18/01/2014

C'est la vie

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Não-violência

“A não-violência e a covardia não têm nada a ver uma com a outra. Acredito que um homem armado dos pés à cabeça seja um covarde no seu coração. A posse de armas pressupõe um fator de medo, para não dizer de covardia. Mas a verdadeira não-violência é impossível sem a posse de uma autêntica ausência de medo. (...) A não-violência nunca deveria ser utilizada como escudo da covardia. É uma arma destinada aos valentes.”
Gandhi

Comunhão perfeita

“Com duas pessoas eu já entrei em comunicação tão forte que deixei de existir, sendo. Como explicar? Olhávamo-nos nos olhos e não dizíamos nada, e eu era a outra pessoa e a outra pessoa era eu. É tão difícil falar, é tão difícil dizer coisas que não podem ser ditas, é tão silencioso. Como traduzir o profundo silêncio do encontro entre duas almas? E dificílimo contar: nós estávamos nos olhando fixamente, e assim ficamos por uns instantes. Éramos um só ser. Esses momentos são o meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isso de: estado agudo de felicidade. Estou terrivelmente lúcida e parece que estou atingindo um plano mais alto de humanidade. Foram os momentos mais altos que jamais tive.”
Clarice Lispector, in Crônicas no Jornal do Brasil (1971)

Maria Bethânia e Gilberto Gil - Lamento Sertanejo / Viramundo

17/01/2014

Tio Galileu

A pobre mãe deu Betinho àquele homem: agradasse ao tio Galileu, com os dias contados, podia ser o herdeiro.
Depois de partir lenha, puxar água do poço, limpar o poleiro do papagaio, o menino enxugava a louça para a cozinheira. Toda noite, Betinho subia a escada, para levar o urinol e tomar a bênção ao tio Galileu. Batia na porta: Entre, meu filho, O rapaz beijava a mão — branca, mole e úmida mãe-d’água. No domingo recebia a menor moeda, que o padrinho catava entre os nós do lenço xadrez.
Tio Galileu raramente saía e, ao tirar o paletó, exibia duas rodelas de suor na camisa. Arrastava o pé, bufando, sempre a mão no peito. Afagava o papagaio, que sacudia o pescoço e eriçava a penugem: Piolhinho... piolhinho... Subindo a escada, dedos crispados no corrimão, isolava-se no quarto. O assobio através da porta: alegria de contar o dinheiro?
Fechava a porta e conduzia a chave. Diante dele era feita a limpeza, pelo rapaz ou pela negra, nunca por Mercedes. Sentado na cama, coçando eterno pozinho na perna, vigiava. E não assobiava com alguém no quarto. Instalado na cama que, essa, ele mesmo arrumava, sem permitir que virassem o colchão de palha.
Mercedes fazia compras, perfumada e de sombrinha azul. O homem discutia com ela, que o arruinava, por sua culpa sofria de angina.
Domingo, a negra de folga, Betinho preparava o café para Mercedes. Abria a porta, esperava acomodar-se à penumbra do quarto e, ao pousar a bandeja, sentia entre os lençóis a fragrância de maçã madura guardada na gaveta.
Uma noite Mercedes surgiu no quarto de Betinho. Já deitado, luz apagada. Sentou-se ao pé da cama, casara com tio Galileu por ser velho, a anunciar que morria de uma hora para outra. Mentira, para iludir a pessoa e servir-se dela. Não sofria do coração, nem sabia o que era coração, a esconder mais dinheiro entre a palha. Ao crepitar o colchão lá no quarto o avarento remexia no tesouro.
Um bruto, que a esquecia, dormindo em quarto separado, com medo fosse roubá-lo. Ó diabo, ela o xingou, pesteado como o papagaio louco, que a bicara ali no dedinho. O rapaz inclinou-se para beijar a unha de sangue. Mercedes ergueu-se e jurou que, se o monstro morresse, daria a Betinho o que lhe pedisse.
O rapaz não pôde dormir. Meia hora depois, saltou a janela. Agarrou no poleiro o papagaio, cabeça escondida na asa — os piolhos corriam pelo bico de ponta quebrada. Torceu o pescoço do bicho e o enterrou no quintal.
Dia seguinte o homem buscou a papagaio, a assobiar debaixo de cada árvore. Betinho sugeriu que a ave fugira. Foi colocar o vaso sob a cama e, ao tomar a bênção ao padrinho, o piolho correu de sua mão para a do velho — um dos piolhos vermelhos da peste.
Mercedes voltou ao seu quarto. Reclinada na cadeira, amarrava e desamarrava o cinto. Noite quente, queixou-se do calor, abriu o quimono: inteirinha nua.
— Vá — disse a mulher. — Vá, meu bem. Primeiro o papagaio. Agora o velho.
Betinho ficou de pé. Tremia tanto, ela o amparou até a porta:
— Vá, meu amor. A vez do velho.
Hora de pedir a bênção. Betinho subiu a escada. Aos passos no corredor o avarento, entre a bulha do colchão, perguntava quem era. Aquela noite nada falou. Betinho abriu a porta, avançou lentamente a cabeça. Tio Galileu deitara-se vestido, o saquinho de fumo espalhado no colete de veludo. O último cigarro, sem poder enrolar a palha com os dedos imóveis... Olho arregalado, a boca negra não abençoou Betinho. Fazia-se de morto, nunca mais fingiria.
Tio Galileu não gritou. Nem mesmo fechou o olho, mais fácil que o papagaio. Betinho afogou debaixo do travesseiro a boca arreganhada.
Os pés descalços de Mercedes desciam a escada. Ele ergueu o colchão, rasgou o pano, revolveu a palha: nada. Deteve-se à escuta: os passos perdidos da mulher. Avisá-la que o velho os enganara.
Era tarde, abria a janela aos gritos:
— Ladrão. Assassino! Socorro...
Dalton Trevisan, in Novelas nada exemplares

