04/03/2025

Silêncio


Comecei quieta, morando em cidadezinhas mineradoras nas montanhas, me mudando com frequência demais para fazer amigos. Procurava uma árvore ou uma sala num velho moinho abandonado, para ficar em silêncio.
Minha mãe passava a maior parte do tempo lendo ou dormindo, então eu conversava mais com meu pai. Assim que ele entrava pela porta de casa ou quando ele me levava para o alto das montanhas ou para o fundo escuro de minas, eu falava sem parar.
Então, ele foi para o exterior e nós para El Paso, no Texas, onde fui estudar na escola Vilas. Na terceira série, eu lia bem, mas não sabia fazer contas nem de adição. Usava um colete pesado nas minhas costas tortas. Era alta, mas ainda infantil. Uma esquisitona naquela cidade, como se eu tivesse sido criada no mato por cabras-monteses. Vivia fazendo xixi nas calças, chapinhando, até que me recusei a ir para a escola ou mesmo a conversar com a diretora.
Uma velha professora da minha mãe na escola secundária conseguiu uma bolsa de estudos para mim na exclusiva Radford, uma escola para meninas a duas viagens de ônibus da nossa casa, do outro lado de El Paso. Continuei a ter todos os problemas mencionados acima, só que agora também andava vestida feito uma maltrapilha. Eu morava na parte pobre da cidade e havia alguma coisa particularmente inaceitável no jeito do meu cabelo.
Nunca falei muito sobre essa escola. Não me importo de contar coisas horríveis para as pessoas, desde que consiga torná-las engraçadas. Lá nunca foi engraçado. Uma vez, no recreio, resolvi beber um pouco de água de uma mangueira do jardim e a professora arrancou a mangueira de mim e me chamou de grosseirona.
Mas a biblioteca… Todo dia nós podíamos passar uma hora lá, livres para folhear qualquer livro, todos os livros, para sentar e ler, ou examinar o catálogo de fichas. Quando faltavam quinze minutos para nosso tempo terminar, a bibliotecária nos avisava, para que pudéssemos pegar emprestado algum livro. A bibliotecária tinha — não ria — uma voz muito macia. Não só suave, mas gentil. Ela dizia para você “Aqui é onde ficam as biografias” e então explicava o que era uma biografia.
“Aqui ficam os livros de referência. Se houver alguma coisa que você queira saber, basta me perguntar que a gente encontra a resposta num livro.”
Era uma coisa maravilhosa de ouvir, e eu acreditei nela.
Até que a bolsa da srta. Brick, que sempre ficava embaixo da mesa dela, foi roubada. Ela disse que devia ter sido eu quem tinha pegado a bolsa. Então, me mandaram para a sala de Lucinda de Leftwitch Templin. Lucinda de Leftwitch disse que sabia que eu não era de uma família privilegiada como a maioria das meninas da escola e que isso devia ser difícil para mim às vezes. Ela entendia, disse Lucinda, mas o que ela estava dizendo na verdade era “Onde é que está a bolsa?”.
Fui embora. Não voltei nem para pegar o dinheiro do ônibus e o lanche no meu armário. Saí a pé pela cidade, andando todo aquele longo caminho, todo aquele longo dia. Minha mãe estava me esperando na porta de casa com uma vara na mão. Tinham ligado para ela da escola para dizer que eu havia roubado a bolsa e depois fugido. Ela nem sequer me perguntou se eu tinha roubado de fato. “Sua ladrazinha, me humilhando”, vapt, “delinquente, ingrata”, vapt. Lucinda de Leftwitch ligou para ela no dia seguinte para dizer que um faxineiro tinha roubado a bolsa, mas minha mãe nem me pediu desculpa. Disse apenas “Vaca!”, depois de desligar o telefone.
Foi assim que acabei indo para a St. Joseph’s, que eu adorava. Só que as alunas de lá também me odiavam, por todas as razões mencionadas acima, mas agora também por outras razões, sendo uma delas a de que a irmã Cecilia sempre me chamava e eu ganhava estrelas e santinhos e era a queridinha! queridinha!, até que parei de levantar a mão.
Tio John se mandou para Nacogdoches, o que me deixou sozinha com a minha mãe e o meu avô. Tio John sempre comia comigo, ou bebia enquanto eu comia. Conversava comigo enquanto eu o ajudava a consertar móveis, me levava ao cinema e me deixava segurar o olho de vidro gosmento dele. Foi horrível quando ele foi embora. Vovô e Mamie (minha avó) ficavam no consultório dentário dele o dia inteiro e, quando voltavam para casa, Mamie mantinha minha irmã mais nova a salvo levando-a para a cozinha ou para seu próprio quarto. Minha mãe saía, ia para o hospital do Exército prestar serviços como voluntária ou ia jogar bridge. Vovô ia para o clube ou sei lá para onde. A casa ficava vazia e assustadora sem o tio John, e eu tinha que me esconder do vovô e da mamãe quando eles estavam bêbados. Em casa era ruim e na escola também.
Decidi parar de falar. Simplesmente desisti. Fiquei tanto tempo muda que a irmã Cecilia quis rezar comigo no vestiário. Ela queria o meu bem e só estava me tocando para se mostrar solidária, enquanto rezava. Eu fiquei assustada e a empurrei. Ela caiu e eu fui expulsa da escola.
Foi então que conheci Hope.
Como o ano letivo já estava quase terminando, eu ficaria em casa e voltaria para a Vilas no semestre seguinte. Continuei sem falar, mesmo quando minha mãe entornou uma jarra inteira de chá gelado na minha cabeça ou até quando ela me beliscava e torcia minha pele, deixando marcas que pareciam estrelas, a Ursa Maior, a Ursa Menor, a Lira, espalhadas pelos meus braços.
Eu jogava o jogo das pedrinhas no chão de concreto acima dos degraus, torcendo para que a menina síria da casa ao lado me chamasse para brincar com ela. Ela jogava no chão de concreto da varanda deles. Era pequena e magra, mas parecia velha. Não adulta nem madura, mas como uma velhinha-criança. Tinha um cabelo comprido preto e brilhoso, uma franja que lhe caía nos olhos. Para enxergar, ela tinha que inclinar a cabeça para trás. Parecia um filhote de babuíno. No bom sentido, quero dizer. Um rosto pequeno com grandes olhos pretos. Todos os seis filhos da família Haddad eram magricelas, mas os adultos eram imensos, pareciam pesar uns cem quilos ou mais.
Eu sabia que Hope também reparava em mim porque, se eu estava fazendo aquela jogada conhecida como cerejas no cesto, ela também fazia a mesma jogada. Ou se eu estava fazendo meteoros, ela fazia também, com a diferença de que ela nunca deixava nenhuma pedrinha cair, nem mesmo quando estava usando doze. Durante semanas nossas bolas e pedrinhas fizeram um bop bop pá bop bop pá gostoso e ritmado, até que finalmente ela veio até a cerca. Devia ter ouvido minha mãe berrar comigo, porque perguntou:
“Você já está falando?”
Eu fiz que não.
“Que bom. Falar comigo não conta.”
Pulei a cerca. Naquela noite, eu estava tão feliz por ter uma amiga que, quando fui para a cama, falei em voz alta: “Boa noite!”.
Tínhamos passado horas jogando o jogo das pedrinhas naquele dia e depois ela tinha me ensinado brincadeiras perigosas com uma faca. Fazer a faca dar giros triplos no ar até fincar na grama e, o mais assustador, com a mão aberta apoiada no chão, cravar a faca no espaço entre os dedos. Mais rápido, mais rápido, mais rápido, sangue. Acho que nem falamos nada naquele dia. Raramente falamos aquele verão inteiro. Tudo de que me lembro são as primeiras e últimas palavras dela.
Nunca mais tive uma amiga como Hope, minha uniquíssima amiga de verdade. Aos poucos fui me tornando parte da família Haddad. Acho que, se isso não tivesse acontecido, eu teria virado uma adulta não só neurótica, alcoólatra e insegura, mas seriamente perturbada. Maluca mesmo.
Os seis filhos e o pai falavam inglês. A mãe, a avó e cinco ou seis outras velhas só falavam árabe. Lembrando desse tempo agora, eu tenho a impressão de que passei por uma espécie de orientação. As crianças me observavam enquanto eu aprendia a correr, correr de verdade, e a saltar a cerca, em vez de subir nela. Fiquei craque na faca, no pião e na bolinha de gude. Aprendi gestos obscenos e palavrões em inglês, espanhol e árabe. Para a avó, eu lavava louça, regava plantas, passava ancinho na areia do quintal, batia tapetes com um batedor de bambu trançado, ajudava as velhas a estender massa de pão nas mesas de pingue-pongue do porão. Tardes preguiçosas lavando paninhos sujos de menstruação numa bacia no quintal com Hope e Shahala, a irmã mais velha. Isso não parecia nojento, mas sim mágico, como um rito misterioso. De manhã, eu ficava em fila com as outras meninas para que minhas orelhas fossem lavadas e meu cabelo trançado, para ganhar quibe num pão quentinho. As mulheres gritavam comigo: “Hjaddadinah!”. E me davam beijos e tapas como se eu pertencesse à família. O sr. Haddad deixava que Hope e eu nos sentássemos em sofás e passeássemos pela cidade na carroceria do caminhão da Haddad’s Beautiful Furniture.
Aprendi a roubar. Romãs e figos do quintal do velho cego Guca, perfume Blue Waltz e batom Tangee da loja de departamentos Kress, balas de alcaçuz e refrigerantes do mercado Sunshine. Mercados faziam entregas na época, e um dia o entregador do Sunshine veio trazer compras para as casas de nós duas bem na hora em que Hope e eu estávamos chegando em casa, chupando picolés de banana. Nossas mães estavam ambas do lado de fora.
“As suas filhas roubaram aqueles picolés!”, ele disse.
Minha mãe me bateu, vapt, vapt. “Já pra dentro, sua ladra mentirosa, falsa, traiçoeira!” Já a sra. Haddad disse: “Seu cretino mentiroso! Hjaddadinah! Tlajhama! Não se atreva a falar mal dos meus filhos! Nunca mais eu boto os pés naquele seu mercado!”.
E ela nunca mais botou mesmo, passando a pegar um ônibus até Mesa para fazer compras, embora soubesse muito bem que Hope tinha roubado o picolé. Aquilo fez sentido para mim. Eu não queria só que minha mãe acreditasse em mim quando eu era inocente, coisa que ela nunca fazia, mas também que ela me defendesse quando eu era culpada.
Quando compramos patins, Hope e eu desbravamos El Paso, patinávamos pela cidade inteira. Íamos ao cinema, uma fazendo a outra entrar pela porta da saída de incêndio. Pirata dos sete mares. Noite na alma. Chopin se derramando por todas as teclas do piano. Vimos Alma em suplício seis vezes e Os dedos da morte dez.
A hora em que mais nos divertíamos era quando jogávamos cartas. Sempre que podíamos, ficávamos rodeando um dos irmãos de Hope, Sammy, que tinha dezessete anos. Ele e os amigos eram bonitos, durões, atrevidos. Eu já lhe contei sobre Sammy e as cartas. Nós vendíamos rifas de caixas de joias musicais. Levávamos o dinheiro para Sammy e ele nos dava uma comissão. Foi assim que compramos os patins.
Vendíamos rifas em tudo quanto era lugar. Em hotéis, na estação de trem, na filial da United Service Organization, em Juárez. Mas até mesmo os bairros residenciais eram mágicos. Você andava por uma rua, passando por casas e quintais, e às vezes no fim da tarde você via pessoas comendo ou sentadas por lá, e dava para ter uma boa visão de como elas viviam. Hope e eu entramos em centenas de casas. As duas com sete anos de idade, meio esquisitas cada uma à sua maneira, as pessoas gostavam de nós e eram amáveis conosco. “Entrem. Tomem uma limonada.” Vimos quatro gatos siameses que usavam o banheiro de verdade e até davam descarga. Vimos papagaios e uma pessoa de mais de duzentos quilos que não saía de casa fazia vinte anos. Mas gostávamos mais ainda de todas as coisas bonitas que víamos: pinturas, pastoras de porcelana, espelhos, relógios de cuco e de pêndulo, colchas de retalhos e tapetes de muitas cores. Gostávamos de ficar sentadas em cozinhas mexicanas cheias de canários, tomando suco de laranja de verdade e comendo pan dulce. Hope era tão inteligente que aprendeu espanhol só de ouvir as pessoas falando pelo bairro, para poder conversar com as velhinhas.
Ficávamos radiantes quando Sammy nos elogiava, nos abraçava. Ele fazia sanduíches de mortadela para nós e nos deixava sentar perto deles na grama. Falávamos para eles sobre as pessoas que tínhamos conhecido. Ricas, pobres, chinesas, negras, até que o fiscal da estação nos fez sair da sala de espera das pessoas de cor. Só encontramos uma pessoa má, o homem com os cachorros. Ele não fez nem disse nada, só nos assustou horrores com a cara pálida e debochada dele.
Quando Sammy comprou o carro velho, Hope entendeu tudo na mesma hora. Ninguém ia ganhar caixa de joia musical nenhuma.
Enfurecida, ela saltou a cerca em direção ao meu quintal, berrando, o cabelo voando como o de um guerreiro índio de cinema. Abriu sua faca, fez grandes cortes nos nossos dedos indicadores e os apertou, pingando, um contra o outro.
“Eu nunca mais vou falar com o Sammy”, disse ela. “Fala!”
“Eu nunca mais vou falar com o Sammy”, eu disse.
Eu exagero muito e misturo ficção com realidade, mas nunca chego de fato a mentir. Não estava mentindo quando fiz aquela promessa. Sabia que Sammy tinha nos usado, mentido para nós e enganado todas aquelas pessoas. Eu não ia mais falar com ele.
Algumas semanas depois, eu estava subindo a colina em direção à Upson Drive, perto do hospital. Estava quente. (Viu só? Estou tentando justificar o que aconteceu. Sempre estava quente.) Sammy parou ao meu lado no velho carro conversível azul, o carro que Hope e eu tínhamos trabalhado para pagar. É verdade também que, tendo vindo de cidadezinhas nas montanhas, raras vezes na minha vida eu havia andado de carro, fora algumas viagens de táxi.
“Entra. Vamos dar uma volta.”
Algumas palavras me deixam maluca. Ultimamente, não há artigo de jornal que não mencione um “marco”, um “divisor de águas” ou um “ícone”. Pelo menos uma dessas expressões deve se aplicar àquele momento da minha vida.
Eu era uma menininha; não creio que fosse de fato uma atração sexual. Mas eu estava fascinada com a beleza física de Sammy, com seu magnetismo. Seja qual for a justificativa… Bom, está bem, não há justificativa para o que eu fiz. Eu falei com ele. Entrei no carro.
Foi maravilhoso andar no carro sem capota. O vento nos refrescava enquanto andávamos em alta velocidade em torno da Plaza, passando pelo teatro Wigwam, pelo Del Norte, pela Popular Dry Goods Company, depois subindo a Mesa em direção à Upson. Eu ia pedir para que ele me deixasse saltar alguns quarteirões antes de casa quando vi Hope em cima de uma figueira, no terreno baldio da esquina da Upson com a Randolph.
Hope gritou. Sentada na árvore, ficou brandindo o punho para mim e me amaldiçoando em árabe sírio. Talvez tudo o que aconteceu comigo desde então tenha sido resultado dessa maldição. Faz sentido.
Saí do carro, desconsolada, trêmula, subi a escada de casa como se fosse uma velhinha e desabei no balanço da varanda.
Sabia que era o fim da nossa amizade e sabia que eu estava errada.
Cada dia era interminável. Hope passava por mim como se eu fosse invisível, brincava do outro lado da cerca como se o nosso quintal não existisse. Ela e as irmãs só falavam em árabe sírio agora. Alto, se estavam do lado de fora. Eu entendia muitas das coisas ruins que elas falavam. Hope passava horas jogando o jogo das pedrinhas sozinha na varanda, cantando músicas tristes em árabe, lindas; sua voz rouca e plangente me fazia chorar de saudade dela.
Salvo Sammy, nenhum dos Haddad falava mais comigo. A mãe de Hope cuspia em mim e brandia o punho. Sammy me chamava do carro dele, longe da nossa casa. Pedia desculpas. Tentava ser amável, dizendo que sabia que no fundo ela ainda continuava sendo minha amiga e pedindo que eu não ficasse triste. Dizia que entendia por que eu não podia falar com ele e pedia, por favor, que o perdoasse. Eu virava para o outro lado para não vê-lo enquanto ele falava.
Nunca me senti tão sozinha na vida. Foi um marco de solidão. Os dias não tinham fim, acompanhados pelo som da bola de Hope batendo no chão de concreto hora após hora sem parar, pelo assobio da sua faca furando a grama, pelas cintilações da lâmina.
Não havia nenhuma outra criança na nossa vizinhança. Durante semanas nós brincamos sozinhas. Ela aperfeiçoava manobras com a faca na grama deles. Eu coloria e lia, deitada no balanço da varanda.
Ela foi embora de vez pouco antes de as aulas começarem. Sammy e o pai carregaram a cama dela, a mesinha de cabeceira e uma cadeira até o enorme caminhão de móveis. Hope subiu na carroceria e se sentou ereta na cama, para poder olhar para fora. Não olhou para mim. Parecia minúscula dentro daquele caminhão enorme. Fiquei olhando até ela desaparecer. Sammy gritou para mim da cerca, disse que ela tinha ido para Odessa, no Texas, para morar com alguns parentes. Digo Odessa, no Texas, porque uma vez uma pessoa me disse: “Esta é a Olga; ela é de Odessa”. E eu pensei “E daí?”. Acabou que ela era de Odessa, na Ucrânia. Eu pensava que a única Odessa que existia era aquela para onde Hope tinha ido.

As aulas começaram e não foi tão ruim. Eu não me importava de ficar sempre sozinha e de ser alvo de riso. O colete que eu usava para a coluna estava ficando pequeno demais e as minhas costas doíam. Que bom, eu pensava, eu mereço.
Tio John voltou. Cinco minutos depois de entrar pela porta, ele disse para a minha mãe: “O colete dela está pequeno demais!”.
Fiquei bem feliz de vê-lo. Ele preparou para mim uma tigela de cereal com leite, umas seis colheres de açúcar e pelo menos três colheres de baunilha. Sentou na minha frente na mesa da cozinha e ficou tomando uísque enquanto eu comia. Contei para ele sobre a minha amiga Hope, sobre tudo. Contei até sobre os meus problemas na escola. Quase tinha me esquecido deles. Ele grunhia ou dizia “Cacete!” enquanto eu falava. E entendeu tudo, principalmente a história com Hope.
Ele nunca dizia coisas como “Não se preocupe, tudo vai se ajeitar”. Na verdade, uma vez Mamie disse: “Podia ser pior”.
“Pior?”, ele disse. “Porra, podia ser estupidamente melhor!”. Ele também era alcoólatra, mas a bebida só o deixava mais carinhoso, ao contrário deles. Ou ele se mandava, ia para o México, para Nacogdoches ou para Carlsbad, para a prisão às vezes, tenho consciência agora.
Ele era bonito, moreno como vovô, com só um olho azul, já que vovô tinha atirado no outro. Seu olho de vidro era verde. Eu sei que é verdade que vovô atirou nele, mas a história de como isso aconteceu tem umas dez versões. Quando tio John estava em casa, ele dormia num barracão do lado de fora, perto de onde ele tinha feito o meu quarto, na varanda dos fundos.
Tio John usava chapéu e botas de caubói e era como um valente caubói de cinema algumas horas; outras horas, ele era apenas um bêbado chorão e digno de pena.
“Doentes de novo”, Mamie dizia, referindo-se a eles.
“Bêbados, Mamie”, eu dizia.
Eu tentava me esconder quando vovô estava bêbado porque ele me pegava e me balançava. Uma vez, ele estava fazendo isso na cadeira de balanço grande, me segurando com força no colo dele, a cadeira quicando a poucos centímetros da estufa em brasa, o treco dele futucando e futucando meu traseiro. Ele estava cantando “Old Tin Pan with a Hole in the Bottom”. Alto. Arfando e grunhindo. Sentada perto dali, Mamie lia a Bíblia, enquanto eu gritava: “Mamie! Me ajuda!”. Tio John apareceu, bêbado e sujo. Ele me arrancou do colo do vovô, agarrou o velho pela camisa e disse que, na próxima vez, o mataria de porrada. Depois, fechou com violência a Bíblia de Mamie.
“Lê de novo, mãe. Você entendeu errado, aquela parte sobre dar a outra face. Isso não vale pra quando alguém está fazendo mal a uma criança.”
Chorando, ela disse que ele queria partir o coração dela.
Enquanto eu terminava a tigela de cereal, ele me perguntou se vovô andava me importunando. Eu disse que não. Disse também que ele tinha feito aquilo com Sally, uma vez, que eu tinha visto.
“Com a pequena Sally? E o que você fez?”
“Nada.” Eu não tinha feito nada. Tinha ficado olhando com um misto de sentimentos: medo, excitação, ciúme, raiva. John veio para perto de mim, puxou uma cadeira e me sacudiu, com força. Estava furioso.
“Isso foi abominável! Está me ouvindo? Onde a Mamie estava?”
“Regando as plantas. A Sally estava dormindo antes, mas acordou.”
“Quando eu não estou aqui, você é a única pessoa nesta casa que tem um pouco de juízo. Você tem que proteger a sua irmã. Está ouvindo?”
Eu fiz que sim, envergonhada. Mas estava com mais vergonha ainda de como eu tinha me sentido quando aquilo aconteceu. Ele percebeu isso, de alguma forma. Sempre entendia aquelas coisas que você não conseguia nem organizar direito na cabeça, quanto mais falar sobre elas.
“Você acha que a Sally está com tudo. Sente ciúme dela porque a Mamie está sempre dando atenção a ela. Então, mesmo se o que ele fazia com você era ruim, pelo menos era uma coisa ruim que ele fazia só com você, não é verdade? Claro que você tem motivo pra sentir ciúme da Sally, minha querida. Ela é muito bem tratada. Mas lembra da raiva que você sentiu da Mamie? De como você implorou pela ajuda dela? Responde!”
“Lembro.”
“Bem, você foi tão má quanto a Mamie. Pior! O silêncio pode ser uma coisa ruim, muito, muito ruim. Você fez mais alguma coisa errada, além de trair a sua irmã e a sua amiga?”
“Eu roubei. Bala e…”
“Não, eu estou falando de magoar as pessoas.”
“Não.”
Ele disse que ia ficar em casa por um tempo, me botar na linha, botar a oficina de consertos de móveis antigos dele para funcionar antes do inverno.
Eu trabalhava para ele nos fins de semana e depois da escola, no barracão e no quintal dos fundos. Lixando, lixando ou esfregando madeira com um pano encharcado de óleo de linhaça e terebintina. Dois amigos dele, Tino e Sam, às vezes vinham ajudá-lo a empalhar, estofar, dar acabamento. Se a minha mãe ou o meu avô estavam em casa, eles saíam pela porta dos fundos, porque Tino era mexicano e Sam era negro. Mamie, no entanto, gostava deles e sempre levava brownies ou biscoitos de aveia lá para fora quando estava em casa.
Uma vez, Tino trouxe uma moça mexicana, Mecha. Ela era praticamente uma menina ainda, muito bonita, com anéis e brincos, sombra nos olhos e unhas compridas, um vestido verde brilhante. Ela não falava inglês, mas me perguntou com gestos se podia me ajudar a pintar um banco de cozinha. Eu fiz que sim, claro. Tio John falou para eu me apressar, pintar rápido antes que a tinta acabasse, e acho que Tino disse a mesma coisa em espanhol para Mecha. A gente estava passando os pincéis furiosamente pelas travessas e pelas pernas do banco, o mais rápido que conseguia, enquanto os três homens, com a mão na barriga, davam risada. Nós duas percebemos o que estava acontecendo mais ou menos ao mesmo tempo e começamos a rir também. Mamie veio ver qual era a razão de toda aquela algazarra. Ela chamou tio John para perto dela. Estava furiosa por causa da mulher, disse que era um absurdo ela estar ali. John fez que sim e coçou a cabeça. Quando Mamie foi lá para dentro, ele voltou para perto de nós e, depois de um tempo, disse: “Bem, vamos parar por aqui hoje”.
Enquanto estávamos limpando os pincéis, ele me explicou que a mulher era prostituta, que Mamie tinha percebido isso pela maneira como a moça estava vestida e pintada. Acabou me explicando uma porção de coisas que me intrigavam. Fiquei entendendo melhor os meus pais, o vovô, os filmes e os cachorros. Mas, como ele se esqueceu de me dizer que prostitutas cobravam pelo que faziam, eu continuei confusa em relação às prostitutas.
“A Mecha é legal. Eu odeio a Mamie”, eu disse.
“Não diga essa palavra! Além do mais, você não odeia a Mamie coisa nenhuma. Você sente raiva dela porque ela não gosta de você. Ela vê você perambulando pelas ruas, andando com sírios e com o tio John, e conclui que você é uma causa perdida, uma Moynihan nata. Você queria que ela te amasse, só isso. Toda vez que você achar que odeia uma pessoa, o melhor que você faz é rezar por ela. Experimente, você vai ver. E enquanto estiver ocupada rezando por ela, você poderia também tentar ajudá-la de vez em quando. Dar a ela algum tipo de razão pra gostar de uma pirralha emburrada que nem você.”
Às vezes, nos fins de semana, ele me levava para corridas de cachorros em Juárez ou para pontos de jogo espalhados pela cidade. Eu adorava as corridas e levava jeito para escolher vencedores. Só gostava de ir a jogos de cartas quando ele jogava com ferroviários, num vagão de funcionários no pátio de manobras. Eu subia a escada até o teto do vagão e ficava vendo os trens indo e vindo, trocando de linha, se conectando. O problema era que a maior parte dos jogos de cartas acontecia nos fundos de lavanderias chinesas. Eu ficava horas sentada na parte da frente da lavanderia, lendo, enquanto em algum lugar lá dos fundos ele jogava pôquer. O calor e o cheiro de solvente misturado com lã chamuscada e suor me deixavam enjoada. Houve algumas vezes em que tio John saiu pela porta dos fundos e me esqueceu lá, de modo que só quando ia fechar as portas era que o gerente da lavanderia me encontrava dormindo numa cadeira. Eu tinha que voltar sozinha e no escuro para casa, que ficava longe, e quase sempre não tinha ninguém lá. Mamie levava Sally com ela quando ia às reuniões do coral e da Eastern Star e quando ia fazer curativos em soldados.
Mais ou menos uma vez por mês, íamos a um barbeiro. Sempre um barbeiro diferente. Tio John pedia que fizessem a barba e cortassem o cabelo dele. Eu ficava sentada numa cadeira, lendo Argosy, enquanto o barbeiro trabalhava, só esperando a parte da barba. Tio John ficava inclinado lá para trás na cadeira e, bem na hora em que o barbeiro estava terminando de barbeá-lo, perguntava: “Escuta, por acaso você tem algum colírio aí?”, coisa que eles sempre tinham. O barbeiro se debruçava sobre ele e pingava colírio nos seus olhos. Então, o olho de vidro verde começava a girar e o barbeiro berrava de susto. Depois todo mundo ria.
Se eu tivesse entendido o tio John só metade do que ele sempre me entendia, eu poderia ter percebido quanto ele sofria e por que se esforçava tanto para fazer as pessoas rirem. Ele realmente fazia todo mundo rir. Comíamos em vários cafés de Juárez e El Paso que eram como casas de pessoas. Apenas uma porção de mesas espalhadas pela sala de uma casa normal, com boa comida. Todo mundo conhecia o tio John e as garçonetes sempre riam quando ele perguntava se o café era requentado.
“Não, claro que não!”
“Bom, então o que você fez para ele ficar tão quente?”
Geralmente eu conseguia perceber quão bêbado ele estava e, se ele estava muito bêbado, eu inventava alguma desculpa e voltava para casa a pé ou de bonde. Um dia, porém, eu tinha ficado dormindo na cabine do caminhão e só acordei depois que ele já tinha entrado e dado partida. Estávamos na Rim Road, andando cada vez mais rápido. Ele estava com uma garrafa de bebida entre as coxas, dirigindo com os cotovelos enquanto contava o dinheiro que estava segurando em leque em cima do volante.
“Vai mais devagar!”
“Eu estou cheio da grana, meu bem!”
“Vai mais devagar! Segura o volante direito!”
O caminhão deu um baque, saltou e depois deu outro baque contra o chão. O dinheiro saiu voando pela cabine inteira. Eu olhei pelo vidro de trás. Um garotinho estava parado na rua, com o braço sangrando. Um collie estava estirado no chão ao lado dele, todo ensanguentado, tentando se levantar.
“Para! Para o caminhão. A gente tem que voltar. Tio John!”
“Eu não posso!”
“Diminui a velocidade. Você tem que voltar!” Eu estava chorando histericamente.
Em frente de casa, ele esticou o braço por cima de mim e abriu a porta do meu lado. “Vai pra dentro.”
Não sei se parei de falar com ele. Ele não voltou para casa. Nem naquela noite, nem durante dias, semanas, meses. Eu rezei por ele.

A guerra terminou e meu pai voltou para casa. Nós nos mudamos para a América do Sul.
Tio John acabou indo parar na sarjeta em Los Angeles, virou um beberrão realmente imprestável. Até que ele conheceu Dora, que tocava trompete na banda do Exército da Salvação. Ela o fazia ir para o abrigo e tomar sopa e conversava com ele. Mais tarde, ela contou que ele a fazia rir. Eles se apaixonaram e se casaram e ele nunca mais bebeu. Quando fiquei mais velha, fui visitá-los em Los Angeles. Dora estava trabalhando como operária rebitadora na Lockheed e tio John tinha uma oficina de consertos de móveis antigos na garagem. Eles eram, talvez, as duas pessoas mais carinhosas que já conheci na vida; carinhosas uma com a outra, quero dizer. Fomos ao cemitério Forest Lawn, aos poços de piche de La Brea e ao restaurante Grotto. Mas, a maior parte do tempo, fiquei ajudando tio John na oficina, lixando móveis, polindo-os com um pano encharcado de terebintina e óleo de linhaça. Conversamos sobre a vida, contamos piadas. Nenhum dos dois sequer mencionou El Paso. Claro que, a essa altura, eu já tinha percebido todas as razões de ele não ter parado o caminhão naquele dia, porque a essa altura eu era alcoólatra.

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

03/03/2025

O sueco

Os problemas do Brasil, as mesquinharias de nossa vida pública, a miséria fundamental de nosso povo, todas essas coisas de repente cansam e desanimam uma pessoa sensível. Evandro Pequeno encontrou uma solução: “Eu sou um sueco em trânsito.”
Não saber de nada, não entender uma palavra do que estão dizendo e escrevendo por aí, não ter nada a ver com nada, não se sentir responsável por nada (muito menos pela famosa dívida externa), não ter vergonha de nada: ser um sueco em trânsito.
E, se possível, como Evandro fazia, tocar fagote.

Rubem Braga, em Recado de primavera

Marisa Monte | Preciso Me Encontrar

O Grande Anjo

Isso que vou contar já faz muitos anos, é só memória...
Eu disse que o Paraíso mora numa ampola de dolantina... “Cessa, ó dor!” E ela cessa... Pena que o Paraíso seja de tão curta duração. A dor se vai, sim, mas fica de tocaia...
Me tocaiou... Foi voltando devagarzinho, aparecendo num outro lugar: a coluna. Ela chegava e ia torcendo o corpo, obrigando-o a assumir as posições mais estranhas para livrar-se dela. Lembro-me de uma viagem que fiz até o litoral, corpo curvado, o pé apoiado no painel de instrumentos do carro. Chegando lá, praia, lugar de deleites e risos, a dor não me deixou. Ela só me deixava em paz numa posição: agachado.
A dor não me deixava alternativas. Qualquer coisa para livrar-me dela: cirurgia. Mas a cirurgia era de resultados duvidosos. Um ortopedista conhecido, sabendo dos riscos, me disse: “Só faço cirurgia de hérnia de disco quando o paciente ameaça cometer suicídio...”.
Pois é isso mesmo que acontece: a dor, ultrapassado um certo limite, faz sonhar com a morte, como a única possibilidade de libertação. Coisa estranha esta, desejar morrer por amor à vida... Walter Rauschenbush assim colocou a questão no seu livro Orações por um mundo melhor: “A morte não é mais uma inimiga e sim um grande anjo, o único a poder abrir, para alguns de nós, a prisão de dor e do sofrimento...”. Quando a dor é sem trégua, a pessoa que sofre tem um único desejo: parar de sofrer. Esgotados todos os recursos para pôr fim à dor, resta morrer.
Eu não queria morrer; queria parar de sofrer. No quarto do hospital, torturado pela dor, aguardando a cirurgia, ouvi, vindo não sei de onde (ou terá sido uma alucinação minha?), um trecho de uma sonata de Beethoven. Que combinação mais estranha! Beleza e dor... Num arroubo de coragem (ou de loucura), cerrei os dentes e disse para mim mesmo: “Nem toda a dor do mundo será capaz de destruir a beleza dessa sonata!”. Mas foi coisa momentânea. Meu corpo não queria a beleza da sonata de Beethoven; ele só queria não mais sentir a dor... Se o preço de acabar com a dor fosse silenciar a sonata, meu corpo preferiria que a beleza não existisse.
Finalmente, a cirurgia. Abençoo o meu filho que é anestesista, embora jamais tenha sido o “meu” anestesista. É perigoso... para ele... Mergulhado no sono, não sinto dor. No dia seguinte, o cirurgião veio me visitar e pediu-me para fazer um movimento-teste. Fiz. Beliscou. A dor ainda estava lá dentro. Uma outra cirurgia seria necessária. Fiz a segunda cirurgia. A dor piorou, multiplicada por não sei quanto. De volta para casa, só havia um recurso para não sentir dor: ficar deitado sobre o gelo... Semanas... Até que, pela magia dos bioquímicos, a dor deu-se por satisfeita e se foi...
Há de se pensar no que fazer com um corpo possuído pelo demônio da dor. Com os meus cachorros eu sei o que fazer...
(Não é espantoso que haja religiões que creiam que Deus tenha condenado seus desafetos a uma eternidade de dor?)

Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo 

Entrando no clima

Bicudinho, de Caco Galhardo

Primeiras impressões

Não acrescente aos relatos das primeiras impressões.
Suponha que alguém o maldisse. Somente isso foi relatado. Não há um relato de que você se ofendeu. Vejo que meu filho está doente, mas não que a sua vida está em risco.
Atente-se à impressão inicial sem nada acrescentar e nada o atingirá. Ou melhor, adicione a ela como um homem que sabe o que se passa no cosmos.

Marco Aurélio, em Meditações

CAPÍTULO VIII. Do bom sucesso que teve o valoroso D. Quixote na espantosa e jamais imaginada aventura dos moinhos de vento, com outros sucessos dignos de feliz recordação


Quando nisto iam, descobriram trinta ou quarenta moinhos de vento, que há naquele campo. Assim que D. Quixote os viu, disse para o escudeiro:
— A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor do que o soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a todos as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; que esta é boa guerra, e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da terra.
— Quais gigantes? — disse Sancho Pança.
— Aqueles que ali vês — respondeu o amo — de braços tão compridos, que alguns os têm de quase duas léguas.
— Olhe bem Vossa Mercê — disse o escudeiro — que aquilo não são gigantes, são moinhos de vento; e os que parecem braços não são senão as velas, que tocadas do vento fazem trabalhar as mós.
— Bem se vê — respondeu D. Quixote — que não andas corrente nisto das aventuras; são gigantes, são; e, se tens medo, tira-te daí, e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em fera e desigual batalha.
Dizendo isto, meteu esporas ao cavalo Rocinante, sem atender aos gritos do escudeiro, que lhe repetia serem sem dúvida alguma moinhos de vento, e não gigantes, os que ia acometer. Mas tão cego ia ele em que eram gigantes, que nem ouvia as vozes de Sancho nem reconhecia, com o estar já muito perto, o que era; antes ia dizendo a brado:
— Não fujais, covardes e vis criaturas; é um só cavaleiro o que vos investe.
Levantou-se neste comenos um pouco de vento, e começaram as velas a mover-se; vendo isto D. Quixote, disse:
— Ainda que movais mais braços do que os do gigante Briareu, heis-de mo pagar.
E dizendo isto, encomendando-se de todo o coração à sua senhora Dulcinéia, pedindo-lhe que, em tamanho transe o socorresse, bem coberto da sua rodela, com a lança em riste, arremeteu a todo o galope do Rocinante, e se aviou contra o primeiro moinho que estava diante, e dando-lhe uma lançada na vela, o vento a volveu com tanta fúria, que fez a lança em pedaços, levando desastradamente cavalo e cavaleiro, que foi rodando miseravelmente pelo campo fora.
Acudiu Sancho Pança a socorrê-lo, a todo o correr do seu asno; e quando chegou ao amo, reconheceu que não se podia menear, tal fora o trambolhão que dera com o cavalo
.— Valha-me Deus! — exclamou Sancho — Não lhe disse eu a Vossa Mercê que reparasse no que fazia, que não eram senão moinhos de vento, e que só o podia desconhecer quem dentro na cabeça tivesse outros?
— Cala a boca, amigo Sancho — respondeu D. Quixote; — as coisas da guerra são de todas as mais sujeitas a contínuas mudanças; o que eu mais creio, e deve ser verdade, é que aquele sábio Frestão, que me roubou o aposento e os livros, transformou estes gigantes em moinhos, para me falsear a glória de os vencer, tamanha é a inimizade que me tem; mas ao cabo das contas, pouco lhe hão-de valer as suas más artes contra a bondade da minha espada.
— Valha-o Deus, que o pode! — respondeu Pança.
E ajudando-o a levantar, o tornou a subir para cima do Rocinante, que estava também meio desasado.
Conversando no passado sucesso, continuaram caminho para Porto Lápice, porque por ali (dizia D. Quixote) não era possível que se não achassem muitas e diversas aventuras, por se sítio de grande passagem. Que pesar o ver-se então sem lança! (como ele dizia ao escudeiro). Mas dizia-lhe também logo:
— Recordo-me ter lido que outro cavaleiro espanhol, por nome Diogo Peres de Vargas, tendo-se-lhe numa batalha quebrado a espada, esgalhou de uma azinheira uma pesada arranca, e só com ela fez tais coisas naquele dia, e a tantos mouros machucou, que lhe ficou de apelido “o Machuca”; e assim ele como os seus descendentes se ficaram nomeando desde aquele dia Vargas e Machuca. Refiro-te isto, porque a primeira azinheira ou carvalho que se me depare, tenciono sacar-lhe outro pau tão bom como aquele, e fazer com ele tais façanhas, que te julgues bem afortunado por teres chegado a presenciá-las, e poderes ser testemunha de coisas tão convizinhas do impossível.
— Por Deus, senhor D. Quixote — disse Sancho — creio tudo que Vossa Mercê me diz; mas olhe se se endireita um poucochinho, que parece ir descaindo para a banda; há-de ser do trambolhão que apanhou.
— E é verdade — respondeu D. Quixote; — e se me não queixo com a dor, é porque aos cavaleiros andantes não é dado lastimarem-se de feridas, ainda que por elas lhes saiam as tripas.
— Sendo assim, já estou calado — respondeu Sancho; — mas sabe Deus se eu não achava melhor que Sua Mercê se queixara quando lhe doesse alguma coisa. De mim sei eu, que, em me doendo seja o que for, hei-de por força berrar, se é que a tal regra, de não dar mostras de sentir, não chega também aos escudeiros da cavalaria andante.
Não deixou de se rir D. Quixote da simpleza do seu pajem; e declarou-lhe que podia queixar-se quantas vezes quisesse, com vontade ou sem ela, que até aquela data nunca lera proibição disso nos livros de cavalaria.
Advertiu-lhe Sancho que reparasse em que eram horas de comer. Respondeu-lhe o amo que por enquanto lhe não era necessário; que embora comesse ele, se lhe parecia.
Com esta licença, ajeitou-se Pança o melhor que pôde sobre o seu jumento, e tirando dos alforjes o que para eles tinha metido, ia caminhando e comendo atrás do amo com todo o seu descanso; e de quando em quando empinava a borracha com tanto gosto, que faria inveja ao mais refestelado bodegueiro de Málaga. E enquanto ia assim amiudando os tragos, não se lembrava de nenhuma promessa que o amo lhe tivesse feito; nem tinha por trabalho, antes por vida mui regalada, o andar buscando as aventuras, por perigosas que fossem.
Em suma, aquela noite passaram-na entre umas árvores; de uma delas desgalhou D. Quixote uma das pernadas secas, que lhe podia pouco mais ou menos suprir a lança, e nela pôs o ferro da que se lhe tinha quebrado.
Em toda a noite não pregou olho, pensando na sua senhora Dulcinéia, para se conformar com o que tinha lido nos seus livros, quando os cavaleiros passavam sem dormir muitas noites nas florestas e despovoados, enlevados na lembrança de suas amadas.
Já Sancho Pança a não passou do mesmo modo; como levava a barriga cheia (e não de água de chicória) levou-a toda de um sono; e se o amo o não chamara, não bastariam para acordá-lo os raios do sol que lhe vieram dar na cara, nem as cantorias das aves, que em grande número saudavam com alvoroço a vinda do novo dia.
Ao erguer-se, deu mais um beijo na borracha, e achou-a seu tanto mais chata que a noite de antes;com o que se lhe apertou o coração, pensando em que não levavam caminho de se remediar tão depressa aquela falta.
Não quis D. Quixote desjejuar-se, porque, segundo já dissemos, lhe deu em sustentar-se de saborosas memórias. Prosseguiram no seu começado caminho de Porto Lápice, e pela volta das três do dia deram vista dele.
— Aqui — disse D. Quixote — podemos, Sancho Pança amigo, meter os braços até aos cotovelos no que chamam aventuras; mas adverte, que, ainda que me vejas nos maiores perigos do mundo, não hás-de meter mão à espada para me defender, salvo se vires que os que me agravam são canalha e gente baixa, que nesse caso podes ajudar-me; porém se forem cavaleiros, de modo nenhum te é lícito, nem concedido nas leis da cavalaria, que me socorras, enquanto não fores armado cavaleiro.
— Decerto — respondeu Sancho — que nessa parte há-de Sua Mercê ser pontualmente obedecido, e mais, que eu sou de meu natural pacífico, e inimigo de intrometer-me em arruídos e pendências. É verdade, que, no que tocar em defender cá a pessoa, não hei-de fazer muito caso dessas leis, porque as divinas e humanas permitem defender-se cada um de quem lhe queira mal.
— Não digo menos disso — respondeu D. Quixote — porém no ajudar-me contra cavaleiros hás-de ter mão nos teus ímpetos naturais.
— Afirmo-lhe que assim o farei — respondeu Sancho; — esse preceito hei-de o guardar como os dias santos e os domingos.
Estando nestas práticas, viram vir pelo caminho dois frades da ordem de S. Bento, cavalgando sobre dois dromedários (que não eram mais pequenas as mulas em que vinham). Traziam seus óculos de jornada, e seus guarda-sóis.
Atrás seguia um coche com quatro ou cinco homens de cavalo, que o acompanhavam, e dois moços de mulas a pé. Vinha no coche, como depois se veio a saber, uma senhora biscainha, que ia a Sevilha, onde estava seu marido, que passava às índias com um mui honroso cargo. Não vinham os frades com ela, ainda que traziam o mesmo caminho; mas apenas D. Quixote os divisou, quando disse para o escudeiro:
— Ou me engano, ou esta tem de ser a mais afamada aventura que nunca se viu, porque aqueles vultos negros, que ali aparecem, devem ser alguns encantadores, que levam naquele coche alguma Princesa raptada; e é forçoso, que, a todo o poder que eu possa, desfaça esta violência.
— Pior será esta, que a dos moinhos de vento — disse Sancho; — repare, meu amo, que são frades de S. Bento, e o coche deve ser de alguma gente de passagem; veja, veja bem o que faz, não seja o diabo que o engane.
— Já te disse, Sancho — respondeu D. Quixote — que sabes pouco das maranhas que muitas vezes se dão nas aventuras. O que eu digo é verdade, e agora o verás.
Dizendo isto, adiantou-se e pôs-se no meio do caminho por onde vinham os frades; e, chegando a distância que a ele lhe pareceu o poderiam ouvir, disse em alta voz:
— Gente endiabrada e descomunal, deixai logo no mesmo instante as altas Princesas que nesse coche levais furtadas; quando não, aparelhai-vos para receber depressa a morte, por justo castigo das vossas malfeitorias.
Detiveram os frades as rédeas, admirados, tanto da figura como dos ditos de D. Quixote, e responderam:
— Senhor cavaleiro, nós outros não somos nem endiabrados nem descomunais; somos dois religiosos beneditinos, que vamos nossa jornada; e não sabemos se nesse coche vêm, ou não, algumas Princesas violentadas.
— Falas mansas cá para mim não pegam — disse D. Quixote — que já vos conheço, fementida canalha.
E sem aguardar mais resposta, picou o Rocinante, e de lança baixa arremeteu com o primeiro frade com tanta fúria e denodo, que, se o frade se não deixasse cair da mula, ele o faria ir a terra contra vontade, e até mal ferido, se não morto.
O segundo religioso, que viu o que se tinha feito ao companheiro, meteu pernas à sua acastelada mula, e desatou a correr por aquele campo, mais ligeiro que o próprio vento.
Sancho Pança, que viu por terra o frade, apeou-se do burro com a maior pressa, arremeteu a ele, e começou-lhe a tirar os hábitos. Acudiram dois moços dos frades, e perguntaram-lhe por que o despia. Respondeu-lhes Sancho Pança, que a fatiota lhe pertencia a ele legitimamente, como despojos da batalha, que seu amo D. Quixote havia ganhado. Os moços, que não entendiam de xácaras, nem percebiam aquilo de despojos e batalhas, vendo já afastado dali D. Quixote em conversação com as damas do coche, investiram com Sancho, e deram com ele em terra, arrancaram-lhe as barbas, moeram-no a coices, e o deixaram estendido como coisa morta.
O frade caído não se demorou um instante; todo temeroso e acovardado, ergueu-se, montou, e, logo que se viu a cavalo, picou atrás do companheiro, que a bom pedaço dali estava esperando em que pararia aquele ataque.
Não quiseram esperar mais pelo desfecho, e seguiram o seu caminho, fazendo mais cruzes, que se levassem o diabo atrás de si.
Estava D. Quixote, como já se disse, falando com a senhora do coche, dizendo-lhe:
— A Vossa formosura, senhora minha, pode fazer da sua pessoa o que mais lhe apeteça, porque já a soberba de vossos roubadores jaz derribada em terra por este meu forte braço; e para que vos não raleis de não saber o nome do vosso libertador, chamo-me D. Quixote de la Mancha, cavaleiro andante, e cativo da sem par em formosura D. Dulcinéia del Toboso; e em paga do benefício que de mim haveis recebido, nada mais quero senão que volteis a Toboso, e que da minha parte vos apresenteis a ela, e lhe digais o que fiz para vos libertar.
Tudo que D. Quixote dizia, estava-o escutando um escudeiro dos que acompanhavam o coche, e que era biscainho, o qual, vendo que o cavaleiro não queria deixar ir o coche para diante, mas teimava que havia de desandar logo para Toboso, fez frente a D. Quixote, e, agarrando-lhe na lança, lhe disse em mau castelhano e pior biscainho o que pouco mais ou menos vinha a parar nisto:
— Anda, cavaleiro, que mal andas; pelo Deus que me criou, que, se não deixas o coche, morres tão certo como ser eu biscainho.
Entendeu-o muito bem D. Quixote, e com muito sossego lhe respondeu:
— Se foras cavaleiro, assim como o não és, já eu teria castigado a tua sandice e atrevimento, criatura reles.
Ao que respondeu o biscainho lá pelo seu dialeto:
— Não sou cavaleiro eu? juro a Deus que mentes, tão certo como ser eu cristão; se arrojas lança ou arrancas espada, verás como te vai tudo pelo pó do gato; biscainho por terra, fidalgo por mar, fidalgo com os diabos; e, se o negares, mentiste.
— Agora o veremos, como dizia Agrages — respondeu D. Quixote.
E, atirando a lança ao chão, desembainhou a espada, embraçou a rodela, e arremeteu ao biscainho, de estômago feito para lhe arrancar a vida. O biscainho, que assim o viu sobrevir-lhe, ainda que se quisesse apear da mula, que, por ser das de aluguer, não era das boas, nem havia que fiar nela, o mais que pôde foi sacar da espada; e foi-lhe dita achar-se junto ao coche, donde pôde tomar uma almofada que lhe serviu de escudo; e logo se foram um para o outro como dois mortais inimigos.
A demais gente bem quisera pô-los em paz, mas não pôde, porque dizia o biscainho nas suasdescosidas razões que, se o não deixassem acabar a batalha, ele próprio mataria a sua ama e a quantos lho estorvassem.
A senhora do coche, pasmada e temerosa do que via, disse ao cocheiro que se desviasse algum tanto dali, e se pôs de longe a admirar a pavorosa contenda.
No decurso dela, deu o biscainho uma grande cutilada a D. Quixote, acima de um ombro por sobre a rodela, que, a dar-lha sem defensa, o abrira até à cintura. D. Quixote, que sentiu o peso daquele desaforado golpe, deu um grande berro, dizendo:
— Ó senhora da minha alma, Dulcinéia, flor da formosura, socorrei a este vosso cavaleiro, que, para satisfazer a vossa muita bondade, se acha em tão rigoroso transe.
O dizer isto, apertar a espada, cobrir-se bem com a rodela, e arremeter ao biscainho, foi tudo um, indo determinado de aventurar tudo num só golpe. O biscainho, vendo-o vir assim contra ele, bem entendeu por aquele denodo a coragem do inimigo, e determinou fazer o mesmo que ele; pelo que se deteve a esperá-lo bem coberto com a almofada, sem poder rodear a mula, nem a uma nem outra parte, que já de puro cansaço, e não afeita a semelhantes brinquedos, não podia dar um passo.
Vinha, pois, como dito é, D. Quixote contra o acautelado biscainho, com a espada em alto, determinado a abri-lo em dois; e o biscainho o aguardava assim mesmo, com a espada erguida, e escudado com a sua almofada.
Todos os circunstantes estavam temerosos e transidos à espera do que se poderia seguir de golpes tamanhos, com que de parte a parte se ameaçavam. A senhora do coche, e as suas criadas, faziam mil votos e promessas a todas as imagens e igrejas de Espanha, para que Deus livrasse ao seu escudeiro e a elas daquele tão grande perigo.
O pior que tudo é que, neste ponto exatamente, interrompe o autor da história esta batalha, dando por desculpa não ter achado mais notícias desta façanha de D. Quixote, além das já referidas.
Verdade é que o segundo autor desta obra não quis crer que tão curiosa história estivesse enterrada no esquecimento, nem que houvessem sido tão pouco curiosos os engenhos da Mancha, que não tivessem em seus arquivos ou escritórios alguns papéis que deste famoso cavaleiro tratassem; e assim, com esta persuasão, não perdeu a esperança de vir a achar o final desta aprazível narrativa, o qual por favor do céu se lhe deparou como ao diante se contará.

Miguel de Cervantes, em Dom Quixote de La Mancha

02/03/2025

Saudades impressas


Cadeiras vazias.
Na sala fatos e fotos.
Saudades impressas.

腰が空っぽ。
部屋の事実と写真。
挨拶文が印刷されています。

Elilson José Batista, em O Sol dá têmpera à espada-de-são-jorge

O geometrismo de Caetano de Almeida

8 1/2, (2024), de Caetano de Almeida

Quien supiera escribir!

O menino de joelhos sujos que chega em casa correndo e mal pode falar...
A velha dama que é agora obrigada a fazer renda para vender... de casa em casa, a coitada!... e que senta na ponta da cadeira, suspira discretamente e murmura: “A minha vida é um romance...”.
Aquela moça que diz: “Não quero ouvir isto!” e tapa os olhos...
Ah, quanta coisa deliciosamente quotidiana, quanto efêmero instante, eu não gravaria para sempre na memória dos homens, se…

Mário Quintana, em Sapato Florido

Canto III – Esquece


Todo camburão tem um pouco de navio negreiro.
Marcelo Yuka

Violência é o carrão parar em cima do pé da gente e fechar a janela de vidro fumê e a gente nem ter a chance de ver a cara do palhaço de gravata para não perder a hora ele olha o tempo perdido no rolex dourado.
Violência é a gente naquele sol e o cara dentro do ar condicionado uma duas três horas quatro esperando uma melhor oportunidade de a gente enfiar o revólver na cara do cara plac.
Violência é ele ficar assustado porque a gente é negro ou porque a gente chega assim nervoso a ponto de bala cuspindo gritando que ele passe a carteira e passe o relógio enquanto as bocas buzinam desesperadas.
Violência são essas buzinadas e essa fumaça e o trânsito parado e o outro carro que não entende que se dependesse da gente o roubo não demoraria essa eternidade atrapalhando o movimento da cidade.
Violência é você pensar que tudo deu certo e nada deu certo porque quando você vê tem um policial ali perto e outro policial ali perto querendo salvar o patrimônio do bacana apontando para a nossa cabeça um 38 e outro 38 à paisana.
Violência é acabarem com a nossa esperança de chegar lá no barraco e beijar as crianças e ligar a televisão e ver aquela mesma discussão ladrão que rouba ladrão a aprovação do mínimo ficou para a próxima semana.
Violência é a gente ficar com a mão levantada cabeça baixa em frente à multidão e depois entrar no camburão roxo de humilhação e pancada e chegar na delegacia e o cara puxar a nossa ficha corrida e dizer que vai acabar outra vez com a nossa vida.
Violência é a gente receber tapa na cara e na bunda quando socam a gente naquela cela imunda cheia de gente e mais gente e mais gente e mais gente pensando como seria bom ter um carrão do ano e aquele relógio rolex mas isso fica para depois uma outra hora.
Esquece.

Marcelino Freire, em Contos Negreiros

1558 – Yuste

Quem sou, quem terei sido?

Respirar é uma façanha e a cabeça arde. Já não caminham os pés, inchados pela gota. Deitado no terraço, o que foi monarca da metade do mundo espanta os bufões e contempla o crepúsculo neste vale da Extremadura. O sol já se vai, além da serra roxa, e os últimos reflexos pintam de vermelho as sombras sobre o convento dos jerônimos.
Com passo de vencedor entrou em muitas cidades. Foi aclamado e odiado. Muitos deram a vida por ele; e a muitos mais arrancaram a vida em seu nome. Depois de quarenta anos de viajar e lutar, o mais alto prisioneiro de seu próprio império quer descanso e esquecimento. Hoje fez que celebrassem uma missa de requiém por si próprio. Quem sou, quem terei sido? Pelo espelho, viu entrar a morte. O que mente ou o mentido?
Entre batalha e batalha, à luz das fogueiras, assinou mais de quatrocentos empréstimos com banqueiros alemães, genoveses e flamengos, e nunca trouxeram bastante ouro e prata os galeões da América. Ele que tanto amava a música escutou mais estrondos de canhões e cavalos que melodias de alaúdes; e no fim de tanta guerra seu filho, Felipe, herda um império em bancarrota.
Através da névoa, pelo norte, Carlos tinha chegado à Espanha aos dezessete anos, seguido por seu séquito de mercadores flamengos e banqueiros alemães, em uma infinita caravana de carretas e cavalos. Naquele então ele não sabia nem cumprimentar na língua de Castilha. Mas amanhã escolherá esta língua para despedir-se:
– Ai, Jesus! – serão suas últimas palavras.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Erasmo Carlos | A Carta

01/03/2025

Diário de Bernardo Soares | Ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa

7.

