando o homem desaparecer, que será das coisas, que será de Deus?

Mário Quintana, em Caderno H

Antiperipléia



— E o senhor quer me levar, distante, às cidades? Delongo. Tudo, para mim, é viagem de volta. Em qualquer ofício, não; o que eu até hoje tive, de que meio entendo e gosto, é ser guia de cego: esforço destino que me praz.
E vão me deixar ir? Em dês que o meu cego seô Tomé se passou, me vexam, por mim puxam, desconfiam discorrendo. Terra de injustiças.
Aqui paramos, os meses, por causa da mulher, por conta do falecido. Então, prendam a mulher, apertem com ela, o marido ru­fião, aí esses expliquem decerto o que nem se deu. A mulher, terrível. Delegado segure a alma do meu seô Tomé cego, se for ca­paz! Ele amasiava oculto com a mulher, Sa Justa, disso alguém te­ve ar? Eu provia e governava.
Mas não cismo como foi que ele no barranco se derrubou, que rendeu a alma. Decido? Divulgo: que as coisas começam de­veras é por detrás, do que há, recurso; quando no remate acon­tecem, estão já desaparecidas. Suspiros. Declaro, agora, de­fino. O senhor não me perguntou nada. Só dou resposta é ao que ninguém me perguntou.
Mulheres dôidas por ele, feito Jesus, por ter barba. Mas ele me perguntava, antes. — “É bonita?” Eu informava que sendo. Pa­ra mim, cada mulher vive formosa: as roxas, pardas e brancas, nas es­tradas. Dele gostavam — de um cego completo — por delas nem não poder devassar as formas nem feições? Seô Tomé se soberbava, lavava com sabão o corpo, pedia roupas de esmola. Eu, bebia.
Deandávamos, lugar a lugar, sem prevenir que já se estava no vir para aqui. Tenho culpas retapadas. A gente na rua, puxando cego, concerne que nem se avançar navegando — ao contrário de todos.
Patrão meu, não. Eu regia — ele acompanhava: pegando cada um em ponta do bordão, ocado com recheios de chumbo. Bebo, para impor em mim amores dos outros? Ralhavam, que, passado já de idade de guiar cego, à mão cuspida, mesmo eu assim, calungado, corcundado, cabeçudão. Povo sabe as ignorâncias. Então, eu, para também não ver, hei-de recordar o alheio? Bebo. Tomo, até me apagar, vejo outras coisas. Ele carecia de esperar, quando eu me perfazia bêbedo deitado. Me dava conse­lhos. Cego suplica de ver mais do que quem vê.
Tinha inveja de mim: não via que eu era defeituoso feioso. Tinha ódio, porque só eu podia ver essas inteiras mulheres, que dele gostavam! Puxar cego é feito tirar um condenado, o de ne­nhum poder, mas que adivinha mais do que a gente? Amigos. O roto só pode mesmo rir é do esfarrapado. Me dava vontade de leve nele montar, sem freio, sem espora...
A gente cá chegou, pois é. A mulher viu o cego, com modos de não-digas, com toda a força guardada. Essa era a diversa, muito fulana: feia, feia apesar dos poderes de Deus. Mas queria, fatal. Ajoelhou para me pedir, para eu ao meu Seô Cego mentir. Procedi. — “Esta é bonita, a mais!” — a ele afirmei, meus créditos. O cego amaciou a barba. Ele passeou mão nos braços dela, arro­jo de usos. Soprou, quente como o olho da brasa. Tive nenhum re­morso. Mas os dois respiravam, choraram, méis, airosos.
Se encontravam, cada noite, eu arrumando para eles antes o redor, o amodo e o acômodo, e estava de longe, tomando conta. O marido desgostava dela, druxo homem, de estrambolias, nem vinha em casa. Alguém maldou? Cego esconde mais que qualquer um, qualquer logro. E quem vigia como eu? Ela me dava cachaças, comida. Ele me fiava a féria. Me tratavam. O que podia durar, assim, às estimas fartas?