Os maiores gênios da história da tecnologia

Neste momento, ao ler esta matéria, é bem possível que o leitor esteja utilizando ao menos um dos inventos concebidos por um dos homens a seguir. A maioria deles foi responsável por criar produtos e tecnologias usadas até hoje no mundo todo como o iPod, o iPhone, o iPad, a World Wide Web, por exemplo. Alguns deles são aclamados como verdadeiros gênios como é o caso do fundador da Apple, Steve Jobs. Outros, como o padre brasileiro Landell de Moura não tiveram a mesma sorte e nem sempre foram reconhecidos em vida como verdadeiros pioneiros da ciência.
Enfim, conheça a seguir um pouco sobre a vida e a carreira de alguns dos maiores nomes da ciência e tecnologia.


Alan Turing - O britânico Alan Turing é conhecido como o "pai da computação" ou "pai da informática". Sua contribuição para a ciência é ampla e vai desde a inteligência artificial até a criptografia, passando pela matemática e química. No entanto, Turing foi perseguido por ser homossexual (o que era crime no Reino Unido nos anos 50). Para não ser preso foi obrigado a passar por um processo de castração química. Acabou morrendo acidentalmente pela ingestão de cianeto pouco antes de completar 42 anos. Apenas em 2009 o governo britânico pediu desculpas pelo tratamento injusto dado a um de seus maiores gênios.


Tim Berners-Lee - Pode ser considerado o "pai da internet". Em 1989 propôs a criação da World Wide Web. Já no ano seguinte foi responsável por realizar a primeira comunicação bem-sucedida entre um cliente e o servidor através da rede mundial de computadores. Berners-Lee contou com a ajuda do cientista belga Robert Cailliau, do CERN. Hoje é um dos responsáveis por estabelecer os padrões usados na rede mundial de computadores.


William Henry Gates III ou, simplesmente, Bill Gates fundou a Microsoft em 1975 ao lado de Paul Allen e ajudou a desenvolver o Windows, um dos sistemas operacionais mais usados no mundo todo. Um dos pioneiros da história da computação pessoal, o empresário já foi considerado o homem mais rico do mundo por 4 vezes. Deixou o comando da Microsoft em 2008 e hoje se dedica à filantropia, mas há rumores de que possa voltar ao comando da empresa.
Matéria completa aqui.

Convencer: ridículo


"Não tem nada mais ridículo do que uma pessoa tentando convencer outra. Trabalhei com persuasão minha vida toda, a persuasão é o maior câncer do comportamento humano. Ninguém nunca devia ser convencido de nada. As pessoas sabem o que querem e sabem do que precisam. (...) Persuadir uma pessoa a não seguir o coração é obsceno, a persuasão é uma coisa obscena, a gente sabe do que precisa e ninguém pode nos aconselhar."
Daniel Galera, in Barba ensopada de sangue

16/01/2014

Canção do Tamoio


I
Não chores, meu filho;
 Não chores, que a vida
É luta renhida; 
Viver é lutar. 
A vida é combate
Que os fracos abate, 
Que os fortes, os bravos, 
Só pode exaltar. 

II
Um dia vivemos! 
O homem que é forte 
Não teme da morte; 
Só teme fugir; 
No arco que entesa
Tem certa uma presa 
Quer seja Tapuia, 
Condor ou Tapir.

III
O forte, o covarde 
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz; 
E os tímidos velhos
Nos graves conselhos, 
Curvadas as frontes, 
Escutam-lhe a voz!

IV
Domina, se vive; 
Se morre, descansa, 
Dos seus na lembrança, 
Na voz do porvir. 
Não cures da vida! 
Sê bravo, sê forte! 
Não fujas da morte, 
Que a morte há de vir! 

V
E pois que és meu filho. 
Meus brios reveste: 
Tamoio Nasceste, 
valente serás. 
Sê duro guerreiro, 
Robusto, fragueiro, 
Brasão dos Tamoios 
Na guerra e na paz. 

VI
Teu grito de guerra 
Retumba aos ouvidos
D'inimigos transidos 
Por vil comoção; 
E tremam d'ouví-lo 
Pior que o sibilo 
Das setas ligeiras, 
Pior que o trovão. 

VII
E a mãe nessas tabas
Querendo calados 
Os filhos criados
Na lei do terror; 
Teu nome lhes diga
Que a gente inimiga 
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor! 

VIII
Porém se a fortuna
Traindo teus passos, 
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz, 
Na última hora
Teus feitos memora
Tranquilo nos gestos,
Impávido, audaz. 

IX
E cai como o tronco
Do raio tocado, 
Partido, rojado
Por larga extensão; 
Assim morre o forte! 
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.

X
As armas ensaia,
Penetra na vida; 
Pesada ou querida, 
Viver é lutar. 
Se o duro combate 
Os fracos abate, 
Aos fortes, aos bravos
Só pode exaltar. 
Gonçalves Dias

Eu desestruturo a linguagem?


“Veio me dizer que eu desestruturo a linguagem. Eu desestruturo a linguagem? Vejamos: eu estou bem sentado num lugar. Vem uma palavra e tira o lugar de debaixo de mim. Tira o lugar em que eu estava sentado. Eu não fazia nada para que a palavra me desalojasse daquele lugar. E eu nem atrapalhava a passagem de ninguém. Ao retirar de debaixo de mim o lugar, eu desaprumei. Ali só havia um grilo com a sua flauta de couro. O grilo feridava o silêncio. Os moradores do lugar se queixavam do grilo. Veio uma palavra e retirou o grilo da flauta. Agora eu pergunto: quem desestruturou a linguagem? Fui eu ou foram as palavras? E o lugar que retiraram de debaixo de mim? Não era para terem retirado a mim de lugar? Foram as palavras pois que desestruturam a linguagem. E não eu.” 
Manoel de Barros, in Ensaios fotográficos

Ninguém


O bonde abre a viagem, 
No banco ninguém, 
Estou só, stou sem.
Depois sobe um homem, 
No banco sentou, 
Companheiro vou. 
O bonde está cheio, 
De novo porém
Não sou mais ninguém. 
Mário de Andrade

O menino e o velho

Quando entrei no pequeno restaurante da praia os dois já estavam sentados, o velho e o menino. Manhã de um azul flamante. Fiquei olhando o mar que não via há algum tempo e era o mesmo mar de antes, um mar que se repetia e era irrepetível. Misterioso e sem mistério nas ondas estourando naquelas espumas flutuantes (bom-dia, Castro Alves!) tão efêmeras e eternas, nascendo e morrendo ali na areia. O garçom, um simpático alemão corado, me reconheceu logo. Franz?, eu perguntei e ele fez uma continência, baixou a bandeja e deixou na minha frente o copo de chope. Pedi um sanduíche. Pão preto?, ele lembrou e foi em seguida até a mesa do velho que pediu outra garrafa de água de Vichy.
Fixei o olhar na mesa ocupada pelos dois, agora o velho dizia alguma coisa que fez o menino rir, um avô com o neto. E não era um avô com o neto, tão nítidas as tais diferenças de classe no contraste entre o homem vestido com simplicidade mas num estilo rebuscado e o menino encardido, um moleque de alguma escola pobre, a mochila de livros toda esbagaçada no espaldar da cadeira. Deixei baixar a espuma do chope mas não olhava o copo, com o olhar suplente (sem direção e direcionado) olhava o menino que mostrava ao velho as pontas dos dedos sujas de tinta, treze, catorze anos? O velho espigado alisou a cabeleira branca em desordem (o vento) e mergulhou a ponta do guardanapo de papel no copo d'água. Passou o guardanapo para o menino que limpou impaciente as pontas dos dedos e logo desistiu da limpeza porque o suntuoso sorvete coroado de creme e pedaços de frutas cristalizadas já estava derretendo na taça. Mergulhou a colher no sorvete. A boca pequena tinha o lábio superior curto deixando aparecer os dois dentes da frente mais salientes do que os outros e com isso a expressão adquiria uma graça meio zombeteira. Os olhos oblíquos sorriam acompanhando a boca mas o anguloso rostinho guardava a palidez da fome. O velho apertava os olhos para ver melhor e seu olhar era demorado enquanto ia acendendo o cachimbo com gestos vagarosos, compondo todo um ritual de elegância. Deixou o cachimbo no canto da boca e consertou o colarinho da camisa branca que aparecia sob o decote do suéter verde-claro, devia estar sentindo calor mas não tirou o suéter, apenas desabotoou o colarinho. Na aparência, tudo normal: ainda com os resíduos da antiga beleza o avô foi buscar o neto na saída da escola e agora faziam um lanche, gazeteavam? Mas o avô não era o avô. Achei-o parecido com o artista inglês que vi num filme, um velho assim esguio e bem cuidado, fumando o seu cachimbo. Não era um filme de terror mas o cenário noturno tinha qualquer coisa de sinistro com seu castelo descabelado. A lareira acesa. As tapeçarias. E a longa escada com os retratos dos antepassados subindo (ou descendo) aqueles degraus que rangiam sob o gasto tapete vermelho.
Cortei pelo meio o sanduíche grande demais e polvilhei o pão com sal. Não estava olhando mas percebia que os dois agora conversavam em voz baixa, a taça de sorvete esvaziada, o cachimbo apagado e a voz apagada do velho no mesmo tom caviloso dos carunchos cavando (roque-roque) as suas galerias. Acabei de esvaziar o copo e chamei o Franz. Quando passei pela mesa os dois ainda conversavam em voz baixa - foi impressão minha ou o velho evitou o meu olhar? O menino do labiozinho curto (as pontas dos dedos ainda sujas de tinta) olhou-me com essa vaga curiosidade que têm as crianças diante dos adultos, esboçou um sorriso e concentrou-se de novo no velho. O garçom alemão acompanhou-me afável até a porta, o restaurante ainda estava vazio. Quase me lembrei agora, eu disse. Do nome do artista, esse senhor é muito parecido com o artista de um filme que vi na televisão. Franz sacudiu a cabeça com ar grave: Homem muito bom! Cheguei a dizer que não gostava dele ou só pensei em dizer? Atravessei a avenida e fui ao calçadão para ficar junto do mar.
Voltei ao restaurante com um amigo (duas ou três semanas depois) e na mesma mesa, o velho e o menino. Entardecia. Ao cruzar com ambos, bastou um rápido olhar para ver a transformação do menino com sua nova roupa e novo corte de cabelo. Comia com voracidade (as mãos limpas) um prato de batatas fritas. E o velho com sua cara atenta e terna, o cachimbo, a garrafa de água e um prato de massa ainda intocado. Vestia um blazer preto e malha de seda branca, gola alta.
Puxei a cadeira para assim ficar de costas para os dois, entretida com a conversa sobre cinema, o meu amigo era cineasta. Quando saímos a mesa já estava desocupada. Vi a nova mochila (lona verde-garrafa, alças de couro) dependurada na cadeira. Ele esqueceu, eu disse e apontei a mochila para o Franz que passou por mim afobado, o restaurante encheu de repente. Na porta, enquanto me despedia do meu amigo, vi o menino chegar correndo para pegar a mochila. Reconheceu-me e justificou-se (os olhos oblíquos riam mais do que a boca), Droga! Acho que não esqueço a cabeça porque está grudada.
Pressenti o velho esperando um pouco adiante no meio da calçada e tomei a direção oposta. O mar e o céu formavam agora uma única mancha azul-escura na luz turva que ia dissolvendo os contornos. Quase noite. Fui andando e pensando no filme inglês com os grandes candelabros e um certo palor vindo das telas dos retratos ao longo da escadaria. Na cabeceira da mesa, o velho de chambre de cetim escuro com o perfil esfumaçado. Nítido, o menino e sua metamorfose mas persistindo a palidez. E a graça do olhar que ria com o labiozinho curto.
No fim do ano, ao passar pelo pequeno restaurante resolvi entrar mas antes olhei através da janela, não queria encontrar o velho e o menino, não me apetecia vê-los, era isso, questão de apetite. A mesa estava com um casal de jovens. Entrei e Franz veio todo contente, estranhou a minha ausência (sempre estranhava) e indicou-me a única mesa desocupada. Hora do almoço. Colocou na minha frente um copo de chope, o cardápio aberto e de repente fechou-se sua cara num sobressalto. Inclinou-se, a voz quase sussurrante, os olhos arregalados. Ficou passando e repassando o guardanapo no mármore limpo da mesa, A senhora se lembra? Aquele senhor com o menino que ficava ali adiante, disse e indicou com a cabeça a mesa agora ocupada pelos jovens. Ich! foi uma coisa horrível! Tão horrível, aquele menininho, lembra? Pois ele enforcou o pobre do velho com uma cordinha de náilon, roubou o que pôde e deu no pé! Um homem tão bom! Foi encontrado pelo motorista na segunda-feira e o crime foi no sábado. Estava nu, o corpo todo judiado e a cordinha no pescoço, a senhora não viu no jornal?! Ele morava num apartamento aqui perto, a policia veio perguntar mas o que a gente sabe? A gente não sabe de nada! O pior é que não vão pegar o garoto, ich! Ele é igual a esses bichinhos que a gente vê na areia e que logo afundam e ninguém encontra mais. Nem com escavadeira a gente não encontra não. Já vou, já vou!, ele avisou em voz alta, acenando com o guardanapo para a mesa perto da porta e que chamava fazendo tilintar os talheres. Ninguém mais tem paciência, já vou!...
Olhei para fora. Enquadrado pela janela, o mar pesado, cor de chumbo, rugia rancoroso. Fui examinando o cardápio, não, nem peixe nem carne. Uma salada. Fiquei olhando a espuma branca do chope ir baixando no copo.
Lygia Fagundes Telles, in Invenção e memória

15/01/2014

9 Luas - Marcelo Jeneci



Mais um dia no milênio
Mais um medo que eu tenho
E que eu quero apenas dividir

Todo amor que resta eu peço
Pro Nosso Senhor eu rezo
Se tiver um mundo eu quero ir

Lá onde o sol se põe na minha mão
Faço malabares na constelação
Esperando ver
Campo a florescer
No sertão chover
E uma mãe gerar

Conto 9 luas, uma a uma até nascer
Aterrizo em pouso firme, vim lhe ver
E reconhecer traços em você
Traduzir meu pai
Hei de ser capaz de te conduzir
E me espelhar do começo ao fim
Te assistir
Te escutar
Te ver dormir
Te ver sonhar
Te ver amar
Te ver sorrir
Te abraçar
Deixar partir

Mais um dia no milênio
Mais um medo que eu tenho
E que eu quero apenas dividir.

Lideranças


"O certo é que desde o começo, quando participou daquela sua primeira reunião do núcleo partidário Glória em oitenta e três, prometera a si mesmo não permitir que seu despreparo teórico e sua quase absoluta ingenuidade em relação à política se tornassem mediocridade. Já não consegue deixar de ver a maioria das lideranças como confrades duma, maquiavélica e muito bem-engendrada, turminha de aproveitadores levando adiante seu projeto pra adquirir poder e, consequentemente, algum dinheiro da forma mais rápida possível. Perdeu a capacidade de assimilar as contradições. Deixou de acreditar. Por isso sua concentração no que era preciso ser feito e a tranquilidade decorrente da crença desapareceram. Ficou essa angústia."
Paulo Scott, in Habitante irreal

Um título com medo

Medo. Medo de escrever e não sair nada. Não rimar condão com fada. Não confrontar a metáfora com a ênclise, atrás da porta que acabei de grafar. Medo do til ter medo de altura, e transformar meu ão em um monossilábico ao, com a redução do o a u, uma semivogal. Medo do i não aceitar o pingo, e ao lado de um zero, formar uma facção de códigos binários. Medo do ar não entrar pelo fonema, e este nunca sair nasal. Medo do texto atonal. Medo da falta de rimas métricas e assimétricas. Medo de sequestro de letras. Do papel em branco. Medo do silêncio do teclado. Do estado hiperbólico das sentenças. Morrer de medo. Estar aquém de um grande verso. Medo do reverso da poética. A metálica forma do medo. Medo de escrever plástico só por sua acepção. Medo das crases. Dos acentos circunflexos, por não existirem os circônflacos. Medo dos flancos do dois pontos. Medo do assombro sem exclamação. Medo do não com ponto final. Do mal uso da cedilha. Das filhas da letra ésse quando se unem aos verbos. Do que fazem com eles. Medo da interrogação. Medo de títulos e epígrafes. Medo de gafes. Medo da origem das palavras. Se nascem mortas de medo. Medo das línguas esquecidas serem as mesmas das quais me lembro. Medo de abuso do texto. Do limite de linhas. Dos rodapés e rubricas. Medo que o trema não seja nunca mais utilizado. E com ele vá-se embora toda a intriga. Medo da falta de idéias. Ou do extremo oposto. Algumas delas ressurgirem do esquecimento para o repetido uso. Medo do p e b mudos. Do hífen do contra-ataque da curva dramática de um texto. Do abandono entre parênteses das reticências por medo. Medo do travessão e da vírgula. Do narrador e da terceira pessoa. Do protagonista. Do epílogo. De uma frase sair à toa. Medo de assinar o final do texto. Da confissão do confuso. Do mal hábito de sentir tudo muito absurdo. E saltar. Soltar a folha cheia de medos por cima do resto do mundo.
Ana Peluso, in www.releituras.com

14/01/2014

Música sertaneja e mulheres insanas

www.willtirando.com.br

Retórica

"Enfim, a retórica está na língua de quem ama, de quem engana e de quem tem necessidade."
Pietro Aretino

Não ter ilusões

“Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstratas, e as abstratas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde.”
Fernando Pessoa, in O Livro do Desassossego

Gatos


Era dia de visitas na casa de Seu Antônio. Vivia solitário há anos, mas todo domingo recebia a companhia de seus netos, João e Pedrinho. Ele sempre aproveitava a ocasião para relembrar seus dias heroicos de fazendeiro no sertão de Pernambuco. Assim, contava histórias de como pegou o ladrão de galinhas, ou daquela vez em que recuperou seu cavalo fugitivo. Os meninos ouviam com interesse, e Pedrinho fez uma observação:
- Se tem algo de que não gosto, é de gato!
Surpreso, replicou:
- Gato? Mas eu falava de gado!
Mas tampouco deu importância para aquilo e continuou sua narrativa...
Fabiano Costa, 21 anos, natural de Campina Grande - PB, estudante de Letras na IFPB