Hoje, num dos devaneios sem propósito nem dignidade que constituem grande parte da substância espiritual da minha vida, imaginei-me liberto para sempre da Rua dos Douradores, do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, dos empregados todos, do moço, do garoto e do gato. Senti em sonho a minha libertação, como se mares do Sul me houvessem oferecido ilhas maravilhosas por descobrir. Seria então o repouso, a arte conseguida, o cumprimento intelectual do meu ser.
Mas de repente, e no próprio imaginar, que fazia num café no feriado modesto do meio-dia, uma impressão de desagrado me assaltou o sonho: senti que teria pena. Sim, digo-o como se o dissesse circunstanciadamente: teria pena. O patrão Vasques, o guarda-livros Moreira, o caixa Borges, os bons rapazes todos, o garoto alegre que leva as cartas ao correio, o moço de todos os fretes, o gato meigo — tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo isso sem chorar, sem compreender que, por mau que me parecesse, era parte de mim que ficava com eles todos, que o separar-me deles era uma metade e semelhança da morte.
Aliás, se amanhã me apartasse deles todos, e despisse este trajo da Rua dos Douradores, a que outra coisa me chegaria — porque a outra me haveria de chegar?, de que outro trajo me vestiria — porque de outro me haveria de vestir?
Todos temos o patrão Vasques, para uns visível, para outros invisível. Para mim chama-se realmente Vasques, e é um homem sadio, agradável, de vez em quando brusco mas sem lado de dentro, interesseiro mas no fundo justo, com uma justiça que falta a muitos grandes génios e a muitas maravilhas humanas da civilização, direita e esquerda. Para outros será a vaidade, a ânsia de maior riqueza, a glória, a imortalidade... Prefiro o Vasques homem meu patrão, que é mais tratável, nas horas difíceis, que todos os patrões abstratos do mundo.
Considerando que eu ganhava pouco, disse-me o outro dia um amigo, sócio de uma firma que é próspera por negócios com todo o Estado: “você é explorado, Soares”. Recordou-me isso de que o sou; mas como na vida temos todos que ser explorados, pergunto se valerá menos a pena ser explorado pelo Vasques das fazendas do que pela vaidade, pela glória, pelo despeito, pela inveja ou pelo impossível.
Há os que Deus mesmo explora, e são profetas e santos na vacuidade do mundo.
E recolho-me, como ao lar que os outros têm, à casa alheia, escritório amplo, da Rua dos Douradores. Achego-me à minha secretária como a um baluarte contra a vida. Tenho ternura, ternura até às lágrimas, pelos meus livros de outros em que escrituro, pelo tinteiro velho de que me sirvo, pelas costas dobradas do Sérgio, que faz guias de remessa um pouco para além de mim. Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar — ou talvez, também, porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos por sentimento que o dar, tanto vale dá-lo ao pequeno aspeto do meu tinteiro como à grande indiferença das estrelas.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

O impagável Quino

Mito

Os cães do sono ladram
Mas dorme a caravana de meu ser;
Ser em forma de pássaro
Sonora envergadura
Ruflando asas de ferro sobre o fim
Dos êxtases do espaço,
Cantando um canto de aço nos pomares
Onde o tempo não treme,
Onde frutos mecânicos
Rolam sobre sepulcros sem cadáver;
E sonho outros planaltos
Por mim sobrevoados na procela;
E sonho outras legendas
Em mim argamassadas pelo vento,
Trabalhadas em mim por mãos sem tato;
E sonho o que foi parco
Mas meu e por que raro foi perdido;
E sonho o que foi vasto
Mas de alheio me pesa sobre os ombros,

Globo de ásperos pólos,
Continentes de medo
E mares onde o sangue é trilha e nódoa;
Deitado no vitral
Da noite intensa, exata,
Assim um Fazedor empunha o cetro
Ornado de serpentes;
Assim refaz o que foi feito à sua
Augusta semelhança
Contrafação de um gesto mais difícil
Sonâmbulo e remoto — contundente;
E enquanto nuvens quedam
De incenso carregadas, de semente,
Levanto-me e estrangulo
O ato de nascer que me divide
Em morna derrisão
Disforme difidência de um presságio;
O Fazedor anula
O inferno que o refina
E alçando-se ao poente mais seguro
Mergulha na verdade
Acesa que o derrota e reduz ao
Dormente ser de vidro e cor que sonha;

Os cães do sono calam
E cai da caravana um corpo alado
E o verbo ruge em plena
Madrugada cruel de um albatroz
Zombado pelo sol —

Mário Faustino, em O homem e sua hora

Chorar

O prazer profundo, inefável, que é andar por estes campos desertos e varridos pela ventania, subir uma encosta difícil e olhar lá de cima a paisagem negra, escalvada, despir a camisa para sentir directamente na pele a agitação furiosa do ar, e depois compreender que não se pode fazer mais nada, as ervas secas, rente ao chão, estremecem, as nuvens roçam por um instante os cumes dos montes e afastam-se em direcção ao mar, e o espírito entra numa espécie de transe, cresce, dilata-se, não tarda que estale de felicidade. Que mais resta, então, senão chorar?

José Saramago, em Cadernos de Lanzarote

O bolo


Eu estava viajando. A paisagem em que me encontrava era de uma grandeza e de uma nobreza irresistíveis. Sem dúvida nesse momento algo disso passou pela minha alma. Meus pensamentos volteavam com leveza igual à da atmosfera; as paixões usuais, tais como ódio e amor profano, pareciam-me agora tão afastadas quanto as nuvens que desfilavam no fundo dos abismos sob meus pés; minha alma parecia-me tão vasta e tão pura quanto a cúpula do céu pelo qual eu estava envolvido; a lembrança das coisas terrestres só chegava a meu coração enfraquecida e diminuída, como o som da campainha dos animais imperceptíveis que passavam longe, bem longe, na vertente de outra montanha. No pequeno lago imóvel, negro por sua imensa profundidade, passava às vezes a sombra de uma nuvem, como o reflexo do manto de um gigante aéreo voando pelo céu. E me lembro de que essa sensação solene e rara, causada por um grande movimento perfeitamente silencioso, me enchia de uma alegria misturada com medo. Em suma, eu me sentia, graças à entusiasmante beleza que me circundava, em perfeita paz comigo mesmo e com o universo; creio até que, em minha perfeita beatitude e em meu total esquecimento de todo o mal terrestre, acabei por não mais achar tão ridículos os jornais que pretendem que o homem nasceu bom; como então a matéria incurável renovava suas exigências, pensei em reparar o cansaço e aliviar o apetite causados por uma subida tão longa. Tirei do bolso um grande pedaço de pão, um copo de couro e um frasco de certo elixir que os farmacêuticos nessa época vendiam aos turistas para o misturarem, quando fosse o caso, com água de neve.
Cortava tranquilamente meu pão, quando um ruído muito leve fez-me erguer os olhos. Diante de mim estava um pequeno ser esfarrapado, negro, desgrenhado, cujos olhos encovados, ariscos e como que suplicantes, devoravam o pedaço de pão. Ouvi-o suspirar, com voz baixa e rouca, a palavra: bolo! Não pude deixar de rir ao ouvir a denominação com que queria honrar meu pão quase branco e cortei para ele uma bela fatia, que lhe ofereci. Lentamente ele se aproximou, sem que os olhos abandonassem o objeto de sua cobiça; depois, agarrando com a mão o pedaço, recuou abruptamente, como se tivesse medo de que meu oferecimento não fosse sincero ou de que eu já estivesse arrependido.
Todavia, no mesmo instante ele foi derrubado por outro pequeno selvagem, saído não sei de onde e tão perfeitamente parecido com o primeiro que seria possível tomá-lo por seu irmão gêmeo. Juntos rolaram pelo chão, disputando a preciosa presa, pois, sem dúvida, nenhum deles desejava sacrificar a metade para o irmão. O primeiro, exasperado, agarrou o segundo pelos cabelos; este pegou-lhe a orelha com os dentes e cuspiu um pequeno pedaço sangrento com um esplêndido palavrão em dialeto. O legítimo proprietário do bolo tentou enfiar suas pequenas garras nos olhos do usurpador; este, por sua vez, aplicou todas as forças para estrangular o adversário com uma das mãos, enquanto com a outra tentava enfiar em seu bolso o prêmio do combate. No entanto, reanimado pelo desespero, o vencido ergueu-se e fez com que o vencedor rolasse por terra com uma cabeçada no estômago. Para que descrever uma luta horrível que durou na verdade mais tempo que suas forças infantis pareciam prometer? O bolo viajava de mão em mão e mudava de bolso a todo momento; mas, infelizmente, mudava também de volume; e quando por fim, extenuados, ofegantes, ensanguentados, pararam pela impossibilidade de continuar, não havia mais, para dizer a verdade, nenhum objeto de batalha; o pedaço de pão tinha desaparecido, e estava desfeito em migalhas semelhantes aos grãos de areia com os quais estava misturado.
Esse espetáculo havia toldado para mim a paisagem, e a calma alegria em que minha alma se regozijava, antes de ter visto esses pequenos homens, tinha desaparecido por completo; fiquei bastante tempo triste com isso, repetindo-me constantemente: “Há, portanto, um país esplêndido onde pão se chama bolo, iguaria tão rara que basta para engendrar uma guerra perfeitamente fratricida!”.

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa