Os
cães do sono ladram
Mas
dorme a caravana de meu ser;
Ser
em forma de pássaro
Sonora
envergadura
Ruflando
asas de ferro sobre o fim
Dos
êxtases do espaço,
Cantando
um canto de aço nos pomares
Onde
o tempo não treme,
Onde
frutos mecânicos
Rolam
sobre sepulcros sem cadáver;
E
sonho outros planaltos
Por
mim sobrevoados na procela;
E
sonho outras legendas
Em
mim argamassadas pelo vento,
Trabalhadas
em mim por mãos sem tato;
E
sonho o que foi parco
Mas
meu e por que raro foi perdido;
E
sonho o que foi vasto
Mas
de alheio me pesa sobre os ombros,
Globo
de ásperos pólos,
Continentes
de medo
E
mares onde o sangue é trilha e nódoa;
Deitado
no vitral
Da
noite intensa, exata,
Assim
um Fazedor empunha o cetro
Ornado
de serpentes;
Assim
refaz o que foi feito à sua
Augusta
semelhança
Contrafação
de um gesto mais difícil
Sonâmbulo
e remoto — contundente;
E
enquanto nuvens quedam
De
incenso carregadas, de semente,
Levanto-me
e estrangulo
O
ato de nascer que me divide
Em
morna derrisão
Disforme
difidência de um presságio;
O
Fazedor anula
O
inferno que o refina
E
alçando-se ao poente mais seguro
Mergulha
na verdade
Acesa
que o derrota e reduz ao
Dormente
ser de vidro e cor que sonha;
Os
cães do sono calam
E
cai da caravana um corpo alado
E
o verbo ruge em plena
Madrugada
cruel de um albatroz
Zombado
pelo sol —
Mário Faustino, em O homem e sua hora
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