A vida não fica quieta. Até ele se despenhar no escuro, do barranco, mortal. Vinha de em-delícias. A mulher aqui persiste — para miar aos cães e latir aos gatos. Que é que eu tenho com o caso... Todos fazem questão de me chamar de ladrão. Cego não é quem morre?
Todos tendo precisão de mim, nos intervalos. A mulher, ma­luca, instando que eu a ele reproduzisse suas porvindas belezas. Seô Tomé dessas sozinhas nossas não contrárias conversas tirando ciúme, com porfias e más zangas. Mas eu reportava falseado leal: que os olhos dela permitiam brilhos, um quilate dos den­tes, aquelas chispas, a suma cor das faces. Seô Tomé, às barbas de truz, sorvia também o deleite de me descrever o que o amor, ele não desapaixonava. Só sendo cego quem não deve ver? Mas o marido, imoral, esse comigo bebia, queria mediante meus conluios pegar o dinheiro da sacola... Eu, bêbedo e franzino, ananho, tenho de emendar a doideira e cegueira de todos?
Deixassem — e eu deduzia e concertava. Mas ninguém espera a esperança. Vão ao estopim no fim, às tantas e loucas. Por mais, urjo; me entenda. Aqui, que ele se desastrou, os outros agravam de especular e me afrontar, que me deparo, de fecho para princípio, sem rio nem ponte.
Dia que deu má noite. Ele se errou, beira o precipício, caindo e breu que falecendo. Não pode ter sido só azares, cafifa? De ir solitário bravear, ciumado, boi em bufo, resvalou... e, daí, quebrado ensanguentado, terrível, da terra.
Ou o marido, ardido por matar e roubar — empuxou o ou­tro abaixo no buracão — seu propósito? Cego corre perigo maior é em noites de luares...
E seô Tomé, no derradeiro, variava: falando que começava a tornar a enxergar! Delírios, de paixão, cobiçação, por querer, demais, avistar a mulher — os traços — aquela formosura que, nós três, no desafeio, a gente tinha tanto inventado. Entrevendo que ela era real de má-figura, ele não pode, desiludido em dor, ter mesmo suicidado, em despenho? O pior cego é o que quer ver... Deu a ossada.
Ou, ela, visse que ele ia ver, havia de mais primeiro querer destruir o assombroso, empurrar o qual, de pirambeira — o visionável! Caráter de mulher é caroços e cascas. Ela, no ultimamente, já se estremecia, de pavôres de amor, às vezes em que ele, apalpador, com fortes ânsias, manuseava a cara dela, oitivo, dedudo. Ar que acontece...
Se na hora eu estava embriagado, bêbedo, quando ele se des­pencou, que é que sei? Não me entendam! Deus vê. Deus atonta e mata. A gente espera é o resto da vida.
A mulher diz que me acusa do crime, sem avermelhação, se com ela eu não for ousado... O marido, terrível, supliquento, diz que eu é que fui o barregão... Terríveis, os outros, me amea­çam, às injúrias... O senhor não diz nada. Tenho e não tenho cão, sabe? Me prendam! Me larguem! A mulher esteja quase grávida. Me chamo Prudencinhano. Agora o cego não enxerga mais... A culpa cai sempre é no guiador?
Só se inda hei outras coisas, por ter, continuadas de reco­me­çar; então Deus não é mundial? Temo que eu é que seja terrível.
E o senhor ainda quer me levar, às suas cidades, amistoso?
Decido. Pergunto por onde ando. Aceito, bem-procedidamente, no devagar de ir longe. Voltar, para fim de ida. Repenso, não penso. Dou de xingar o meu falecido, quando as sau­da­des me dão. Cidade grande, o povo lá é infinito.
Vou, para guia de cegos, servo de dono cego, vagavaz, habitual no diferente, com o senhor, Seô Desconhecido.

