04/05/2024

Da visão e enigma | 1.


Quando, entre os marinheiros, correu a notícia de que Zaratustra se achava a bordo — pois um homem das ilhas bem-aventuradas havia subido juntamente com ele —, houve grande curiosidade e expectativa. Mas Zaratustra silenciou por três dias e estava frio e surdo de tristeza, de modo que não respondeu nem a olhares nem a perguntas. Na tarde do segundo dia, porém, abriu novamente os ouvidos, embora ainda se mantivesse calado: pois havia muita coisa estranha e perigosa a ouvir naquele barco, que vinha de longe e navegava para mais longe ainda. Zaratustra era um amigo de todos os que fazem longas viagens e não querem viver sem perigo. E olha! Enfim sua própria língua se soltou, à força de escutar, e o gelo de seu coração se rompeu: — então ele se pôs a falar assim:

A vós, ousados tenteadores, tentadores,99 e quem se haja uma vez lançado com velas astutas em mares terríveis, —
A vós, ébrios de enigmas, amantes do crepúsculo, cuja alma é atraída com flautas a todo abismo traiçoeiro:
— pois não quereis sentir e seguir um fio com mão covarde; e, onde podeis adivinhar, detestais deduzir —
Apenas a vós relato o enigma que vi — a visão do mais solitário. —
Recentemente caminhava eu, sombrio, por um crepúsculo pálido como um cadáver — sombrio e rijo, com lábios cerrados. Não apenas um sol havia declinado para mim.
Uma trilha que subia teimosamente entre os seixos, maldosa, solitária, não mais animada por ervas e arbustos: uma trilha de montanha rangendo sob a teimosia de meus pés.
Mudos, andando sobre o zombeteiro chiar do cascalho, pisando os pedregulhos que os faziam deslizar: assim meus pés forçavam o caminho para o alto.
Para o alto: — não obstante o espírito que os puxava para baixo, para o abismo, o espírito de gravidade, meu demônio e arqui-inimigo.
Para o alto: — embora ele estivesse em minhas costas, meio anão, meio toupeira; aleijado; aleijador; pingando chumbo em meu ouvido, pensamentos-gotas de chumbo em meu cérebro.100
“Ó Zaratustra”, cochichou zombeteiramente, sílaba por sílaba, “ó pedra da sabedoria! Tu te arremessaste para cima, mas toda pedra arremessada tem de — cair!
Ó Zaratustra, pedra da sabedoria, pedra da funda, destruidor de estrelas! Arremessaste a ti mesmo tão alto — mas toda pedra arremessada — tem de cair!
Condenado a ti mesmo e a teu próprio apedrejamento: ó Zaratustra, arremessaste longe a pedra — mas sobre ti ela cairá!”
Então calou-se o anão; e isso durou muito. Mas seu silêncio me oprimia; e estar assim a dois é, em verdade, mais solitário do que estar a um!
Eu subia, subia, sonhava, pensava — mas tudo me oprimia. Eu semelhava um doente ao qual seu triste martírio torna cansado e que é despertado, ao adormecer, por um sonho ainda pior. —
Mas existe algo, em mim, que chamo de coragem: até agora, sempre matou em mim todo desânimo. Por fim, essa coragem me mandou parar e falar: “Anão! Ou tu, ou eu!” —
É que a coragem é o melhor matador — coragem que ataca: pois em todo ataque há fanfarra.
O homem, porém, é o animal mais corajoso: assim superou qualquer animal. Com fanfarra superou também qualquer dor; mas a dor humana é a dor mais profunda.
A coragem também mata a vertigem ante os abismos: e onde o ser humano não estaria diante de abismos? O próprio ver não é — ver abismos?
A coragem é o melhor matador: coragem também mata a compaixão. Mas compaixão é o abismo mais profundo: quanto mais fundo olha o homem no viver, tanto mais fundo olha também no sofrer.
Mas coragem é o melhor matador, coragem que ataca: ela mata até mesmo a morte, pois diz: “Isso era vida? Muito bem! Mais uma vez!”.
Mas há muita fanfarra num dito como esse. Quem tem ouvidos, que ouça. —

Friedrich Nietzsche, in Assim falou Zaratustra

03/05/2024

Daquilo que eu sei | Ivan Lins e Orquestra da Ulbra

A mesa

O jornal dobrado
sobre a mesa simples;
a toalha limpa,
a louça branca

e fresca como o pão.

A laranja verde:
tua paisagem sempre,
teu ar livre, sol
de tuas praias; clara

e fresca como o pão.

A faca que aparou
teu lápis gasto;
teu primeiro livro
cuja capa é branca

e fresca como o pão.

E o verso nascido
de tua manhã viva,
de teu sonho extinto,
ainda leve, quente

e fresco como o pão.

João Cabral de Melo Neto, in Antologia Poética

Brincadeirinha!

 

A Formação do Jovem

Não que tenha sido a primeira conversa de homem para homem que tive com meu filho Bentão, mas acho que, desta última vez, fui ainda menos homem que ele do que da outra vez. A primeira vez foi na praia e, vergonhosamente, saí pela tangente, alegando a comissão de erros de português por parte dele, embora, é claro, ele fosse analfabeto na ocasião (ainda é, mas agora tem carteira de estudante). Nós estávamos dentro d’água e ele quis saber se podia me fazer uma pergunta. Claro que sim, respondi, com minha melhor cara de pai companheiro, aprendida nos filmes americanos.
— É uma pergunta difícil — disse ele.
— Qualquer pergunta para seu pai é difícil, ha-ha. Pode perguntar.
— Você dá beijo de novela em minha mãe, não dá?
— Eu o quê? Beijo de novela? Sim, beijo de novela. Bem, acho que sim, beijo de novela, claro, sim, acho que sim, de vez em quando eu dou uns beijos de novela nela. Vamos pegar siri?
— E você sente uma coisa?
— Sente uma coisa, como? Sente uma coisa? E... Não, é só um beijinho de novela, todo marido dá beijo de novela na mulher. Olhe ali, pegue aquele pedaço de pau, hoje está dando siri, vamos lá!
— Você sente um arrupeio?
— Hein? Um arrupeio?
— Eu vi um homem na televisão dando um beijo de novela na mulher e eles dois gemeram e ele deu um arrupeio. Quando você beija minha mãe, você geme e tem um arrupeio?
— Um arrup... Bem... Olha lá o siri, pegue o pau, olha lá o siri!
— Você sente um arrupeio, assim como o homem da televisão, assim, hrrrrrr?
— A palavra certa não é arrupeio! Arrupeio está errado, o certo é arrepio, arrepio, ouviu bem? Você...
— Você só diz arrupeio.
— Eu... Sim, eu digo arrupeio porque sou meio tabaréu sergipano, aprendi isso em Muribeca. Mas você nunca esteve em Muribeca e é no máximo tabaréu português, portanto tem que dizer arrepio e não arrupeio. Arrupeio é errado, ouviu bem? Aliás, o senhor já fez o dever de casa? Eu vou falar com sua professora e mostrar a ela que o senhor só sabe o B, o C e o H, assim mesmo com o nome de “escadinha”, e conta um-dois-quatro-nove-oito-dez, o senhor ouviu bem?
— Olha ali o siri, pai, pegue o pau, olhe o siri!
Mas não tinha siri nenhum por perto quando eu estava na sala, lendo o jornal, e minha mulher apareceu na companhia dele, que vinha com uma cara meio intrigada.
— Pronto — disse ela. — Converse aí com seu pai.
— Converse com o seu pai o quê? — disse eu, que ainda não tinha me recuperado do arrupeio.
— Ele precisa ter uma conversa de homem para homem com você.
— Conversa de homem para homem? Ele disse isso?
— Não, não disse. Eu é que achei que era conversa de homem para homem. Pai é pai. Bem, com licença, que eu tenho de ir lá dentro tratar o peixe.
— Tratar o peixe? Você, tratando peixe? Mentirosa! Você já ameaçou fugir de casa se tivesse que tratar peixe! Não existe essa conversa de homem para homem! Volte aqui! Mulher machista! Não me deixe sozinho aqui! Machista!
— Está bem, se você quiser eu fico.
— Não, tudo bem, besteira minha, eu compreendo essas coisas, besteira minha. Eu posso perfeitamente conversar com meu filho.
— Então tudo bem, eu vou lá para dentro.
— Está bem. Espere aí, só um instantinho. O que é que ele quer conversar?
— Ele quer saber o que é camisinha.
— Hein? O que é... Pra que é que ele quer saber o que é camisinha? Que ideia é essa? Volte aqui! Mulher machista, volte aqui! Se você me deixar sozinho aqui, é o divórcio, entendeu, é o tudo acabado entre nós hoje de madrugada! Fique aqui! Que cara é essa, por que este olhar fixo em mim?
— Eu estou esperando que você dê a explicação.
— Camisinha... Por que é que você quer saber o que é camisinha, Bentão?
— Eu vi na televisão. O homem disse que todo mundo deve usar a camisinha para não ficar doente no hospital. Você usa camisinha?
— Eu... Mulher!
— Você disse que podia perfeitamente conversar com seu filho.
— Sim, claro. Mas você podia ajudar, você bem que podia!
— Você me dá uma camisinha sua, pai? Se eu não usar a camisinha, eu também fico doente no hospital?
— Bem, a camisinha... Mulher, como é que eu faço?
— Se eu soubesse, eu fazia.
— Bem, meu filho, a camisinha... Vamos fazer o seguinte, depois eu explico, está bem? É um pouco complicado, eu vou pensar num jeito de explicar, está bem?
— Está. Mas você promete que usa a camisinha para não ficar doente no hospital? Eu não quero que você fique doente no hospital.
— Prom... Depois eu explico, depois eu explico, filho, está bem?
— Está. Essa televisão daqui passa no Rio de Janeiro?
— Mais ou menos. Quase tudo.
— Então pode não passar o aviso da camisinha e então eu vou telefonar para meu avô para ele usar a camisinha para não ficar doente no hospital.
— Telefonar para seu avô? Não, não precisa, o aviso passa lá, pode ter certeza. Eu explico depois, está bem? Depois.
Depois esse que ainda não chegou. Discuti a questão metodológica com a mulher. Para explicar a camisinha, tem de explicar tudo, não adianta enrolar. Como é, vamos comprar uns livrinhos desses em que a abelhinha voa de florzinha em florzinha, o galo pula em cima da galinha e o nenenzinho fica na barriguinha da mãezinha? Vamos ler uns livros de psicologia infantil e pirar de vez? Não, livro de psicologia infantil, não, jamais. Sabem do que mais? Vai ficar tudo por isso mesmo, não vou explicar coisa nenhuma.
— Mulher — disse eu, com sotaque sergipano que emprego nessas situações de liderança familiar —, já resolvi o que vou fazer. Não vou fazer é nada, isso é tudo encucação nossa, daqui a pouco ele esquece isso, não vai ter problema nenhum. A mim nunca ninguém ensinou nada, sabia? Nunca ninguém ensinou nada, entendeu?
— Eu sei, querido — disse ela.

João Ubaldo Ribeiro, in O rei da noite

Capítulo 135 | Oblivion

E agora sinto que, se alguma dama tem seguido estas páginas, fecha o livro e não lê as restantes. Para ela extinguiu-se o interesse da minha vida, que era o amor. Cinquenta anos! Não é ainda a invalidez, mas já não é a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um inglês dizia, entenderei que “coisa é não achar já quem se lembre de meus pais, e de que modo me há de encarar o próprio ESQUECIMENTO”.
Vai em versaletes esse nome. OBLIVION! Justo é que se deem todas as honras a um personagem tão desprezado e tão digno, conviva da última hora, mas certo. Sabe-o a dama que luziu na aurora do atual reinado, e mais dolorosamente a que ostentou suas graças em flor sob o ministério Paraná, porque esta acha-se mais perto do triunfo, e sente já que outras lhe tomaram o carro. Então, se é digna de si mesma, não teima em espertar a lembrança morta ou expirante; não busca no olhar de hoje a mesma saudação do olhar de ontem, quando eram outros os que encetavam a marcha da vida, de alma alegre e pé veloz. Tempora mutantur. E ela compreenderá que este turbilhão é assim mesmo, leva as folhas do mato e o farrapos do caminho, sem exceção nem piedade; e se tiver um pouco de filosofia, não invejará, mas lastimará as que lhe tomaram o carro, porque também elas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION. Espetáculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito aborrecido.

Machado de Assis, in Memórias Póstumas de Brás Cubas

Confissão de fé



Minha relação com o Rio de Janeiro não é celebratória. Ela é moldada no espanto que parte de uma constatação: a cidade, em meio ao cenário deslumbrante, foi forjada na espoliação dos habitantes originais, na violência da escravização, nos projetos higienistas das elites contra pretos e pobres.
Ao mesmo tempo, nas frestas dos projetos de aniquilação e morte, foram reconstruídos modos de vida e redes de sociabilidades, deglutidas e regurgitadas referências diversas, reencantados os territórios em terreiros, às margens, contra as instâncias do poder ou negociando com elas.
É uma cidade de grandes deslocamentos (a diáspora negra, o desterro de ciganos, judeus e portugueses pobres, a migração de nortistas e nordestinos) e de pequenas diásporas internas (derrubada de cortiços, remoções de comunidades, arrasamento de morros, gentrificações repulsivas).
Vem daí minha percepção de que o embate carioca é entre o corpo e a morte, o encanto e o desencanto, o confinamento e a rua. Por isso escrevo sobre sambas, macumbas, quermesses, procissões, botequins, carnavais, jogo do bicho, Maracanã, baile, gurufim, vigaristas, santos, fantasmas e casas portuguesas.
A intelectualidade que o Rio produziu – gente da estirpe de Pixinguinha, Paulo da Portela, Ismael Silva, Almirante, Ciata de Oxum, Noel Rosa, Ivone Lara, Lima Barreto, Padeirinho, Tata Tancredo, Mané Garrincha, Cartola, Heitor dos Prazeres, Zé Pelintra, dona Maria Mulambo, seu Sete da Lira etc. – não é filha da cidade cordata; é filha da cidade violenta. A despeito disso, ou talvez em virtude disso, subverte, resiste, negocia, ginga, dribla, se vinga gargalhando na esquina e criando arte.
A cidade disputada me interessa profundamente. Racionalmente, tento pensá-la e entendê-la; passionalmente, amo, odeio e aceito a sina riscada no chão com a pemba de fé e a vareta de pipa: é o meu lugar no mundo.
O Rio de Janeiro é minha circunstância naquilo que tem de melhor e pior: faca que risca o prato no samba e que fere e fura o bucho. O que faço é a tentativa provisória e incompleta de entender a capacidade de criação de beleza no inferno, entre fragmentos e estilhaços de espantosa vida.
Eu não acredito na cidade, mas acredito no samba.

Luiz Antonio Simas, in Crônicas exusíacas e estilhaços pelintras

02/05/2024

Chico César e Brasil Jazz Sinfônica | Beradêro

Mente tranquila

É factível viver com uma mente tranquila e livre de compulsões mesmo caso todos clamem contra você o quanto quiserem e caso feras rasguem em pedaços os membros dessa matéria amassada crescida em seu entorno.
Em meio a tudo isso, o que impede a mente de preservar a tranquilidade, um julgamento justo sobre os arredores e a prontidão para usar bem os objetos apresentados? O julgamento, então, poderá atestar o seguinte para o que observar: “Esta é a sua substância, ainda que discordem.” O uso atestará para o que cair em suas mãos: “Isto é exatamente o que eu procurava, pois, para mim, tudo que se apresenta é matéria para o exercício da virtude racional e política e da arte pertencente ao homem e a deus.” As ocorrências se relacionam com deus ou com o homem. Não são novas ou difíceis de manusear. São matérias usuais e propícias para o trabalho.

Marco Aurélio, in Meditações

A implosão da mentira e outros poemas | 3

Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente,
mas o tribunal que o julga
herege/mente.

Mentem como se Colombo partindo
do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, 
iludindo a corrente em curso, 
transformando a história do país
num acidente de percurso.

