28/01/2018

Ato de bravura

O tempo escapa e eu não esqueço o dia
Que em minha casa não havia ceia…
Lancheira seca, mesmo assim eu ia
À velha escola, quase doze e meia…

Chutando as pedras que na estrada havia,
Chegava lá com minha cara feia…
Bolsa de lápis quase que vazia,
Mas das pedrinhas que eu juntava… cheia!

Nas quintas-feiras, o Hino Nacional…
Canção do dia… E o dia principal,
Em que esquecendo a vil miséria e a fome,

Foi num momento puro e de inocência
Que eu por instinto de sobrevivência,
Tremendo as letras escrevi meu nome.
Manoel Cavalcante, poeta pauferrense

Tudo Outra Vez, por Paulo Neto

Um animal insignificante (trecho)

Há cerca de 13,5 bilhões de anos, a matéria, a energia, o tempo e o espaço surgiram naquilo que é conhecido como o Big Bang. A história dessas características fundamentais do nosso universo é denominada física.
Por volta de 300 mil anos após seu surgimento, a matéria e a energia começaram a se aglutinar em estruturas complexas, chamadas átomos, que então se combinaram em moléculas. A história dos átomos, das moléculas e de suas interações é denominada química.
Há cerca de 3,8 bilhões de anos, em um planeta chamado Terra, certas moléculas se combinaram para formar estruturas particularmente grandes e complexas chamadas organismos. A história dos organismos é denominada biologia.
Há cerca de 70 mil anos, os organismos pertencentes à espécie Homo sapiens começaram a formar estruturas ainda mais elaboradas chamadas culturas. O desenvolvimento subsequente dessas culturas humanas é denominado história.
Três importantes revoluções definiram o curso da história. A Revolução Cognitiva deu início à história, há cerca de 70 mil anos. A Revolução Agrícola a acelerou, por volta de 12 mil anos atrás. A Revolução Científica, que começou há apenas 500 anos, pode muito bem colocar um fim à história e dar início a algo completamente diferente. Este livro conta como essas três revoluções afetaram os seres humanos e os demais organismos.
Muito antes de haver história, já havia seres humanos. Animais bastante similares aos humanos modernos surgiram por volta de 2,5 milhões de anos atrás. Mas, por incontáveis gerações, eles não se destacaram da miríade de outros organismos com os quais partilhavam seu habitat.
Em um passeio pela África Oriental de 2 milhões de anos atrás, você poderia muito bem observar certas características humanas familiares: mães ansiosas acariciando seus bebês e bandos de crianças despreocupadas brincando na lama; jovens temperamentais rebelando-se contra as regras da sociedade e idosos cansados que só queriam ficar em paz; machos orgulhosos tentando impressionar as beldades locais e velhas matriarcas sábias que já tinham visto de tudo. Esses humanos arcaicos amavam, brincavam, formavam laços fortes de amizade e competiam por status e poder – mas os chimpanzés, os babuínos e os elefantes também. Não havia nada de especial nos humanos. Ninguém, muito menos eles próprios, tinha qualquer suspeita de que seus descendentes um dia viajariam à Lua, dividiriam o átomo, mapeariam o código genético e escreveriam livros de história. A coisa mais importante a saber acerca dos humanos pré-históricos é que eles eram animais insignificantes, cujo impacto sobre o ambiente não era maior que o de gorilas, vaga-lumes ou águas-vivas.
Os biólogos classificam os organismos em espécies. Consideram que os animais pertencem a uma mesma espécie se eles tendem a acasalar uns com os outros, gerando descendentes férteis. Cavalos e jumentos têm um ancestral recente em comum e partilham muitos traços físicos, mas demonstram pouco interesse sexual uns pelos outros. Acasalam entre si se forem induzidos a isso – entretanto seus descendentes, chamados mulas, são estéreis. Mutações no DNA dos jumentos podem nunca ter passado para os cavalos, e vice-versa. Os dois tipos de animais são consequentemente considerados duas espécies diferentes, trilhando caminhos evolucionários distintos. Já um buldogue e um spaniel podem ser muito diferentes em aparência, mas são membros da mesma espécie, partilhando a mesma informação de DNA. Acasalam entre si alegremente, e seus filhotes, ao crescer, cruzam com outros cachorros e geram mais filhotes.
As espécies que evoluíram de um mesmo ancestral são agrupadas em um “gênero”. Leões, tigres, leopardos e jaguares são espécies diferentes do gênero Panthera. Os biólogos nomeiam os organismos com um nome duplo latino, o gênero seguido da espécie. Os leões, por exemplo, são chamados Panthera leo, a espécie leo do gênero Panthera. Ao que tudo indica, todos os que estão lendo este livro são Homo sapiens – a espécie sapiens (sábia) do gênero Homo (homem).
Os gêneros, por sua vez, são agrupados em famílias, como a dos felídeos (leões, guepardos, gatos domésticos), a dos canídeos (lobos, raposas, chacais) e a dos elefantídeos (elefantes, mamutes, mastodontes). Todos os membros de uma família remontam a um mesmo patriarca ou matriarca original. Todos os gatos, por exemplo, dos menores gatos domésticos ao leão mais feroz, têm em comum um ancestral felídeo que viveu há cerca de 25 milhões de anos.
O Homo sapiens também pertence a uma família. Esse fato banal costumava ser um dos segredos mais bem guardados da história. Durante muito tempo, o Homo sapiens preferiu conceber a si mesmo como separado dos animais, um órfão destituído de família, carente de primos ou irmãos e, o que é mais importante, sem pai nem mãe. Mas isso simplesmente não é verdade. Gostemos ou não, somos membros de uma família grande e particularmente ruidosa chamada grandes primatas. Nossos parentes vivos mais próximos incluem os chimpanzés, os gorilas e os orangotangos. Os chimpanzés são os mais próximos. Há apenas 6 milhões de anos, uma mesma fêmea primata teve duas filhas. Uma delas se tornou a ancestral de todos os chimpanzés; a outra é nossa avó.
Yuval Noah Harari, in Sapiens: uma breve história da humanidade

Segredos

Não deixe que o mal o faça acreditar que você poderia guardar segredos diante dele.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

A origem


No futebol, como em quase tudo, os primeiros foram os chineses. Há cinco mil anos, os malabaristas chineses faziam dançar a bola com os pés, e foi na China que tempos depois se organizaram os primeiros jogos. A meta ficava no centro e os jogadores evitavam, sem usar as mãos, que a bola tocasse no chão. De dinastia em dinastia continuou o costume, como se vê em alguns relevos de monumentos anteriores a Cristo, e também em algumas gravuras posteriores, que mostram os chineses da dinastia Ming jogando com uma bola que parece da Adidas.
Sabe-se que em tempos antigos os egípcios e os japoneses se divertiam chutando a bola. No mármore de uma tumba grega de cinco séculos antes de Cristo, aparece um homem fazendo embaixadas com a bola no joelho. Nas comédias de Antífanes, há expressões reveladoras: bola longa, passe curto, bola adiantada... Dizem que o imperador Júlio César era bastante bom com as duas pernas, e que Nero não acertava uma: em todo caso, não há dúvida de que os romanos jogavam algo bastante parecido com o futebol enquanto Jesus e seus apóstolos morriam crucificados.
Pelos pés dos legionários romanos a novidade chegou às ilhas britânicas. Séculos depois, em 1314, o rei Eduardo II estampou seu selo numa cédula real que condenava este jogo plebeu e alvoroçador, “estas escaramuças ao redor de bolas de grande tamanho, de que resultam muitos males que Deus não permita”. O futebol, que já se chamava assim, deixava uma fileira de vítimas. Jogava-se em grandes grupos, e não havia limite de jogadores, nem de tempo, nem de nada. Um povoado inteiro chutava a bola contra outro povoado, empurrando-a com pontapés e murros até a meta, que então era uma longínqua roda de moinho. As partidas se estendiam ao longo de várias léguas, durante vários dias, à custa de várias vidas. Os reis proibiam estes lances sangrentos: em 1349, Eduardo III incluiu o futebol entre os jogos “estúpidos e de nenhuma utilidade”, e há éditos contra o futebol assinados por Henrique IV em 1410 e Henrique VI em 1547. Quanto mais o proibiam, mais se jogava, o que não fazia mais que confirmar o poder estimulante das proibições.
Em 1592, em sua Comédia dos erros, Shakespeare recorreu ao futebol para formular a queixa de um personagem:
– Rodo para vós de tal maneira... Tomais-me por uma bola de futebol? Vós me chutais para lá, e ele me chuta para cá. Se devo durar neste serviço, deveis forrar-me de couro.
E uns anos depois, em Rei Lear, o conde de Kent insultava assim:
– Tu, desprezível jogador de futebol!
Em Florença, o futebol se chama calcio, como se chama ainda em toda a Itália. Leonardo da Vinci era torcedor fervoroso, e Maquiavel jogador praticante. Participavam equipes de 27 homens, distribuídos em três linhas, que podiam usar mãos e pés para golpear a bola e para estripar adversários. Uma multidão assistia às partidas, que se celebravam nas praças mais amplas e sobre as águas congeladas do rio Arno. Longe de Florença, nos jardins do Vaticano, os papas Clemente VII, Leão IX e Urbano VIII costumavam arregaçar as batinas para jogar o calcio.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

Segundo dia dos viventes

Na segunda manhã, eu esperava que Izidine reacordasse. Aquele seria o seu segundo despertar naquela manhã. Já antes Marta o tinha feito saltar da cama. Trazia uma chávena de chá. O polícia bebeu-a de um trago, olhos embrulhados de sono. Entre ratos, baratas e pesadelos sobrava-lhe pouca cabeça. Marta riu-se de o ver assim e saiu para que ele repousasse um pouco mais. Logo a seguir, o polícia voltara a adormecer. Como tinha dormido mal naquela noite! Suspeitava de minha presença dentro dele? É muito de duvidar: sou menos que a névoa na teia de aranha.
Izidine voltou a acordar umas horas depois. Antes de sair ficou a olhar a roupa desarrumada sobre uma velha mesa. Será que a deixara assim tão espalhada? De repente, junto ao chapéu, viu a mesma casca que deitara fora na noite anterior. Levantou-se e recolheu-a. Guardou-a num dos bolsos do casaco. Depois, deu andamento a um plano que traçara previamente: descer à praia para calcorrear as grandes rochas, mesmo junto à rebentação. Tinha sido ali que encontraram o corpo.
A maré estava vazia e deixava a descoberto grandes porções de areia e rocha. Escutavam-se as gaivotas, suas tristes estridências. Não tardaria a ouvirem-se os chori--choris, esses passaritos que chamam pela maré cheia. O mar enche e vaza sob mando de aves. Ainda há pouco eram os tchó-tchó-tchós que ordenavam que as águas descessem. Engraçado como um ser gigante como o oceano presta obediências a tão ínfimas avezitas.
Existira, em tempos, um ancoradouro junto ao recife rochoso. Eu mesmo, Ermelindo Mucanga, carpinteirara nessa plataforma. A morte me interrompeu o serviço. A Independência parou o resto da obra. Depois, o mar se vingara naquele porto inacabado. Restavam pedras avulso. E troncos que teimavam ondear por ali.
Izidine ficou sentado na areia molhada. O barulho das ondas o ajudava a pensar. Parecia evidente que o crime tinha sido cometido por mais de uma pessoa. Eram necessários vários braços para transportar o corpo de um homem como Excelêncio. Ou, quem sabe, o crime poderia ter sido cometido ali mesmo, junto às rochas?
Olhou para a barreira e viu Marta. Ela o espreitava, seguindo-lhe as andanças. A enfermeira procedia como se suspeitasse de ocultas intenções. Naquela manhã, depois de entregar o chá, ela recusara acompanhar o polícia:
— Não quero atrapalhar. Já bem basta você mesmo para se atrapalhar...
— Desculpe, não entendi...
Marta se calou, arrependida. Rodou sobre si mesma, adiando a pedida explicação. Por fim, acedeu a falar, fingindo limpar uma poeira na camisa do inspetor.
— O que se encontra nesta vida não resulta de procurarmos.
No aviso dela, o polícia deveria simplesmente sentar-se e ficar quieto. Aquele não era o seu mundo, ele que respeitasse. Deixasse tudo quieto, mesmo silêncios e ausências. Izidine se atestava de dúvida. Na noite anterior, o velho-menino já o tinha poeirado o suficiente. Navaia Caetano lhe pedira que escutasse o mar. Porque, para além do marulhar, lhe haveriam de chegar gritos humanos.
— Gritos? — perguntou Izidine. — Gritos de quem?
— Dos falecidos — respondera Caetano.
E não mais disse. O polícia se intrigava. Porque, agora, Marta Gimo lhe solicitava quase o inverso.
— Ontem me pediram para ouvir. Você me pede o contrário.
— Pediram para ouvir o quê?
Repetiu o enigmático conselho de Navaia. O que queria ele dizer? Bem que Marta o poderia ajudar nesse esclarecimento. Mas ela sorriu, negando com a cabeça. A enfermeira se fazia de cara. Izidine voltou a pedir-lhe. Por fim, ela acedeu. O que o velho dissera foi que, sob o ruído da rebentação, se escondiam vozes de naufragados, pescadores afogados e mulheres suicidadas. De entre esses lamentos lhe haveriam de chegar os gritos do próprio Vasto Excelêncio. O polícia sorriu, desdenhoso. Marta lhe corrigiu o cepticismo:
— Está a ver a sua arrogância? Pois fique sabendo que, todas as manhãs, o morto grita o nome do assassino.
— Não posso crer.
— Todas as manhãs o morto clama juras de vingança.

Agora, sentado junto à rebentação das ondas, o inspector lembrava as palavras da enfermeira. E sorria. Quem sabe Marta tinha razão? Ele estudara na Europa, regressara a Moçambique anos depois da Independência. Esse afastamento limitava o seu conhecimento da cultura, das línguas, das pequenas coisas que figuram a alma de um povo. Em Moçambique ele ingressara logo em trabalho de gabinete. O seu quotidiano reduzia-se a uma pequena porção de Maputo. Pouco mais que isso. No campo, não passava de um estranho.
Levantou-se e sacudiu a areia. Havia uma certa raiva no seu gesto, como se quisesse sacudir não os grãos mas as suas próprias lembranças. Caminhou sobre as rochas. Até que encontrou uma espingarda. Nem sequer estava escondida. Parecia ter sido arrastada pelas ondas. Procurou nas cercanias. Havia restos de paus. Como se fossem pedaços de uma jangada. Uma embarcação ali? Se todos lhe tinham certificado que aquelas águas eram inavegáveis!? Lembrou as palavras do velho Navaia:
— O mar aqui carrega mais traição que ondas.
Na noite anterior, Navaia lhe contara uma história. Se passara, em tempos, quando um velho tentara fugir por mar. Improvisara uma jangada e se fizera à água. Mas as rochas e o mar, como que por magia, trocaram aparências. Aquilo que o fugitivo acreditava serem ondas, de repente, se solidificavam, empedernidas. E os penedos se dissolviam, liquefeitos. A embarcação se desamantelou. Sem desfecho ficou o velho que sonhara evadir-se.
Navaia tirava estória de sua imaginação? Houvesse ou não uma inventada história, o certo é que aquele mar não dava conselho para viagem. A história da jangada era, afinal, verdadeira? Seria aquele um resto material dessa frustrada fuga? A suspeita enrugou a testa do inspetor: alguma coisa lhe escondiam. Distraído, nem notou que a noite estava já caindo. Rapidou-se pelo caminho de regresso. Aquela noite, tinha marcado encontro com o velho português, Domingos Mourão. Esperou-o no pátio mas o outro se demorou. O polícia se sentou na amurada do forte sentindo, ao fundo, o rumor do oceano. De repente, acreditou ouvir reais vozes junto à praia.
— Esse barulho não são pessoas.
Era Marta que se chegava perto, vinda do escuro, embrulhada em capulana. Se aproximou, parando junto dele. Ficaram como sentinelas silenciosas, junto à fortaleza.
— Será o mar que faz esse ruído?
— O mar também não é. Esse barulho é a própria noite. Você, lá de onde vem, há muito que deixou de ouvir a noite.
Depois ela se sentou, cobrindo as pernas com a capulana. Começou, então, a entoar em surdina uma antiga canção de embalar. Izidine foi levado para longe, para fora do acontecível.
— Minha mãe me cantava essa mesma melodia.
Mas Marta já não estava ali. Ela se retirara, sombra vadia. O polícia ficou ainda um tempo, tentando decifrar os sons que chegavam da rebentação. Os olhos lhe começaram a pesar e acabou vencido pelo sono. Despertou, minutos depois. Uma mão lhe chamava à realidade. Era o velho português:
— Venha ver o mar daqui de cima!
Domingos Mourão se aprontava num banco de pedra, junto à árvore do frangipani. E assim, olhos postos no horizonte, lhe perguntou:
— O senhor me perdoe a indelicadeza. Será que nasceu perto do mar?
Izidine negou. O português disse que ouvira falar de uma terra longínqua em que os velhos se sentavam, de noite, ao longo da praia. Ficavam assim em silêncio. O mar vinha e escolhia quem ia levar.
— Quem sabe se, esta noite, sou eu o escolhido?
E o velho português fechou os olhos, se internando num silêncio demorado. Depois, falou.
Mia Couto, in A varanda do Frangipani

27/01/2018

Utopia

Utopia é um conceito desgastado por excesso de uso. Tenho uma espécie de ódio visceral delas [as utopias], especialmente da ideia infantil que as impulsiona. Eu gostaria que a vida fosse melhor do que é. Mas como? No Fórum Social de Porto Alegre, eu afirmei que a utopia é um engodo. Não podemos enganar as pessoas com essa ideia de “hoje não, mas amanhã sim”. A utopia só é válida se puder ser atingida amanhã, e não dentro de cinquenta anos. É preciso lutar por coisas concretas: justiça, bem-estar, felicidade… É isso o que importa. Já existem palavras demais, e algumas delas não dizem a verdade.
José Saramago, in As palavras de Saramago

The Square - Trailer

Elegia

Não te espantes da vontade
Do poeta
Em transmudar-se:
Quero e queria ser boi
Ser flor
Ser paisagem.
Sentir a brisa da tarde
Olhar os céus, ver às tardes
Meus irmãos, bezerros, hastes,
Amar o verde, pascer,
Nascer
Junto à terra
(À noite amar as estrelas)
Ter olhos claros, ausentes,
Sem o saber ser contente
De ser boi, ser flor, paisagem.
Não te espantes. E reserva
Teu sorriso para ops homens
Que a todo custo hão de ser
Oradores, eruditos,
Doutos doutores
Fronte e cerne endurecido.
Quero e queria ser boi
Antes de querer ser flor.
E na planície, no monte,
Movendo com igual compasso
A carcaça e os leves cascos
(Olhando além do horizonte)
Um pensamento eu teria:
Mais vale a mente vazia.

E sendo boi, sou ternura.
Aunque pueda parecer
Que del poeta
Es locura.
Hilda Hilst

Caetano Veloso - Mãe

Muito irritante

Os homens são irritantes. Mas involuntários. Nem têm consciência de quando incomodam e como incomodam, e ainda se sentem vítimas de ciladas femininas.
É precisamente não saber o que fizemos de errado o que irrita as mulheres. E elas pensam que estamos fingindo.
Mas não, não sabemos mesmo. Não é encenação.
É que repetimos as mesmas falhas e não aprendemos, e elas não entendem como não assimilamos a lição na primeira ou segunda tentativa; daí concluem que simulamos bobeira para passar bem, que a dúvida é uma fachada sonsa, uma falsidade ingênua, acobertando um poço de maldade viva e faminta.
Acompanhe meu raciocínio: não há sentido em pedir desculpa por aquilo que não registramos. Somos esquecidos, apenas isso. Totalmente amnésicos.
As mulheres deveriam nos agradecer pelos lapsos de memória. Imagina se tivéssemos consciência de nossas irritações para irritar as mulheres ainda mais. Seríamos pais de Maquiavel, avôs de Cardeal Mazarino, bisavôs de Barba Negra.
Olha só o que acontece comigo: apresso a minha mulher para sairmos, digo que ela depende de uma hora e apenas faltam quarenta minutos para o trabalho. Ela corre alucinada com o estojo de pintura, o secador, os cabides, eu permaneço lendo jornal. Ela atravessa os corredores com um monte de roupas, equilibrando o iogurte numa das mãos e a agenda noutra, eu permaneço lendo jornal. Vou gritando “Está pronta?” a cada mudança de editoria, como um cronômetro afetivo, para recordar-lhe que estou atento e demonstrar interesse. “Pronta?” a cada dez minutos, quatro vezes no total.
A voz chicoteia o tempo, o propósito é criar um delírio militar, afobado, estressante, para ajudá-la a se superar e merecer elogios ao final. Por evitar o atraso, o homem jura que receberá um emocionado agradecimento.
Quando ela se apronta, finalmente linda, maquiada, cabelos secos, cheirosa, após cumprir o impossível de quarenta minutos, exatos quarenta minutos!, fecho o jornal e aviso que vou tomar banho.
— Mas um banho rápido, tá? Para não nos atrasar?
Acelero minha esposa quando não estou vestido porque deduzo que sou rápido e ela lenta, sobrecarregada de miudezas e detalhes.
Cínthya bufa de raiva, bate o pé para não me enforcar com o próprio cinto de lantejoulas.
É que o homem sempre tem uma defesa mirabolante quando a vida pede uma resposta simples. Além de nossa esquisita mania de não acreditar no inconsciente.
Fabrício Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus

Horas abertas

As horas abertas são quatro: meio-dia, meia-noite, anoitecer e amanhecer. São as horas em que se morre, em que se piora, em que os feitiços agem fortemente, em que as pragas e as súplicas ganham expansões maiores. Horas sem defesa, liberdade para as forças malévolas, os entes ignorados pelo nosso entendimento e dedicados ao trabalho da destruição.
As aberturas do corpo não são as verdadeiras entradas para esses inimigos constantes e misteriosos, e sim outros pontos diversos que instintivamente resguardamos: os pulsos, o pavilhão auricular, o pescoço, entre os dedos, os jarretes, a fronte. Por isso é que as joias foram inventadas, ocultando no exterior ornamental a intenção secreta da custódia mágica. Colares, brincos, pulseiras, anéis, diademas, os enfeites para os cabelos, argolas para as pernas, tornozelos, são guardas vigilantes, repelindo as sucessivas ondas assaltantes que tentam por essas regiões, onde a pele dizem ser mais fina, permitindo a penetração insidiosa.
As horas abertas correspondem a essas vias de acesso ao corpo humano. São horas diversas de pressão e desequilíbrio atmosférico, predispondo os estados mórbidos às modificações letais.
Em 1944, na residência de Batista Pereira, na Gávea, o Prof. Anes Dias, da Faculdade de Medicina, perguntou-me quais eram, para o povo, as chamadas horas abertas. Ouvido a exposição, enumerou os elementos da meteorologia médica suscetíveis de haver motivado a tradição. Lembrei que certos remédios, notadamente os purgativos, jamais são ingeridos fora de um horário rigoroso, evitando as horas abertas, ameaçadoras. Jaime Cortesão, presente, recordou a mesma crença em Portugal, possuindo os seres fabulosos e apavorantes que aparecem, invariavelmente, nessas horas sinistras.
Foram clássicos os vocábulos, em trezentos anos de uso, ligados à superstição, aramá, eramá, ieramá, muitieramá, significando em hora má. Na ambivalência natural, meia-noite e meio-dia prestam-se às rogativas benéficas, mas constituem exceção. As orações e pragas nessas horas são apelos violentos, irresistíveis, obrigando a obediência divina.
Comum e popularmente, a hora má é a hora aberta.
Luís da Câmara Cascudo, in Coisas que o povo diz

26/01/2018

Sem tangência

A morte é lúgubre lorde: a ambígua. De repente, como sempre, um homem faleceu. Diziam-no mau. Entre tudo, porém, o cemitério prosseguia de decisivo quietar quem sabe o sítio mais amigo da cidade. O enterro do homem, não conhecido, ensinou-o ao forasteiro. Podia-se procurar passeio, o desexílio, em seu reduzido espaço, dos que perderam para sempre o endereço. Na dita cidade, muito longe, árdua do todo-o-dia, fatal, fabricada, enfadonha. Ali, o mar era o cemitério.
A gente perdia a abusão de estar-se em lugar danoso, de quebrantos ou assombro e apegava-se à paz, no descritivo, a paisagem especializada. A erva, consequente, permeio às tumbas, a grama urbana; um estapaflorir; zumbidos; às vezes borboletas. Sob luz reta, no ponto do meio-dia, a lousa quente. Tarde ainda mais limpa; a que não traz sombras. As casuarinas e seus instantes de vento. Queixava-se o coveiro de dores nas costas, do custo da vida; seu ajudante, descalço, fumava cigarros caros. De primeiro, temia-se a terra, aquela, havida por maléfica: limpavam-se do pó os sapatos. Mas, melhor pudesse qualquer um — no chamado campo-santo — defender sua loucura das dos outros. Dos mais outros, também, talvez. Quem morre, morreu mesmo? A morte é maior que a lógica. E, quando menos quando, vinha a moça. Viera, vários dias, trazia longas flores. Nem parecia ver ninguém ou ouvir, encerrada em costumeiro pesar. Deixava-a o vestido preto mais esvelta que as outras, da cidade; mais rara. Devia ser filha do homem falecido.
Nunca o avistara o forasteiro. Achava porém de apreender-lhe os traços nas feições da moça, a rude maldade de que o reputavam, desabrangendo sua matéria. Dele, contava-se: que mais perversos tendo sido o pai e o avô — do sujo e errado outrora. Nenhuma vida tem resumo: a tarda crosta da vida, com seu trecheio de ilusões. A gente vê só o cinzento, mas têm-se de adivinhar o branco e o preto.
O homem falecido, seu recente sepulcro, seria num dos extremos, aonde parava a moça, dali o recinto prolongando-se em emaranhado de bosque. Até onde não se devia ir, enquanto, seguida apenas a distância, por lá ela permanecesse, decerto atinadamente, lúcida lagrimada. Além, teria sido o cemitério primeiro, sua outra grande porta oculta. A antiga.
Às vezes, ela tardava em vir. Andava-se, a léu de labirinto, no quiescer de ante vazias permanências — dos de ide-vós-sós; faz-se que contra querubins em cavernas gritantes. As vozes humanas é que inventaram o silêncio. É possível um não-mais-futuro? Vive-se, e ri-se. O gênio ainda não germinou bem em nós, distraídos e fracos. Mas, na necrópole, uma mudez se move, algo que ultrapassava a mudez; pesam-se as espécies imperceptíveis, visões intermutáveis. Por maneira que as aceitávamos. Mais perto do mundo. Algo havia; pairava. — “Refuja o denso viver, pela levez da morte...” — disseram-me: voz indefinida, a minha talvez. Sim, a moça era quase prevista surpresa. Um dia, haverá sábios. E, que nos vem da vida, enfim? — com o continuitar do ar, do chão e do relógio. A morte: o inenarrável rapto.
E ela. Demorou o rosto, deu seu ser a perceber. Perto que perto. Era boa. Era bela. Amor... — palavra que sobrou de frases. Amor, o que lhe radiava da figura, na fala das fadas. Demasiado grande, que amedrontava.
Sua lembrança, ideia clara. A marca da imagem. Inafastável, como persistia, de negro vestida, a obstinada presença, nessa entreparagem, na vagação, nas horas temporárias. Adiara o forasteiro de ir à sepultura do homem falecido. Da moça, não se viam ali sinais, nenhumas flores. Murchas, em volta, apenas coroas. A arruda-dos-muros. A lápide — cais tão calmo. Só uns passarinhos em piqueniques. Mortas, só as folhas; e o sol enviava mais calor. Sim, com esquisitinho sem-sossego, os pássaros algo explicam. E o coveiro, espião. — “Ele é seu parente?” Os olhos das pessoas já são coisas de fantasmas. A meu não, ele riu. Tinha pensado; porque com o defunto em mim notara parecença. Estaria tonto, o coveiro, toupeireiro operador. — “Era homem mau?” — indaguei. — “Era homem justo. Bom, mas vagaroso.” E avancei: — “E a moça?” Teve ele forte espanto. — “Pois, não é sua conhecida? Não vem com o senhor?” — a desajuizar-me. Neutra, a relva, esparramaz, alegre no entreabrirfechar florinhas, se não há nenhum nunca. O vento, devolvedor de palavras. O homem, que falecera, não podia. Depois da vida, o que há, é mais vida... — disse-me: o que minha mais funda memória me telegrafou. Retomava o trabalho o coveiro, dolorento, sabedor de ofício. Já como fósseis os ossos que ele transplantava, naquele bom lugar universo.
Ela não voltaria mais... — pensei, subciente. O rapaz ajudante passava, ao ombro suas ferramentas. — “Acho que é uma mesma que vinha, noutra ocasião...” — e ele tinha as petulâncias da vida. — “Vinha escolher a própria cova...” — ignorava a especulação poética, o mistério esperançoso. Se o falecido se parecia comigo? — “Todos parecem com todos.” Inegadamente. — “Homem bom, no geral...” — ele queria gratificação. Nunca mais? Um enterro chegava, entrava. Será... — doía, o despropositivo, a hipótese mais eficaz. Não. Só era o de um morto. Nunca mais.
Se a gente podia dali sair, a atento horizonte, pela porta primitiva, olvidado vislumbráculo? Não, o coveiro intransigiu, ria-se do desmotivo daquilo. Enferrujara, montões de terra entupindo o trato, o mato rijo, espessos de urtigas, roseiras bravas. Mas, informou: que não havia segredo, a moça era filha de um Seo Visneto, tinha vindo, nove dias, cumprir promessa de rezar e pôr flores, no cruzeirinho das Almas... — “Pois, senhor...” Não mais. Ainda não. Devia em seguida partir, o forasteiro, deixar a fácil, fatigadora, fingida cidade. Apanhou uma pedrinha, colocou-a no túmulo do homem falecido. A liberdade é absurda. A gente sempre sabe que podia ter sabido.
Guimarães Rosa, in Ave, palavra