Guimarães Rosa, em Tutameia

Um apólogo

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Machado de Assis, em Gazeta de Notícias, 1º de março de 1885

30/08/2026

Construção | João Ventura

Tanta coisa...

Por @lucasgehre-blog

Momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

Manuel Bandeira, em Estrela da manhã

Capítulo Terceiro – Todo trem é uma rua que caminha




•••

Chegara o sábado. Ricardo e Roberto só trabalhavam meio expediente e aproveitavam um pedaço da tarde para ver a beleza do Rio. Aquela beleza que nunca antes os entusiasmara tanto. Mas o Rio, quando os ardores de verão desapareciam, quando o céu se vestia daquele azul de fim de abril e que aumentava ainda mais de azul saudando o mês de maio... Ah! O Rio de Janeiro em toda a sua beleza e esplendor. O mar emborcando de verde nas bordas da cidade. O verde mais verde e luminoso das montanhas. O encantamento dos jardins. A delícia suave da Gávea guardando a umidade das suas matas e dos seus parques. A elegância de Laranjeiras com os seus solares tradicionais. E por cima de tudo a dignidade do Pão de Açúcar, levando turistas e gente dos outros estados (dos outros estados porque eles como bons cariocas nunca tinham subido nem sequer até à Urca) para descortinar a magia da Guanabara, espojando-se aos revérberos do sol. E ainda por cima o Cristo de braços abertos, como se fosse uma grande pomba da paz, abençoando e se extasiando ante tanta maravilha.
Almoçaram quietamente em um restaurante agradável na rua São José e retornavam, como Ricardo dizia, à realidade do nosso mundo. Um mundo que começava na Central do Brasil. Na estação D. Pedro Segundo, coroado pela singularidade da favela e pela pedreira de São Diogo. Depois caminharia até a ponte de Lauro Miller, onde rezava a lenda que o engenheiro se suicidara com medo que a ponte desabasse com o correr dos trens e do tempo. Ele se fora, mas a ponte continuava viva e continuaria ainda por muitos anos...
Aos sábados até os trens pareciam conhecer o dia. Não enchiam tanto. Ou porque o regresso era mais cedo ou porque muita gente continuasse com o mesmo horário de trabalho. Para eles não, eram uns favorecidos pela sorte.
Conseguiram sentar-se calmamente num Campo Grande. Pena que não fosse horário do Mangaratiba, que ia direto a Deodoro e de lá até Bangu.
Vinha a invasão dos vendedores de tudo.
– Sorte grande, minha gente. Cobra, jacaré, elefante.
A mulher caminhava entre os bancos, pelo corredor vazio. Falara sardonicamente para um rapazola:
– Veado, moço?
Mas ouvira a resposta que não esperava.
– Vaca, dona.
Disfarçava ante o riso dos outros e procurava entre os bilhetes.
– Vaca não tem.
– Pensei que tinha.
Os jornais apareciam aos borbotões. Os menos afamados no meio dos outros, os mais baratos também no meio dos outros.
– O Globo, A Noite e O Diário.
Mas a voz do homem forçava o Radical, porque os grandes crimes vinham cheirando a sangue no Radical e na Vanguarda.
– Pentes, agulhas, carretel de linhas e espelhos.
Até santinhos e santões apareciam nessa hora antes de o trem apitar a partida. São Jorge no seu cavalo matando o seu dragão, pequeno. Santa Luzia carregando a travessa com os olhos, grande. São João com os seus cabelos bem encaracolados e com o carneirinho no ombro, pequeno. Santa Terezinha do Menino Jesus carregando rosas, bem grande...
– Cosme e Damião a senhora tem?
– Puxa, com o diabo de tanto santo a senhora vem procurar logo um que não tem.
Ricardo falou, olhando a paisagem humana, e sorriu com bondade.
– Essa gente é gente, Roberto. Essa gente sabe viver e sabe sofrer. É gente de carne mesmo. E eu gosto da vida deles. A verdade é essa.
Seu olhar adquiriu um tom melancólico e ao mesmo tempo profundamente cismativo.
– Sei. Mas hoje é o dia. Não se esqueça, sábado. Nós combinamos que uma resposta será dada.
– Eu sei. Eles vão embora na segunda-feira. Voltarão segunda-feira...
O trem apitou e foi uma correria de gente que vendia procurando as plataformas para descer.
Mal as rodas deram aquele canto de viagem, um menino de três anos, feinho de doer, vestido grotescamente, imitando o trajar de menino rico, abriu num berreiro danado.
– Água, mamãe. Tou cum sede...
A humanidade se comoveu. Sede já é uma coisa horrível em gente grande, quanto mais numa criancinha.
O menino esganiçava.
Alguém perguntou piedosamente.
– Por que não foi no varejo, dona? Lá, se não dessem água, tinha refresco de limão, laranja, groselha e tamarindo.
– Não deu nem tempo. Eu não podia perder esse trem. Já vinha numa agonia danada, quando saltei na Praça Quinze. Nunca que chegava um bonde “Barcas”. Cheguei aqui estrebuchando. Esse meu filho pesava como chumbo.
A criança aumentava o berreiro. Todo mundo tentava consolar a criança. Que esperasse um pouquinho. Quando chegasse em Engenho de Dentro, pediriam ao fiscalpara demorar a apitar. Teriam tempo de correr no varejo e trazer um copo de qualquer coisa.
Mas o menino arroxeava de gritar. A mãe não sabia que fazer com a criança no colo. Ninava-a, falava doçura, prometia, mas nada. O barulho era de desenvolver ao máximo qualquer pequena dor de cabeça provocada pelo abafamento.
Conseguiram falar com o cobrador, combinaram demorar dois minutos a mais em Engenho de Dentro. Todo mundo se ligando naquela infelicidade comum.
O trem parou. O fiscal combinou. O apito atrasou dois minutos e um voluntário correu até o varejo e veio voando com um copo de refresco de tamarindo. Aproximou-se ofegante e quis ser ele mesmo o intérprete da sua boa ação. Levou o copo à boca da criança e surpresa imensa apareceu: o menino bateu no copo, empurrou a mão e vociferou:
– Num quero.
Aí a coisa mudou.
– Ah!, você não quer? Pois bebo eu.
Virou o copo goela abaixo. Correu a devolver no varejo e só teve tempo de escutar o trem apitar e começar a andar. Pulou na plataforma e foi ajudado por mãos de boa vontade.
O menino chorava ainda.
Um bombeiro gordo e moreno, que devia pelo menos ter vinte anos de serviços prestados à coletividade, inclinou-se para a mulher e aconselhou:
– Tenho visto de tudo na vida, dona. Incêndio, afogamento e naufrágio, mas... mas... se fosse meu filho...
Foi o que fez a mãe. Debruçou o menino feio no colo e sapecou-lhe duas imorredouras palmadas. Naquelas palmadas se traduzia a vontade de pelo menos duzentas mãos naquele carro.
Aí o menino choramingou, choramingou, foi fechando os olhos e, para alívio de todos, adormeceu.
– Ricardo, você prometeu. Hoje é sábado.
Ricardo riu e bateu de leve nos ombros de Roberto, acalmando-o.
– Você vai se espantar com a minha decisão. Eu não voltarei com eles. Eu vou permanecer.
– Mas como? Nós seremos ricos de novo, Ricardo.
– Não. Não irei. Eu descobri a verdade e vou trabalhar para essa gente.
– Mas de que maneira?
– Não sei. Na hora Deus me indicará um jeito.
– Você está brincando, Ricardo. E eu?
Ricardo olhou estranhamente para o irmão, mas mesmo assim nos seus olhos existiam um mundo de ternura e compreensão.
– Pois você volta com eles. Só isso.
– Você vai preferir ficar nesse mundo de sacrifícios? Nesse mundo de viagens intermináveis, num universo de uma casinha modesta e apertada, em vez de...
– Certo. Em vez de um mundo egoísta e falso. Cínico e de desamor. Vou ficar. E quando vocês partirem, claro que sentirei a sua falta.
– E Mabel? Mabel é nossa mãe.
– Mabel será feliz. Vai esquecer tudo que passou e voltar ao seu modo de olhar a felicidade. O tempo milagroso tudo apaga, menos as rugas da velhice.
– Você crê, Ricardo?
– Mas o tempo ameniza as rugas da velhice.
Fez uma pausa e foi tomado de uma certa emoção.
– E quando todos partirem, deixarei até o emprego. Não vou mais trabalhar. Só minha alma trabalhará. Vou viver mais próximo dessa gente e ajudá-la.
– De que modo?
– Na hora resolveremos: Deus e eu.
– Ricardo, Ricardo! Como poderá você viver sem nada?
– É suficiente a base. Pedirei que me deixem a casa em troca do bem a que terei direito. Tendo essa base tudo se resolverá.
– E se eu quiser ficar? Eu não o deixarei por nada. Você foi a única pessoa naminha vida que significou carinho para mim. E se eu quiser ficar?
Ricardo sentiu um nó na garganta.
– Não exigiria tanto de você. Mas se você ficasse seria uma festa no meu coração.
– E não sentiremos falta de nada do que já tivemos?
– Eu nunca mais senti falta. Desde o primeiro dia que fugi obrigatoriamente daquela fatuidade. Nunca mais eu voltaria a defrontar-me com aquela que foi o meu amor. Você sabe que estou falando a verdade...
Roberto meneou a cabeça, incrédulo.
– Estranho deixar o mundo de ricos para experimentar um mundo, ao que me parece, de renúncias.
– Estranho, por que, meu irmão? Faz muito tempo um homem chamado Gotama, o Buda, abandonou as pompas e riquezas do seu palácio para viver entre os pobres... e foi feliz. Mais tarde outro homem, Francisco de Assis, também deixou o mundo do luxo para conviver com os menos favorecidos, não é verdade?
– Mas eles eram santos!
– Em suas épocas não o foram considerados como tal. Pelo menos no princípio.
Calaram-se. Entretanto, Ricardo fez renascer a conversa.
– Enquanto sobrar o resto do nosso último ordenado, já que a família não precisará dispor dele agora, viveremos humildemente. E quando acabar Deus nos ajudará. Creia. “Os lírios não tecem, nem bordam. Os pássaros do Senhor enchem o mundo apenas com a beleza dos seus cantos...”
Roberto decidira.
– Juro que eu ficarei com você, meu irmão. Será o meu acompanhamento na mais estranha de todas as aventuras.
– Você verá que não. Que tudo é tão simples. Vamos deixar que cresçam nossos cabelos e nossas barbas. Andaremos como dois velhinhos, na calma absoluta. Eu terei noventa e seis e você oitenta e seis. Só isso. E na maior ternura nos aproximaremos da bondade do coração humano. E essa bondade só existe nas mãos de Deus. E todos podem tocar nas mãos de Deus, contanto que haja a sinceridade no âmago do coração.

José Mauro de Vasconcelos, em Rua Descalça

1637 – Mystic Fort




Da descrição de John Underhill, puritano de Connecticut, sobre uma matança de índios pequot.

Eles não sabiam nada de nossa chegada. Estando perto do forte, nos encomendamos a Deus e suplicamos Sua assistência em tão pesada empresa...
Não pudemos outra coisa além de admirar a Divina Providência quando nossos soldados, inexperientes no uso das armas, lançaram uma carga tão cerrada que parecia que o dedo de Deus tivesse posto fogo na mecha. Ao romper do dia, a andanada provocou terror nos índios, que estavam profundamente adormecidos, e escutamos os gritos mais cheios de lamento. Se Deus não tivesse preparado os corações nossos para o Seu serviço, teríamos sido movidos à comiseração. Mas havendo Deus nos despojado de piedade, nos dispusemos a cumprir nosso trabalho sem compaixão considerando o sangue que os índios tinham derramado quando trataram barbaramente e assassinaram a uns trinta de nossos compatriotas. Com nossas espadas na mão direita e nossas carabinas ou mosquetões na mão esquerda, atacamos...
Muitos morreram queimados no forte... Outros foram forçados a sair e nossos saldados os recebiam com as pontas das espadas. Caíram homens, mulheres e crianças; os que escapavam de nós, caíam nas mãos de nossos índios aliados, que esperavam na retaguarda. Segundo os índios pequot havia umas quatrocentas almas nesse forte, e nem mesmo cinco conseguiram escapar de nossas mãos. Grande e lastimável foi a visão do sangue para os jovens soldados que nunca tinham estado na guerra, vendo tanta almas que jaziam de boca arfante no chão e tão amontoadas que em algumas partes não se podia passar.
Se poderia perguntar: por que tanta fúria? (Como alguém disse.) Não deveriam os cristãos ter mais clemência e compaixão? E eu respondo recordando a guerra de David. Quando um povo chegou a tal ponto de sangue e pecado contra Deus e o homem, David não respeita as pessoas, e sim as rasga e destroça com sua espada e lhes dá a morte mais terrível. Às vezes as escrituras declaram que as mulheres e as crianças devem perecer junto a seus pais. As vezes se dão casos diferentes, mas não vamos discutir isso agora. Suficiente luz recebemos da Palavra de Deus, para nossos procederes.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Colmeia

O que não é bom para a colmeia não é bom para a abelha.

Marco Aurélio, em Os Nascimentos

29/08/2026

Mari Jasca | No me llores

 

Fragmento de uma elegia

Naquela face, redonda e cálida,
Corriam livres, em claro friso
De força e graça, de terno e turvo,
Os jogos deleitosos de Jacinto
E as aventuras de Jasão.
Era uma face redonda e cálida
Que transformara em carne e dança
A pedra obscura que a contemplasse,
Tão criadora essa medusa
Fora, ostentada pelos cabelos,
Pelas serpentes que deitariam
Semente sempre, veneno nunca...

Naquele corpo, bizarro e tenro,
Hermes se via, quando Afrodite
Lhe dava forma. E a terra, amante
Dos pés dormentes
Que lhe deixavam nas rochas-ubres,
Nas praias-colos, nos campos-ventres
Marcas de macho de asas cortadas,
Abriu-lhe as coxas de pedra ao tenro
Bizarro corpo que gera em sonho
Que, morto, engendra: nada se perde
Na natureza —
alas!
Transforma-se.

Mário Faustino, em O homem e sua hora

Ainda não!

Aparência

As coisas nem sempre são tão ruins quanto parecem. Mas quase sempre são.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

Diário de Bernardo Soares


126.

Tenho grandes estagnações. Não é que, como toda a gente, esteja dias sobre dias para responder num postal à carta urgente que me escreveram. Não é que, como ninguém, adie indefinidamente o fácil que me é útil, ou o útil que me é agradável. Há mais subtileza na minha desinteligência comigo. Estagno na mesma alma. Dá-se em mim uma suspensão da vontade, da emoção, do pensamento, e esta suspensão dura magnos dias; só a vida vegetativa da alma — a palavra, o gesto, o hábito — me exprimem eu para os outros, e, através deles, para mim.
Nesses períodos da sombra, sou incapaz de pensar, de sentir, de querer. Não sei escrever mais que algarismos, ou riscos. Não sinto, e a morte de quem amasse far-me-ia a impressão de ter sido realizada numa língua estrangeira. Não posso; é como se dormisse e os meus gestos, as minhas palavras, os meus actos certos, não fossem mais que uma respiração periférica, instinto rítmico de um organismo qualquer.
Assim se passam dias sobre dias, nem sei dizer quanto da minha vida, se somasse, se não haveria passado assim. As vezes ocorre-me que, quando dispo esta paragem de mim, talvez não esteja na nudez que suponho, e haja ainda vestes impalpáveis a cobrir a eterna ausência da minha alma verdadeira; ocorre-me que pensar, sentir, querer também podem ser estagnações, perante um mais íntimo pensar, um sentir mais meu, uma vontade perdida algures no labirinto do que realmente sou.
Seja como for deixo que seja. E ao deus, ou aos deuses, que haja, largo da mão o que sou, conforme a sorte manda e o acaso faz, fiel a um compromisso esquecido.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Vida ao natural

Pois no Rio tinha um lugar com uma lareira. E quando ela percebeu que, além do frio, chovia nas árvores, não pôde acreditar que tanto lhe fosse dado. O acordo do mundo com aquilo que ela nem sequer sabia que precisava como numa fome. Chovia, chovia. O fogo aceso pisca para ela e para o homem. Ele, o homem, se ocupa do que ela nem sequer lhe agradece; ele atiça o fogo na lareira, o que não lhe é senão dever de nascimento. E ela – que é sempre inquieta, fazedora de coisas e experimentadora de curiosidades – pois ela nem se lembra sequer de atiçar o fogo: não é seu papel, pois se tem o seu homem para isso. Não sendo donzela, que o homem então cumpra a sua missão. O mais que ela faz é às vezes instigá-lo: “aquela acha”, diz-lhe, “aquela ainda não pegou.” E ele, um instante antes que ela acabe a frase que o esclareceria, ele por ele mesmo já notara a acha, homem seu que é, e já está atiçando a acha. Não a comando seu, que é a mulher de um homem e que perderia seu estado se lhe desse ordem. A outra mão dele, a livre, está ao alcance dela. Ela sabe, e não a toma. Quer a mão dele, sabe que quer, e não a toma. Tem exatamente o que precisa: pode ter.
Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja.

Clarice Lispector, em Todos os contos