Na noite seguinte fui efetivamente à
casa do Lobo Neves; estavam ambos, Virgília muito triste, ele muito
jovial.
Juro que ela sentiu certo alívio
quando os nossos olhos se encontraram, cheios de curiosidade e
ternura; e não direi o que senti, porque isso já ficou expresso no
capítulo anterior, in fine. O Lobo Neves contou-me os planos que
levava para a presidência, as dificuldades locais, as esperanças,
as resoluções; estava tão contente! tão esperançado! Virgília,
ao pé da mesa, fingia ler um livro, mas por cima da página
olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa.
– O pior, disse-me de repente o Lobo
Neves, é que ainda não achei secretário.
– Não?
– Não, e tenho uma ideia.
– Ah!
– Uma ideia... Quer você dar um
passeio ao Norte?
Não sei o que lhe disse.
– Você é rico, continuou ele, não
precisa de um magro ordenado; mas se quisesse obsequiar-me, ia de
secretário comigo.
Meu espírito deu um salto para trás,
como se descobrisse uma serpente diante de si. Encarei o Lobo Neves,
fixamente, imperiosamente, a ver se lhe apanhava algum pensamento
oculto... Nem sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a
placidez do rosto era natural, não violenta, uma placidez salpicada
de alegria. Respirei, e não tive ânimo de olhar para Virgília;
senti por cima da página o olhar dela, que me pedia também a mesma
coisa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma
presidenta, um secretário, era resolver as coisas de um modo
administrativo.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

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