28/08/2016

Escrever a verdade

“São cinco as dificuldades para escrever a verdade: a coragem de dizê-la; a inteligência de reconhecê-la; a arte de torná-la manejável como uma arma; bastante bom senso para escolher aqueles em cujas mãos a verdade se faça eficaz; e a necessária habilidade para divulgá-la amplamente.”
Bertolt Brecht

O sonhador atado, em sua solidão, na obra de Dostoiévski

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Em Noites Brancas, obra de Dostoiévski que se permite ser chamada de romântica, o personagem principal, o Sonhador, desfaz-se das costuras que o amarram ao isolamento e, ao trilhar pela cidade, resolve viver uma realidade no mundo externo, apaixonando-se. E o tempo que dura pode, ao menos, satisfazer suas melhores recordações.
Depois de anos devaneando por Crime e castigo, Os irmãos Karamazov, Recordações da casa dos mortos, O jogador, O Idiota, tendo sido todas essas obras esgotadas em falatório e adoração, já era tempo de voltar à aurora do brilhante Fiódor Dostoiévski e buscar algo mais concreto, porém inusitado: a novela Noites Brancas.
Diante de fortes pitadas de romantismo, é possível descortinar todas as páginas (ou as quatro noites) de uma só tacada, sem intervalos para se aprumar na poltrona, tomar um café ou se incomodar com a tragédia existencial e os extremismos em palavras do personagem principal. Pelo menos, não é durante a narrativa que o desconforto povoa a leitura.
O leitor sequioso por novidades pode até presumir que se trata de um romance. Pode entender a cidade em que se desenrola a história como personagem principal. Pode superar os excessos das confissões e justificativas contidas nos diálogos e estabelecer o amor e a devoção amorosa (ah, o amor) como tema central. Entretanto é inevitável enxergar que a solidão de cada um, clamada ou sonegada, é o que guia a memória do narrador, do começo ao fim.
Intitula-se de o Sonhador o protagonista. Seu nome, de fato, é desconsiderado em todo o romance. Ele vive sua rotina de trabalho sem questionamentos, deixando para viver a vida ao final do dia, quando aparece a noite branca, expressão essa que faz referência ao fenômeno climático das noites do início do verão, em que o sol não se põe, permanecendo abaixo da linha do horizonte e, portanto, não anoitece. Isso gera um atmosfera quase delirante em que a escuridão dá lugar a um manto diáfano, mas suficientemente claro, para que os arredores sejam consumidos por ele.
É nesse momento que ele traz alma e sentido à cidade em que mora (São Petersburgo) e a tudo que o rodeia, como, por exemplo, as casas em seu caminho, que ganham vida, diálogos entre si e um certo tom de resignação. E julga, dessa forma, conhecer melhor aqueles com quem esbarra ou cruzam os seus passos, ficando sempre num quase sorriso, num quase cumprimento, numa quase troca de palavras, a um fio de estabelecer alguma relação com alguém de carne e osso, voz, toque e desafio. O Sonhador cria, então, intimidades mentais com a cidade e com os moradores, sendo ele mesmo uma sombra pouco notada ou lembrada, já que mantém seu habitat unicamente dentro de si mesmo. “(...) como se todos tivessem me esquecido, como se eu fosse, de fato, um estranho para eles!” E são, justamente, essa mesmice e o gosto pelo conhecido que trazem a segurança de não sair do lugar, mesmo quando muitos já estão partindo.
Porém, Dostoiévski traz o amor, a paixão repentina vivida intensamente por meio da linguagem, do escambo de palavras e entendimento mútuo (ao menos no pensamento fantasioso e enclausurado do personagem central) em quatro noites. Ela, Nástienka, menina ingênua, armada de sonhos, já que tem sua liberdade tolhida, passa os dias atada à saia da avó, tendo ainda como companheira uma criada surda. E ele, o Sonhador, segue igualmente atado a sua solidão sem costura. E tudo o que os aproximam são lágrimas e alguns gritos, suficientes para dar início a longos instantes de conversas, banhadas pela claridade das horas e iluminadas pela brancura da noite.
Leia a matéria completa na obvious acessando aqui.

27/08/2016

Disquisição na Insônia

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Dom Quixote e Sancho Pança (1956), de Cândido Portinari 

Que é loucura: ser cavaleiro andante
ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?
O que, mesmo vendado,
vê o real e segue o sonho
de um doido pelas bruxas embruxado?
Eis-me, talvez, o único maluco,
e me sabendo tal, sem grão de siso,
sou – que doideira – um louco de juízo.
Carlos Drummond de Andrade

O jargão

Sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos, onde a única linguagem técnica que você precisa saber e “a que horas servem o bufê?”. Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjoo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes da equipagem.
Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:
- Recolher a traquineta!
- Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.
(O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África, faz a volta nas Malvinas e nos ataca a bombordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive, no primário.)
- Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua.
- Cuidado com a sanfona de Abelardo!
(A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parruda em certas condições atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo.)
- Cruzar a spínola! Domar a espátula! Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e dois quartos de trela, senão afundamos e o capitão é o primeiro a pular!
- Cortar o cabo de Eustaquio!
Sempre imaginei que poderia escrever uma coluna de economia usando um jargão falso assim, com pseudônimo. Não sei quanto tempo duraria até eu ser descoberto e desmascarado, mas acho que não seria pouco. Não estou dizendo que quem escreve sobre economia não sabe o que está escrevendo, ou se aproveita da ignorância generalizada para enganar.
Estou dizendo que a análise econômica é uma arte tão imprecisa que, mesmo desconfiando do embuste, a maioria hesitaria antes de denunciá-lo. Quem garantiria que o meu enfoque diferente - minha defesa de um overspread corretivo sobre a base de pagamentos, por exemplo - não era uma novidade que merecia estudo, já que ninguém parece mesmo saber o que é o certo?
Luís Fernando Veríssimo, in Comédias para se ler na escola

Plutão Já Foi Planeta - Você Não É Mais Planeta (Som Sem Plugs)

Dupla moral

“A humanidade tem dupla moral: uma que prega mas não pratica, outra que pratica mas não prega.”
Bertrand Russell

Mude

No passado, o normal era que um jovem escolhesse uma carreira e permanecesse nela até morrer, ainda que ela não lhe desse felicidade, tal como acontecia também com os casamentos. Para sempre, até que a morte os separe. Uma coisa boa dos tempos em que vivemos, a despeito de todas as suas confusões, é que as pessoas descobriram que é possível mudar a direção do voo. Nada as obriga a voar sempre na mesma direção até o fim. Eu mudei minhas direções várias vezes e não me arrependo. Meu amigo Jether era um próspero dentista na cidade do Rio de Janeiro. Estava ficando rico. Riqueza dá segurança. Segurança dá tranquilidade à família. Mas, enquanto ele olhava para o mundo delimitado pelos dentes dos seus clientes, a sua alma voava por outros mundos! E foi assim que, num belo dia, ele resolveu voar. Chegou em casa e comunicou à esposa Lucília: “Meu bem, vou vender o consultório”. E assim, com mais de quarenta anos, voltou para a estaca zero e foi se preparar para o vestibular... E ele seguiu um caminho feliz! Está com 82 anos, tem cara de sessenta, disposição de quarenta e leveza de criança! Cada profissão delimita um mundo: há o mundo dos advogados, dos dentistas, dos engenheiros, dos professores, dos médicos, dos músicos, dos artistas, dos palhaços, do teatro. O jovem estudante do filme Sociedade dos poetas mortos sonhava em ser artista de teatro. Mas seu pai havia mirado seu arco para a medicina... Dezoito ou dezenove anos é muito cedo para definir o que se vai fazer pelo resto da vida. Esse é um tempo de procuras, indefinições, sonhos confusos. É normal que, ao meio do curso universitário, o jovem descubra que tomou o trem errado e se disponha a saltar na próxima estação. É angústia para os pais. Claro, porque o que eles mais desejam é ver o filho formado, empregado, ganhando dinheiro. Isso lhes daria liberdade para viver e permissão para morrer... Mas não seria terrível para ele – ou ela – se, só para não “perder tempo”, “só para não voltar ao início”, continuasse até o fim? Se não quero ir para as montanhas, se quero ir para a praia, por que continuar a dirigir o carro pela estrada que vai para as montanhas? Pais, não fiquem angustiados. Sua angústia é inútil. E nem fiquem com a ilusão de que o diploma dará emprego ao filho. Não dará. Assim, é melhor ir devagar, seguindo a direção que o coração manda. O difícil, para os pais, será se o filho, no último ano de direito, lhes comunicar: “Descobri que não gosto de direito. Vou estudar para ser palhaço!”. Aí posso imaginar o embaraço do pai e da mãe quando, em meio a uma reunião social, quando se fala sobre os filhos, alguém lhes dirija a palavra e diga: “Meu filho está no Itamarati. Vai ser diplomata. E o seu?”. Resposta: “O nosso está no circo. Vai ser palhaço...”. Cá entre nós: não sei qual profissão dá mais felicidade, se a de diplomata ou se a de palhaço…
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

