06/11/2023

Mafalda

O rio Grande

O rio Grande ensinava preguiça. Escorria sonolento. Ia como quem não quer ir. Empurrado. O Heládio Brito, poeta, sabe o ser dos rios: “Eu vim de ver o rio, o frouxo ir das águas, pesadas delas mesmas, grossas das lonjuras vindas no irem sendo rio. Líquido boi cansado carregado de peixes...” . Guimarães Rosa, talvez contemplando o São Francisco, confessou o seu amor pelos rios. “Amo os grandes rios, pois são profundos como a alma dos homens. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade...” E Heráclito, o obscuro, filósofo grego, tomou o rio como a imagem do mundo. Tudo é rio. Tudo passa sem parar. Não se pode entrar no mesmo rio duas vezes. Assim era o rio Grande. Ensinava filosofia. Filosofia tao.
Mas, ao se aproximar de Lavras, o rio Grande era repentinamente espremido numa estreitíssima garganta de pedras, pela qual as águas passavam com fúria. Era o “funil” que passou a ser agregado ao nome da cidade que virou Lavras do Funil. Lugar de perigo. Muitos distraídos foram tragados pelas águas. Mas era um lugar bom de se pescar porque os peixes, subindo o rio manso em busca das nascentes, eram parados pela força das águas. Pesquei lá muitas vezes. Hoje não existe mais. Construíram uma barragem. O funil foi coberto pelas águas do progresso. Sua fúria amansou. Na fundura serena das águas não mais estranguladas pela garganta estreita os peixes nadam tranquilamente. Dali para baixo o rio ficava preguiçoso de novo, prestando-se à navegação. Foi então que homens progressistas da cidade de Lavras, entre eles o doutor Jorge, avô materno de minha mãe, e o seu genro capitão Evaristo, pai de minha mãe, tiveram a ideia de montar uma companhia de navegação que, começando no porto de Ribeirão Vermelho, a oito quilômetros de Lavras, desceria até Boa Esperança. O vapor, parecido com aqueles do rio Mississipi, veio dos Estados Unidos. Imagino que o seu transporte do Rio de Janeiro até Ribeirão Vermelho deve ter sido uma epopeia a se comparar com a epopéia do transporte da pedra do altar para o convento de Mafra descrito por Saramago, no seu livro Memorial do convento. Rio abaixo, de Ribeirão Vermelho a Boa Esperança, a viagem levava dia e meio. O vapor, elegante, era dotado de camarotes. Rio acima, três dias, duas noites sobre as águas. Devia ser bonito e silencioso. Foi nesse vapor que os casadinhos de novo, meu pai e minha mãe, viajaram naquele dia de começo de setembro do ano de 1919. Os ipês amarelos estavam em flor.
Aquele casamento ligava duas fortunas e dois sangues: um sangue ruim, misturado, e um sangue azul, supostamente puro. Mas plebeu que se casa com princesa fica nobre. A excelentíssima esposa do filho da dona Sophia tinha sangue azul e era pianista. Seu piano Pleyel, presente de casamento do capitão Evaristo, seu pai, em breve chegaria a Dores diretamente de Paris, alterando a estatística do Almanak. Realizava-se o sonho da dona Sophia.
O foguetório era para anunciar que os nubentes acabavam de desembarcar do vapor Doutor Jorge, no porto do rio Grande, depois de uma viagem de um dia e meio rio abaixo, desde o porto de Ribeirão Vermelho. Todo mundo tinha de saber. Naquele momento a comitiva estava a caminho, os homens cavalgando em selas e arreios, minha mãe cavalgando em silhão porque em Dores não havia liteira. Silhão, se é que você não sabe, foi a solução encontrada pelos artesãos defensores da castidade para evitar a indecência de uma mulher cavalgando de pernas abertas, como os homens. No silhão cavalgava-se assentado. De fato, era perigoso para uma mulher cavalgar de pernas abertas, mormente se fosse virgem. Havia sempre duas possibilidades, pelo menos na imaginação dos homens. Primeira, que a virgem viesse a perder sua virgindade, o que a infelicitaria pelo resto da vida, posto que o marido não acreditaria nas explicações que ela daria na noite de núpcias. Segunda, mais realista, que as pressões rítmicas da sela sobre as partes secretas da mulher viessem a lhe causar prazeres proibidos. Aqueles movimentos do cavalo, especialmente se for trotão, sugerem imediatamente os movimentos de um coito e os seus deleites, coisa que eventualmente era confirmada pelo sorriso de prazer da amazona. Ora, isso é incompatível com o caráter puro de uma excelentíssima mulher honesta. Mulheres honestas não gostam de sexo. Por isso a mulher tinha de ir assentada no silhão, pernas castamente fechadas, o seu cavalo a andar passo a passo, como se estivesse seguindo uma procissão.
O vapor Doutor Jorge, eu o vi 22 anos depois, quando tinha sete anos, afundado no porto de Ribeirão Vermelho. Dizem que a sua chaminé ainda pode ser vista hoje quando o rio está baixo.
Minha avó sorriu feliz. O seu sonho de nobreza, acrescentado ao da riqueza, estava realizado.

Rubem Alves, in O Velho que Acordou Menino

Capítulo dezasseis | O corpo tendente da Divindade


No extremo da ilha, a deitar por sobre o quarto mar, onde se sabia ser já terra menos abençoada, erguia-se o segredo de Pé de Urutago para que o instruíra Pai Todo. O segredo dos guerreiros de vocação para o voo se consumava ali, atarefados todos que estiveram com a mesma ciência, o mesmo silêncio. Era muito sem vocábulo. Tinha nome, mas necessitavam calar para que se cumprisse a própria Divindade, que pedira adiamento e nenhuma notícia. Não se haveria de perigar seus comandos e sua esperança.
O grande corpo de Pé de Urutago movia-se entre a estranha estrutura que era uma outra vegetação. Uma que não vinha de raiz, não cobria de verde, não brotava fruto nem flor. Era branca. Uma mata pálida que o guerreiro cuidava de não ser coberta ou devorada por parasitas de quaisquer espécies. Carregando o corpo do inimigo, tão ao contrário do que sabia a comunidade, o guerreiro tinha a seu cargo um outro ritual. Um que precisava de executar sozinho, sem ninguém. E ele levava o inimigo morto para o lugar aberto de uma pedra à altura de meia perna e o deitou para começar a cortar. Era sempre sem discurso, sem abrigo, sem canção, sem flauta. Era sem demora. Pé de Urutago separava a carne dos ossos e tomava também a cabeça que decompunha dente a dente. Ao avesso do que sabiam os abaeté, o guerreiro ofendia a cabeça do inimigo e usava sua boca que não mais desceria enterrada. Então, imaculadamente limpo cada galho ósseo, encarou a imensa estrutura e decidiu. Atou numa ponta, correu, atou na outra, juntou alguns dentes num canto, outros ao longe, subiu para deixar pequenos ossos como flores de sal ao cimo, desceu para cravar algo mais no chão, como se aquele esqueleto gigante de quinhentos guerreiros ganhasse um novo pequeno pé. E afastou. Galho por galho, à luz intensa da tarde, incandescia a alvura daquela bizarria. Incomensurável, ali estava a mata de osso que reunia por imaginação aquele que seria o corpo tendente da Verdadeiríssima Divindade. Era o corpo tendente da Divindade que haveria de descer quando estivesse no instante certo e deitaria carne viva sobre aqueles ossos e habitaria a mata de jeito concreto na companhia de toda a criação. Um dia, quando o guerreiro de vocação alada colhesse o osso do relâmpago, nada mais faltaria para que o novo tempo e a nova ternura iniciassem. Era a intuição a que haviam acedido todos os pajés e para a qual haviam educado todos os guerreiros esperados para subir o clarão.
A Divindade virá e amará o esforço, o engenho e a imaginação abaeté, depois, deitará carne sobre os ossos e moverá seu corpo imenso para caminhar entre a criação. Será de tão vasto tamanho, tão cheia de bocas e atonará tantos olhos que poderá escolher beijar cada um e cada fera, cada árvore e cada pedra, ou poderá escolher devorar até sobrar mais nada novamente. Deprimida com o torpe dos espíritos, cansada da criação, a Divindade poderá escolher mover o corpo para o fim de todos os tempos. O novo tempo seria não haver tempo nenhum.
Pé de Urutago entristeceu por haver ameaçado matar o pequeno Honra, um tão fiel e desafiado abaeté. Mas não o poderia deixar saber que movia um inimigo pela mata, excluído dos rituais de abrigo, excluído de toda a gentileza da comunidade educada por tanta ancestralidade. O grande guerreiro aumentou o corpo tendente da Divindade e regressou ao areal. Caminhando longamente por tanta terra que os abaeté consideravam apenas silvestre. Uma terra a ir embora, sem alegria, feras por acordar, povos de feras sem ofício na guerra ou na fome abaeté. Tanta coisa sem nome, medrando no puro silêncio. Para ali, ninguém abeirava. Dava horror e dava compaixão. Criado o mundo, muito do mundo era por ganhar valentia. Valia de nada para a comunidade dos bons. Certamente apenas apodrecia, sustentava bichos e ideias podres, e seria por isso que multiplicavam os brancos.
A mesma coisa pensou o guerreiro sempre ferido. O grande Pé de Urutago o ameaçou para esconder a matança de um inimigo excluído do abrigo e da dignificação abaeté. Honra pensou que Pé de Urutago emocionara e usava os mortos para sua emoção sem sentido, levando ali a cabo uma tarefa sem serventia, um desperdício e ofensa a tudo quanto era imposto à gentileza do povo das ilhas de três mares. O feio branco chorou. Caminhou por entre os ossos erguidos num esqueleto inexplicável, impraticável, e chorou. Não tinha compaixão pelos inimigos. Era bom que tombassem, era bom que Pé de Urutago os caçasse em tão tremenda abundância e os terminasse de qualquer ataque. O que comovia Honra era o medo que sentia pelos abaeté que se mascaravam. Aqueles que não vigoravam nos límpidos gestos chefiados, na inspiração tão antiga, na intuição de cada instante que os ancestrais generosamente noticiavam. A Voz Coral berraria de dor se houvesse de prestar atenção ao que ia ali por aquela terra já enjeitada. Mais se comoveu o guerreiro, até que Meio da Noite entoou:
e se não for maldade. E se for alguma tarefa por noticiar. Uma tarefa incompleta que aguarde por certo detalhe, um certo osso, que seja. Pode tudo isto aguardar um só inimigo. Um inimigo que depois permita explicar, mostrar à comunidade, oferecer à comunidade este resultado e sua ciência. Sagrado Honra, não te impressiones senão com o tamanho dos ossos, a beleza morta que aqui está. Pode ser que o guerreiro grande cumpra uma chefia que desconhecemos. Não me parece bom acusarmos nem questionar. Melhor não entoar nada sobre isto. Esperar. Ver o que ensina o tempo. Saberemos antes de todos porque já começamos a saber. E isso deve merecer calma, paciência, e toda a esperteza de nossa guerra. Não entoes sobre nossa guerra. Isto está no caminho de todas as nossas vitórias. Eu tenho a certeza. Isto fará parte de todas as nossas vitórias.
O feio branco não confiou, incandesceu os olhos sobre o amigo, agradeceu o esforço para o aquietar. Respondeu:
não sinto.
Meio da Noite perguntou:
e porque te comove que o grande guerreiro descumpra as chefias mais rigorosas quando tu mesmo resistes a cumprir e odeias tão avesso à natureza abaeté. Tanto que chego a admirar o teu ódio, a bravura que te dá, a fidelidade à vingança do povo.
O branco não respondeu. Seria incapaz de confessar que usava a cor como desculpa para ser torpe. Incapaz de uma aprendizagem gentil, Honra escudava-se na cor para ser torto. Queria que ser torto fosse sem culpa, para se corromper sem limite na voracidade de seus sentimentos. Viciava-se naqueles sentimentos. Odiar era caminho sem muito regresso. Talvez também nunca tivesse lugar de chegada. Era uma ida contínua, sem satisfação.
Tomou um osso à sorte, escolhido sem grande importância, e no lugar deixou a flauta que nunca haveria de esculpir. Melhor disfarçaria a raiva se desfeito do resto morto do inimigo que ele próprio tombara. Pensou. Menos raiva o haveria de acometer. E Pai Todo rebrilharia de orgulho quando desse com ele a tocar, a cantar as mais importantes canções.
O feio negro perguntou:
o que vais querer cantar.
Honra entoou:
canções graves. Tristes. Canções que nos estimem a inteligência mas permitam a consciência de alguma dor. Quero prosseguir com minha obrigação de chorar, sagrado Meio da Noite.
O negro entendia mal o ofício tão importante do choro. Por imitação, respondeu:
não sinto. Haverei de sentir.
Honra apenas pensou e Meio da Noite berrou vinte onças num lamento incontido. Por dor ou fúria, o negro berrou mais vinte onças, e o guerreiro branco temeu que sua pele fosse tocada e se afastou um pouco. Poderia ser o som daquele bicho. Ele mais pensou. Que vinte onças poderia ser o som daquele bicho, se a mata inteira de osso tivesse carne e se pusesse a caminhar. O guerreiro sempre ferido depois chamou:
sagrado Meio da Noite. Sagrado Meio da Noite.
Mas o negro era em lugar nenhum. Até sua pele parou de ser tocada. Como se os insectos que lhe pousavam ou subiam tivessem finalmente debandado. E ele, em sobressalto, novamente chamou:
sagrado Meio da Noite. Onde estás.
Então, o negro abeirou, refeito de uma sombra, e entoou que melhor seria que fossem em regresso. Honra duvidou se aquela prudência era do negro ou sua. Um insecto voltou a voar para seu ombro. Não o viu. Sentiu como quase lhe mordeu a pele. Olhou o negro e não confessou mas soube que não quereria mais ficar sozinho daquele amigo. Quando declarara que eram gémeos não havia mentido. Eram-no. Diferiam, mas não diferiam de ser opostos. Eram duas partes de uma ideia só. Agora, o guerreiro branco faria qualquer coisa por seu amigo que não lhe mentira. Provara que até a absurda coisa de uma mata de osso existia. Provara que não mentia. Era puro. O negro era puro. Inventado pelas mais gentis causas.

*

Então, caminho para a aldeia, Honra o avisou de que pedira por ele a Dois Amanhãs. Pediu que lhe mexesse o corpo. O negro saltitou na mata como os filhotes e brincou palavras brancas rápidas que o amigo não pôde entender. Honra, animando-se um pouco, afirmou:
vou brincar palavras também. As palavras abaeté mais belas que abrigam esperança e criam sorte.
Então, entoou:
o mar da flor, o doce do esquecimento, a feminina gentil, o filhote de tapir, a consciência tardia, o igarapé que salta, o pequeno igarapé, o muito grande igarapé, todas as cachoeiras, o beijo do tamanduá, o trovão da terra, o fogo das araras, as conversas das araras, as chuvas castanhas, o beijo do jacaré, há um jacaré no teu peito. Animal negro, tens um jacaré no peito e só ele te vai querer beijar alguma vez.
Rindo, Meio da Noite entoou:
o cheiro e o sabor das femininas. O cheiro e o sabor de Dois Amanhãs. Obrigado. Vou dormir a sonhar com as folias. Dois Amanhãs é bela. Como é bela a nossa feminina. Obrigado, sagrado Honra. Os povos negros rejubilam.
Saltitando sempre, apressados mata fora para a aldeia litoral, os feios tomavam suas lanças como se matassem originalidades pelo caminho. Vociferavam. Vociferavam muito, sem sentido nem compromisso. Então, num instante em que Honra se deteve para colher do chão o osso que deixara cair, Meio da Noite encheu o peito e berrou mais vinte onças. A mata partiu. Aves e roedores, feras felinas, insectos, aranhas e todos os bichos que pudessem dar passo ou salto partiram dali. Levantou-se o sopro vocabular do vento. Honra entoou:
como fede, e como é perfeito um berro assim.

Valter Hugo Mãe, in As doenças do Brasil

05/11/2023

Se Todos Fossem Iguais a Você | ft. Roxanne Hartog

Carrego seu coração comigo

Carrego seu coração comigo
Eu o carrego no meu coração
Nunca estou sem ele
Onde quer que vá, você vai comigo
E o que quer eu que faça sozinho
Eu faço por você
Não temo meu destino
Você é meu destino, minha doçura
Eu não quero o mundo por mais belo que seja
Porque você é meu mundo, minha verdade.

Eis o grande segredo que ninguém sabe.
Aqui está a raiz da raiz
O broto do broto e o céu do céu
De uma árvore chamada vida
Que cresce mais que a alma pode esperar
ou a mente pode esconder
E esse é o prodígio que mantém
as estrelas à distância.

Eu carrego seu coração comigo
Eu o carrego no meu coração.

E. E. Cummings, in Antologia Poética

A briga


Edward Bloom não era de briga. Ele apreciava demais os prazeres do discurso para recorrer a uma forma tão primitiva e geralmente dolorosa de resolver disputas. Mas sabia defender-se quando obrigado, e foi obrigado na noite em que levou Sandra Kay Templeton para um passeio de carro em Piney Mountain.
Três semanas tinham se passado desde seu primeiro encontro, e nesse intervalo muitas palavras foram trocadas entre Edward e Sandra. Eles tinham ido ao cinema juntos, tinham dividido alguns leites maltados, ele tinha até contado uma ou duas piadas. Simplesmente por ser quem era — nada mais, nada menos — meu pai estava conquistando o coração de minha mãe. As coisas estavam ficando sérias: quando ele tocava em sua mão, ela enrubescia. Ela esquecia o final das frases que tinha iniciado. Ela ainda não tinha se apaixonado por meu pai. Mas percebia que podia se apaixonar por ele.
Talvez ela tivesse que pensar mais a respeito.
Aquela noite seria uma parte importante de todo esse processo de reflexão. Era a noite do Passeio de Carro. Depois de andar sem destino certo por alguns quilômetros, eles chegariam no final de alguma estradinha sem saída, sozinhos na floresta escura, e, cercados pelo silêncio, ele se inclinaria até ela e ela se aproximaria imperceptivelmente dele, e eles se beijariam. Estavam indo por esse caminho quando pelo espelho retrovisor meu pai viu um par de faróis, pequenos a princípio, mas ficando maiores, descendo rapidamente pela estrada estreita e sinuosa de Piney Mountain. Edward não sabia que se tratava de Don Price. Sabia apenas que era um carro que vinha atrás deles numa velocidade perigosa, então diminuiu a marcha, para poder tomar uma decisão mais sábia caso acontecesse alguma coisa.
De repente o carro estava bem atrás deles, com os faróis refletindo no espelho retrovisor. Edward baixou o vidro e fez sinal para o outro passar, mas quando fez isso o carro bateu em seu para-choque. Sandra levou um susto, e meu pai tocou em sua perna para acalmá-la.
— Está tudo bem — ele disse. — Deve ser algum garoto bêbado.
— Não — ela respondeu. — É Don.
E meu pai compreendeu. Sem precisar de outra palavra, a situação ficou clara, assim como teria ficado cem anos antes numa cidade de fronteira no oeste e Don o tivesse encontrado no meio de uma rua de terra, com a mão no coldre. Aquilo era uma briga.
O carro de Don tornou a bater no para-choque, e meu pai apertou o acelerador. Edward tinha que provar que se o que Don Price queria era velocidade, ele podia ser veloz, e foi em alta velocidade que fez a curva seguinte, deixando Don Price para trás.
Mas em segundos ele estava de volta, não mais batendo no carro por trás e sim de lado, os dois carros tomando a estrada toda, indo em alta velocidade por colinas e curvas de uma maneira que teria feito parar corações mais fracos. Don Price desviava o carro para a pista de meu pai, e meu pai respondia da mesma forma, os dois carros encostados, porta com porta. Meu pai sabia que poderia dirigir por aquela estrada pelo tempo que fosse preciso, mas não estava certo quanto a Don Price, cujo rosto avistou de relance enquanto os carros oscilavam de um lado para o outro por causa dos solavancos.
Meu pai deu uma última acelerada no carro, passou à frente e virou o volante abruptamente, bloqueando a estrada com o carro. Don Price freou a centímetros de distância, e os dois saíram imediatamente dos carros, encarando-se, a pouca distância um do outro.
— Ela é minha — Don Price disse.
Ele era do mesmo tamanho que Edward, até um pouco maior na largura dos ombros. O pai tinha uma empresa de transporte de mercadorias, onde Don trabalhava durante o verão carregando e descarregando peças de trator, e isso dava para ver.
— Não sabia que ela pertencia a alguém — meu pai disse.
— Bem, agora você sabe, garoto de fazenda.
Don olhou para ela, ainda sentada no carro.
— Sandra — ele disse.
Mas ela não se mexeu. Ficou ali sentada, pensando.
— Nós vamos nos casar — Don falou para meu pai. — Eu a pedi em casamento, garoto de fazenda. Ou ela não disse para você?
— A questão é o que foi que ela disse para você?
Don Price não falou nada, mas sua respiração ficou ofegante e seus olhos se estreitaram, como um touro prestes a atacar.
— Eu poderia rasgá-lo ao meio como se fosse um boneco de papel — ele disse.
— Não há razão para isso.
— É melhor você torcer para que não haja — Don Price disse. — Contanto que Sandy entre no meu carro. Agora.
— Ela não vai fazer isso, Don — meu pai disse.
Don Price riu.
— Quem é você para decidir?
— Você está bêbado, Don — meu pai disse. — Vou tirá-la desta estrada e aí, se ela quiser ir embora com você, tudo bem. O que você acha?
Mas isso só fez Don Price rir ainda mais. Embora se lembrasse do que tinha visto no olho de vidro da velha senhora muitas semanas antes, Don Price apenas riu.
— Obrigado por me dar essa opção, garoto de fazenda — ele disse. — Mas não, obrigado.
E Don Price o atacou com a fúria de dez homens, mas meu pai tinha a força de muitos mais, e eles lutaram por algum tempo, golpeando um ao outro com os punhos. O sangue cobria o rosto deles, escorrendo pelo nariz e pelos lábios, mas no fim Don Price caiu e não se levantou, e meu pai ficou parado ao lado dele, triunfante. Então colocou o corpo machucado do oponente no banco de trás do carro e levou minha mãe e Don Price de volta para a cidade pela estrada da montanha.
Minha mãe e meu pai ficaram em silêncio por um longo tempo. Era um silêncio tão profundo que um quase podia ouvir os pensamentos do outro. Meu pai então disse:
— Ele pediu você em casamento, Sandy?
— Sim — minha mãe disse. — Pediu.
— E o que foi que você respondeu?
— Disse a ele que ia pensar.
— E?
— E pensei — ela disse, segurando a mão de meu pai suja de sangue.
E aí eles se beijaram.