Calvin e Haroldo


Pessoas inquietas

“Aqui tens o que posso dizer-te constantemente, a matéria que poderei estar sempre a debater, pois ambos vemos à nossa roda milhares de pessoas inquietas que, a fim de obterem algo de altamente nocivo, andam com perseverança a praticar o mal, sempre à procura de coisas que logo a seguir deixam de lhes interessar, ou mesmo as enchem de repulsa! Já viste alguém contentar-se com uma coisa que, antes de a obter, lhe parecia mais que suficiente? A felicidade, ao contrário da opinião corrente, não é ambiciosa, mas sim modesta, e por isso mesmo nunca sacia ninguém. Tu pensas que aquilo que satisfaz o vulgo é elevado porque ainda estás longe da perfeição estoica; para quem a alcançou, tudo isso é absolutamente rasteiro! Minto: para quem começou a subir até esse nível, pois o ponto que tu pensas ser já o mais alto não passa de um degrau. Toda a gente é infelizmente confundida pela ignorância da verdade. Enganada pela opinião vulgar, procura como se fossem bens certas coisas que, depois de muito penar para as conseguir, verifica serem nocivas, inúteis ou inferiores ao que esperava. A maior parte das pessoas sente admiração por coisas que só ao fim de algum tempo se revelam ilusórias; e assim é que o vulgo toma por bom o que apenas parece grande.”
Sêneca, in Cartas a Lucílio

Quadro na parede


— Esse quadro está torto desde o começo do mundo e ninguém se lembra de consertar sua posição — observou o sr. Borges, levantando a cabeça, entre o primeiro e o segundo goles do café da manhã.
— Há pessoas realmente exageradas — ponderou a sra. Borges, enquanto passava geleia no brioche. — Esse quadro está assim apenas há uma semana.
— Uma semana parece tempo suficiente para alguém corrigir a posição de um quadro na parede — retrucou o sr. Borges, sorvendo mais um gole e desdobrando o jornal.
— Admitindo-se que assim seja, embora a colocação de um objeto de arte exija muitas experiências e tempo indeterminado de observação e crítica, até que seja atingido o resultado ideal, presume-se que a pessoa não satisfeita com a posição de um quadro…
A sra. Borges fez uma pausa para levar aos lábios a fatia de brioche, mastigá-la e engoli-la, concluindo placidamente:
— … Tome a iniciativa de modificá-la para melhor.
Ao que o sr. Borges emitiu este juízo:
— A presunção envolve problema de competência — e olhou para um ponto indefinido no espaço. — Seria conveniente indagar, de início, a quem, no âmbito de uma residência, compete cuidar da boa arrumação das coisas.
A sra. Borges considerou com minuciosa atenção a colherzinha de prata colocada entre os seus dedos polegar e médio, como se ambicionasse descobrir nela uma propriedade oculta, e, ao cabo de minuto e meio, manifestou-se:
— Não existe código especificando os diferentes casos e situações em que determinada pessoa deva fazer isto ou aquilo. Além do mais, os conceitos estabelecidos lucrariam em ser revistos à luz da razão.
A página política passou a interessar tão acentuadamente o sr. Borges que ele levou tempo para dizer:
— De qualquer maneira, um quadro torto na parede é um quadro torto na parede.
Dos abismos da sua prospecção, a sra. Borges emergiu trazendo à tona uma restritiva:
— Um quadro torto na parede nem sempre é um quadro realmente torto na parede.
Como o sr. Borges, engolfado na leitura, não obtemperasse, a sra. Borges houve por bem desenvolver o seu ponto de vista:
— O quadro torto na parede pode estar mais certo do que o quadro convencionalmente certo na parede.
O sr. Borges não deu sinal de aceitar a tese da sra. Borges nem de repeli-la, e a explanação de sua esposa prosseguiu:
— Há muitas maneiras de ver um quadro, como também há muitas maneiras de colocá-lo, inclusive, e tem acontecido em museus, de cabeça para baixo, com rendimento óptico.
O sr. Borges virou a página, pigarreou e sentenciou:
— Nem todas as pessoas gostam de plantar bananeira para contemplar normalmente uma obra de arte.
O café da manhã parecia ter duração imprevisível, tão vagarosos eram os gestos e repetidas as pausas do sr. Borges e da sra. Borges. Ouviu-se, afinal, a sra. Borges:
— A colocação de um quadro não está subordinada às linhas geométricas previstas pelo pintor, podendo variar com a sensibilidade visual de quem o desfruta.
O argumento não pareceu impressionar o sr. Borges, a julgar pelo que saiu do seu interior:
— Nesse caso, os bens desfrutados em comum se sujeitariam a variações simultâneas e inconciliáveis, pela diversidade de gostos.
— Há gostos mais apurados e outros menos apurados — foi o comentário da sra. Borges.
— Indiscutivelmente, o quadro está torto, o que não é questão de gosto, mas questão de fato — e o sr. Borges alçou ligeiramente a voz. — E não há computadores para avaliação do gosto.
— Desde que ele ficou assim, ganhou um novo sentido — disse a sra. Borges, fixando o olhar, embevecidamente, no quadro em questão. — Foi a arrumadeira que o colocou nessa posição, e o efeito benéfico logo se fez sentir. Os volumes se equilibraram melhor, a composição ganhou mais força, o quadro comunica mais.
— As arrumadeiras tornaram-se peritas em belas-artes e deve ser-lhes confiada a direção dos museus, ao que parece — foi a glosa do sr. Borges. — Bom proveito a quem lhes seguir a orientação estética.
— Euclides, você está me ofendendo — irritou-se a sra. Borges.
— Você já me ofendera antes — contra-atacou o sr. Borges.
— Esta situação é intolerável, e eu exijo que você me peça desculpas — soluçou a sra. Borges.
— Não será melhor, Zuleica, entrarmos amanhã com a petição de desquite? — detonou o sr. Borges.
Carlos Drummond de Andrade, in 70 historinhas

D. José não era

Vinde todos, ajuntai-vos, povos indignos de ser amados. (Sofonias, II, 1)
Uma explosão violenta sacudiu a cidade. Seguiram-se outras — menores e maiores. Desnorteado, o povo corria de um lado para o outro. Alguém que se conservara calmo no meio de tanta desordem gritou:
— Não é o fim do mundo!
Eliminada a pior hipótese, surgiram novas conjeturas:
— Para um bombardeio, faltavam os aviões.
— Exercícios de artilharia?
— Muito provável — apoiaram alguns, apressados em explicar o mistério.
— E os canhões? — indagaram os mais lúcidos.
Houve quem falasse de uma invasão misteriosa, para em seguida concordarem todos: d. José estava matando a esposa a dinamite.
Os populares hesitaram em aproximar-se do prédio. Após curto silêncio, vários estampidos foram ouvidos. Um vagabundo, que ainda não se emocionara com os acontecimentos, comentou:
— Será que a dinamite foi insuficiente e ele recorreu ao revólver?
Tornaram-se pálidos os rostos e, ansiosos, aguardaram o final do drama.

1. Tragédia?
Não. D. José estava experimentando fogos de artifício.
Ninguém quis confessar o desapontamento nem o gasto inútil de imaginação que, naquela meia hora de terror, fora exagerado nos espectadores.
— Não a matou desta vez, mas ela não escapará de outra. Seu ódio por dona Sofia é incontrolável.

2. D. José odiava alguém?
Calúnia! Amava a mulher, os pássaros e as árvores. Ela, sim, detestava-o, irritava-se com os animais.
Infelicidade conjugal? Nunca! Os esposos combinavam admiravelmente bem.
Mas, entre os habitantes do lugar, não havia quem acreditasse nisso:
— Ela finge amá-lo somente pelo seu dinheiro.
Estúpidos! D. José era o homem mais pobre da cidade e tinha uma úlcera no estômago.

3. À mais leve contestação, contrapunham-se novas acusações:
— E os meninos, que choram noite adentro, famintos, espancados?
Falso! D. José perdera os filhos (cinco), vítimas da tuberculose. Agora recordava-se deles manipulando um aparelho que imitava o pranto infantil. E comovia muito mais que qualquer choro de criança.

4. D. José falava sempre de um livro que estava escrevendo. Um livro sobre duendes.
Era um fabulista?
Não. Os duendes habitavam a sua própria casa, ao alcance de seus olhos.
Seria a mulher um deles?

5. Um dia encontraram-no enforcado. Disseram imediatamente:
— É só fingimento. O nó está pouco apertado.
— Vejam que cara matreira! Está zombando de nós.
Infâmia! D. José suicidara-se mesmo.
Por quê?
Todo o mundo fingiu não saber.

6. Aos que lhe tomaram a defesa, anos após a sua morte, perguntavam:
— Afinal, o que fazia esse d. José? Se não fumava, não bebia, não tinha amantes?
— Amava o povo.
— E o povo?
— Observava-o com ferocidade.

7. Mais tarde erigiram-lhe uma estátua. Com um dístico: “D. José, nobre espanhol e benfeitor da cidade”.
Derradeira mentira. D. José era um pobre-diabo e não possuía nenhum título de nobreza. Chamava-se Danilo José Rodrigues.
Murilo Rubião, in Obra completa