26/08/2016

Emprestar: eis a questão

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“Os livros são amigos perfeitos. Mas há uma coisa que eles não podem suportar: é serem emprestados. Ficam, então, tão contrariados que não retornam jamais.”
Robert de Flers

Você se lembra de Miguel Páramo?

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Durante a janta tomou seu chocolate como fazia todas as noites. Sentia-se tranquilo.
— Escuta, Anita. Sabe quem foi enterrado hoje?
— Não, tio.
— Você se lembra de Miguel Páramo?
— Lembro, tio.
— Pois ele.
Ana baixou a cabeça.
— Tem certeza que foi ele, não é?
— Certeza, não, tio. Não vi a cara. Ele me agarrou de noite e na escuridão.
— Então como é que soube que era Miguel Páramo?
— Porque ele me disse: “Sou eu, Miguel Páramo, Ana. Não se assuste.” Foi o que ele me disse.
— Mas você sabia que ele foi o autor da morte do seu pai, não sabia?
— Sabia, tio.
— E então, o que fez para afastá-lo?
— Não fiz nada.
Os dois guardaram silêncio durante alguns instantes. Ouvia-se a brisa morna entre as folhas da goiabeira.
— Ele disse que estava ali justamente para isso: me pedir desculpas, e para saber se eu o perdoaria. Sem me mexer da cama, fui logo avisando: “A janela está aberta.” E ele entrou. Chegou me abraçando, como se essa fosse a forma de se desculpar pelo que tinha feito. E eu sorri para ele. Pensei naquilo que o senhor tinha me ensinado: que não se deve odiar ninguém nunca. Sorri ao dizer isso para ele; mas depois achei que não conseguiu ver meu sorriso, porque eu não via ele, de tão negra que a noite estava. Só deu para sentir que ele estava em cima de mim e que começava a fazer maldades comigo.
“Achei que ia me matar. Foi isso que eu achei, tio. E até deixei de pensar, só para morrer antes que ele me matasse. Mas com certeza ele não se atreveu.
“Entendi isso quando abri os olhos e vi a luz da manhã que entrava pela janela aberta. Antes daquela hora, tinha sentido que havia deixado de existir.
— Mas você deve ter alguma certeza. A voz. Não deu para reconhecer a voz?
— Eu não conhecia ele de jeito nenhum, de voz e de nada. Só sabia que tinha matado meu pai. Nunca tinha visto e depois não cheguei a ver. Não tinha como, tio.
— Mas você sabia quem ele era.
— Sim. E que coisa ele era. Sei até que agorinha mesmo ele deve estar nas profundas do inferno; porque foi isso que eu pedi a todos os santos, e com todo o meu fervor.
— Não acredite tanto, filha. Vai saber quanta gente está rezando por ele neste momento! Você está sozinha. Uma prece contra milhares de preces. E, entre essas preces, algumas muito mais profundas do que a sua, como deve ser a do pai dele.
Ia dizer a ela: “E além do mais, eu dei a ele a absolvição.” Mas só pensou. Não quis maltratar a alma meio quebrada daquela moça. Em vez disso tomou-a pelo braço e disse:
— Vamos dar graças a Deus Nosso Senhor porque o levou desta terra onde causou tanto mal, e não importa que agora o tenha em seu céu.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

Ana Terra - Yamandu Costa

Do ‘Endymion’

O que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Alguma forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam, e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem dos céus e alenta a nossa vida.
John Keats

Coração da gente

Redisse a Diadorim o que eu tinha surripiado: que o projeto de Medeiro Vaz só era o de conduzir a gente para o Liso do Sussuarão ― a dentro, adiante, até ao fim. ― E certo é. E certo ― Diadorim respondeu, me afrontando com a surpresa de que ele já sabia daquilo e a mim não tinha antecipado nem miúda palavra. E veja! eu vinha tanto tempo me relutando, contra o querer gostar de Diadorim mais do que, a claro, de um amigo se pertence gostar; e, agora aquela hora, eu não apurava vergonha de se me entender um ciúme amargoso. Sendo sabendo que Medeiro Vaz depunha em Diadorim uma confiança muito maior do que em nós outros todos, de formas que com ele externava os assuntos. Essa diferença de regra agora me turvava? Mas Medeiro Vaz era homem de outras idades, andava por este mundo com mão leal, não variava nunca, não fraquejava. Eu sabia que ele, a bem dizer, só guardava memória de um amigo! Joca Ramiro. Joca Ramiro tinha sido a admiração grave da vida dele! Deus no Céu e Joca Ramiro na outra banda do Rio. Tudo o justo. Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente ― o escuro, escuros.
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

25/08/2016

Virtude

“A virtude não provém da riqueza, mas sim que a virtude que traz a riqueza ou qualquer coisa útil aos homens, quer na vida pública, quer na vida privada.”
Sócrates

Street Art, de Alice Pasquini, em Madri, Espanha


O homem: um ser inconstante

“As veneráveis formigas começaram com um formigueiro e terminarão também, provavelmente, com um formigueiro, o que muito honra sua constância e sua natureza positiva. Mas o homem é um ser inconstante e pouco honesto e, talvez, à semelhança do jogador de xadrez, goste apenas do processo de procurar atingir um objetivo, e não do objetivo em si. E quem sabe? Não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo a que o homem se dirige na Terra se resuma a esse processo constante de buscar conquistar ou, em outras palavras, à própria vida, e não ao objetivo exatamente, o qual, evidentemente, não deve passar de dois e dois são quatro, ou seja, uma fórmula, e dois e dois são quatro já não é vida, senhores, mas o começo da morte.”
Dostoievski, in Notas do subsolo

Pedro, meu filho...

Como eu nunca lutei para deixar-te nada além do amanhã indispensável: um quintal de terra verde onde corra, quem sabe, um córrego pensativo; e nessa terra, um teto simples onde possas ocultar a terrível herança que te deixou teu pai apaixonado - a insensatez de um coração constantemente apaixonado.
E porque te fiz com o meu sêmen homem entre os homens, e te quisera para sempre escravo do dever de zelar por esse alqueire, não porque seja meu, mas porque foi plantado com os frutos da minha mais dolorosa poesia.
Da mesma forma que eu, muitas noite, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua.
E porque vivemos tanto tempo juntos e tanto tempo separados, e o que o convívio criou nunca a ausência pôde destruir.
Assim como eu creio em ti porque nasceste do amor e cresceste no âmago de mim como uma árvore dentro de outra, e te alimentaste de minhas vísceras, e ao te fazeres homem rompeste meu alburno e estiraste os braços para um futuro em que acreditei acima de tudo.
E sendo que reconheço nos teus pés os pés do menino que eu fui um dia, em frente ao mar; e na aspereza de tuas plantas as grandes pedras que grimpei e os altos troncos que subi; em tuas palmas as queimaduras do Infinito que procurei como um louco tocar.
Porque tua barba vem da minha barba, e o teu sexo do meu sexo, e há em ti a semente da morte criada por minha vida.
E minha vida, mais que ser um templo, é uma caverna interminável, em cujo recesso esconde-se um tesouro que me foi legado por meu pai, mas cujo esconderijo eu nunca encontrei, e cuja descoberta ora te peço.
Como as amplas estradas da mocidade se transformaram nestas estreitas veredas da madureza, e o Sol que se põe atrás de mim alonga a minha sombra como uma seta em direção ao tenebroso Norte.
E a Morte me espera em algum lugar oculta, e eu não quero ter medo de ir ao seu inesperado encontro.
Por isso que eu chorei tantas lágrimas para que não precisasse chorar, sem saber que criava um mar de pranto em cujos vórtices te haverias também de perder.
E amordacei minha boca para que não gritasses e ceguei meus olhos para que não visses; e quanto mais amordaçado, mais gritavas; e quanto mais cego, mais vias.
Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei.
E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar:
Assim é o canto que te quero cantar, Pedro meu filho…
Vinicius de Moraes, in Para viver um grande amor

24/08/2016

A vida não é uma obra teatral

A vida, digamos, propõe-nos coisas. Por vezes, sentimo-nos em condições de aceitar a proposta e lançamo-nos a um trabalho. Outras vezes, não. A vida não é uma obra teatral. Numa obra teatral tudo está posto no seu lugar. Cada elemento tem a sua função. A articulação dos elementos todos, para conduzir a efeitos dramáticos, está muito bem pensada. A vida não pensa. Nós vivemos no caos. O que se passa é que vivemos num espaço limitado dentro de outro espaço que escapa à nossa capacidade de apreensão.
José Saramago, in As palavras de Saramago

Soneto

Coitado! Que em um tempo choro e rio;
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
Confio de uma causa e desconfio;

Voo sem asas; estou cego e guio;
Alcanço menos no que mais mereço;
Então falo melhor, quando emudeço;
Sem ter contradição sempre porfio;

Possível se me faz todo o impossível;
Intento, com mudar-me, estar-me quedo;
Usar de liberdade e ser cativo;

Queria visto ser, ser invisível;
Ver-me desenredado, amando o enredo;
Tais os extremos são com que hoje vivo!
Luís Vaz de Camões

Spok Frevo Orquestra - As três modalidades do Frevo

Frase misteriosa, sonho estranho

Às vezes me vêm frases complexas, resultado retardado de pensamentos anteriores. São misteriosas essas frases porque, ao virem, não se ligam mais a nenhuma fonte. Por exemplo, a frase seguinte chegou-me e poderia ter sido dita por tantas pessoas infelizes: “Eu queria te dar pão para a tua fome mas tu querias ouro. No entanto tua fome é grande como a tua alma que apequenaste à altura do outro.” Por que estas palavras que não vivi eu própria? A única hipótese, por causa da palavra ouro, vem do sonho que uma leitora teve a meu respeito. Ela o escreveu para mim. A leitora assina-se Azalea, que depois se tornou uma grande amiga. E me escreveu: “Não se impressione, nem se assuste. A interpretação é a melhor possível. Sonhei com uma espécie de canteiro imenso, com a terra toda revolvida para os lados. Junto a este canteiro, abaixadas, ajoelhadas, muitas pessoas.
Todas desconhecidas para mim, que, de perto, olhavam a cena. Umas, nem eu poderia saber se as conhecia ou não, tão enterrados estavam os rostos no trabalho de revolver e revirar a terra.
Procuravam ouro, Clarice. E achavam. Porque, à frente de cada uma delas se avolumava, cada vez mais, um monte brilhante que não podia deixar de ser ouro.
“No meio daquela gente, alucinada, cavando também, uma pessoa de cara muito conhecida minha: Clarice Lispector, a escritora – a que para mim, sempre foi, desde o tempo de classe de literatura do clássico, a melhor escritora de nossa língua. O rosto era tão familiar que era visto por mim como se ali estivesse alguém de minha família. Então, com ansiedade igual à sua, passei a acompanhar o seu trabalho de cavar ouro.
“Ao contrário dos outros, à sua frente, havia um monte imundo de terra. Ouro, não. Os outros cavavam e, felizes, separavam o metal brilhante, aumentando sempre mais os montes. Você, não. Cada vez que, desesperada, enterrava suas mãos na terra remexida, dali retirava punhados de cabelos, escuros, sujos, horríveis. E olhava para trás, com desespero, à minha procura, mostrava o resultado de sua busca.
“E novamente se entregava àquela louca, desesperada escavação. Seus olhares e seus gestos, mostrando-me as mãos sem ouro – nem cabelos dourados você tirava -, tudo isso me chegava como um apelo para que a ajudasse. Então, eu me dirigi até você. Toquei no seu ombro. Pedi-lhe que saísse dali. Aquilo não era para você. Esquisito porque em todos os momentos eu me sentia aflita, desesperada e doente, como se eu fosse a própria Clarice Lispector. Você me atendeu.
Levantou-se e se dispôs a me acompanhar. De costas já para o grupo que continuava, sofregamente cavando, saí levando-a pela mão. Senti, então, que você relutava ainda. E olhava para trás. Pesarosa de se afastar dali, como se lá estivesse guardada a sua última esperança. Caminhamos um pouco, mãos dadas, sem falar. Você chorava muito, e de vez em quando se desprendia de mim e fitava longamente suas duas mãos vazias. Uma ao lado da outra. E soluçava: vazias, Azalea! Eu as retomava, com medo que você voltasse para aquele trabalho de loucos. Foi aí, então, que surgiu à nossa frente o homem. Todo em ouro, mas era vivo pois andava e sorria bondoso, amigo.
Conhecido seu. Meu, não. Você gritou o nome e correu para ele. Abraçados, muito unidos, eu já não distinguia quem era de ouro, você ou ele. Ambos brilhavam e uma claridade, uma luz intensa tomou conta de tudo. Acordei chorando muito. Contei o sonho aos meus, na mesa do café. Era domingo. Meu cunhado disse: ‘Olhe, Clarice Lispector deve estar hoje no Jornal do Brasil, vou lá fora comprar um para você.’ Daí já comecei com esta vontade de lhe falar. Escrevendo, pelo telefone, de algum modo eu queria lhe falar. Meu cunhado voltou e disse: ‘Ela escreve aos sábados.’ Esperei até o próximo sábado, o seu jornal fez com que Clarice entrasse, nesta manhã de sol e de friozinho bom de abril, aqui em casa.” Azalea não ficou apenas na carta. Enviou-me, com a carta, um rapaz novo, puro, límpido: era Domenico, com rosas brancas de trepadeira para mim. Essas rosas são muito misteriosas: quanto mais passa o tempo e elas envelhecem, mais perfumadas ficam. Telefonei para Azalea contando e ela disse que essas rosas são assim mesmo e vai me dar de presente uma muda da planta para eu pôr no meu terraço, perto das grades, para elas poderem subir e perfumar a minha vida. (Agora, por falar em perfume, senti tanta saudade, que fui para o meu quarto e passei Scandal de Lanvin pelos meus cabelos. E, como tenho cabelos claros, imaginei que tinham ficado de ouro, como no sonho de Azalea.)
Fiquei impressionada com o sonho e só sei que ele é simbólico. Perguntarei a um feiticeiro amigo meu – psicanalista – que interpretação dar ao ouro, e também a minha frase sobre ouro e pão. E eis que cheia de alegria lembrei-me de que pão tem a riqueza do trigo.
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo