22/08/2026

Capítulo 80 – De Secretário




Na noite seguinte fui efetivamente à casa do Lobo Neves; estavam ambos, Virgília muito triste, ele muito jovial.
Juro que ela sentiu certo alívio quando os nossos olhos se encontraram, cheios de curiosidade e ternura; e não direi o que senti, porque isso já ficou expresso no capítulo anterior, in fine. O Lobo Neves contou-me os planos que levava para a presidência, as dificuldades locais, as esperanças, as resoluções; estava tão contente! tão esperançado! Virgília, ao pé da mesa, fingia ler um livro, mas por cima da página olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa.
– O pior, disse-me de repente o Lobo Neves, é que ainda não achei secretário.
– Não?
– Não, e tenho uma ideia.
– Ah!
– Uma ideia... Quer você dar um passeio ao Norte?
Não sei o que lhe disse.
– Você é rico, continuou ele, não precisa de um magro ordenado; mas se quisesse obsequiar-me, ia de secretário comigo.
Meu espírito deu um salto para trás, como se descobrisse uma serpente diante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto... Nem sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, não violenta, uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive ânimo de olhar para Virgília; senti por cima da página o olhar dela, que me pedia também a mesma coisa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretário, era resolver as coisas de um modo administrativo.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Nenhum comentário:

Postar um comentário