Affonso Romano de Sant’Anna, in A implosão da mentira e outros poemas

Hagar, o Horrível

Roçar a língua de Luís de Camões

Este livro não é uma história aprofundada da língua portuguesa — ou da língua portuguesa brasileira, ou ainda da língua brasileira, para quem prefere essas denominações. No momento, eu não quero nem mesmo tentar resolver essa questão dos nomes. No fundo, esse não é o maior dos nossos problemas, nem o mais premente.
Como professor e usuário desse idioma, eu me beneficio o tempo todo da leitura de textos acadêmicos e de interesse geral que, esses sim, têm o tamanho, o escopo e a solidez para permitir análises mais aprofundadas. Muitos deles, inclusive, aparecem na lista de leituras recomendadas no fim deste livro. Eles estão lá para quem sentir vontade de se informar melhor sobre algum dos temas que encontrar por aqui.
O meu objetivo é mais modesto.
Eu pretendo fundamentalmente expor as etapas do trajeto de formação da língua que nós falamos todos os dias. Iluminar quanto de um passado muito antigo às vezes se esconde por trás de algo que, para nós, é tão presente quanto o ar à nossa volta. Elencar, também, as diferentes tradições, culturas e povos que contribuíram para a formação do nosso idioma: a família gigante que possibilitou que hoje você fale o que fala, e que fale como fala.
A ideia, com isso, é te levar a fazer perguntas, a pensar mais detidamente sobre coisas que talvez você nem conhecesse ou que até aqui pode ter visto sem prestar muita atenção. É como naquela famosa piada dos peixes que não sabem responder à questão “Como está a água?” porque nunca pararam para se perguntar o que é a água, de tão literalmente imersos estão nela — nossa relação com o idioma que falamos desde o berço pode nos passar quase despercebida. Esse idioma forma nosso mundo de maneiras tão profundas e tão incontornáveis que talvez, sem ajuda, a gente nunca chegue a parar de verdade para pensar sobre ele.
Mas podemos tentar.
Outro complicador, surgido em várias conversas sobre o tema, é que nós, como sociedade, fazemos com o nosso passado o mesmo que qualquer pessoa faz no nível individual. Com o passar do tempo, vamos montando uma história que parece coerente e que funciona bem para explicar o estado de coisas que queremos compreender hoje, nos termos que queremos ver vigorar hoje. Ou seja, vamos selecionando alguns fatos, deixando outros de fora até serem esquecidos, organizando os restantes em belas cadeias de “explicações” e depois transformando essa narrativa (que nunca deveria deixar de ser vista como apenas uma entre várias possibilidades) numa história com ares de coisa sagrada, inquestionável, exatamente porque ela explica não o mundo como ele é, mas o mundo que corresponde ao que queremos ver. Nós editamos a história para que ela responda às perguntas que são importantes para nós neste momento.
E a história da língua que falamos não é uma exceção a essa regra, sendo também alvo de simplificações e carecendo de necessárias revisões periódicas.
Mas no caso do nosso idioma essa trajetória de visões e revisões, que idealmente seguiria rumo a uma percepção cada vez mais fiel, acaba sendo atravancada de uma maneira toda sua. Isso porque cada falante se sente (devidamente) dono da língua, e assim ele tem, por vezes, dificuldade para ouvir opiniões que contrastem com o que acredita saber perfeitamente bem. Todo falante se julga uma autoridade em questões de língua. E isso pode fazer com que certas “verdades” ganhem uma couraça: fica difícil mostrar que devem ser questionadas.
Dentre as pretensas verdades que existem na relação dos brasileiros com a sua língua está a estranha e paradoxal tendência de descreditar nossa posse do idioma. Assim, parecemos teimosamente dispostos a crer em discursos que relativizem o nosso domínio da língua. Esses discursos podem vir da escola, da imprensa, de certa tradição gramatical, e acabam determinando de maneira muito nítida a imagem que o falante tem de si próprio e de sua competência, criando a mais do que conhecida ideia de que ninguém “fala certo” no Brasil; seja porque o português é uma língua terrivelmente difícil, seja porque somos todos uns broncos, uns ignorantes (ao contrário, é claro, dos portugueses).Podemos dar início à conversa refletindo um pouquinho sobre essa primeira ideia encouraçada, só para ilustrar o tipo de questionamento que pode surgir aqui. Vamos começar pela hipótese (tantas vezes repetida) de que o português é uma língua particularmente complicada.
Talvez a primeira coisa em que as pessoas pensem quando mencionam essa ideia seja a morfologia. Em específico, as formas do verbo. E, até certo ponto, é verdade que a nossa morfologia verbal (aquelas formas todas que o verbo adota quando muda de pessoa, número, e tempo — eu faço, você fazia, eles farão) é relativamente rica. Sobretudo se você a compara com a do inglês, tão mais compacta.
Contudo, vale dizer logo de saída que, na verdade, o inglês é que é a língua anômala nessa comparação. Quem precisa se explicar são eles!
Todas as línguas mais proximamente aparentadas ao inglês (o frísio, o holandês, o sueco, o alemão) se assemelham mais à nossa nesse quesito. Alguma coisa aconteceu na história do inglês para que esse idioma se comporte hoje de maneira tão singular. E esse mesmo acontecimento, que no caso deles ocorreu nada menos que duas vezes, vai aparecer depois em nossa conversa sobre a língua brasileira: trata-se da situação em que um grande grupo de adultos precisa aprender um idioma novo em condições difíceis. Isso não pode deixar de marcar um idioma, e normalmente na direção do que parece ser uma simplificação de suas formas.
A segunda coisa importante a mencionar é que existem muitas, mas muitas línguas com morfologias bem mais complexas do que a nossa (o russo é um caso óbvio). E quando eu digo “bem mais complexas” quero dizer “bem mais complexas”. Mas para ficarmos com um exemplo de fato radical, vamos pegar o archi, língua falada na antiga república soviética do Daguestão. Só para você ter uma ideia, estima-se que em archi um único verbo possa assumir mais de um milhão de formas diferentes em situações reais de uso. Em outro campo, se você acha muito ter que decorar quatro formas de um adjetivo — masculino, feminino, singular e plural (bom, boa, bons, boas) —, imagine esse processo em sânscrito, que, para começo de conversa, tem singular, dual e plural, masculino, neutro e feminino, além de oito casos nominais que variam de acordo com a função da palavra na frase. No limite, isso produz 72 formas diferentes da palavra.
Por outro lado, línguas com sistemas morfológicos que tendem à economia e à contenção, a exemplo do mandarim na China, e mesmo do dinamarquês, podem se caracterizar por um altíssimo grau de complexidade em outros níveis de análise. Como em seus sons. Talvez você até saiba disto, mas em línguas tonais, como o mandarim (e várias línguas asiáticas, africanas e indígenas do Brasil), é preciso, digamos, cantar as sílabas para alterar o sentido ou a função das palavras na frase. E o dinamarquês, embora não seja tonal, tem 27 sons vocálicos distintivos.
[…]

Caetano W. Galindo, in Latim em pó: Um passeio pela formação do nosso português

Canção da vida breve


... cousas do mundo, humas que vão, outras que vem, outras que atravessão, e todas passão.
Padre Antonio Vieira: Sermão da Sexagésima, 1655

Ao pôr do sol, na hora doce da luz tépida, o quintal se cobriu de neve. Uma neve branca, perolada, com longes de azul e nácar, descendo em ondas sucessivas e frementes, numa agitação que enchia de sussurrante música imperceptível os galhos oscilantes e as coisas imóveis. Tijolos, telhas, a face do tanque humilde, a pirâmide residencial, os tufos das samambaias, as folhas dos crótons e dos tinhorões, o triste capim atapetador, as roseiras floridas no abandono, recobriram-se de um manto trêmulo e sutilmente sonoro de asas inquietas.
Eram as efeméridas.
A aragem lenta da tarde arrastando-as da lagoa, atirava-as como nuvens palpitantes de confete para a melancolia dos quintais despovoados. Tudo se transformou sob aquela grandeza feita de mínimos, oceano sem fim onde se viam as gotas que o constituíam. Uma como cantiga silenciosa e perceptível tremulava no ar, fazendo-o colorido e palpável pelas miríades e miríades de efeméridas volteando, tontas e leves, na ânsia do amor e da morte na tarde vagarosa de verão.
Viveram em metamorfoses, da larva aquática ao animal adulto, vinte mudanças de pele, três de forma, em 36 meses de mutação. Agora, com dois pares de asas reticuladas, o corpo de um centímetro prolongando-se em três fios delicados e impalpáveis, atravessam o espaço num bailado deslumbrado de emancipação e de sacrifício.
Todos esses anos de preparação orgânica convergiam para o destino de fazê-las nascer no mesmo dia para que tivessem o esplendor de uma única iniciação coletiva.
Este é o dia da maravilha do voo, ostentação suntuosa de cores claras, cintilantes e luminosas, nas derradeiras claridades do crepúsculo. É sua festa única, primeira e final, experiência e despedida da força impulsionadora das asas e do sexo. Durante três anos foram criadas para viver uma hora frenética, impaciente, imortal. Uma hora de intensidade total como nenhuma outra espécie. Toda a tentação da Natureza generosa sacode-lhes o corpo num desejo que deve ser satisfeito em minutos. Desejo de movimento com as asas de seda transparente. Fome de amor para a vibração do sexo ainda virgem de contato.
Não se alimentarão. Não têm boca nem aparelho intestinal. Não levarão da terra senão as lembranças do voo espiralado e junção fulminante. Sua massa impalpável e sem conta cairá sobre as águas da lagoa num lençol de metros e metros e numa elevação de centímetros, cevando, fartando todos os peixes. Os quintais vizinhos estão mudados em jardins suspensos e ondulantes, naquela palpitação que enche os telhados, escorrega pelos beirais, juncando o solo de prata que estremece. Para qualquer direção o olhar avista somente o turbilhão das asas minúsculas esvoaçando sua dança de alegria mortal.
Milhões de casais revoluteiam nas núpcias luminosas e trágicas. As fêmeas fecundadas deporão na água o ovo brilhante e pequenino como uma joia, para viver três anos e sonhar a participação naquele espetáculo tempestuoso de júbilo e de dor instantâneos.
E todos desaparecerão, esgotados, evaporada a essência vital nos diminutos corpos de seda reluzente.
Que mudança nos hábitos do canto de muro! Todos os animais deixaram suas tocas. Os pássaros prolongaram o expediente das caçadas. Os insetos e batráquios anteciparam os horários da colheita vivente. Mandíbulas e bicos fartam-se naquele pasto inesgotável e fácil. As efeméridas voam ao rés do chão, tentando os apetites. Na altura dos ninhos, outras colunas densas piruetam, sedutoras.
O ar fica cheio de asas, somente asas sem corpos, flutuando como destroços do mundo desaparecido e veloz. E vêm descendo como pétalas brancas, lentas, bem lentas, para enfeitar o chão.
Toda a região teve a visita da multidão estranha. Os ventos da noite levaram para longe os cadáveres alados que desafiavam a gravidade. Ainda pela manhã a luz mostrará uma ou outra asa pairando, indecisa, no alto, inacreditável, tênue, melancólico vestígio da prodigiosa aventura…
Não raro, nem comum é o vento nordeste sacudir uma onda interminável de borboletas alaranjadas, com laivos de açafrão nas asas impacientes. O grosso da expedição passa mais alto, por cima das árvores, dando uma breve sombra fugidia de sua multidão. Miríades pousam em descanso fortuito que a fome animal muda definitivamente a estada. Diz-se apenas “enxame de borboletas” mas é o panapaná, a migração em massa, miraculoso caudal, vida que alaga o quintal como numa ruptura de porta de água. São como uma vaga de asas trêmulas, oscilando em cadência ou ficando paradas, a prumo sobre o corpo, expondo as cores atraentes numa amostra curta de beleza emigrante. Árvores, telhas, recantos desaparecem sob as camadas vivas que ficam, num frenesi, voejando rasteiras, subindo em perpendicular e caindo nas verticais como se faltasse alento substancial para a jornada maravilhosa.
Gabriel Soares de Sousa viu-as (1587) cobrindo dez léguas de lonjura entre a cidade do Salvador à outra banda a baía, num dia inteiro de desfile. Henry Walter Bates olhou-as, de sol a sol, perto de Óbidos, em dois dias de trânsito incessante. Detiveram, com sua massa palpitante, o navio em que viajava Teófilo de Andrade no Rio Paraná, em ciclo de desova que lhes custava a vida.
Vão do norte para o sul e não deixam no recinto do quintal nem uma relíquia de sua futura descendência. Trata-se de migração misteriosa, para fins de acomodação vital, fugindo a algum inimigo invencível e novo. Não são comuns nem raras. Afogam com o volume exuberante as fomes das espécies famintas. Durante horas atravessam os terrenos, abatendo-se aos milhares, perdendo-se no capim curto, entre as pedras, nas barrocas lacustres, imóveis nos montões de folhas secas que o vento amontoou. São as patrulhas exaustas, as colunas trôpegas, extenuadas, pousando para sacrificar-se no descanso que significa possibilidade de morte. As águas da lagoa próxima e do pequeno tanque desaparecem sob suas asas de cores pálidas, levemente agitadas por um sopro de vida.
Os animais, vorazes e atrevidos nos primeiros momentos, recuam diante daquela caça que se tornou agressiva na passividade e desprestigiada pela esmagadora abundância. O chão parece vestido de asas de ouro-claro e açafrão. Bruscamente retomam o voo lerdo, batendo muito as asas, tentando acompanhar o estado-maior distanciado no céu crepuscular. Vão ficando pelo caminho, perdendo a formação regular, abatendo-se nas curvas, desgarradas e fracas, semeando no percurso da viagem um raro terreno de corpos e asas despedaçadas.
Na manhã seguinte ou no correr do dia inesperadamente reaparece uma borboleta aturdida de sol, retardatária, em voo desesperado e último ao rés do campo, despedindo-se da vida breve. É uma surpresa vê-la erguer-se dos recantos ignorados e mostrar um instante, como cavaleiro perdido em campo inimigo e cruel, as cores heroicas de sua falange desaparecida.
Os que habitam o canto de muro sabem destas vidas intensas e luminosamente passageiras. Apenas homens de estudo conhecem outras existências que a limitação do volume tornou invisíveis para os interesses comuns da terra. Jamais figurarão nos livros de imaginação, romance ou poemas, porque não apareceram ao alcance dos olhos criadores de romancistas e de poetas. No comum dos volumes estão indicados nos vagos etc. generalizadores. São quase animálculos, revelados pelas réstias de sol, tornados sensíveis quando próximos, passeando num rebordo de folha ou subindo, laboriosamente, por um grão de areia. Voando, soltos, libertos, em pleno ar, são invisíveis. Parecem grãos microscópios de uma semente que estremece sob nossos dedos rústicos. Têm uma história, uma fisiologia, uma vida organizada, costumes, idiossincrasias, prazeres, vícios, paixão, lutas, amores. Têm um lar, uma fêmea, filhos, épocas de paixão, ciúmes, zonas ecológicas em que vivem, migrações, viagens e, quem sabe lá, heróis famosos, memórias de façanhas, de jornadas valentes através de mundos terríveis, talvez do tronco da mangueira ao primeiro tijolo da pirâmide. Conhecem animais monstruosos como Licosa e Titius, numa sensação semelhante à nossa deparando dinossauros em vez de elefantes e plesiossauros no canto dos lagartos familiares. Devem sentir dor, sono, cansaço, raiva, ódio, fome. Devem ter amigos, desafetos, antipatias, companheiros, aliados, cúmplices. Nunca os podemos ver, a olhos nus, como realmente são. Obras-primas de delicadeza organizada, de precisão fisiológica, de exatidão funcional, têm raríssimos amigos entre os homens e nunca mereceram, numa página exclusiva, o registro indispensável de sua biografia sedutora.
Todo este esplendor vive horas, dias, semanas, meses apenas. Sem ele várias espécies pereceriam e na falta destas uma cadeia inteira de utilidades relativas ao homem deixaria de existir. Aquela partícula vibrante que se debate, como uma poeira que é o seu grupo, num raio de sol, é o alimento que, de grau em grau, atinge o rei da Criação numa dependência de necessariedade preciosa.
Há nele substâncias químicas indispensáveis a outras vidas superiores e escravas de sua existência. Sua presença invisível é tão poderosa como um ácido para os mistérios da fermentação, de uma base, de um sal. Ele representa na sua humildade um elo infalível na seriação vital.
Estes bandos de libélulas lembram os velhos monoplanos do meu tempo de menino. Monoplano de Blériot que atravessou o Canal da Mancha, o Demoiselle de Santos Dumont. As duas asas extensas garantem aos olhos profanos uma base de sustentação absoluta. Os dois grandes olhos salientes são faróis. Apenas voam com as patas pendentes, sem recolher o trem de aterrissagem. Não têm deslocação silenciosa e sim atritam como simulando o pequeno motor. Nada têm de decorativas e sim figuram como aviões de caça aos insetos, colhendo-os no ar e indo devorá-los num galho, como fazia um gavião astuto. Mas é um encanto quando descem num voo picado à superfície do tanque e tocam-na, de passagem, como provando a estabilidade incomparável do aparelho. Não foram beber água. Aquele salto vertical foi uma manobra de caça. Agarram com as mandíbulas de aço fino um besourinho que corria e que nenhum olho humano jamais há de ver sem um cristal aumentador. Mesmo no tanque há uma ou outra mancha lívida, lembrando longinquamente umas gotas de óleo, tornando mais densa e visível a superfície. São apenas os planctos. Ali estão microanimais e vegetais responsáveis pela fauna aquática. Com eles a ictiofauna está garantidamente normal. São quase imperceptíveis mas representam mundos de vidas diversas, diferenciadas morfologicamente, com uma variedade de aspectos que passam do imponente ao ridículo. Este plancto serve para provar a previdente Natureza. No tanque não há peixe algum. Se houver, quando houver, não desaparecerá por falta de almoço. Creio que Dica, a aranha-d’água, não é freguesa destes planctos. Aí tomam banhos as aves, especialmente o bem-te-vi que chega às vezes a molhar-se inteiramente, não podendo voar e ficando, meio desconfiado, a enxugar-se, andando para lá e para cá, à sombra dos tinhorões.
A impressão de que o quintal está vazio é uma mentira dos sentidos. Piolhos, pulgas, cupins, mosquitos, moscas derramam-se por todos os recantos. Na casca das árvores, como se tivessem atirado punhados de farinha parda ou esverdeada, sugam a seiva os afídeos que se dão ao luxo de procriar com vinte dias de nascidos. Exsudam um líquido adocicado que as formigas vêm lamber, pressurosas. Estes pulgões são as vacas leiteiras das formigas, Aphis formicarum vacca, dizia Lineu.
Há besouros pequeníssimos, coloridos deliciosamente, com um ritmo vistoso e sugestivo que espera dar exemplo às fazendas destinadas às mulheres. Dificilmente posso vê-los. Estão sempre apressados em missões que devem ser importantes. Cabem dez deles na polpa do meu dedo. Miniaturas incomparáveis, de acabamento miraculoso, só aos técnicos oferecem as alegrias visuais de sua contemplação.
Na mancha úmida ao redor do tanque, perto da casa do mandarim Fu, a luz ocídua clareia um bailado torvelinhante de mosquitos de platina. Vão até uns três metros de altura na mesma intensidade de inacabável arabesco do Alhambra e descem, impecáveis, certos, infalíveis, até o chão. Horas dura a exibição desta movimentação febril e lúdica. Lembram as efeméridas múltiplas e radiosas, epi, durante, himera, dia, vivendo num dia a existência mutante e obscura de larva e ninfa.
É também uma ostentação amorosa, um baile de núpcias, uma conquista sexual pelo irrequieto dinamismo do volteio ascendente e descendente, convite que envolve o conúbio e termina na morte delirante, no ar, à luz, ao impulso espiralado da festa de todos os sentidos.
Mas, como qualquer festa, é júbilo passageiro, alegria rápida, fulgor veloz, sonho fugaz. Mais algumas horas e todos os bailarinos estarão mortos. Mas o quintal não se despovoará. Outra multidão retomará o ritmo do baile instantâneo, vivendo o momento álacre e sonoro das núpcias entre lampejos de sol e cantigas de vento.
Todos os anos, olhados pelas folhas e pelas flores, banhados na luz do crepúsculo, mirados pelas primeiras estrelas, os insetos, vestidos de seda e prata, bailarão para amar, perpetuar-se e desaparecer…
À flor da terra, debaixo dela, quantidades desmesuradas de vidas lutam e passam com tarefas miríficas de fecundação. Cada espécie visível corresponderá aos centos das que jamais veremos normalmente, colônias de bactérias em guerras contra outras, multidões de parasitas, surpresas de simbioses, animais misteriosos, formas indecisas, funções confusas mas possuindo destino, caminho, finalidade.
Milhares de minhocas, vermes, larvas procuram sobreviver e resistir. Todo um universo estuante, impetuoso, com a impiedade, violência, tempestade da defesa vital, debate-se nos limites deste canto de muro, humilde, pobre, silencioso, deserto.
E todas estas vidas escoam rápidas, num minuto de tempo, mas deixaram continuidade, sequência, perpetuidade.
Não somente as rosas sabem viver, em beleza, o espaço de uma manhã…

Luís da Câmara Cascudo, in Canto de Muro

01/05/2024

Índia | Gal Costa

trapos, garrafas, sacos

lembro
na minha infância o som
de:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”

foi durante a
Depressão
e você podia ouvir as
vozes
muito antes de avistar a
velha carroça
e o
velho
pangaré.

então você ouvia os
cascos
clop, clop, clop…

e então você avistava
o cavalo e a
carroça

e isso sempre parecia ocorrer
no dia
mais quente do
verão:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
oh
aquele cavalo estava tão
cansado…
fios de saliva
branca
babando
sempre que o freio se enterrava
em sua
boca

ele puxava uma carga
intolerável
de
trapos, garrafas, sacos

vi seus olhos
imensos
em agonia
suas costelas
expostas

as moscas gordas
circulavam e pousavam sobre
falhas em seu
couro.

às vezes
um de nossos pais
gritava:
“Ei! Por que você não
alimenta esse cavalo, seu
merda?!”

a resposta do homem era
sempre a
mesma:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”

o homem era
inacreditavelmente
sujo, barba por
fazer, vestindo um chapéu
de feltro manchado e
roto

ele
se sentava sobre
uma enorme pilha de
sacos
e
vez ou
outra
quando o cavalo parecia
vacilar
um passo

esse homem
sentava-lhe
o longo chicote…

o som era como o
disparo de um rifle

uma falange de moscas
se erguia
e o cavalo se
lançava para frente
renovado
os cascos resvalando e
escorregando no asfalto
quente
e então
tudo o que podíamos
ver
era a parte de trás da
carroça
e
o enorme monte de
trapos e garrafas
cobertos por
sacos
marrons

e
mais uma veza voz:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”

ele foio primeiro homem
que tive vontade de
matar

e
desde então
não houve
mais nenhum.

Charles Bukowski, in Miscelânea septuagenária: contos & poemas

A Contadora de Filmes | [17]


Agora, o que me causava inconvenientes – e dos grandes – eram os filmes com cenas de infidelidade conjugal. Aí, eu tinha de lançar mão de todo meu poder de fabulação e mudar o argumento, para não causar dor em meu pai.
Embora tivessem se passado uns bons pares de anos da fuga de mamãe, a ferida ainda sangrava, como ele dizia quando se embebedava.
Por isso, nós, além de não mencioná-la, tínhamos que evitar dizer ou fazer qualquer coisa que lhe trouxesse a lembrança dela; quando isso acontecia, o coitado acabava trancado no quarto, chorando amargamente em silêncio.
Como aconteceu no dia em que, depois de ver um filme espanhol, e para representar uma bailarina de flamenco, não me ocorreu nada melhor que pôr um dos vestidos que mamãe havia deixado em casa, um rendado, com bolinhas vermelhas, que ela gostava muito e que certamente não levou embora porque meu pai deve ter escondido.
Meu pai estava sempre escondendo aquele vestido, para que ela não usasse.
O vestido, que era perfeito para representar uma bailarina de flamenco, uma bailaora, com apenas um par de alfinetes pareceu ter sido feito sob medida para mim. Como acontecia com a maioria das meninas do deserto, embora eu ainda fosse fazer onze anos tinha o corpo demasiado desenvolvido para a minha idade.
Alguns homens diziam, com um brilho lúbrico no olhar, que o que fazia as meninas do deserto amadurecer antes do tempo era o salitre, não à toa elogiado em todas as latitudes como o melhor adubo natural do mundo.
Naquela noite, ao me ver com o vestido de mamãe, meu pai ficou lívido, jogou na parede o copo de vinho (o único que tinha sobrado em casa) e, cuspindo, me mandou tirá-lo.
A narração do filme foi suspensa e ele ficou três dias amuado no quarto, bebendo seu vinho numa caneca de porcelana.
Não deixou nem que o deitássemos na cama.
Toda noite, entre um ranger de parafusos oxidados, esticávamos os ossos de suas pernas para deitá-lo, e pela manhã os dobrávamos de novo para sentá-lo na poltrona.

Hernán Rivera Letelier, in A Contadora de Filmes

Memorabilia, de Angeli

Cadernos de Lanzarote | 18 de Junho de 1993

Recuperado (com alguns pequenos arranjos) de uma entrevista dada a um jornalista francês e nunca publicada: “Um livro aparece a público com o nome da pessoa que o escreveu, mas essa pessoa, o autor que assina o livro, é, e não poderia nunca deixar de ser, a par duma personalidade e duma originalidade que o distinguem dos mais, o lugar organizador de complexíssimas inter-relações linguísticas, históricas, culturais, ideológicas, quer das que são suas contemporâneas quer das que o precederam, umas e outras conjugando-se, harmónica ou conflitivamente, para nele definir o que chamarei uma pertença. Entendida a questão assim, e assumidas as consequências todas do que acabo de dizer, o primeiro ‘protagonista’ de Proust, por muito singular que pareça, é a França, e só depois dela, não obstante terem ‘principiado’ muito antes, é que vêm o Mundo e a Europa.”

José Saramago, in Cadernos de Lanzarote 

Ao que leva o amor

– (Eu te amo)
– (É isso então o que sou?)
– (Você é o amor que tenho por você)
– (Sinto que vou me reconhecer... estou quase vendo... falta tão pouco)
– (Eu te amo)
– (Ah, agora sim. Estou me vendo. Esta sou eu, então. Que retrato de corpo inteiro.)

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

Limitado pela aldeia


Dia desses me perguntaram, em uma rede social, sobre as razões que me levam a falar, escrever, cantar, compor, apenas coisas do Brasil. A pergunta, feita de forma gentil, clamava no final por mais opiniões minhas sobre o que acontece no mundão além de nossas fronteiras. Vesti a carapuça. Sou mesmo daqueles que tem uma visão muito precária do que acontece fora da aldeia. Tento responder.
Sou um homem comum, filho de mãe pernambucana e pai catarinense, criado por uma avó nascida no sertão das Alagoas, precariamente alfabetizada, e por um avô do litoral de Pernambuco com um pouco mais de estudo formal. Entre os meus familiares, fui o primeiro a terminar o ensino médio e a entrar numa universidade pública.
O Brasil em que fui criado passa longe, muito longe, de salões empedernidos, bancos acadêmicos, bolsas de valores, altares suntuosos, restaurantes chiques e esquinas elegantes. O Brasil dos meus olhos de criança e das minhas saudades de adulto é o dos campos de futebol, mercados populares, terreiros de macumba e rodas de samba.
Faço, do ponto de vista de minha vida profissional, exatamente o que queria fazer quando entrei na faculdade de História – dou aulas. Apesar de trabalhar com pesquisa, publicar livros e o escambau, meu negócio é mesmo ser professor.
Lido com alunos do ensino médio e do ensino superior. Prefiro os primeiros. Divirto-me com a garotada. Lecionar me permite não usar terno, gravata, sapato e cinto para trabalhar. Este foi, acreditem, um aspecto que pesou na escolha do babado.
Não tenho temperamento para ser dono de porríssima nenhuma. Fujo de responsabilidades que impliquem em dar ordens a alguém. Canto Noel, João do Vale, Wilson Batista, Geraldo Pereira e Pixinguinha enquanto trabalho e vejo nisso, como no batuque, um privilégio.
Dou aula sobre pecuária no Brasil Colonial puxando toada de boi-bumbá; falo da abolição da escravidão cantando o samba da Mangueira de 1988 e sou – por opção e formação – tamoio, inconfidente, conjurado, balaio, cabano, malê, farrapo, capoeira, jagunço e quilombola.
Peço licença ao invisível quando atravesso encruzilhadas.
Não ficarei rico nem a cacete e tenho a decência de não almejar fortuna. Não falta, porém, a comida na mesa e os caraminguás para fazer, vez por outra, uma graça com a mulher amada e tomar a cerveja gelada com os do peito. Acompanho o futebol e componho umas cirandas, afoxés e sambas. Tenho a vida simples e digna que todos os trabalhadores brasileiros merecem ter.
Acho um drible de Mané Garrincha mais elegante que desfile de moda, a feira de Caruaru mais sofisticada do que qualquer loja de grife, a dança do mestre sala mais nobre que o plié de um bailarino clássico e o gibão de couro de Luiz Gonzaga mais imponente que as fardas e galardões dos generais. Sou adepto da festa e das frestas, homem de ritos encantado pela solidão das toadas, comovido pelas marchas dos ranchos e enfeitiçado por curimbas de todo tipo.
Insisto, por tudo isso, em lançar sobre o Brasil uma mirada grávida de encantamentos, crenças, sons, defesas milagrosas, gols impossíveis, cheiros de litorais, aromas de florestas e afeto desmesurado pelo povo miúdo que, na sabedoria da escassez, reinventa a vida e civiliza o chão de onde vim e é a raiz melhor do que eu sou.

Luiz Antonio Simas, in Pedrinhas miudinhas, Ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros