25/08/2026

Junk | Paul McCartney



Motor cars, handlebars, bicycles for two
Broken-hearted jubilee
Parachutes, army boots, sleeping bags for two
Sentimental jamboree

Buy, buy, says the sign in the shop window
Why? Why? says the junk in the yard

Candlesticks, building bricks, something old and new
Memories for you and me

Buy, buy, says the sign in the shop window
Why? Why? says the junk in the yard

Wilfrid Brambell, o ator irlandês, interpretou o personagem do meu avô “bem limpinho” no filme dos Beatles A Hard Day’s Night. Ele também estrelava Steptoe and Son, o famoso sitcom da BBC. O seriado enfocava os constantes conflitos entre Albert Steptoe, muitas vezes chamado de “velhote sujo”, e o filho dele, Harold, um personagem fadado a ter aspirações sociais que aparentemente nunca vão se materializar. Acho que todos nós estamos familiarizados com esse cenário!
Se me permitem usar uma expressão antiquada, o ambiente de “Junk” foi influenciado pela loja de “trecos e cacarecos”, o cenário principal de Steptoe and Son. Essa loja, um misto de quinquilharias e ferro-velho, se tornou tão familiar para o público britânico nas décadas de 1960 e 1970 quanto o rancho de Bonanza ou a mansão em The Beverly Hillbillies.
O gatilho da canção, como de muitas outras, foi uma sequência de acordes legais e, depois, a melodia. Sei que pode soar estranho, mas o acorde inicial desta canção realmente me faz pensar em um ferro-velho ou nos fundos de uma loja. O tipo de atmosfera na qual, se eu estivesse escrevendo um romance, eu gostaria de situar uma cena. Quem costuma fazer isso é o Dickens. Os fundos de uma loja, um porão ou até mesmo a fundição Rouncewell em A casa soturna. Aqui temos “Motor cars, handlebars, bicycles for two”. Muita gente vai reconhecer que “bicicletas para duas pessoas” é uma reciclagem da canção “Daisy Bell (Bicycle Built for Two)”. Essa canção de Harry Dacre, feita em 1892, tornou-se um grande sucesso com Nat King Cole, em 1963.
Não que a reciclagem fosse um tópico muito importante na década de 1960. Em parte, é porque a ideia de obsolescência programada ainda não havia decolado. Naquela época, se você comprasse um carro, ele precisava durar muito tempo. Poderia até ser transmitido de geração em geração. Quando eu era menino, você se apegava às coisas. Hoje eu tenho o instinto de me apegar às coisas e, mais do que isso, espero que elas durem. Por isso, esta canção serve de comentário sobre a sociedade de consumo. Esta é uma coisa que você faz como compositor: comenta sobre a sociedade e transmite uma opinião. Coloco opiniões em minhas canções – nem sempre uma opinião que eu tenho, mas pode ser uma opinião que ouvi, gostei ou que me interessa. Assim, a ideia de que as coisas vão ficar inúteis depois que você comprar é um comentário sobre o consumismo da sociedade. Ao que parece, foi só a partir da década de 1960 que atravessamos a linha de ter necessidades para ter desejos e então agir de acordo com esses desejos. De modo que esta canção entra nesse contexto.
Mas é basicamente uma canção de amor. De bicicletas para duas pessoas passamos a sacos de dormir para duas pessoas (“sleeping bags for two”). E logo depois temos o verso “Buy, buy, says the sign in the shop window”, que soa como um amante dizendo “Bye-bye”, e então o interlocutor indaga melancolicamente: Por quê, por quê? (“Why, why?”). É como se a sucata no quintal (“the junk in the Yard”) estivesse exigindo uma explicação para essa ânsia de obter algo – ou alguém – novo.

Paul McCartney, em As Letras – 1956 até o presente

Sucesso



Ele sai da cama dizendo, filhos da puta. Filhos da puta são as pessoas, é o dia que está raiando, o café que não vai tomar, o jornal que não vai ler, o trabalho, o sucesso, a cidade, o mundo inteiro.
Ele sabe que não está sofrendo de nenhuma depressão. Um deprimido não sente ódio, ele está sentindo ódio, de pessoas e coisas. Mais das pessoas do que das coisas.
O carro é uma coisa desprezível, mas qualquer pessoa é ainda mais repulsiva do que essa máquina estúpida. Está falando com ele mesmo, mas é maluco por isso? Não tomou banho nem fez a barba. É maluco por isso? Na semana passada saiu para fazer análise, mas para tanto é preciso ter fé, acreditar em bruxas e quejandos, mas se até Deus está incluído entre os filhos da puta, o que dizer do analista? Não era um neurótico precisando de muletas. Quem precisa disso é o palhaço do analista, suas muletas são os parlapatões, os vomitadores que vão lá pedir socorro. Pagou o filho da puta e voltou para casa.
Tem êxito no que faz, ganha dinheiro. É perfeito o conjunto de suas funções orgânicas, que distanciam a morte e o ajudam a pensar, esporrar quando é preciso e a defecar diariamente — e a carregar malas sem esforço. Mas não pretende fazer mais viagens; não importa aonde vá, é tudo a mesma porcaria. O sucesso é repulsivo, quase tanto quanto as pessoas. Cada vez tem mais sucesso e é cercado por mais pessoas nojentas e cretinas. Há a música, a poesia. Saem na urina. As coisas boas saem na urina.
E a mulher que perguntou você me ama e ele respondeu sim?
Infelizmente a vida não é uma anedota com final feliz.
“Ei, Roberto, abre a porta.”
“Vai se foder.”
“Angélica está aqui comigo.”
“Quero ficar só.”
“Abre a porta.”
“Vai se foder.”
“Angélica está aqui comigo.”
“É mentira. Você disse isso ontem e era mentira. Vai se foder”
“Estou aqui, sim, Roberto.”
“Vocês estão pensando que eu estou drogado. Não estou drogado. Não tomei nem água.”
“Eu sei. Abre a porta, querido.”
“Não me chama de querido. Você perguntou, você me ama, e eu respondi sim, mas você não me ama. Você disse eu não te amo mais.”
“Foi aquilo das mulheres...”
“Eram duas vadias enviadas por uma cafetina. Eu nem sabia o nome delas.”
“Eu fiquei magoada, mas agora não estou mais.”
“Não sei se você é mesmo a Angélica. O mundo está cheio de filhos da puta que imitam vozes. E eu não tenho a porra de um olho mágico na porta.”
“Você não conhece a minha voz?”
“Como é que eu te chamo quando estamos na cama?”
“Branquela. Abre a porta.”
“Manda embora esse bunda-suja que está com você.”
“Vai embora, Artur. Me deixa, vai embora. Roberto, o Artur foi embora, estou só eu aqui, não tem mais ninguém. Abre a porta. Eu te amo. Abre a porta, por favor. Você precisa de mim. Abre a porta.”
“O que foi que eu lhe dei de presente no dia do seu aniversário?”
“Um carro.”
“Eu te dei essa bosta de presente?”
“Deu.”
“Qual a marca?”
“Um Peugeot.”
“Porra, um carro francês. Os franceses são uns putos.”
“Abre a porta. Você já viu que sou eu mesma. Eu te amo. Sei que você me ama também. Abre a porta.”
Ele abre a porta. Dois homens de branco entram agarram-no, lutam.
“Angélica”, grita, olhando para todos os lados, sem vê-la.
Os putos pensam que ele é maluco? Está cansado de rolar no chão. Os homens lhe dão uma injeção no braço.

Rubem Fonseca, em Pequenas Criaturas

24/08/2026

Djavan | Encontrar-te

O impagável Quino

 

Atrás dos olhos das meninas sérias

Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão, por injunções muito mais sérias, lustrar pecados que jamais repousam?

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Gorjeios

Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

Aprofundamento das horas

Não posso escrever enquanto estou ansiosa ou espero soluções a problemas porque nessas situações faço tudo para que as horas passem — e escrever, pelo contrário, aprofunda e alarga o tempo. Se bem que ultimamente, por necessidade grande, aprendi um jeito de me ocupar escrevendo, exatamente para ver se as horas passam.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

O Homem que Calculava — Capítulo 32


32. Como foi Beremiz interrogado por um astrônomo libanês. O problema da pérola mais leve. O astrônomo cita um poeta em homenagem ao calculista.

Chamava-se Mohildin Ihaia Banabixacar, geômetra e astrônomo, uma das figuras mais extraordinárias do Islã, o sétimo e último sábio que devia arguir Beremiz. Nascido no Líbano, tinha o nome escrito em cinco mesquitas e seus livros eram lidos até pelos rumis(1). Seria impossível encontrar-se, sob o céu do Islã, inteligência mais possante e cultura mais sólida e vasta.
O erudito Banabixacar, o Libanês(2), na sua linguagem clara e impecável, assim falou, com bonomia sorridente:
— Sinto-me, realmente, encantado com o que tive oportunidade de ouvir. O ilustre matemático persa acaba de demonstrar, várias vezes, a pujança de seu incomparável talento. Gostaria, também, colaborando neste brilhante torneio, de oferecer ao calculista Beremiz Samir interessante problema que aprendi, quando ainda moço, de um sacerdote budista que cultivava a Ciência dos Números.
Acudiu o califa, vivamente interessado:
— Ouviremos, ó Irmão dos Árabes, com o máximo prazer, a vossa arguição. Espero que o jovem persa, que até agora se tem mantido inabalável nos domínios do Cálculo, saiba resolver a questão formulada pelo velho budista (Alá se compadeça desse idólatra!3)
Percebendo o sábio libanês que sua inesperada proposta havia despertado a atenção do rei, dos vizires e dos nobres muçulmanos, assim falou, dirigindo-se serenamente ao Homem que Calculava:
— A esse problema caberia perfeitamente denominação de “problema da pérola mais leve”. Tem o seguinte enunciado:
“Um mercador de Benares, na Índia, dispunha de oito pérolas iguais — na forma, no tamanho e na cor. Dessas oito pérolas, sete tinham o mesmo peso; a oitava, entretanto, era um pouquinho mais leve que as outras. Como poderia o mercador descobrir a pérola mais leve e indicá-la, com toda segurança, usando a balança apenas duas vezes, isto é, efetuando apenas duas pesagens? É esse o problema, ó Calculista! Queira Alá inspirar-te a solução mais simples e mais perfeita!
Ao ouvir o enunciado do problema das pérolas, um xeque, de cabelos brancos, com largo colar de ouro, que se achava ao lado do capitão Sayeg, murmurou, em voz baixa:
— Que belíssimo problema! Esse sábio libanês é um monstro! Glória ao Líbano, o País dos Cedros!
Beremiz Samir, depois de refletir durante breves instantes, assim falou, com voz remansada e firme:
— Não me parece difícil ou obscuro o problema budista da pérola mais leve. Um raciocínio bem encaminhado pode revelar-nos, desde logo, a solução.
Vejamos: Tenho oito pérolas iguais. Iguais na forma, na cor, no brilho e notamanho. Rigorosamente iguais, diríamos assim. Alguém nos assegurou que, entre essas oito pérolas, destaca-se uma que é um pouquinho mais leve do que as outras sete, e que essas outras sete apresentam o mesmo peso. Para descobrir a mais leve só há um meio. É usar uma balança. E deve ser, para o caso das pérolas, uma balança delicada e fina, de braços longos e pratos bem leves. A balança deve ser sensível. E mais ainda. A balança deve ser exata. Tomando as pérolas duas a duas e colocando-as na balança (uma em cada prato), eu descubro, é claro, qual a pérola mais leve; mas se a pérola mais leve for uma das duas últimas eu serei obrigado a efetuar quatro pesagens. Ora, o problema exige que a pérola mais leve seja descoberta e determinada com duas pesagens apenas — qualquer que seja a posição por ela ocupada. A solução que me parece mais simples é a seguinte:
— Dividamos as pérolas em três grupos. E chamemos A, B e C esses grupos.
O grupo A terá três pérolas; o grupo B terá, também, três pérolas; o terceiro grupo C será constituído pelas duas restantes. Com duas pesagens devo apontar com segurança, sem possibilidade de erro, qual a pérola mais leve, sabendo que sete são iguais em peso.
Levemos os grupos A e B para a balança e coloquemos um grupo em cada prato (estamos, assim, efetuando a primeira pesagem).
Duas hipóteses podem ocorrer:

1.ª hipótese — Os grupos A e B apresentam pesos iguais.
2.ª hipótese — Os grupos A e B apresentam pesos desiguais, sendo um deles (o A, por exemplo) mais leve.

Na primeira hipótese (A e B com o mesmo peso) podemos garantir que a pérola mais leve não pertence ao grupo A, nem figura no grupo B. A pérola procurada é uma das duas que formam o grupo C.

Tomemos, pois, essas duas pérolas que formam o grupo C e levemo-las para a balança e ponhamos uma em cada prato (segunda pesagem). A balança indicará qual a mais leve, que fica, assim, determinada.
Na segunda hipótese (A sendo mais leve do que B) é claro que a pérola mais leve pertence ao grupo A, ou melhor, a pérola mais leve é uma das três pérolas do grupo menos pesado. Tomemos, então, duas pérolas quaisquer do grupo A e deixemos a outra de lado. Levemos essas duas pérolas à balança e pesemo-las (segunda pesagem). Se a balança ficar em equilíbrio, a terceira pérola (que ficara de lado) é a mais leve. Se houver desequilíbrio, a pérola mais leve estará no prato que subiu.
— Fica assim, ó Príncipe dos Crentes — rematou Beremiz —, resolvido o problema da pérola mais leve, formulado por ilustre sacerdote budista e aqui apresentado pelo nosso hóspede geômetra libanês.
O astrônomo Banabixacar, o Libanês, classificou de impecável a solução apresentada por Beremiz, e rematou a sua sentença nos seguintes termos:
— Só um verdadeiro geômetra poderia raciocinar com tanta perfeição. A solução que acabo de ouvir, em relação ao problema da pérola mais leve, é um verdadeiro poema de beleza e simplicidade.
E para homenagear o calculista o velho astrônomo do país dos cedros proferiu os seguintes versos:

Se uma rosa de amor tu guardaste,
Bem no teu coração;
Se a um Deus supremo e justo endereçaste
Tua humilde oração;
Se com a taça erguida
Cantaste, um dia, o teu louvor à vida,
Tu não viveste em vão...

Beremiz agradeceu emocionado, inclinando ligeiramente a cabeça e levando a mão direita à altura do coração. Os versos que ele acabara de ouvir eram de um poeta persa, que foi também geômetra e astrônomo: Omar Khayyám. (Que Alá o tenha em sua glória!)
Sim, por Alá! Que beleza de Omar Khayyám. “Tu não viveste em vão!”…

Notas:
(1) Cristãos
(2) Eis como Lamartine, Viagem ao Oriente, II vol., pág. 535, se referiu aos libaneses: “Trazem as armas da Fé nos corações e as armas da luta em seus braços.” Cf. Tanus Jorge Bastani, O Líbano e os Libaneses no Brasil, 1945, pág. 58.
(3) Para um crente do Islã o budista é incluído entre os idólatras. E, por se tratar de um sábio, o rei pede (para esse budista) a misericórdia de Deus.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

23/08/2026

Eu Rio (Porto Seguro) | Elilson José Batista e Zelitto Coringa

Hagar, o Horrível

Aparência

♦ Fui comprar um par de óculos, experimentei vários, descobri que nenhum fica bem em mim. Experimentei mais alguns até chegar à triste conclusão de que eu é que não fico bem em nenhum dos óculos. Saí à rua sem óculos e descobri que não fico bem.
♦ As coisas nem sempre são tão ruins quanto parecem. Mas quase sempre são.
♦ As aparências não enganam: quando você vê um cara vestido de general, há enorme probabilidade de que ele seja isso.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

Civilização


O veado-galheiro-do-norte reuniu a família e:
— Rápido, pessoal, vamos dar o pira que isto aqui na Amazônia está cheirando a fumaça!
O veado-mateiro, seu primo, e a capivara, vizinha dos dois, sentiram o mesmo odor e dispararam também. Com pouca sorte: no Maranhão ouviam-se tiros, em Mato Grosso pairava cheiro de carne assada; em Goiás…
Lá embaixo, no Rio Grande do Sul, pobre do marrecão-da-patagônia; distraiu-se e seu dia chegou. Não lhe serviu de consolo ver o maçarico-preto e a caturrita tombarem do mesmo galho.
Pelo Brasil inteiro ouve-se: Pum! Pum! Pum! Ou, se preferem versões americanas, de quadrinhos: Bam! Zing! Crash!
São os bichos caindo, as aves baixando em voo morto, a caça legal, autorizada pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal. Até 31 de agosto, aproveitem, caçadores. Podem matar a seu gosto. Com apenas três restrições:
1) Cacem por esporte; não cacem para ganhar dinheiro ou por maldade.
2) Evitem caçar certas espécies, que são sagradas.
3) Não cacem muito; limitem o número de animais caçados, para que sempre restem alguns no mato.
Tirante isso, meus prezados, a fauna lhes pertence. Gosta de codorna, e não simplesmente de ovos da dita? Então, vá a Minas, vá a São Paulo, ao Paraná. Estado do Rio, não; codorna sob o governo do dr. Padilha tem de ser respeitada. É para o inhambu que vai o seu paladar? Não queira prová-lo no Espírito Santo nem na Bahia; dirija-se a São Paulo. Paca, essa boa carne, está pulando à sua disposição no extremo Norte, mas desista desse prato em Santa Catarina. O mesmo bicho é caçável num estado, incaçável noutro.
Carece de o caçador levar na mão a arma e a portaria do Instituto, para não se enganar, e um bom mapa do Brasil também. O mesmo recomendo aos bichos: vocês têm que aprender a ler, queridos; ou pelo menos arranjar um radinho de pilha, que os oriente para onde devem se mandar, se residirem em unidade federativa onde foi permitida a matança de vocês. Cuidado com informantes e dedos-duros: qualquer descuido pode ser fatal. Estudem as questões de limites que ainda persistem entre alguns estados, para evitar o pior. Narceja pousada no galho, precisa saber se o tronco fica do lado de cá ou do lado de lá; o brejo que ela aprecia já foi fotogrametrado? Olhe o risco de um tiro legal, procedente de qualquer das margens.
Outro problema, a numeração. Saracura, o caçador licenciado tem direito de liquidar cinco; a no 6, que andar escondida por perto, não está livre de ser imolada à contagem errônea. Caça e caçador geralmente não chegam a acordo, e que adiantaria mostrar a este a estatística de saracuras sacrificadas? Ele se enganou, pronto: mata seis, mata sete.
Recomendar a presença de fiscal junto ao caçador licenciado, para que não derrube mais de dez marrecas-dos-pés-encarnados? Não quero pôr em dúvida a integridade dos fiscais de qualquer natureza, mas carne de marreca é tão sublime, quando bem preparada! Vá lá, pode derrubar ainda umas três ou quatro, de pinga. Mas não se esqueça aqui do titio, hem? E a ideia de instalar um computador nos capoeirões brasileiros, para controlar o teto das caçadas, mostra que o surrealismo continua vivo. De qualquer modo, fiquem sabendo: caçar dez irerês é esportivo; onze, já constitui abuso contra a natureza. Quer acabar com a raça?
— Mas eu sou campeão de caça a irerê e queria bater meu recorde!
Calma, amizade. Você ainda tem direito a abater dez inhambuxororós, dois inhambus-canela-roxa, dez codornas… Seu clube lhe dará novos troféus.
Bem, a caça é permitida nas regiões e períodos em que não se desenvolve a fase de reprodução das espécies. É princípio universal, a que se submete nosso Código de Caça. Respeita-se a reprodução, para que ela assegure a estocagem de animais a serem caçados por esporte, sob tais e quais condições restritivas. Garante-se a natureza, por um lado; por outro, garante-se o esporte, que desfalca a natureza. Mas que esporte é esse, fundado na morte de animais inocentes, e não na alegria da vida, que dá sentido às competições da força e da higidez?
Palavra que não entendo. Não o entendia Paul Léautaud, que se rejubilava quando o tiro destinado à caça pegava a nádega de outro caçador. Não chego a tanto, mas suspeito que falta ainda muito para se inscrever nos dicionários o exato sentido da palavra civilização.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Tradução simultânea

Sala de transmissão do Oscar. Um tradutor simultâneo tenta traduzir para o telespectador tudo o que acontece no palco.
ELE Billy Cristal: Boa noite, vocês são uma plateia mais bonita do que Mountain Rockwa… O ator fez um trocadilho, uma piada que faz referência ao fato de que há uma montanha homônima ao ator Rockward, bom, isso não tem tradução…
ELA A comediante Ellen De Generes retrucou dizendo: isso quer dizer que você não estava presente no Tonight Show no dia em que, bom o Tonight Show é um programa de John Stewart, isso foi uma piada mais voltada ao público americano, mesmo, que acompanha a programação televisiva, não cabe traduzir.
ELE Billy Cristal, novamente: obrigado Miley Cyrus, por nos… bem, ele está fazendo referência a uma celebridade local, é uma piada de atualidade, a atriz, famosa pelo papel de Hannah Montana, recentemente, bom, essa tem que acompanhar o noticiário americano pra entender. Não cabe aqui narrar, enfim. Steve Martin arremedou com uma piada referente à Miley Cyrus que eu perdi porque estava explicando a piada anterior da Miley Cyrus.
ELA E para apresentar o prêmio de Melhor Atriz, Whoopy Goldberg. O público aplaude intensamente. Com a palavra Whoopy Goldberg, que diz: hua-ha baby ooo, isso não tem tradução, é apenas isso mesmo que significa, uma série de onomatopeias. Acrescidas de um pouco de humor visual, uma piada imagética. Ou talvez seja a imitação de alguém que eu não conheço. O público ri, não sei exatamente por quê. Fica o mistério.
ELE Com a palavra Billy Crystal. Negros não gostam de, bom, eu não vou traduzir essa piada, em português ela fica parecendo racista, mas ela é calcada no fato, digo: no preconceito de que negros não teriam o hábito de, bom, acho que ele está falando dos negros americanos. Whoopy volta ao palco.
ELA Bom, Whoopy arremedou com alguma coisa que eu não entendi, acho que foi uma brincadeira com Billy, eles são amigos de longa data, foi uma piada interna. Billy responde com outro trocadilho, um chiste linguístico, intraduzível, baseado no fato de que duas palavras de significados opostos em inglês têm uma sonoridade parecida em inglês. Whoopy responde com: oh, no he didn’t. É uma piada de repetição, uma running gag, fazendo referência a uma piada anterior que eu não havia traduzido pois eu estava traduzindo uma outra piada que eu tampouco havia traduzido, assim como agora eu perdi alguma coisa que provavelmente foi uma piada pois o público está rindo. O público agora está aplaudindo, de tanto rir. Esse Oscar está se revelando especialmente divertido para quem está lá.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

22/08/2026

1637 – Baía de Massachusetts



“Deus é inglês”,

disse o piedoso John Aylmer, pastor de almas, há uns quantos anos. E John Winthrop, fundador da colônia da baía de Massachusetts, afirma que os ingleses podem apropriar-se das terras dos índios tão legitimamente como Abraão entre os sodomitas: O que é comum a todos não pertence a ninguém. Este povo selvagem mandava sobre vastas terras sem título nem propriedade. Winthrop é o chefe dos puritanos que chegaram no Arbella, há quatro anos. Veio com seus sete filhos.
O reverendo John Cotton despediu os peregrinos no cais de Southampton garantindo-lhes que Deus os conduziria voando sobre eles com uma águia, da velha Inglaterra, terra de iniquidades, até a terra prometida.
Para construir a nova Jerusalém no alto da colina, chegam os puritanos. Dez anos antes do Arbella chegou o Mayflower a Plymouth, quando já outros ingleses, ansiosos por ouro, tinham alcançado, ao sul, a costa de Virgínia. As famílias puritanas fogem do rei e de seus bispos. Deixam atrás os impostos e as guerras, a fome e as pestes. Também fogem das ameças de mudança na velha ordem. Como diz Winthrop, advogado de Cambridge nascido em berço nobre, Deus todo-poderoso, em sua mais santa e sábia providência, dispõe que na condição humana de todos os tempos uns haverão de ser ricos e outros pobres; uns altos e eminentes no poder e dignidade, e outros medíocres e submetidos.
A primeira vez, os índios viram uma ilha que caminhava. O mastro era uma árvore e as velas, nuvens brancas. Quando a ilha parou, os índios se aproximaram, em suas canoas, para buscar morangos. Em lugar de morangos, encontraram varíola.
A varíola arrasou comunidades índias e limpou o terreno aos mensageiros de Deus, escolhidos por Deus, povo de Israel nas areias de Canaã. Como moscas morreram os que aqui viviam há mais de três mil anos. A varíola, diz Winthrop, foi enviada por Deus para obrigar os colonos ingleses a ocupar as terras limpas pela peste.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Factótum


22

Depois de chegar na Filadélfia, eu achei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo já estava lá havia cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, fezes e vômito de meio século subindo pelo chão do bar, vindo dos banheiros lá de baixo.
Eram quatro e meia da tarde. Dois homens estavam brigando no meio do bar.
O cara da minha direita disse que se chamava Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny tinha um cigarro na boca, a ponta brilhava. Uma garrafa de cerveja vazia passou voando e por pouco não acertou o nariz e o cigarro dele. Ele não se mexeu, nem olhou em volta, só bateu as cinzas no cinzeiro.
— Quase, seu desgraçado! Tenta de novo para você ver!
O bar estava lotado. Tinha mulheres, algumas donas de casa gordas e um pouco burras, e duas ou três senhoras que estavam passando por alguma barra. Enquanto eu estava sentado, uma garota se levantou e saiu com um homem. Ela voltou em cinco minutos.
— Helen! Helen! Como você consegue?
Ela riu.
Outro pulou em cima dela.
— Deve ser boa. Também quero!
Saíram juntos. De novo, Helen voltou em cinco minutos.
— Ela deve ter uma bomba de sucção no lugar da vagina!
— Preciso experimentar — disse um coroa lá no fundo do bar. — Eu não fico de pau duro desde que Teddy Roosevelt conquistou a última colina dele.
Com esse, Helen levou dez minutos.

— Eu quero um sanduíche — disse um cara gordo. — Quem vai me fazer o favor de ir buscar um sanduíche?
Eu disse que iria.
— Rosbife no pão, com tudo que tem direito. — Me deu dinheiro. — Pode ficar com o troco.
Eu fui até o lugar do sanduíche. Um velhote com uma barriga grande se aproximou.
— Um sanduíche de rosbife no capricho, com tudo que tem direito. E uma garrafa de cerveja enquanto eu espero.
Bebi a cerveja, levei o sanduíche para o cara gordo no bar e encontrei outro lugar para sentar. Um copo de uísque apareceu. Bebi em um gole só. Outro surgiu. Bebi tudo de novo. A jukebox tocava.
Lá de trás do bar, um guri de uns vinte e quatro anos veio até mim.
— Eu preciso que limpem as persianas — falou para mim.
— Com certeza!
— O que você faz?
— Nada. Bebo. Os dois.
— E as cortinas?
— Cinco contos.
— Contratado.
Chamavam ele de Billy-Boy. Billy era casado com a dona do bar. Ela tinha quarenta e cinco anos.
Ele me trouxe dois baldes, uns pedaços de sabão, trapos e esponjas. Eu baixei as persianas, tirei as lâminas e comecei a limpar.
— A bebida é por conta da casa — disse Tommy, que era o atendente da noite — enquanto você estiver trabalhando.
— Manda uma dose de uísque, Tommy.

Trabalho demorado esse; a poeira estava endurecida, virou sujeira incrustada. Eu cortei as mãos várias vezes nas lâminas das persianas de metal. A água com sabão ardia.
— Tommy, me vê uma dose de uísque aí. — Terminei uma parte das persianas e pendurei de volta. A galera do bar se virava para ver meu trabalho.
— Tá bom, hein!
— Com certeza melhora o ambiente.
— Assim é provável que aumentem o preço das bebidas.
— Dá uma dose de uísque, Tommy — falei.
Peguei mais um conjunto de persianas e tirei as lâminas. Ganhei do Jim no pinball por uma moeda, depois esvaziei os baldes no vaso sanitário e fui pegar água limpa.
O segundo conjunto foi mais difícil. Minhas mãos ganharam novos cortes. Eu duvido que aquelas janelas tenham sido limpas nos últimos dez anos. Ganhei mais uma moeda no pinball e aí o Billy-Boy gritou para eu voltar ao trabalho.
Helen passou por ali a caminho da latrina das mulheres.
— Helen, te dou cinco contos quando eu terminar aqui. Tem jeito?
— Claro, mas depois de tanto trabalho você não vai conseguir subir o amiguinho.
— Eu subo, sim.
— Estarei aqui até fechar. Se você ainda conseguir ficar de pé, aí pode levar de graça!
— Vou estar firme e forte, baby.
Helen voltou para a latrina.
— Uma dose de uísque, Tommy.
— Ei, vai com calma — disse Billy-Boy —, senão você não vai terminar esse trabalho hoje.
— Billy, se eu não terminar, você fica com os cincão.
— Negócio fechado. Vocês todos ouviram isso?
— Ouvimos, Billy, seu pão-duro.
— Mais um pra viagem, Tommy.
Tommy mandava o uísque. Eu bebia e seguia com o trabalho. Enchi a cara. Depois de algumas doses eu já estava com todas as persianas limpas e brilhando.
— Beleza, Billy, pode me pagar.
— Você não terminou.
— Quê?
— Tem mais três janelas nos fundos.
— Nos fundos?
— Isso. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o tal salão. Tinha mais três janelas, mais três conjuntos de persianas.
— Eu topo por dois e cinquenta, Billy.
— Não, ou você limpa todas ou não ganha nada.
Peguei os baldes, joguei fora a água suja, coloquei água limpa, sabão, aí peguei um conjunto de persianas. Tirei as lâminas, coloquei em uma mesa e fiquei encarando.
Jim parou a caminho da latrina.
— Qual é o problema?
— Eu não aguento mais essas lâminas.
Quando Jim saiu do banheiro, ele passou no bar para trazer a cerveja dele. Começou a limpar as persianas.
— Jim, deixa isso para lá.
Fui até o bar, peguei outro uísque. Quando voltei, uma das garotas estava pegando um conjunto de persianas.
— Cuidado para não se cortar — falei para ela.
Em poucos minutos, já tinha quatro ou cinco pessoas lá atrás conversando e rindo, incluindo Helen. Todas estavam limpando as persianas. Logo depois, toda a galera do bar estava lá. Trabalhei com mais duas doses de uísque. Enfim, todas as persianas estavam limpas e penduradas. Não levou muito tempo. Elas brilhavam. Billy-Boy entrou:
— Eu não vou te pagar.
— O trabalho está terminado.
— Mas não foi você que terminou.
— Não seja mão de vaca, Billy — alguém falou.
Billy-Boy desenterrou os cinco dólares, e eu peguei. Fomos para o bar.
— Uma dose para todo mundo! — Deitei os cinco dólares na mesa. — E uma para mim também.
Tommy serviu as bebidas.
Bebi a minha e ele pegou os cinco dólares.
— Você deve três dólares e quinze centavos ao bar.
— Pendura aí.
— Ok, qual é o teu sobrenome?
— Chinaski.
— Já ouviu aquela do polonês que foi ao banheiro?
— Já.
As bebidas chegaram para mim até a hora de fechar. Depois da última, eu olhei ao redor. Helen tinha picado a mula. Ela mentiu.
Que piranha, pensei, com medo de uma longa e dura aventura…
Levantei e fui caminhando de volta até a pensão. A luz da lua estava forte. Meus passos ecoavam na rua vazia e parecia que alguém estava me seguindo. Olhei em volta. Me enganei, estava sozinho por completo.

Charles Bukowski, em Factótum

Mari Jasca | Simplesmente + Sete Luas

Capítulo 80 – De Secretário




Na noite seguinte fui efetivamente à casa do Lobo Neves; estavam ambos, Virgília muito triste, ele muito jovial.
Juro que ela sentiu certo alívio quando os nossos olhos se encontraram, cheios de curiosidade e ternura; e não direi o que senti, porque isso já ficou expresso no capítulo anterior, in fine. O Lobo Neves contou-me os planos que levava para a presidência, as dificuldades locais, as esperanças, as resoluções; estava tão contente! tão esperançado! Virgília, ao pé da mesa, fingia ler um livro, mas por cima da página olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa.
– O pior, disse-me de repente o Lobo Neves, é que ainda não achei secretário.
– Não?
– Não, e tenho uma ideia.
– Ah!
– Uma ideia... Quer você dar um passeio ao Norte?
Não sei o que lhe disse.
– Você é rico, continuou ele, não precisa de um magro ordenado; mas se quisesse obsequiar-me, ia de secretário comigo.
Meu espírito deu um salto para trás, como se descobrisse uma serpente diante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto... Nem sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, não violenta, uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive ânimo de olhar para Virgília; senti por cima da página o olhar dela, que me pedia também a mesma coisa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretário, era resolver as coisas de um modo administrativo.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Depois de ler

Depois de ler, por cima de meu ombro, as linhas precedentes, observou-me o João Sabiá:
— Mas tu já não falaste na incompreendida beleza dos sapos, na beleza transcendental de um matungo de inverno? Isso é a alma deles?!
— Não, é a minha alma…

Mário Quintana, em Caderno H

Siempre en la Barca pra Paquetá



3ª Faixa: Marilda

A crooner do Conjunto Sete de Ouros chamava todo mundo de Hipócrita, no Vila da Feira, e eu, que nasci pra bailar, terçava passo com Marilda, moreninha de minhas relações, infelizmente não-sexuais. Perpetrei uma queda-de-asa e o salto do sapato dela quebrou. Levei-a, cavalheirescamente, até a mesa e dei uma de homem vivido:
– Fica triste não. Sapato alto é um problema.
Ela não refrescou:
– Sempre desconfiei que você também usava.
Hipócrita, cretina, filha da puta…

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo