29/10/2023

Entrelaçadas

Todas as coisas estão entrelaçadas, unidas por um laço divino. Dificilmente uma está desunida de outra. Todas foram coordenadas e combinadas para formar o mesmo cosmos. Há um universo composto de todas elas, um deus que as permeia, uma substância, uma lei, uma razão comum aos animais inteligentes e uma verdade, caso, de fato, haja também um primor em todos os animais que são da mesma espécie e participam da mesma razão.

Marco Aurélio, in Meditações

Trêmulo e casto


[…]
Eu lamento tanto em cima da xícara com a bebida que eles percebem que vou ficar bêbado e então todos permitem e insistem que eu tome um pico de morfina, o que aceito sem medo porque sou um bêbado – Pior sensação do mundo, tomar morfina quando você está bêbado, o resultado dá um nó em sua testa como se fosse uma pedra e provoca muita dor lá enquanto disputam o domínio da área, nenhum deles ganha porque anularam um ao outro, o álcool e o alcaloide. Mas aceito, e assim que começo a sentir seu efeito que me alerta e aquece, olho para baixo e percebo que o frango, a galinha, quer fazer amizade comigo – Está por perto com o pescoço balançando, olhando para minha rótula, para minhas mãos pendentes, quer se aproximar mas não tem autoridade – Então estendo a mão para que ela a bique, para que ela saiba que não tenho medo porque na verdade confio que ela não vai me machucar – o que ela não faz – fica apenas olhando para minha mão com cautela, dúvida e, de repente, quase com doçura, e então eu tiro a mão com uma sensação de vitória. Ela cacareja contente, pega um pedaço de algo no chão e o joga fora, um pedaço de linha pendurado em seu bico, ela o joga fora, olha ao redor, anda pela cozinha dourada do Tempo em um grande resplendor de Nirvana de sábado à noite e todos os rios rugindo sob a chuva, o estrondo em minha alma quando penso na primeira infância e você vê os adultos grandes na sala, a onda e o ranger de suas mãos sombrias, enquanto discutem sobre o tempo e a responsabilidade, em um Filme de Ouro dentro de minha própria mente sem substância nem mesmo gelatinosa – a esperança e o horror do vazio – grandes fantasmas gritando em minha cabeça com a fotografia estranha e engraçada do galo que agora se ergue e emite um som do fundo da garganta, dirigindo–se às cercas abertas do Missouri, explode em gritos de pólvora de vergonha matinal, reverendo para o homem – Ao amanhecer, em meio a oceanidades impenetráveis e áridas de melancolia profundamente submersa, ele emite sua canção matinal otimista e ainda assim o fazendeiro sabe que aquilo não vai terminar daquela maneira otimista. Então ele cacareja, cacarejos de galo, comenta sobre alguma coisa louca que podemos ter dito, e cacareja – pobre ser que pressente e percebe, a besta sabe que chegou sua hora nos galinheiros da Avenida Lenox cacareja exultante como nós – grita mais alto se é um homem, com barbelas e cristas especiais de galo Galinha, sua mulher, usa o chapéu ajustável que cai de um lado para outro de seu bico bonito. “Bom dia, Sra. Gazoooks”, digo a ela, divertindo-me sozinho ao observar as galinhas como fazia quando moleque em New Hampshire em fazendas à noite esperando que a conversa terminasse e a lenha fosse levada para dentro. Trabalhava duro para meu pai na Terra Pura, era forte e verdadeiro, fui à cidade para ver Tathagata, nivelei o chão para seus pés, vi calombos por toda a parte e nivelei o chão, ele passou e me viu e disse “Primeiro nivele sua mente, e então a terra estará nivelada, até o monte Sumeru” (o antigo nome do Everest em magadha antigo) (Índia).

Também quero fazer amizade com o galo, agora estou sentado diante da cama nas outras cadeiras depois que El Indio saiu com um bando de homens suspeitos com bigodes, um dos quais olhou fixamente para mim com curiosidade e um sorriso orgulhoso e satisfeito quando eu me levantei com a xícara na mão, agindo como se estivesse bêbado em frente das mulheres para a edificação dele e de seus amigos – Sozinho na casa com duas mulheres, sento-me educadamente diante delas e conversamos com franqueza e avidez sobre Deus. “Meus amigos está um doentes, eu dou a elesh uma dose”, conta-me a bela Tristessa de Dolours com seus dedos longos, úmidos e expressivos dançando o bailado tilintante dos indiozinhos diante de meus olhos assombrados. “– E cuando meu amigo no me paga, eu naum me importo. Porque”, aponta para o alto com uma expressão sincera para meus olhos, dedo no ar, “Meu Senhor me paga – e ele me paga mais M–a–i–s” – ela se inclina rapidamente para dar mais ênfase, e eu gostaria de poder dizer a ela em espanhol a bênção inestimável e ilimitada que receberá de qualquer forma no Nirvana. Mas eu a amo, me apaixono por ela. Ela acaricia meu braço com o dedo. Eu adoro. Tento me lembrar de meu lugar e minha posição na eternidade. Renunciei à luxúria com as mulheres renunciei à luxúria pela luxúria – renunciei à sexualidade e ao impulso inibidor – quero entrar na torrente sagrada de luz e ficar seguro em meu caminho para a outra margem, mas deixaria, de boa vontade, um beijo para Tristessa por escutar os apelos de meu coração. Ela sabe que eu a amo e admiro com todo o meu coração e que estou me segurando. “Você tem sua vida”: diz ela para Old Bull (e sobre ele em um minuto) “e eu tenho que cuidar da minha, e Jack tem a vida deeli”, apontando para mim, ela me devolve minha vida e não a exige para si mesma como fazem tantas mulheres que você ama. – Eu a amo mas quero partir. Ela diz: “Eu sei, um homem y uma mulher estaum condenados –” “quando querem estar condenados” – Ela balança a cabeça, confirma para si mesma alguma sombria crença asteca instintiva, sábia uma mulher sábia, que teria dignificado os rebanhos de Bhikshunis na própria época de Yasodhara e teria dado uma freira divina adicional. Com os olhos fechados e as mãos juntas, uma Madona. Me faz chorar perceber que Tristessa nunca teve um filho e provavelmente jamais terá por conta de seu problema com a morfina (uma doença que perdura enquanto houver necessidade, que, ao mesmo tempo, se alimenta da necessidade e a satisfaz, isso faz com que passe o dia inteiro a gemer de dor e a dor é real, como abcessos em seus ombros ou uma nevralgia que desce pelo lado de sua cabeça e em 1952, pouco antes do Natal, ela quase morreu), a santificada Tristessa não vai renascer outra vez. Irá direto para seu Deus e Ele irá recompensar seu rebanho de multibilhões com eternidades e eternidades de tempo de Carma perdido. Ela compreende o Carma, e diz: “O que faço é ceifar”, diz em espanhol – “Homens e mulheres cometem errares – erros, falhas, pecados, faltas,” seres humanos semeiam com problemas sua própria terra, e tropeçam nas pedras de sua imaginação falsa e errada, e a vida é dura. Ela sabe, eu sei, você sabe. – “Mas – eu quero tomar una dose – morfina – e no ficar mais com essa vontade.” Ela encurva os ombros com rosto de camponesa, compreendendo a si mesma de uma maneira que eu não consigo e quando olho para ela sob o tremeluzir da vela sobre as maçãs protuberantes de seu rosto e ela parece tão bonita quanto uma Ava Gardner Negra, uma Ava Marrom de rosto comprido e ossos compridos e olhos semicerrados de cílios compridos – Só que Tristessa não tem essa expressão de um sorriso sexual, tem a expressão de menosprezo indígena de rosto triste e abatido para o que você acha de sua beleza mais que perfeita. Não que seja uma beleza perfeita como a de Ava, ela tem falhas, erros, mas todos os homens e mulheres os têm e por isso todas as mulheres perdoam os homens e os homens perdoam as mulheres e eles seguem seus caminhos sagrados para a morte. Tristessa ama a morte, vai até o ícone, arruma as flores e reza. – Ela se abaixa com um sanduíche nas mãos e reza, olhando de lado para o ícone, sentada na cama da maneira birmanesa (um joelho na frente do outro) (abatida) (sentada), ela faz uma longa oração a Maria para pedir bênçãos ou dar graças pela comida, eu espero em silêncio respeitoso, dou uma olhadela para El Indio que também é devoto, ao ponto de chorar com seus olhos vidrados e reverentes de viciado e às vezes gosto especialmente quando Tristessa tira as meias para entrar nos cobertores da cama dizendo um segredo de frases de amor veneráveis a meia-voz (“Tristessa, O Yé comme tu est Belle”) (o que, sem dúvida, é o que estou pensando mas tenho medo de olhar e ver Tristessa tirar suas meias de náilon com medo de conseguir ver suas coxas cor de café com leite e ficar louco) – Mas El Indio também está chapado demais com a solução venenosa de morfina para se importar e dar continuidade a sua reverência por Tristessa, ele está ocupado, às vezes ocupado passando mal, tem uma mulher, dois filhos (do outro lado da cidade), tem que trabalhar, tem que descolar as paradas para Tristessa quando ela não tem nada (como agora) – (motivo de sua presença na casa) Vejo a coisa pipocando e digressionando em todas as direções, a história daquela casa e daquela cozinha.
Nas paredes da cozinha há fotos pornográficas de garotas mexicanas, garotas de lingerie preta e coxas grossas e relevos reveladores dos seios e drapeado pélvico, que estudo com interesse, nos lugares certos, mas as fotos estão todas amassadas e manchadas pela chuva e com as pontas enroladas e penduradas de qualquer jeito na parede, e você tem de ajeitá-las e esticá-las para poder estudá-las, e mesmo assim a chuva escorre pelas folhas de repolho e o papelão encharcado acima – Quem poderia ter tentado fazer um teto para a felaína? – “Meu Senhor, ele me recompensa mais” –

Jack Kerouac, in Tristessa

28/10/2023

Admirável Chip Novo | Planet Hemp

Aprendimentos

O filósofo Kiekkegaard me ensinou que cultura é
o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia nada. Não tinha
as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele um caracol vejetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs. E gostasse mais de
ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou
por vezes de alcançar o sotaque das suas origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles –
esse pessoal. Eles falavam nas aulas: Quem se
aproxima das origens se renova. Píndaro falava pra
mim que usava todos os fósseis lingüísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que de mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

Manoel de Barros, in Memórias Inventadas – A segunda infância

Werner

Quando nasceu, no mesmo quarto acontecia um parto espetacular. Era o primeiro parto de sétuplos do mundo e a mãe dos bebês havia convidado todas as emissoras do país a televisionarem o recorde. No mesmo momento em que todas as câmeras focavam na grávida recordista, nascia, ao fundo do quarto, todo desfocadinho, um bebê chamado Werner, o primeiro bebê-figurante da história.
Quando pequeno, na escola, Werner estava sempre no meio da massa de alunos, sem jamais se fazer notar. Ninguém se lembrava do seu nome, apesar de tão particular. Conheciam-no ora como menino ora como ei, psiu ou você. Quando tentava dizer algo, era reprimido e mandado para o fundo da sala. Logo descobriu que estaria condenado a sentar no fundo. Mesmo quando não estivesse sentado lá. Quando, por acaso, se sentava na primeira fila, era no fundo que as coisas aconteciam. Quando passava pro fundo, o fundo voltava a ser só o fundo.
Um dia, resolveu fazer uma loucura: saiu de casa vestido com o maiô da mãe. Descobriu que não era o único. Talvez fosse o mais discreto. A rua estava tomada de homens vestidos com as roupas da mãe e mulheres vestidas de roupa nenhuma. Era Carnaval.
Ao contrário do que se poderia pensar, sua vida não era um tédio. Muito pelo contrário. Ao seu lado sempre aconteciam as coisas mais fantásticas. Bastava ele sair de casa para que prédios pegassem fogo, super-heróis dessem um rasante para salvar alguma menina indefesa e um homem-bomba se partisse em mil pedaços. Ele só observava perplexo e conversava com as pessoas ao seu lado (sem fazer muito barulho).
Aprendeu a falar baixo, para não atrapalhar a ação principal. Aprendeu a concordar com o que estavam dizendo. Aprendeu a gesticular como quem concorda. Quem está em segundo plano nunca discorda. O pessoal desfocado passa a vida concordando. A não ser em época de protestos. Lá estava ele, na Paulista, discordando. Educadamente. Como quem concorda.
Descobriu os prazeres de não ser notado. Nunca foi julgado. Nunca disseram dele: esse aceno de cabeça foi meio torto. Esse abraço desfocado não está muito crível. Ele só passava, sorrindo. E passou a ser bom nisso. Quando passava, as pessoas se sentiam melhor. Passava tão sem intenção, tão sem objetivo, tão somente por passar, que parecia que estava tudo em ordem.
Até que um dia Werner morreu. Ou melhor, foi demitido. Olhou para a câmera.

Gregório Duvivier, in Put some farofa

Como você está hoje?

Uma corda

Costuma dizer-se da vida de hoje, que é tecida de egoísmo, e lhe falta espírito ou prática de comunhão. Mas o que vimos na noite de domingo foi que não há dramas estanques, pois os próprios elementos mecânicos da civilização contribuem para a formação de um todo solidário e vibrátil, uma espécie de “vida unânime”, sonhada pelo poeta, em que os casos particulares, sem perda de sua especificidade, passam a constituir casos de todos nós, multiplicando-se ao infinito.
Um edifício incendiava-se ao vento do mar, e onde quer que houvesse aparelho de rádio, pessoas participavam da situação, embora impotentes para remediá-la: não era uma notícia que entrava pela casa adentro, mas um acontecimento a que fôssemos transportados, a que aderíamos, que iria integrar-se no quadro de experiências vividas. Mais: um acontecimento metade ainda por acontecer, que se desdobrava em torno e dentro de nós, que não tínhamos forças para impedi-lo, e a ele nos sentíamos amarrados por essa sirene longínqua, ressoando no interior de nossa casa protegida.
Éramos tão frágeis e desprevenidos como esses moradores que se deixaram ficar repousando em seus quartos, e foram acordados pelo fumo; e tão pobres de recursos como esses bombeiros que, tendo escadas gigantescas, não puderam usá-las convenientemente, refletores e não puderam acendê-los, cobertas de lona e não puderam abri-las. Sabíamos que, entre a noite e a morte, alguns retardatários imploravam, de seus balcões, que uma chance comum de salvamento lhes fosse oferecida; e não podíamos dizer a esses quase desesperados que esperassem mais alguns instantes apenas, pois a adesão emocional da população saberia vencer todas as deficiências, subitamente reveladas, do serviço de combate ao fogo, do sistema de construção dos edifícios e do funcionamento normal da cidade, que não pode ser apenas um montão de casas e pistas de corrida, sem qualquer proteção para a vida humana. Tínhamos de assistir à queda de alguns corpos e à descoberta de outros, como a cenas programadas de um espetáculo; e mesmo os que não viram fisicamente tais cenas, elaboravam com horror sua representação mental. Tudo isso aconteceu no interior de cada casa do Rio, no interior de cada habitante, e não apenas num edifício que abrigava uma boate famosa e estava numa linha discutida de desapropriação.
Pela madrugada, quando todos nos sentíamos deprimidos ante o que fora menos um incêndio entre muitos do que um ensejo de apurar a extensão de nossas misérias urbanas, uma voz entrou também pelas casas, explicando e tranquilizando. Era o comandante do Corpo de Bombeiros, a atestar a qualidade moderna de seu equipamento, embora lhe admitisse a insuficiente quantidade. E distribuía à população um conselho lúgubre: que todo morador de edifício, do quinto andar para cima, tenha sempre em casa, ao alcance dos braços, uma corda. Uma corda longa e forte, atada em nó de metro em metro, não para enforcar-se, mas para salvar-se numa era em que a técnica tem poder bastante para levantar construções orgulhosas de mais de cem andares e não o tem para garantir a vida de quem habita esses altos planos. A corda passará a ser peça essencial do equipamento doméstico, e mais do que isso, individual; será uma escada privativa e portátil, colada sinistramente à nossa existência. Para usá-la, treinaremos as crianças antes de ensinar-lhes as primeiras letras, do mesmo modo que manteremos nos velhos a “forma” indispensável; quanto aos inválidos, fiquem nas mãos de Deus. É a lição do incêndio do Vogue*, e se contraria aquele princípio de fraternidade confrangida, que se manifestou nas almas, durante a noite de domingo, devemos reconhecer que a corda, pelo menos, é esperança para alguns.

*A boate Vogue, localizada na rua Princesa Isabel, em Copacabana, incendiou-se no dia 14 de agosto de 1955.

Carlos Drummond de Andrade, in Fala, Amendoeira

Capítulo IV – Sinha Vitória

Fotograma do filme Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos

Acocorada junto às pedras que serviam de trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, Sinha Vitória soprava o fogo. Uma nuvem de cinza voou dos tições e cobriu-lhe a cara, a fumaça inundou-lhe os olhos, o rosário de contas brancas e azuis desprendeu-se do cabeção e bateu na panela. Sinha Vitória limpou as lágrimas com as costas das mãos, encarquilhou as pálpebras, meteu o rosário no seio e continuou a soprar com vontade, enchendo muito as bochechas.
Labaredas lamberam as achas de angico, esmoreceram, tornaram a levantar-se e espalharam-se entre as pedras. Sinha Vitória aprumou o espinhaço e agitou o abano. Uma chuva de faíscas mergulhou num banho luminoso a cachorra Baleia, que se enroscava no calor e cochilava embalada pelas emanações da comida.
Sentindo a deslocação do ar e a crepitação dos gravetos, Baleia despertou, retirou-se prudentemente, receosa de sapecar o pêlo, e ficou observando maravilhada as estrelinhas vermelhas que se apagavam antes de tocar o chão. Aprovou com um movimento de cauda aquele fenômeno e desejou expressar a sua admiração à dona. Chegou-se a ela em saltos curtos, ofegando, ergueu-se nas pernas traseiras, imitando gente. Mas Sinha Vitória não queria saber de elogios.
Deu um pontapé na cachorra, que se afastou humilhada e com sentimentos revolucionários.
Sinha Vitória tinha amanhecido nos seus azeites. Fora de propósito, dissera ao marido umas inconveniências a respeito da cama de varas. Fabiano, que não esperava semelhante desatino, apenas grunhira: – “Hum! hum!” E amunhecara, porque realmente mulher é bicho difícil de entender, deitara-se na rede e pegara no sono. Sinha Vitória andara para cima e para baixo, procurando em que desabafar. Como achasse tudo em ordem, queixara-se da vida. E agora vingava-se em Baleia, dando-lhe um pontapé.
Avizinhou-se da janela baixa da cozinha, viu os meninos, entretidos no barreiro, sujos de lama, fabricando bois de barro, que secavam ao sol, sob o pé de turco, e não encontrou motivo para repreendê-los. Pensou de novo na cama de varas e mentalmente xingou Fabiano. Dormiam naquilo, tinham-se acostumado, mas seria mais agradável dormirem numa cama de lastro de couro, como outras pessoas.
Fazia mais de um ano que falava nisso ao marido. Fabiano a princípio concordara com ela, mastigara cálculos, tudo errado. Tanto para o couro, tanto para a armação. Bem. Poderiam adquirir o móvel necessário economizando na roupa e no querosene. Sinha Vitória respondera que isso era impossível, porque eles vestiam mal, as crianças andavam nuas, e recolhiam-se todos ao anoitecer. Para bem dizer, não se acendiam candeeiros na casa. Tinham discutido, procurando cortar outras despesas. Como não se entendessem, Sinha Vitória aludira, bastante azeda, ao dinheiro gasto pelo marido na feira, com jogo e cachaça. Ressentido, Fabiano condenara os sapatos de verniz que ela usava nas festas, caros e inúteis. Calçada naquilo, trôpega, mexia-se como um papagaio, era ridícula. Sinha Vitória ofendera-se gravemente com a comparação, e se não fosse o respeito que Fabiano lhe inspirava, teria despropositado. Efetivamente os sapatos apertavam-lhe os dedos, faziam-lhe calos. Equilibrava-se mal, tropeçava, manquejava, trepada nos saltos de meio palmo. Devia ser ridícula, mas a opinião de Fabiano entristecera-a muito. Desfeitas essas nuvens, curtidos os dissabores, a cama de novo lhe aparecera no horizonte acanhado.
Agora pensava nela de mau humor. Julgava-a inatingível e misturava-a às obrigações da casa. Foi a sala, passou por baixo do punho da rede onde Fabiano roncava, tirou do caritó o cachimbo e uma pele de fumo, saiu para o copiar. O chocalho da vaca laranja tilintou para os lados do rio. Fabiano era capaz de se ter esquecido de curar a vaca laranja. Quis acordá-lo e perguntar, mas distraiu-se olhando os xiquexiques e os mandacarus que avultavam na campina.
Um mormaço levantava-se da terra queimada. Estremeceu lembrando-se da seca, o rosto moreno desbotou, os olhos pretos arregalaram-se. Diligenciou afastar a recordação, temendo que ela virasse realidade. Rezou baixinho uma ave-maria, já tranquila, a atenção desviada para um buraco que havia na cerca do chiqueiro das cabras. Esfarelou a pele de fumo entre as palmas das mãos grossas, encheu o cachimbo de barro, foi consertar a cerca. Voltou, circulou a casa atravessando o cercadinho do oitão, entrou na cozinha.
– É capaz de Fabiano ter-se esquecido da vaca laranja.
Agachou-se, atiçou o fogo, apanhou uma brasa com a colher, acendeu o cachimbo, pôs-se a chupar o canudo de taquari cheio de sarro. Jogou longe uma cusparada, que passou por cima da janela e foi cair no terreiro. Preparou-se para cuspir novamente. Por uma extravagante associação, relacionou esse ato com a lembrança da cama. Se o cuspo alcançasse o terreiro, a cama seria comprada antes do fim do ano. Encheu a boca de saliva, inclinou-se- e não conseguiu o que esperava. Fez várias tentativas, inutilmente. O resultado foi secar a garganta. Ergueu-se desapontada. Besteira, aquilo não valia.
Aproximou-se do canto onde o pote se erguia numa forquilha de três pontas, bebeu um caneco de água. Água salobra.
– Iche!
Isto lhe sugeriu duas imagens quase simultâneas, que se confundiram e neutralizaram: panelas e bebedouros. Encostou o fura-bolos à testa, indecisa. Em que estava pensando? Olhou o chão, concentrada, procurando recordar-se, viu os pés chatos, largos, os dedos separados. De repente as duas ideias voltaram: o bebedouro secava, a panela não tinha sido temperada.
Foi levantar o testo, recebeu na cara vermelha uma baforada de vapor. Não é que ia deixando a comida esturrar? Pôs água nela e remexeu-a com a quenga preta de coco. Em seguida provou o caldo. Insosso, nem parecia boia de cristão. Chegou-se ao jirau onde se guardavam cumbucos e mantas de carne, abriu a mochila de sal, tirou um punhado, jogou-o na panela.
Agora pensava no bebedouro, onde havia um líquido escuro que bicho enjeitava. Só tinha medo da seca.
Olhou de novo os pés espalmados. Efetivamente não se acostumava a calçar sapatos, mas o remoque de Fabiano molestara-a. Pés de papagaio. Isso mesmo, sem dúvida, matuto anda assim. Para que fazer vergonha à gente? Arreliava-se com a comparação.
Pobre do papagaio. Viajar com ela, na gaiola que balançava em cima do baú de folha. Gaguejava: - “Meu louro.” Era o que sabia dizer. Fora isso, aboiava arremedando Fabiano e latia como Baleia. Coitado. Sinha Vitória nem queria lembrar-se daquilo. Esquecera a vida antiga, era como se tivesse nascido depois que chegara à fazenda. A referência aos sapatos abrira-lhe uma ferida – e a viagem reaparecera. As alpercatas dela tinham sido gastas nas pedras. Cansada, meio morta de fome, carregava o filho mais novo, o baú e a gaiola do papagaio. Fabiano era ruim.
– Mal-agradecido.
Olhou os pés novamente. Pobre do louro. Na beira do rio matara-o por necessidade, para sustento da família. Naquele momento ele estava zangado, fitava na cachorrinha as pupilas sérias e caminhava aos tombos, como os matutos em dias de festa. Para que Fabiano fora despertar-lhe aquela recordação? Chegou à porta, olhou as folhas amarelas das catingueiras. Suspirou. Deus não havia de permitir outra desgraça. Agitou a cabeça e procurou ocupações para entreter-se. Tomou a cuia grande, encaminhou-se ao barreiro, encheu de água o caco das galinhas, endireitou o poleiro. Em seguida foi ao quintalzinho regar os craveiros e as panelas de losna. E botou os filhos para dentro de casa, que tinham barro até nas meninas dos olhos. Repreendeu-os: – Safadinhos! porcos! sujos como... Deteve-se. Ia dizer que eles estavam sujos como papagaios.
Os pequenos fugiram, foram enrolar-se na esteira da sala, por baixo do caritó, e Sinha Vitória voltou para junto da trempe, reacendeu o cachimbo. A panela chiava; um vento morno e empoeirado sacudia as teias de aranha e as cortinas de pucumã do teto; Baleia, sob o jirau, coçava-se com os dentes e pegava moscas. Ouviam-se distintamente os roncos de Fabiano, compassados, e o ritmo deles influiu nas ideias de Sinha Vitória. Fabiano roncava com segurança. Provavelmente não havia perigo, a seca devia estar longe.
Outra vez Sinha Vitória pôs-se a sonhar com a cama de lastro de couro. Mas o sonho se ligava à recordação do papagaio, e foi-lhe preciso um grande esforço para isolar o objeto de seu desejo.
Tudo ali era estável, seguro. O sono de Fabiano, o fogo que estalava, o toque dos chocalhos, até o zumbido das moscas davam-lhe sensação de firmeza e repouso. Tinha de passar a vida inteira dormindo em varas? Bem no meio do catre havia um nó, um calombo grosso na madeira. E ela se encolhia num canto, o marido no outro, não podiam estirar-se no centro. A princípio não se incomodara. Bamba, moída de trabalhos, deitar-se-ia em pregos. Viera, porém, um começo de prosperidade. Corriam, engordavam. Não possuíam nada: se retirassem, levariam a roupa, a espingarda, o baú de folha e troças miúdos. Mas iam vivendo, na graça de Deus, o patrão confiava neles – e eram quase felizes. Só faltava uma cama. Era o que aperreava Sinha Vitória. Como já não se estazava em serviços pesados, gastava um pedaço da noite parafusando. E o costume de encafuar-se ao escurecer não estava certo, que ninguém é galinha.
Nesse ponto as ideias de Sinha Vitória seguiram outro caminho, que pouco depois foi desembocar no primeiro. Não era que a raposa tinha passado no rabo a galinha pedrês? Logo a pedrês, a mais gorda. Decidiu armar um mundéu perto do poleiro. Encolerizou-se. A raposa pagaria a galinha pedrês.
– Ladrona.
Pouco a pouco a zanga se transferiu. Os roncos de Fabiano eram insuportáveis. Não havia homem que roncasse tanto. Era bom levantar-se e procurar uma vara para substituir aquele pau amaldiçoado que não deixava uma pessoa virar-se. Porque não tinham removido aquela vara incômoda? Suspirou. Não conseguiam tomar resolução. Paciência. Era melhor esquecer o nó e pensar numa cama igual à de seu Tomás da bolandeira. Seu Tomás tinha uma cama de verdade, feita pelo carpinteiro, um estrado de sucupira alisado a enxó, com as juntas abertas a formão, tudo embutido direito, e um couro cru em cima, bem esticado e bem pregado. Ali podia um cristão estirar os ossos.
Se vendesse as galinhas e a marrã? Infelizmente a excomungada raposa tinha comido a pedrês, a mais gorda. Precisava dar uma lição à raposa. Ia armar o mundéu junto do poleiro e quebrar o espinhaço daquela sem-vergonha.
Ergueu-se, foi a camarinha procurar qualquer coisa, voltou desanimada e esquecida. Onde tinha a cabeça?
Sentou-se na janela baixa da cozinha, desgostosa. Venderia as galinhas e a marrã, deixaria de comprar querosene. Inútil consultar Fabiano, que sempre se entusiasmava, arrumava projetos. Esfriava logo – e ela franzia a testa, espantada; certa de que o marido se satisfazia com a ideia de possuir uma cama. Sinha Vitória desejava uma cama real, de couro e sucupira, igual à de seu Tomás da bolandeira.

Graciliano Ramos, in Vidas Secas

27/10/2023

Alcione 50 Anos | Ao Vivo no Theatro Municipal do Rio de Janeiro

Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Adélia Prado, in Terra de Santa Cruz

Capítulo 64 | A transação

Vaguei pelas ruas e recolhi-me às nove horas. Não podendo dormir, atirei-me a ler e escrever. Às onze horas estava arrependido de não ter ido ao teatro, consultei o relógio, quis vestir-me, e sair. Julguei, porém, que chegaria tarde; demais, era dar prova de fraqueza. Evidentemente, Virgília começava a aborrecer-se de mim, pensava eu. E esta ideia fez-me sucessivamente desesperado e frio, disposto a esquecê-la e a matá-la. Via-a dali mesmo, reclinada no camarote, com os seus magníficos braços nus, -os braços que eram meus, só meus – fascinando os olhos de todos, com o vestido soberbo que havia de ter, o colo de leite, os cabelos postos em bandós, à maneira do tempo, e os brilhantes, menos luzidios que os olhos dela... Via-a assim, e doía-me que a vissem outros. Depois, começava a despi-la, a pôr de lado as joias e sedas, a despenteá-la com as minhas mãos sôfregas e lascivas, a torná-la, – não sei se mais bela, se mais natural, – a torná-la minha, somente minha, unicamente minha.
No dia seguinte, não me pude ter; fui cedo à casa de Virgília; achei-a com os olhos vermelhos de chorar.
– Que houve? perguntei.
– Você não me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a menor soma de amor. Tratou-me ontem como se me tivesse ódio. Se eu ao menos soubesse o que é que fiz! -Mas não sei. Não me dirá o que foi?
– Que foi o quê? Creio que não houve nada.
– Nada? Tratou-me como não se trata um cachorro...
A esta palavra, peguei-lhe nas mãos, beijei-as, e duas lágrimas rebentaram-lhe dos olhos.
– Acabou, acabou, disse eu.
Não tive ânimo de arguir, e, aliás, arguí-la de quê? Não era culpa dela se o marido a amava. Disse-lhe que não me fizera coisa nenhuma, que eu tinha necessariamente ciúmes do outro, que nem sempre o podia suportar de cara alegre; acrescentei que talvez houvesse nele muita dissimulação, e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e às dissensões era aceitar a minha ideia da véspera.
– Pensei nisso, acudiu Virgília; uma casinha só nossa, solitária, metida num jardim, em alguma rua escondida, não é? Acho a ideia boa; mas para que fugir?
Disse isto com o tom ingênuo e preguiçoso de quem não cuida em mal, e o sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia a mesma expressão de candidez. Então, afastando-me, respondi:
– Você é que nunca me teve amor.
– Eu?
– Sim, é uma egoísta! prefere ver-me padecer todos os dias... é uma egoísta sem nome!
Virgília desatou a chorar, e para não atrair gente, metia o lenço na boca, recalcava os soluços; explosão que me desconcertou. Se alguém a ouvisse, perdia-se tudo. Inclinei-me para ela, travei-lhe dos pulsos, sussurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidade; mostrei-lhe o perigo; o terror apaziguou-a.
– Não posso, disse ela daí a alguns instantes; não deixo meu filho; se o levar, estou certa de que ele me irá buscar ao fim do mundo. Não posso; mate-me você, se o quiser,ou deixe-me morrer... Ah! meu Deus! meu Deus!
– Sossegue; olhe que podem ouvi-la.
– Que ouçam! Não me importa.
Estava ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me perdoasse, que eu era um doido, mas que a minha insânia provinha dela e com ela acabaria. Virgília enxugou os olhos e estendeu-me a mão. Sorrimos ambos; minutos depois, tornávamos ao assunto da casinha solitária, em alguma rua escusa…

Machado de Assis, in Memórias Póstumas de Brás Cubas

Sedução | 10 Paezinhos

1520 – Bruxelas

Dürer

Estas coisas desprenderam-se do sol, como os homens e as mulheres que as fizeram e a distante terra que pisam.
São capacetes e cintos, leques de plumas, vestidos, mantas, armas de caça, um sol de ouro e uma lua de prata e zarabatanas e outras armas de tanta formosura que parecem feitas para ressuscitar suas vítimas.
O melhor desenhista de todos os tempos não se cansa de olhar. Esta é uma parte da presa de guerra que Cortez arrancou de Montezuma: as únicas peças que não foram fundidas em lingotes. O rei Carlos, recém-sentado no trono do Sagrado Império, exibe ao público os troféus de seus novos pedaços do mundo.
Albert Dürer não conhece o poema mexicano que explica que o verdadeiro artista encontra prazer em seu trabalho e que dialoga com seu coração porque não tem o coração morto e comido pelas formigas. Mas vendo o que vê, Dürer escuta essas palavras e descobre que está vivendo a maior alegria de seu meio século de vida.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

Capítulo catorze | História da chegada dos brancos


Houve um tempo em que o encontro do branco foi julgado de boa fé. Nos avistamentos iniciais, pelo areal, chegaram em suas pirogas gigantes e atracaram apontando para os abaeté, como se indicassem protuberâncias raras nos corpos vermelhos. Moveram muito calmos para significar a paz e desceram ao chão ofertas que a comunidade tomou com alegria. Nesses encontros, os abaeté julgaram que os brancos significavam uma amorosidade distante que levara muita eternidade a conseguir chegar até eles. Gesticulando de modo simples, num fascínio grato, a comunidade admitiu os brancos no exterior de suas aldeias, no exterior de suas cercas, mas com esperança e procurando descodificar a língua que, então, era escutada com curiosidade e sem temor. Alguns tardios descodificaram considerando que ampliavam o espírito. Todas as palavras de todas as línguas juntas são o tamanho da divindade. Apenas um deus teria o tamanho de todas as línguas, esse seria o espírito absoluto do mundo. O inteiro dos que soam e a vastidão dos mortos. Pensavam assim os gentis abaeté.
Nesse primeiro deslumbre, a boca dos brancos era escutada com a expectativa eufórica de ver o que criaria. Acreditavam os abaeté que, a qualquer momento, brotaria do som uma criação magnífica que pousaria diante de todos numa dádiva inequívoca, como relatavam as sapiências ancestrais. Das bocas brancas e de seus vocábulos novos poderia chegar a pronúncia que faltava da Verdadeiríssima Divindade, enfim generosa por entregar quanto bastaria para a longevidade segura, alegre, do povo e da mata. Escutar os brancos era, pois, um cuidado fundamental, e todos quantos podiam se silenciavam para apreciar a canção natural que pareciam reconhecer àquelas vozes. E os brancos falavam sem parar. Eram canoros como algumas aves incansáveis. Os abaeté sorriam maravilhados.
Podia ser que o clarão prometido se acendesse de suas bocas. Podia ser que fosse um clarão vocabular, produzindo um relâmpago que, ao invés de subir, deitasse ao chão, ao colo de um guerreiro que, até por ternura, o poderia tomar. O galho ósseo do relâmpago, o osso prometido, poderia ser uma evidência trazida pelas peles pálidas daqueles animais inauditos que começaram por incutir fascínio na imaginação da comunidade das ilhas de três mares. Quando pronunciavam, as palavras escutadas de seus corpos alvos criavam o sonho de se fazerem luz eterna, uma propriedade celeste ou do fogo que deitasse ao chão e ficasse para sempre. Os abaeté prestavam atenção. Por esperança, os abaeté prestavam muita atenção.
Subitamente, alguns brancos bebiam estranhos sangues azedos e emocionavam por folias, fúrias e até sono. Bebiam os sangues e queriam partilhá-los com os abaeté que, imediatamente, entenderam ser tocaia, venenos corruptores, e não beberam mais. Frustraram e temeram. Outros brancos recolhiam aqueles que emocionavam e os amarravam no bojo das pirogas gigantes, de onde emanavam fogos e fumos e dos quais os de pele vermelha tiveram sempre algum receio. Uma noite, um branco que bebeu o estranho sangue azedo quis tomar uma feminina que fugiu com seus atributos mata adentro. O branco, sucumbindo, empunhou o até então desconhecido grito de ferro e cuspiu. Cuspiu na mata já escura que estremeceu ao ruído jamais escutado de uma arma tão cruel. Estava de corpo exposto, descoberto de seu entrançado fino, e correu igualmente, sempre cuspindo seu grito de ferro, sua mão voava no ar e a própria mão parecia puxá-lo a toda a força, a toda a fúria. Os abaeté desconheceram aquele gesto e só na iluminação do sol aferiram que o cuspe da arma deixava sulco violento na mata. A mais digna árvore abria um golpe feio por ofício nenhum. Era um golpe sem propósito que a comunidade quis saber por que razão fora feito. Então, o pajé desse tempo entendeu que a cuspida mataria a feminina se houvesse de lhe acertar. O santo abriu muito os olhos e anunciou o medo. O grito de ferro, ele noticiou, era uma arma. A pior arma de todas. A mais ruidosa e a mais mortal. Abriria uma feminina em dois, caso lhe tocasse.
Intuindo tudo aquilo, alguém chegou para testemunhar que a pequena parte visível da Pedra que Soa estava golpeada por igual. O grito de ferro lhe cuspira na escuridão da mata pela noite anterior. A comunidade berrou e jogou os corpos ao chão, submissa e apavorada. O pajé escutou a voz coral da Pedra Que Soa e confirmou. Todos repetiam que a cuspida ruidava na mata inteira e poderia até quebrar o céu. Todos repetiram que o grito furaria de apenas se escutar. Criava dor. Doía por dentro em cada um dos bocados do corpo e haveria de fissurar os ossos, haveria de dividir as vísceras igualmente apavoradas e certamente escolhendo morrer. Cada víscera morrendo depois da outra até tudo ser morto e humilhado numa vergonha infinita de se haver falhado à encantaria. Os abaeté agarravam as cabeças em desespero e acreditariam jamais que alguém pudesse cuspir à Pedra Que Soa. Mutilar, ofender, agredir a encantaria ali aninhada em sua alegria. Acreditariam jamais. Foram ver. A sagrada morada cicatrizava o golpe rude bem diante dos olhos de todos. Estava indignada, silente subitamente, pela emoção inimiga do branco. Era uma emoção inimiga. Trazia a morte, tinha de ser guerreada. O pajé intuiu que os brancos eram apenas uma semelhança. Uma fera dotada de semelhança. Não eram alguém. Animais feios, os brancos faziam o horror. Não significavam maravilha alguma. Infectavam as ilhas abaeté, haveriam de coagular as águas dos abaeté. Eram sujos. Suas intenções eram primitivas, sem educação, bestiais, desconhecedoras da gentileza. Não eram verdadeiríssimos.
O pajé declarou o sem voo o pior grau da tristeza. A comunidade fez a tristeza. A comunidade enfureceu, misturou, e foi encontrar os brancos no areal, pedindo que seguissem em suas pirogas para a lonjura de onde haviam chegado. E os brancos, que eram em duas pirogas e apenas uns poucos, distraídos com suas bebidas más e alguns já emocionados, quiseram logo guerrear e tombaram vários, escapando metade, que navegou para dentro das águas daquele mesmo primeiro mar. Os abaeté debateram que os brancos chegavam em suas maldades. Eram inimigos, repetiam. E entoavam:
malditos. São malditos.
Foram amaldiçoados para que não houvesse esquecimento, e foram proibidas as suas palavras para que os espíritos puros do povo da mata não fossem capturados pelo inquinado de seus sons, pela força de seus deuses terríveis. Alguns tardios, por virtude maior e intuição, foram escolhidos para o risco de lembrar, avisados que estavam de servir a língua para entender o inimigo, caso acontecesse a necessidade de o espiar e saber de sua intenção. À Verdadeiríssima Divindade e aos ancestrais foi pedida a piedade de jamais regressar um branco às ilhas dos três mares. As súplicas foram feitas por muitas estações quentes e frias, até ser impossível acreditar que os brancos se haviam extinguido. Muitos passaram para guerrear. Muitos atacaram os abaeté e tantos abaeté tombaram na maldade branca. Seus nomes são entoados nos rituais para fortalecer suas mortes. Suas mortes trarão a fúria necessária para revidar. Os mil brancos do mundo inteiro, talvez mil dez vezes, tombariam um dia à justiça abaeté.
Estavam nas mãos do pajé os objectos antigos que os brancos ofertaram, aqueles poupados da fúria e do asco da comunidade. Como esse pouco de igarapé seco, sempre frio, parado sem movimento, onde os rostos se mostravam límpidos. Agora, Pai Todo o escondia para deter a prova e a ciência, mas poupando o povo ao horror. Ele explicava que, com aquilo, o branco encarcerou o espírito do igarapé, a sua liberdade, sua necessidade de correr para águas maiores. Quando se discutia aquele objecto, jamais voltado a ser mostrado, meio esquecido sob um alto de terra que o santo severamente proibia, a aldeia buscava águas livres em seus recipientes e as dispunham pela pele e pelo chão. A aldeia cantava e sorria às águas para desentristecê-las. Amavam as águas que lhes matavam a sede e banhavam os corpos, as que educavam os curumins e as curatãs, que sanavam mazelas, purificavam suas feridas, ajustavam aos corpos em cada detalhe sem resistência. Eram benignas. As águas limpas onde podiam mirar seus rostos eram benignas.
Por vezes, Pai Todo tomava o pouco de igarapé seco e o mergulhava no imenso primeiro mar para saber se lhe ressuscitara a vontade líquida. Julgava que, um dia, quando verdadeirissimamente fosse possível e tivesse vontade, o igarapé seco sairia de seu cárcere para desaguar, recuperando sua merecida alegria. Uma e outra vez, sem ninguém, Pai Todo levava o objecto com a esperança de o libertar como se libertaria uma ave que pudesse enfim voltar a voar.
O lamento do santo acontecia sobretudo por desesperançar numa redenção para o branco. Se houvesse o igarapé seco de voltar a molhar, talvez o espírito do branco pudesse educar para a gentileza. Uma e outra vez, sem ninguém, Pai Todo recolhia o objecto e o escondia no alto de terra, fazendo suas orações e suplicando a intuição. A Voz Coral nada lhe trazia. A comunidade seguia em perigo e sua dor não tinha como ser afastada.

*

Escutando novamente as histórias acerca do acontecimento dos brancos, Honra perguntava:
é verdade que as pirogas navegadas pelo animal branco são de dez tamanhos e fogueiam e fumegam no vazio interior. De que acende esse fogo sem acender da própria piroga. Poderá o branco acender o fogo sem arder.
Na sua cabeça ficava a dúvida de saber se esse fogo era a captura prometida do relâmpago.

Valter Hugo Mãe, in As doenças do Brasil

26/10/2023

Lamento Sertanejo

Soneto de fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes, in Antologia Poética

Alagados | Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, 1986


Um dos melhores grupos surgidos no rock brasileiro dos anos 1980, os Paralamas do Sucesso começaram a se diferenciar de seus contemporâneos graças a seu terceiro álbum, Selvagem?, de 1986, que tinha como faixa de abertura “Alagados”, uma crônica social de como vivia (e ainda vive) parte da população carente no Brasil. Assinada por Herbert Vianna (1961), Bi Ribeiro (1961) e João Barone (1962), esta música também funcionou como uma carta de intenções da nova fase do trio, depois de um início fortemente influenciado pelo rock-reggae do Police. A letra avançava além das questões existenciais adolescentes e urbanas de seu grande sucesso anterior, “Óculos”, e, musicalmente, promovia uma perfeita integração do rock com ritmos dançantes do Terceiro Mundo, onde muitos vivem misérias semelhantes.
No estúdio caseiro montado no apartamento da avó de Bi, começaram a preparar o repertório de Selvagem?, dispostos a se descolar da marcante influência do Police, adicionando ao seu reggae branco a pulsação do dub jamaicano, novos ritmos dançantes de Salvador e muito afropop contemporâneo.
A partir de levadas do baixo e riffs de guitarra, eles apostavam nos grooves, formatando cada composição antes de pensar nas letras, que tiveram que se integrar ao ritmo e ao clima musical. A inspiração para “Alagados” foi a memória de Herbert de seu breve período de estudante de Arquitetura na Ilha do Fundão, quando passava diariamente em frente à Favela da Maré, uma paisagem degradada semelhante à das palafitas de Alagados, em Salvador, ou da cidade jamaicana de Trenchtown, ambas citadas no refrão da música, gravada num dueto vocal com Gilberto Gil.
A temática social e a sonoridade diferenciada para os padrões da época deram um upgrade aos Paralamas, como a perfeita fusão do rock com ritmos brasileiros, africanos e caribenhos, que, na década seguinte, influenciaria o trabalho de grupos como Chico Science & Nação Zumbi, Mundo Livre SA, Skank e O Rappa.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

Calvin

Lúcio Cardoso

Lúcio, estou com saudade de você, corcel de fogo que você era, sem limite para o seu galope.
Saudade eu tenho sempre. Mas, saudade tristíssima, duas vezes.
A primeira quando você repentinamente adoeceu, em plena vida, você que era a vida. Não morreu da doença. Continuou vivendo, porém era homem que não escrevia mais, ele que até então escrevera por uma compulsão eterna gloriosa. E depois da doença, não falava mais, ele que já me dissera das coisas mais inspiradas que ouvidos humanos poderiam ouvir. E ficara com o lado direito todo paralisado. Mais tarde usou a mão esquerda para pintar: o poder criativo nele não cessara.
Mudo ou grunhindo, só os olhos se estrelavam, eles que sempre haviam faiscado de um brilho intenso, fascinante e um pouco diabólico.
De sua doença restaria também o sorriso: esse homem que sorria para aquilo que o matava. Foi homem de se arriscar e de pagar o alto preço do jogo. Passou a transportar para as telas, com a mão esquerda (que, no entanto, era incapaz de escrever, só de pintar) transparências e luzes e levezas que antes ele não parecia ter conhecido e ter sido iluminado por elas: tenho um quadro, de antes da doença, que é quase totalmente negro. A luz lhe viera depois das trevas da doença.
A segunda saudade foi já perto do fim.
Algumas pessoas amigas dele estavam na antessala de seu quarto no hospital e a maioria não se sentiu com força de sofrer ainda mais ao vê-lo imóvel, em estado de coma.
Entrei no quarto e vi o Cristo morto. Seu rosto estava esverdeado como um personagem de El Greco. Havia a Beleza em seus traços.
Antes, mudo, ele pelo menos me ouvia. E agora não ouviria nem que eu gritasse que ele fora a pessoa mais importante da minha vida durante a minha adolescência. Naquela época ele me ensinava como se conhecem as pessoas atrás das máscaras, ensinava o melhor modo de olhar a lua. Foi Lúcio que me transformou em “mineira”: ganhei diploma e conheço os maneirismos que amo nos mineiros.
Não fui ao velório, nem ao enterro, nem à missa porque havia dentro de mim silêncio demais. Naqueles dias eu estava só, não podia ver gente: eu vira a morte.
Estou me lembrando de coisas. Misturo tudo. Ora ouço ele me garantir que eu não tivesse medo do futuro porque eu era um ser com a chama da vida. Ele me ensinou o que é ter chama da vida. Ora vejo-nos alegres na rua comendo pipocas. Ora vejo-o encontrando-se comigo na ABBR, onde eu recuperava os movimentos de minha mão queimada e onde Lúcio, Pedro e Miriam Bloch chamavam-no à vida. Na ABBR caímos um nos braços do outro.
Lúcio e eu sempre nos admitimos: ele com sua vida misteriosa e secreta, eu com o que ele chamava de “vida apaixonante”. Em tantas coisas éramos tão fantásticos que, se não houvesse a impossibilidade, quem sabe teríamos nos casado.
Helena Cardoso, você que é uma escritora fina e que sabe pegar numa asa de borboleta sem quebrá-la, você que é irmã do Lúcio para todo o sempre, por que não escreve um livro sobre Lúcio? Você contaria de seus anseios e alegrias, de suas angústias profundas, de sua luta com Deus, de suas fugas para o humano, para os caminhos do Bem e do Mal. Você, Helena, sofreu com Lúcio e por isso mesmo mais o amou.
Enquanto escrevo levanto de vez em quando os olhos e contemplo a caixinha de música antiga que Lúcio me deu de presente: tocava como em cravo a Pour Élise. Tanto ouvi, que a mola partiu. A caixinha de música está muda? Não. Assim como Lúcio não está morto dentro de mim.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

Queridos estadunidenses


Queridos estadunidenses

Imagino-vos exaustos.
Tenho acompanhado as notícias. Vejo-vos atordoados, como pugilistas após um combate, cansados de defender a punho os vossos pensamentos e posicionamentos ideológicos, recolhidos no canto do ringue, com a cabeça a latejar da luta que dura desde o nascimento da América, pelos cálculos dos indígenas norte-americanos e dos descendentes dos povos escravizados. Vejo-vos à procura do norte, entre o ruído de uma multidão de espectadores entusiasmados e outros tantos agitadores profissionais que só vos conhecem dos filmes e livros. Vencedores? Diria que não existem, porque à medida que as posições se extremam, a questão que nos resta fazer é apenas uma: quem realmente sairá beneficiado desse arranca-rabo entre gringos?
“Win or bust.” Temos vindo a interiorizar o mantra dos vitoriosos. Aprendemos que, seja qual for a circunstância, não esperamos nada menos do que o aplicar do esforço máximo para atingir o objetivo declarado, tendo o fracasso total como única alternativa. Os empates são inadmissíveis: ninguém se lembra deles. Não se escrevem canções, a Netflix não compra os direitos nem se vendem jornais com empates. Na política, não é diferente. O empate dói mais do que a derrota porque, ao fim de um par de dias, este desaparecerá da memória coletiva sem pompa, sem direito a placa comemorativa ou página na Wikipedia alusiva ao dia em que o bom senso reinou entre rivais.
Para quem apostou o seu dinheiro ou o seu carácter, ficar a chuchar no dedo sem poder gritar vitória, imagino que seja no mínimo frustrante. Heróis e vilões, precisa-se deles. São úteis para alimentar dogmas e utopias políticas, mesmo que o herói não tenha vocação para tal e o vilão até ajude velhinhas a atravessar a rua. Ver-vos assim acossados mete dó. Devem estar a sentir saudades dos bons velhos tempos. Pena que a Guerra Fria tenha esfriado, que a Cortina de Ferro já não exista e que a Cuba comunista, sem Fidel, já não seja bem a mesma. Nós, as minorias étnicas que conhecemos bem o sabor amargo da derrota, podemos afirmar: há de passar.
Queridos, vos quero bem. Também me virou o estômago ver a bandeira da Confederação desfilar pelos corredores da casa da democracia. Naquele momento, soou dentro de mim a melodia acompanhada dos versos: “Dormia/ A nossa pátria-mãe tão distraída/ Sem perceber que era subtraída/ Em tenebrosas transações”. O samba-exaltação é de Chico Buarque, tão genial e tão merecedor de um Nobel quanto Dylan, por ter também criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição da canção (sul) americana. E falando em canções, por favor, ouçam mais brasileiros, só vos fará bem. Eles, tal como vocês, fazem delas verdadeiras teses poéticas para entendermos a condição humana. Se jazz e blues são a vossa praia, sejam aventureiros e procurem Chiquinha Gonzaga e Pixinguinha e lavem a alma no chorinho.
Lamento que não tenham resolvido, vocês que puseram o primeiro homem na Lua, essa coisa do racismo. Enquanto não o fizerem, outras nações se desculparão com a ladainha de sempre: nos Estados Unidos da América é pior. Como se existissem Olimpíadas do racismo e o ouro brilhasse sempre nos vossos pescoços. Salvo as menções honrosas para países como o Brasil e os do Leste Europeu, chega a ser poético olhar para a lista do Comité Olímpico: 1 — Estados Unidos, 1022 medalhas de ouro; 2 — Rússia, 395; 3 — Grã-Bretanha, 263; 4 — China, 227; 5 —França, 212.
Sabem, um comentário que proferi no passado e que me deixou na mira dos racistas de plantão que pululam nas redes sociais foi quando disse que todo homem negro, conscientemente ou não, à dada altura da vida, já odiou o homem branco: a sua cultura, a sua língua e o poder que exerce sobre nós, os negros. Já invejou — melhor, continua a invejar-lhe — o maior valor da humanidade, a liberdade de simplesmente existir. Desculpai trazer um assunto doloroso, mas não posso deixar de apontar que o ataque ao Capitólio foi um esfregar nas fuças de todos nós, homens, mulheres e queers que gritam “vidas negras importam”, esse tal de privilégio branco que os afetados por ele insistem em denunciar, mas todos os que dele se beneficiam insistem em negar — ou, ainda, os que sabem exatamente como o mundo funciona insistem em assobiar para o lado, como se não fosse com eles.
A violência perpetuada contra os corpos negros — nas mãos de civis, milícias, organizações racistas, grupos de extrema direita e até do próprio Estado — é a mesma violência que matou Abraham Lincoln e os dois Kennedy e subiu a colina do Capitólio e matou o agente Brian D. Sicknick. Essa raiva alimenta-se acima de tudo da indiferença cúmplice de pessoas do bem. Pagadores de impostos, devotos e amantes da lei e da ordem. Essa violência é também lucrativa, só assim podemos explicar que ainda se mantenha, agarrada ao inconsciente caucasiano onde a ideia de que a maldição divina aponta os africanos como descendentes de Caim, o primeiro homicida da história, é algo real. Eu, como fruto dessa árvore genealógica e solidário para com os irmãos e irmãs das diásporas americanas, rogo a Deus: livrai-nos dessa penitência.
Queridos estadunidenses, continuo a ter-vos afeto. Só isso explica as horas passadas colado ao ecrã a ver o repetir de imagens semelhantes às que me chegaram do norte de África há uma década, quando o jovem Mohamed Bouazizi, vendedor ambulante formado em engenharia, viu ser-lhe confiscado o ganha-pão pela polícia. Além de lhe quebrarem o espírito, exigindo o jabaculê da praxe, infligiram-lhe humilhações que culminaram na sua autoimolação. Um protesto trágico contra o desemprego e a pobreza na Tunísia que deu início à Revolução de Jasmim e derrubou o ditador Ben Ali. As imagens da insurreição na sede da democracia norte-americana me fizeram lembrar as da Primavera Árabe e de todas as outras revoluções e transformações políticas que direta ou indiretamente tiveram o dedo dos Estados Unidos. Mas o que é chocante é que vós, estadunidenses patriotas, não pedis o fim de ditaduras, mas para que seja instaurada uma no vosso país.
O que a insurreição em Washington expôs não foram só as vossas divisões políticas. Eu, filho da Guerra Fria nascido e criado em Benguela, pendurado nos galhos duma mangueira no meu quintal que me servia de camarote, vi, na conturbada década de 1980, o capitalismo derrotar o socialismo marxista. Eu vi, ninguém me contou. Começou nas matas, depois no mar de Cabinda, passou para cidades e de seguida para dentrodas casas de angolanos como eu. E, de repente, o dólar nos fez confiar no seu poder divino e as kinguilas viram as sacerdotisas da economia paralela em Angola. Por isso, mas não apenas por isso, como não nos sentirmos afetados? Quer se queira, quer não, até o centro do mundo se mudar para Pequim, o vosso Capitólio é um pouco nosso também.
A maior tragédia norte-americana é o negacionismo da sua própria história. Martin Luther King, chamado a comentar a morte de John F. Kennedy, afirmou: “O padrão imperdoável da nossa sociedade foi o fracasso em prender os assassinos [de líderes dos direitos civis assassinados]”. É um julgamento severo, mas inegavelmente verdadeiro, que a causa da indiferença foi a identidade das vítimas. Quase todos eram negros. E assim a praga se alastrou até reivindicar o mais eminente dos norte-americanos, um presidente muito amado e respeitado. A indiferença talvez seja o vosso maior pecado.
Queridos estadunidenses, não vos faltaram vozes que pregassem, dos dois lados do corredor, o que acontece quando não se denuncia e condena a supremacia branca. Ouçam-nas e que Deus vos abençoe, que Deus salve os Estados Unidos da América.

Kalaf Epalanga, in Minha pátria é a língua pretuguesa – Crônicas