Daniel Wallace, in Peixe Grande

O Realismo de Dupré

Julien Dupré (1851-1910), pintor francês, nascido em Paris, é um dos principais representantes do realismo francês na pintura do século XIX.

Dedicou a sua carreira artística à representação das tarefas dos camponeses franceses. A sua obra, juntamente com a de Breton e Millet, teve grande influência no desenvolvimento do tema agrário do realismo socialista, particularmente na União Soviética e na República Popular da China.










Fonte: acesse aqui.

Bandeiras de Setembro

O mês de setembro, no Sul do continente latino-americano, é um mês amplo e florido. Este mês está também cheio de bandeiras.
No início do século passado, em 1810 e no mês de setembro, despontaram ou se consolidaram as insurreições contra o domínio espanhol em numerosos territórios da América do Sul.
Neste mês de setembro, nós, os americanos do Sul, recordamos a emancipação, celebramos os heróis e recebemos a primavera tão dilatada que ultrapassa o Estreito de Magalhães e floresce até na Patagônia Austral, até no Cabo de Hornos.
Foi muito importante para o mundo a cadeia cíclica de revoluções que brotavam do México até a Argentina e o Chile.
Os caudilhos eram diferentes. Bolívar, guerreiro e cortesão, dotado de um resplendor profético; San Martín, organizador genial de um exército que cruzou as mais altas e hostis cordilheiras do planeta para travar no Chile as batalhas decisivas de sua libertação; José Miguel Carrera e Bernardo O'Higgins, criadores dos primeiros exércitos chilenos, assim como das primeiras gráficas e dos primeiros decretos contra a escravidão que foi abolida no Chile muitos anos antes que nos Estados Unidos.
José Miguel Carrera, como Bolívar e alguns outros libertadores, saía da classe aristocrática críolla. Os interesses desta classe se chocavam vivamente com os interesses espanhóis na América. O povo como organização não existia senão como uma vasta massa de servos sob o domínio espanhol. Os homens como Bolívar e Carrera, leitores dos enciclopedistas, estudantes nas academias militares da Espanha, deviam atravessar os muros do isolamento e da ignorância para chegar a comover o espírito nacional.
A vida de Carrera foi curta e fulgurante como um relâmpago. El húsar desdichado (O hussardo infeliz) foi o título que dei a um antigo livro de lembranças que eu mesmo publiquei há alguns anos. Sua personalidade fascinante atraiu os conflitos sobre sua cabeça como um pára-raios atrai a faísca das tempestades. Por fim foi fuzilado em Mendoza pelos governantes da recém-declarada República Argentina. Seus desesperados desejos de derrubar o domínio espanhol o tinham colocado à frente dos índios selvagens dos pampas argentinos. Sitiou Buenos Aires e esteve a ponto de tomá-la de assalto. Mas seus desejos eram libertar o Chile e neste empenho precipitou guerras e guerrilhas civis que o conduziram ao patíbulo. A revolução naqueles anos turbulentos devorou um de seus filhos mais brilhantes e valentes. A História culpa O'Higgins e San Martín deste feito sangrento. Mas a história desse mês de setembro, mês de primavera e de bandeiras, cobre com as asas a memória dos três protagonistas destes combates libertadores no vasto cenário de imensos pampas e de neves eternas.
O'Higgins, outro dos libertadores do Chile, foi um homem modesto. Sua vida teria sido obscura e tranquila se não houvesse encontrado em Londres, quando não tinha senão dezessete anos de idade, um velho revolucionário que percorria todas as cortes da Europa buscando ajuda para a causa da emancipação americana. Chamava-se Dom Francisco de Miranda e, entre outros amigos, contou com o poderoso afeto da imperatriz Catarina da Rússia. Com passaporte russo chegou a Paris, entrando e saindo pelas chancelarias da Europa.
É uma história romântica, com tal ar de “época” que parece uma ópera. O'Higgins era filho natural de um vice-rei espanhol, um rico militar de ascendência irlandesa e que foi governador do Chile. Miranda tratou de apurar a origem de O'Higgins quando compreendeu a utilidade que aquele jovem poderia ter na insurreição das colônias americanas da Espanha. Está narrado o momento exato em que revelou ao jovem O'Higgins o segredo de sua origem e o impulsionou para a ação insurgente. O jovem revolucionário caiu de joelhos e, abraçando Miranda, entre soluços se comprometeu a partir imediatamente para sua pátria, o Chile, e encabeçar aqui a rebelião contra o poder espanhol. O'Higgins foi o que alcançou as vitórias finais contra o sistema colonial, sendo considerado o fundador de nossa república.
Miranda, prisioneiro dos espanhóis, morreu no temível presídio de La Carraca, em Cádiz. O corpo deste general da Revolução Francesa e mestre de revolucionários foi envolto em um saco e atirado ao mar do alto do presídio.
San Martín, desterrado por seus compatriotas, morreu em Boulogne, na França, idoso e solitário.
O'Higgins, libertador do Chile, morreu no Peru, longe de tudo o que amava, proscrito pela classe latifundiária criolla que se apoderou prontamente da revolução.
Há pouco, ao passar por Lima, encontrei no Museu Histórico do Peru alguns quadros pintados pelo general O'Higgins em seus últimos anos. Todos esses quadros têm o Chile por tema. Pintava a primavera do Chile, as folhas e as flores do mês de setembro.
Neste mês de setembro me pus a recordar os nomes, os feitos, os amores e os sofrimentos daquela época de insurreições. Um século mais tarde os povos se agitam de novo e uma corrente tumultuosa de vento e de fúria move as bandeiras. Tudo mudou desde aqueles anos distantes, mas a História continua seu caminho e uma nova primavera povoa os intermináveis espaços de nossa América.

Pablo Neruda, in Confesso que vivi

Meus fortes pensamentos


[…]
Mas, cedo no amanhecer, o sôr Amadeu tinha chegado, e com notícia urgente: que o grosso do bando de Medeiro Vaz recruzava, de lá a quinze léguas, da Vereda-Funda para a Ratragagem, e nós tínhamos de seguir, sem folga, supraditamente. No que Nhô Vô Anselmo me deu um dito afeiçoado e diferente ― entendi que o velhozinho sabia de alguma coisa, e que não desgostava que eu viesse a ficar neto dele. Nós almoçamos e montamos. Diadorim, Alaripe, Jesualdo e João Vaqueiro se retiraram em adiantando, e o Fafafa. Mas eu cacei melhor coragem, e pedi meu destino a Otacília. E ela, por alegria minha, disse que havia de gostar era só de mim, e que o tempo que carecesse me esperava, até que, para o trato de nosso casamento, eu pudesse vir com jús. Saí de lá aos grandes cantos, tempo-do-verde no coração. Por breve ― pensei ― era que eu me despedia daquela abençoada fazenda Santa Catarina, excelentes produções. Não que eu acendesse em mim ambição de têres e havêres; queria era só mesma Otacília, minha vontade de amor. Mas, com um significado de paz, de amizade de todos, de sossegadas boas regras, eu pensava: nas rezas, nas roupagens, na festa, na mesa grande com comedorias e doces; e, no meio do solene, o sôr Amadeu, pai dela, que apartasse ― destinado para nós dois ― um buritizal em dote, conforme o uso dos antigos.
Vim. Diadorim nada não me disse. A poeira das estradas pegava pesada de orvalho. O birro e o jesus-meu-deus cantavam. O melosal maduro alto, com toda sua roxidão, roxura. Mas, o mais, e do que sei, eram mesmo meus fortes pensamentos. Sentimento preso. Otacília. Por que eu não podia ficar lá, desde vez? Por que era que eu precisava de ir por adiante, com Diadorim e os companheiros, atrás de sorte e morte, nestes Gerais meus? Destino preso. Diadorim e eu viemos, vim; de rota abatida. Mas, desse dia desde, sempre uma parte de mim ficou lá, com Otacília. Destino. Pensava nela. As vezes menos, às vezes mais, consoante é da vida. As vezes me esquecia, às vezes me lembrava. Foram esses meses, foram anos. Mas Diadorim, por onde queria, me levava. Tenho que, quando eu pensava em Otacília, Diadorim adivinhava, sabia, sofria.
Essas coisas todas se passaram tempos depois. Talhei de avanço, em minha história. O senhor tolere minhas más devassas no contar. E ignorância. Eu não converso com ninguém de fora, quase. Não sei contar direito. Aprendi um pouco foi com o compadre meu Quelemém; mas ele quer saber tudo diverso! quer não é o caso inteirado em si, mas a sobre-coisa, a outra-coisa. Agora, neste dia nosso, com o senhor mesmo ― me escutando com devoção assim ― é que aos poucos vou indo aprendendo a contar corrigido. E para o dito volto. Como eu estava, com o senhor, no meio dos hermógenes.
Destaque feito! Zé Bebelo vinha vindo. Vinham por nós. E tivemos notícia! a légua dali, eles estavam chegando, no meio do dia, patrulhão de cavaleiros. Légua, não era verdade ― mas, obra de seis léguas, o sim. E eram só uns sessenta, por aí. Todo o tempo eu vinha sabendo que nosso fim era esse, mas mesmo assim foi feito surpresa. Eu não podia imaginar que ia entrar em fogo contra os bebelos. De certo modo, eu prezava Zé Bebelo como amigo. Respeitava a finura dele ― Zé Bebelo: sempre entendidamente. E uma coisa me esmoreceu a tôrto. Medo, não, mas perdi a vontade de ter coragem. Mudamos de acampo, para perto, para perto. ― E agora! E hoje!... O Hermógenes reunia o pessoal, todos. A gente carecia de levar o préstimo maior de munição, que se pudesse. Aonde? Diadorim, por um gesto, me cortou de fazer mais perguntas. As armas. Diadorim ia, para aquilo, prezável de passeata. Ah, uma coisa não referi ao senhor. Que era que, aquele tempo, no arranchamento do Hermógenes, minha amizade com Diadorim estava sendo feito água que corre em pedra, sem pêpa de barro nem pó de turvação. Da voz de homens e do tinir de armas em má véspera, não se podia deixar de receber um lufo de dureza, de mais próprio respeito, e muita coisinha se empequenava. ― Zé Bebelo é arisco de aviso, Diadorim... Ele joga seguro: por aí perto, em esconso, deve de ter outra tropa de guerra, prontos para virem dar retaguarda. Eu sei bem ― essa a norma dele... Carece de prevenir o Hermógenes, João Goanhá, Titão Passos... ― eu não retive, e disse. ― Eles sabem, Riobaldo. Toda guerra é essa... ― Diadorim me respondeu. E eu estava sabendo que eu já dizer aquilo era traição. Era? Hoje eu sei que não, que eu tinha de zelar por vida e pela dos companheiros. Mas era, traição, isto também sim: era, porque eu pensava que era. Agora, depois mais do tudo que houve, não foi?
Agarrei minha mochila, comi fria a minha jacuba. Tudo estava sendo determinado decidido, até o que a gente tinha de fazer depois. Aí João Goanhá apartava o pessoal em punhados de quinze ou vinte: cada um desses, acabado o fogo, devia de se reunir em lugar certo comum. Daquela hora em diante, íamos ter de brigar em pequenas quantidades. Pelas caras dos homens, eu via que estavam satisfeitos, parecia muito e pouco. Com regozijo, um golinho se bebeu. ― Toma este breve, Riobaldo. Foi minha mãe-de-criação quem costurou para mim. Mas eu carrego dois... Era o Feijó, um sacudido oitavão, ele manobrava rifle de três canos. Que simpatia demonstrada era essa, eu nunca tinha dado fé daquele Feijó? ― A vamos. Hoj e se faz o que não se faz... ― um se exaltava assim, tive medo de castigo de Deus. Quem quisesse rezar, podia, tinha praça; outros, contritos, acompanhavam. Outros ainda comiam, zampando, limpavam a boca com as duas mãos. ― Não é medo não, amigos, é o trivial do corpo! ― explicavam alguns, que ainda careciam de ir por suas necessidades. Restantes risadas davam. Ao que faltava nem meia-hora para o sol ir entrando. Daquele lugar, vazio de moradas e de terras lavradias, a gente ouvia o gugo da jurití como um chamado acabado, junto com lobo guará já dando gritos de penitência. ― Presta uma demão, aqui... Ajudei. Era um montesclarense ― acho que o cujo nome esqueci ― que queria passar tiras de pano, por sola das alpercatas e peito dos pés, reforçando. Terminou, e fez os passos de dansa, maneiro nas juntas, assobiava. Aquele rapaz pensava alguma coisa? ― Riobaldo? ― Diadorim me disse ― arruma jeito de mudar de lugar, na hora, sempre que puder. E põe cautela! homem rasteja por entre as môitas, e vem pular nas costas da gente, relampeando faca. Diadorim sorria sério. Um outro me esbarrou, quando passava. Era o Delfim, violeiro. Onde era que a viola ele ia poder guardar? Eu apertei a mão de Diadorim, e queria sair, andar, gastar.

Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

04/11/2023

The Beatles | Now And Then

Capítulo 65 | Olheiros e escutas

Interrompeu-nos o rumor de um carro na chácara. Veio um escravo dizer que era a baronesa X. Virgília consultou-me com os olhos.
— Se a senhora está assim com dor de cabeça, disse eu, parece que o melhor é não receber.
— Já se apeou? perguntou Virgília ao escravo.
— Já se apeou; diz que precisa muito de falar com sinhá!
— Que entre!
A baronesa entrou daí a pouco. Não sei se contava comigo na sala; mas era impossível mostrar maior alvoroço.
— Bons olhos o vejam! explodiu ela. Onde se mete o senhor que não aparece em parte nenhuma? Pois olhe, ontem admirou-me não o ver no teatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani? É natural. Os senhores são todos os mesmos. O barão dizia ontem, no camarote, que uma só italiana vale por cinco brasileiras. Que desaforo! e desaforo de velho, que é pior. Mas por que é que o senhor não foi ontem ao teatro?
— Uma enxaqueca.
— Qual! Algum namoro; não acha, Virgília? Pois, meu amigo, apresse-se, porque o senhor deve estar com quarenta anos... ou perto disso... Não tem quarenta anos?
— Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas, se me dá licença vou consultar a certidão de batismo.
— Vá, vá... E estendendo-me a mão: Até quando? Sábado ficamos em casa; o barão está com umas saudades suas...
Chegando à rua, arrependi-me de ter saído. A baronesa era uma das pessoas que mais desconfiavam de nós. Cinquenta e cinco anos, que pareciam quarenta, macia, risonha, vestígios de beleza, porte elegante e maneiras finas. Não falava muito nem sempre; possuía a grande arte de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se então na cadeira, desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os outros, sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo que ela olhava só, ora fixa, ora móbil, levando a astúcia ao ponto de olhar às vezes para dentro de si, porque deixava cair as pálpebras; mas, como as pestanas eram rótulas, o olhar continuava o seu ofício, remexendo a alma e a vida dos outros.
A segunda pessoa era um parente de Virgília, o Viegas, um cangalho de setenta invernos, chupado e amarelado, que padecia de um reumatismo teimoso, de uma asma não menos teimosa e de uma lesão do coração: era um hospital concentrado. Os olhos porém luziam de muita vida e saúde. Virgília, nas primeiras semanas, não lhe tinha medo nenhum; dizia-me que, quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava simplesmente contando dinheiro. Com efeito, era um grande avaro.
Havia ainda o primo de Virgília, o Luís Dutra, que eu, entretanto, agora desarmava à força de lhe falar nos versos e prosas, e de o apresentar aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome à pessoa, se mostravam contentes da apresentação, não há dúvida que Luís Dutra exultava de felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperança de que ele nos não denunciasse nunca. Havia, enfim, umas duas ou três senhoras, vários gamenhos, e os fâmulos, que naturalmente se desforravam assim da condição servil, e tudo isso constituía uma verdadeira floresta de olheiros e escutas, por entre os quais tínhamos de resvalar com a tática e maciez das cobras.

Machado de Assis, in Memórias Póstumas de Brás Cubas

Um Sábado Qualquer

Cuidado

♦ Nunca digas “Desta água não beberei”. Mas ferve antes.
♦ Pessoas que estão muito em evidência devem, pelo menos, tomar cuidado com as impressões digitais.
♦ Nossos legisladores, ressabiados, legislam pisando em ovos. Do povo.
♦ Quando você tiver que fazer respiração boca a boca evite pelo menos envolvimento emocional.

Millôr Fernandes, in Millôr definitivo: Uma antologia baseada em “A bíblia do caos” 

Coração em desalinho | Monarco e Ratinho, 1986

Monarco e Ratinho

Regravada em 1999 por Zeca Pagodinho no disco Ao vivo, esta canção tinha sido lançada, mas sem tanta repercussão, pelo próprio sambista em seu álbum de estreia, em 1986. Em seguida, no novo século e já com status de clássico, “Coração em desalinho” também voltou nas vozes de cantoras como Maria Rita e Leila Pinheiro, como uma das pérolas da parceria de Monarco e Ratinho, também responsáveis por outro grande sucesso no repertório de Zeca Pagodinho, “Vai vadiar”.
Apesar de ser o criador da melodia e da primeira parte da letra, Monarco registrou a parceria com Ratinho em nome de seu filho, o também compositor Mauro Diniz, porque a editora que administrava as suas músicas estava atrasando o repasse de direitos autorais, e ele achou que seria melhor arrecadar pela editora das músicas de Mauro.
Hildemar Diniz, o Monarco, nasceu em 17 de agosto de 1933, e chegou a Oswaldo Cruz, o bairro onde está sua Portela, na adolescência. Aos 20 anos, emplacou seu primeiro samba e foi convidado para a seleta ala de compositores da escola. Atual presidente da Velha Guarda da Portela, ele tem uma coleção de sambas gravados por alguns dos principais intérpretes brasileiros e, desde 1976, também vem lançando discos como cantor.
Seu parceiro Ratinho é a prova de que português também faz samba. E muito bem. Nascido na região do Alto Douro, no norte de Portugal, em 5 de março de 1948, e batizado como Alcino Correia Ferreira, tinha 4 anos quando sua família se mudou para o Rio de Janeiro. Muito jovem Ratinho mostrou queda pela música e logo venceu por sete vezes a disputa de samba-enredo da Caprichosos de Pilares. Morto aos 62 anos, em 2010, deixou muitos sambas em parceria com Zeca Pagodinho, Mauro Diniz, Marquinho PQD e Arlindo Cruz.
Monarco começou a escrever a música que virou “Coração em desalinho” em 1981, inicialmente como um samba-enredo para a Unidos do Jacarezinho. Mas desistiu da ideia depois de, na quadra da escola, conhecer e se encantar com um samba de outros concorrentes. Algum tempo depois, mudou a letra e pediu a Ratinho que fizesse a segunda parte. Samba pronto, Monarco pretendia oferecer a Martinho da Vila, mas foi convencido pelo produtor Milton Manhães a apostar num novo cantor que se preparava para gravar seu primeiro disco: Zeca Pagodinho, que levou “Coração em desalinho” a clássico do samba.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

O chamado

Estava no trabalho quando o telefone avisou: tinha de viajar imediatamente. Alguém, longe, morrera de súbito, e era preciso tomar o primeiro avião de carreira, depois alugar um táxi-aéreo a tempo de assistir ao sepultamento.
Assim, pois, a notícia sempre esperada, como se espera, sem se desejar, alguma coisa inevitável, chegara justamente num dia em que, repousando de tão constante cuidado, o coração nada prevenira, ele que tantas vezes dera rebate falso. Se acordava pela madrugada, sem querer, ficava perguntando a si mesmo quando viria o chamado. Em reuniões festivas, de repente, parecia-lhe que o fato, sem o chamado, acontecera, e estava perdendo um tempo precioso à espera de que o segundo revelasse o primeiro. A razão reagia contra pressentimentos, e logo vinha uma carta dando notícias de saúde, mas através dessas notícias filtrava-se a inquietação já habitual: até quando? Sabia que, no fundo de sua vida, uma viagem apressada se elaborava, e nem mesmo podia tranquilizar-se com a esperança de que chegaria a tempo de ver se cerrarem os olhos, e recolher, se não uma palavra, pelo menos um sinal fugitivo, que condensa muitas coisas. Bastava que no dia baixasse a névoa seca, e os aviões ficassem pousados, para que fosse impossível estabelecer esse contato último.
Viver numa grande cidade é quase sempre estar longe. Não podemos reunir os objetos e as pessoas, e grosseiramente preferimos os objetos. Deixamos na terra natal, além de recordações plantadas no ar, pessoas de saúde frágil e idade avançada, às quais prometemos que nossa visita não vai demorar e se repetirá a qualquer pretexto. Mesquinhas ocupações, cansaço, displicência, tédio de viajar por lugares muito sabidos, cisma de avião, tudo isso e mil pequenos motivos nos afastam de nossa promessa. Acabamos apenas escrevendo cartas. Cartas, cartas! Repetem mecanicamente um carinho que devia ser cálido e físico, carregam abstrações, sombra de beijos, não beijos. E chega um dia em que já não recebemos cartas em resposta às que continuamos a mandar. As pessoas distantes atingiram essa altura desolada em que papel e tinta nada significam: a mão já não pode traçar aquelas linhas sempre as mesmas, e a comunicação se faz por intermediários, a uma distância cada vez maior, porque temos de interpretar a nuança de uma intenção, onde há apenas recado de terceiro.
E um dia vem o chamado urgente: é preciso deixar tudo e ir na direção de um corpo, apenas um corpo, que representa tão pouco da antiga combinação viva de semblante e memórias, um rosto que alguns se recusam a desvendar, porque iria superpor-se a outra imagem iluminada, que nem o tempo adulterara e que, mesmo, poliu e repoliu com requinte de ourives. Assim, pagamos com uma viagem precipitada o preço de muitas viagens que não fizemos e que instilam em nossa saudade uma coloração de remorso.
Mas a palavra é tão dura que custa jogá-la aqui, sem maior disquisição. Remorso do que apenas deixamos de fazer, quando poderíamos ter feito? Do mal que a nós mesmos nos infligimos, reduzindo nosso amor ao limite do possível? Sim, deve ser isso: todos os pecados se resumem na ausência ou na redução do amor a um sentimento adaptável às circunstâncias, e que pode esperar, quando ele é por natureza o insofrido, o insaciável, o exigente devorador. Contudo, não nos julguemos mais omissos do que realmente fomos. Esse “podia-ter-sido-diferente” ainda é amor, sobrevivendo a omissões.
A todo instante, numa cidade como o Rio, pessoas são convidadas a tomar o primeiro avião. Gostaria de consolá-las, explicando-lhes que é possível guardar dentro de nós aquilo que perdemos no espaço.

Carlos Drummond de Andrade, in Fala, Amendoeira

03/11/2023

Cartas para minha avó

Querida vó Antônia, ainda tenho tanto pra contar… Mas nossa conversa não termina aqui.
Recentemente, publiquei um livro escrito por dezoito mulheres quilombolas e me emocionei quando uma delas me mandou uma foto que a mostrava lendo o livro para a matriarca de seu quilombo. Vi você ali, feliz pela neta que conseguiu estudar. Venho de uma dinastia de empregadas domésticas, lavadeiras, quituteiras, mestras nas sabedorias de multiplicar, que sempre lutaram para que a gente também pudesse ser “doutora”.
Eu lhe perguntei como você lidava com o racismo, mas a verdade é que, independentemente de como foi, saiba que hoje sou referência no enfrentamento a essa violência. Sou porque você foi. Minha mãe saiu de casa com dezoito anos rumo a uma vida incerta, eu tive coragem de escolher estudar em outra cidade mesmo quando tudo era incerto também. Tive a quem puxar. Você era a benzedeira das multidões, centenas de pessoas faziam fila para receber seu atendimento. Você fazia a comida render para alimentar uma família grande. Quando benzia, quando enterrava feitiços no quintal, você fazia cultura negra — mesmo sem saber. Quanto disso ainda está em mim e se potencializa de outras formas?
Não ter vivido mais tempo com você e minha mãe me fez aceitar a tristeza. Há dias tristes em que tento preencher o vazio com belas canções e poemas de amor. Suprir minha carência com sonhos antigos e lembranças. Há dias tristes em que preciso chorar a mágoa da vida, a oportunidade perdida e a falta dos dias de sol. Há dias tristes em que devo ao menos me dar migalhas de esperança e aceitar a dor. O peito aperta, a tv não pega e a chuva encharca as roupas no varal. Histórias de amor acabam, algumas dublagens são ruins, pessoas se afastam, caminhos são separados. Bifurcações existem e a hora do adeus também, e impedir as lágrimas é arrogância. Porque há dias tristes, aceno para a vida. Há dias tristes para que eu me lembre que a felicidade vem de mim, há dias tristes para que eu aprenda a valorizar minha alegria. Não há de se brigar com os dias tristes e nem fugir deles. Há de se aceitar que a vida também é feita de dias tristes.
Eu não me afundo na amargura, pois tive uma avó que ensinou que chá de boldo também cura.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

Zeca Baleiro | Eu Pensei Que Você Fosse a Lua

Dies irae

– Esta – se disse o homem como se fosse para uma guerra – esta é a minha prece do possesso. Estou conhecendo o inferno da paixão. Não sei que nome dar ao que me toma ou ao que estou com voracidade tomando senão o de paixão. O que é isso que é tão violento que me faz pedir clemência a mim mesmo? É a vontade de destruir como se para este momento de destruir eu tivesse nascido. Momento que virá ou não. A minha escolha depende de eu poder ou não me ouvir. Deus ouve, mas eu ouvirei? A força de destruição ainda se contém um instante em mim. Não posso destruir ninguém ou nada pois a piedade me é tão forte como a ira. Então quero destruir a mim – que sou a fonte da paixão. Não quero pedir a Deus que me aplaque, mas amo tanto a Deus que tenho medo de tocar nele com o meu pedido. Meu pedido queima. Minha própria prece é perigosa de tão ardente e poderia destruir em mim a imagem de Deus, que ainda quero salvar em mim. No entanto só a Ele eu poderia pedir que pusesse a mão sobre mim e arriscasse queimar a dele. Não me atendas porque meu pedido é tão violento que me atemoriza. Mas a quem pedir – neste rápido instante de trégua – se já afastei os homens? Afastei os homens. Fui fechando as doçuras de minha natureza a cada golpe que recebia e as doçuras negadas foram se enegrecendo como nuvens simples que vão se fechando em escuridão e eu abaixo a cabeça à tempestade. Como seria a ira divina se esta minha me deixa cega de força total? Se esta cólera só destruísse a mim. Mas tenho de proteger os outros – os outros têm sido a fonte de minha esperança. Que faço para não usar esta onipotência que me toma? O que me direi eu? Senão a verdade. Senão a verdade. Só outra coisa eu conheci tão total e cega e forte como esta minha vontade de me espojar na violência: a doçura da compaixão. Só isto ainda posso tentar pôr no outro prato da balança – pois no primeiro prato estão o sangue e o ódio ao sangue que dói. Que estou querendo? Quero que a cada uma de minhas dores corresponda hoje e agora um ato de cólera.
Mas eu sei o que foram as minhas dores. A cólera é fácil expô-la. Mas a dor – esta me envergonhava. Porque minha dor vem de que não saí feliz de meus outros pecados mortais. Minha violência – que é em carne viva e só quer como pasto a carne viva – esta violência vem de que outras violências vitais minhas foram esmagadas. Minhas outras violências pecadoras que se pareciam tanto com um direito meu. No começo elas se pareciam tanto com minhas maiores suavidades. Eu tinha nascido simplesmente e também simplesmente quis ir tomando para mim o que queria. E a cada vez que não podia e a cada vez que era proibido, a cada vez que me negavam eu sorria e pensava que era um manso sorriso de resignação. Mas era a dor que se mascarava em bondade. Eu sabia que era dor errada diante de Deus – e pior diante de mim – quem quer que eu seja. Cada vez que meus pecados não venciam, eu sofria mas sem me sentir com direito de sofrer e tinha de esconder não apenas a dor. O que estava sendo pisado em mim? na minha verdade de outrora o que estava sendo pisado em mim? Os pecados mortais.
Os pecados mortais clamavam em mim por mais vida. Clamavam com vergonha. Os pecados mortais em mim pediam o direito de viver. Minha gula pelo mundo: eu quis comer o mundo e a fome com que nasci pelo leite – esta fome quis se estender pelo mundo e o mundo não se queria comível. Ele se queria comível sim – mas para isso exigia que eu fosse comê-lo com a humildade com que ele se dava. Mas fome violenta é exigente e orgulhosa. E quando se vai com orgulho e exigência o mundo se transmuta em duro aos dentes e à alma. O mundo só se dá para os simples e eu fui comê-lo com o meu poder e já com esta cólera que hoje me resume. E quando o pão se virou em pedra e ouro aos meus dentes eu fingi por orgulho que não doía, eu pensava que fingir força era o caminho nobre de um homem e o caminho da própria força. Eu pensava que a força é o material de que o mundo é feito e era com o mesmo material que eu iria a ele. E depois foi quando o amor pelo mundo me tomou: e isso já não era a fome pequena, era a fome ampliada. Era a grande alegria de viver – e eu pensava que esta sim, é livre. Mas como foi que transformei sem nem sentir a alegria de viver na grande luxúria de estar vivo? No entanto no começo era apenas bom e não era pecado. Era um amor pelo mundo quando o céu e a terra são de madrugada, e os olhos ainda sabem ser tenros. Mas eis que minha natureza de repente me assassinava, e já não era uma doçura de amor pelo mundo: era uma avidez de luxúria pelo mundo. E o mundo de novo se retraiu e a isso chamei de traição. A luxúria de estar vivo me espantava na minha insônia sem eu entender que a noite do mundo e a noite do viver são tão doces que até se dorme. Que até se dorme, meu Deus. E a água – na minha luxúria de viver – a água se derramava pelos dedos antes de chegar à boca. E eu amava o outro ser com a luxúria de quem quer salvar e ser salvo pela alegria. Eu não sabia que só o meio-termo não é pecado mortal. Eu tinha vergonha do meio-termo. Os pecados são mortais não porque Deus mata, mas porque eu morro deles. Eu é que não pude arcar com os pecados mortais. O que não consegui com eles é isto o que hoje me violenta e a que respondo com violência. Os meus pobres meios canhestros não me conseguiram nem terra nem céu e a fúria me toma. Ah mas se por um instante eu entender que a fúria é contra os meus erros e não contra os dos outros – então esta cólera se transformará nas minhas mãos em flores. Em flores e em coisas leves e em amor. Eu ainda não sei controlar meu ódio mas já sei que meu ódio é um amor irrealizado e meu ódio é uma vida ainda nunca vivida. Pois vivi tudo – menos a vida. E é isto o que não perdoo em mim e como não suporto não me perdoar então não perdoo os outros. A este ponto cheguei: como não consegui a vida quero matá-la. A minha cólera – que é ela senão reivindicação? – a minha cólera – eu tenho que saber neste minuto raro de escolha – a minha cólera é o verso de meu amor. Se eu quiser escolher finalmente me entregar sem orgulho à doçura do mundo então chamarei minha ira de amor. Tanto temi jurar-me para sempre com esta primeira palavra que mal ouso pronunciar (amor) que fugi para a violência e para os olhos ensanguentados da paixão. Tudo, mas tudo por medo de me prostrar aos teus pés e aos pés anônimos do outro que sempre Te representou. Que rei sou eu que não se curva? Tenho de escolher entre a quebra do orgulho e o amor-correnteza da ignorância e da doçura. A minha verdade antiga ainda me serve? Deus proibiu os sete pecados não por exigência de perfeição, mas apenas por piedade de nós. De mim que como os outros também tento não ser dele e tento não ser dos outros. Eu sei que os outros são Ele. Neste instante tenho de escolher entre amar ou ter ódio. Sei que amar é mais lento e a urgência me consome. Cobre minha fúria com Teu amor já que também eu sei que minha ira é apenas não amar. Minha ira é arcar com a intolerável responsabilidade de não ser uma erva. Sou uma erva que se sente onipotente e se assusta. Tira de mim a falsa onipotência destruidora. Faz com que neste instante de escolha eu entenda que aquele que fere está no mesmo pecado que eu: no orgulho que leva à ira e portanto ele fere assim como estou querendo ferir só porque não acredita. Só porque não confia. Só porque se sente um rei espoliado. Ajuda aos que sofrem de ira porque eles estão apenas precisando se entregar a Ti. Mas como Tua grandeza me é incompreensível faz com que Tu te apresentes a mim sob uma forma que eu entenda: sob a forma do pai ou da mãe, do amigo, do irmão, da amante, do filho. Ira, transforma-te em mim em perdão já que és o sofrimento de não amar.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas 

Calvin e Haroldo

Matéria, forma, memória

O que é material logo desaparece na substância do todo. O que é formal logo regressa à razão do universo. A memória de tudo logo se dissolve no tempo.

Marco Aurélio, in Meditações