03/11/2023

A garota do aniversário


Nem é preciso dizer que Penélope não chegou a ir ao festival de artes; não foi a um ensaio sequer, nem passeou pela cidade de telhas verde-água. Ela ficou na estação de Westbahnhof, na plataforma, sentada na mala, cotovelos apoiados nos joelhos. Com os dedos limpos e ressecados, ela brincou com os botões do vestido de lã azul. Havia trocado sua passagem de volta por outra, para retornar o quanto antes para casa.
Horas depois, quando o trem que a levaria embora dali estava pronto para partir, ela deu um pulo. Um condutor, barba por fazer, acima do peso, despontou de um vagão.
— Kommst einer?
Penélope apenas olhou para ele, tomada pela indecisão, girando um botão na altura do peito. A mala estava diante dela. Uma âncora aos seus pés.
— Nah, kommst du jetzt, oder net?!
Havia algo de encantador no desleixo do condutor.
— Você vem ou não vem?
Até os dentes dele eram tortos. Ele se inclinava para a plataforma de um jeito quase infantil, como um colegial, e em vez de soprar o apito apenas gritou para a frente do trem.
— Geht schon!
E sorriu.
Abriu um sorriso que era mais uma confusão de dentes, e nesse momento Penélope estendeu a mão direita, com o botão na palma.

***

Como o pai dela havia previsto, contudo, a viagem correu bem.
Ela era apenas uma maleta e vulnerabilidade, mas, exatamente como Waldek planejara, conseguiu.
Havia um acampamento em um lugar chamado Traiskirchen, que não passava de um exército de beliches e um banheiro de piso vinoso. O primeiro problema foi encontrar o fim da fila. Por sorte Penélope tinha muita prática; se havia uma coisa que a Europa Oriental lhe ensinara era a ficar na fila. O segundo problema, uma vez lá dentro, foi andar pelo mar de recusas em que ela afundou até o tornozelo. Um mar ruidoso e tanto, um teste de nervos e resistência.
As pessoas da fila estavam cansadas e apáticas, e cada uma tinha os próprios medos, embora compartilhassem o maior deles. Não poderiam, sob circunstância alguma, ser enviadas de volta para casa.
Quando chegou a vez dela, foi interrogada.
Tiraram suas impressões digitais, traduziram o que ela disse.
A Áustria era essencialmente um local de retenção, e na maioria dos casos levava vinte e quatro horas para a pessoa ser analisada e enviada para um albergue, onde aguardaria a aprovação de outra embaixada.
O pai de Penélope havia pensado nos mínimos detalhes; só não lhe ocorreu que sexta-feira seria um dia ruim para chegar. Ela teria que resistir a um fim de semana no acampamento — que não era lá um mar de rosas —, mas resistiu. Afinal, em suas próprias palavras, tampouco era o inferno na Terra. Nada comparado ao que outras pessoas enfrentaram. O pior era não saber.

***

Na semana seguinte, ela pegou outro trem, daquela vez para as montanhas, para outro conjunto de beliches, e começou o processo de espera.
Imagino que, depois de nove meses, fosse possível se familiarizar com aquele lugar, mas o que sei de fato sobre aquele período? O que Clay sabia? Ao que parece, a vida nas montanhas era um dos poucos períodos sobre o qual ela não comentava muito — mas quando o fazia, falava com simplicidade e beleza, e o que podemos chamar de luto. Nas palavras dela para Clay:
Houve um breve telefonema, e uma canção antiga.
Pequenas partes para contar o todo.

***

Nos primeiros dias, ela reparou que pessoas faziam ligações de uma antiga cabine telefônica na beira da estrada. Era um corpo estranho na vastidão da floresta e do céu.
Dava para ver que estavam ligando para casa: ficavam de olhos marejados e volta e meia sofriam para sair da cabine depois que desligavam.
Penélope, como muitos outros, hesitou.
Avaliou se era seguro.
Os boatos de escutas do governo eram o bastante para deixar as pessoas nervosas. Como já falei, os que ficavam é que eram punidos.
O que muitos ali tinham a seu favor era o fato de estarem viajando por períodos supostamente longos. Então por que não ligariam para casa após algumas semanas fora? Para Penélope, não era tão simples: ela já deveria ter voltado. Será que um telefonema colocaria seu pai em perigo? Por sorte, enrolou tanto tempo que um homem chamado Tadek esbarrou nela. Ele tinha uma voz e um corpo, era como uma das árvores que cercavam o lugar.
— Quer ligar pra casa, mocinha? — Diante da relutância de Penélope em falar, Tadek encostou no vidro para mostrar que a cabine telefônica não mordia. — Tem alguém da sua família no movimento? — E então, foi mais específico: — Solidarność?
— Nie.
— Você já mexeu com quem não devia? — Ela balançou a cabeça. — Foi o que pensei. — Ele sorriu, como se tivesse pegado emprestado os dentes do condutor de trem austríaco. — Então, se me permite a pergunta, são seus pais?
— Meu pai.
— E tem certeza de que não causou nenhum problema?
— Tenho.
— E ele?
— É só um velho condutor de bonde, mal abre a boca.
— Ah, muito que bem, então acho que não tem problema. O Partido está passando por maus bocados. Acho que estão sem tempo pra se preocupar com um velho condutor de Tramwaj. Difícil ter alguma certeza hoje em dia, mas disso estou certo.
Foi então que, segundo ela, Tadek olhou pelos pinheiros e corredores de luz e perguntou:
— Ele foi um bom pai pra você?
— Tak.
— E ficaria feliz de receber notícias?
— Tak.
— Bom, então tome aqui. — Ele se virou para ela e jogou alguns trocados. — Diga oi por mim.
E saiu andando.

***

Na conversa telefônica, houve dez breves palavras, traduzidas como:
— Alô?
Nada. Ele repetiu.
Aquela voz, feito cimento, feito pedra.
Somente um ruído.
— Alô?
Ela estava perdida em uma encosta de montanha cheia de pinheiros, os punhos brancos de tão apertados.
— Rainha dos Erros? Rainha dos Erros, é você?
Então ela o imaginou na cozinha, e a estante com trinta e nove livros; encostou a cabeça na vidraça da cabine, como se dissesse “Sim”.
Então desligou com cuidado.
As montanhas ao redor sumiram.

***

Agora vamos à música, poucos meses depois, à noite, na pensão.
A lua contra o vidro.
A data era o aniversário do pai dela.
Na Europa Oriental, davam mais importância à celebração do onomástico, mas no exterior as coisas ganhavam outra dimensão. Ela deixou escapar isso para uma das mulheres.
Não tinham wódka, mas sempre havia schnapps de sobra, e surgiu uma bandeja com taças. Assim que foram distribuídas, o dono da bebida ergueu a sua, propôs um brinde e olhou para Penélope, no salão. Meia dúzia de pessoas estava reunida, e quando ela ouviu as palavras em seu idioma, “A seu pai”, levantou o rosto e sorriu, tentando aguentar firme. Nesse momento, outro homem se levantou. Claro que era Tadek, que começou um canto de beleza e dor:

Sto lat, sto lat,
niech żyje, żyje nam.
Sto lat, sto lat,
niech żyje, żyje nam…

Ela não se conteve.
Desde os primeiros dias, do telefonema, estava tudo guardado, e Penélope não conseguiu segurar mais. Ela se levantou e cantou, mas algo dentro de si se rompeu. Ela entoou a canção de seu país que falava sobre acaso e companheirismo, enquanto se perguntava como podia ter deixado o pai. As palavras vinham em ondas de amor e autodesprezo, e, quando acabou, muitos ali choravam. Não sabiam se veriam suas famílias de novo; deveriam se sentir gratos ou condenados? A única certeza definitiva era de que isso estava fora da alçada deles. Tinha começado e precisava terminar.
A propósito, estes são os primeiros versos da canção:
Cem anos, cem anos,
Que você viva cem anos.
Enquanto cantava, ela sabia que ele não viveria.
Ela nunca mais o veria.

***

Para Penélope, era difícil não reviver sempre aquele sentimento, não deixar que ele tomasse conta durante o tempo que lhe restava naquele lugar — ainda mais levando uma vida tão cômoda.
Todos a tratavam muito bem.
Gostavam dela — de sua tranquilidade, daquela insegurança polida —, e passaram a chamá-la de Garota do Aniversário; geralmente pelas costas, quase nunca na sua frente. De quando em quando, sobretudo os homens, diziam na lata, em diversas línguas, quando ela fazia faxina, ou lavava roupa, ou amarrava o cadarço de uma criança.
“Dzięki, Jubilatko.”
“Vielen Dank, Geburtstagskind.”
“Děkuji, Oslavenkyně...”
Obrigado, Garota do Aniversário.
Um sorriso precisava desbravar o caminho até seu rosto.

***

Enquanto isso, tudo que lhe restava eram a espera e as lembranças do pai. Às vezes, parecia que ela sobrevivia movida por certo rancor, mas isso em seus momentos mais depressivos, quando a chuva desabava das montanhas.
Em dias assim, ela trabalhava com mais vigor e por mais tempo.
Cozinhava e limpava.
Lavava a louça e trocava a roupa de cama.
No fim, foram nove meses de esperança culpada e nenhum piano, até que por fim um país a aceitou. Ela se sentou na beirada do beliche, envelope em mãos. Seu olhar se perdeu pela vidraça branca e embaçada da janela.
Mesmo agora, não consigo deixar de visualizá-la nesse lugar, nos Alpes que volta e meia imagino. Consigo invocar a imagem dela na época, ou como Clay uma vez a descreveu:
A futura Penny Dunbar, entrando em mais uma fila, para voar para longe, para o sul e, de certa forma, direto para o sol.

Markus Zusak, in O construtor de pontes

02/11/2023

Lagum | Fim

Os arautos negros

Há golpes na vida, tão fortes... sei lá!
Golpes como o ódio de Deus; como se diante deles,
a ressaca de tudo sofrido
vai se acumular na alma... sei lá!

São poucos; mas eles são... eles abrem valas escuras
no rosto mais feroz e nas costas mais fortes.
Talvez sejam os potros dos bárbaros Átila;
ou os arautos negros que a Morte nos envia.

Eles são as quedas profundas dos Cristos da alma
de alguma fé adorável de que o Destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são os estalos
de um pão que queima na porta do forno.

E o homem... Pobre... Pobre! Role seus olhos como
quando uma batida nos chama por cima do ombro;
vira olhos doidos, e tudo viveu
ele se acumula, como uma piscina de culpa, no olhar.

Há golpes na vida, tão fortes... sei lá!

César Vallejo, in Antologia Poética

4 | Capítulo nada desnecessário para o viajante

Conclusão definitiva: será verdade que “o francês não tem bom senso”?

— Pois é, como é que o francês não terá bom senso? — interrogava-me ao observar os novos passageiros, quatro franceses que acabavam de entrar na nossa carruagem. Eram os primeiros franceses que eu encontrava na sua própria terra, se não contarmos os alfandegários em Arcelin, donde partíramos havia pouco. O pessoal aduaneiro tinha sido muito simpático, tinha despachado rapidamente o que era preciso despachar, e eu regressara à carruagem muito satisfeito com o meu primeiro passo em França. Antes de Arcelin, no nosso compartimento de oito lugares, só estávamos dois na altura, eu e um senhor suíço, homem simples e modesto, de meia-idade, um interlocutor amabilíssimo com quem conversei duas horas sem parar. Agora éramos seis e, para minha surpresa, com a entrada dos nossos novos companheiros de viagem, o suíço tornou-se de repente muito taciturno. Tentei continuar a conversa com ele, mas ele, visivelmente, apressou-se a dá-la por finda, respondendo-me com secura evasiva, quase com repulsa; virou-se para a janela e pôs-se a contemplar a paisagem; não tardou a pegar no seu guia alemão e a mergulhar nele. Deixei-o em paz e centrei a atenção nos meus novos companheiros de viagem. Era gente um pouco estranha. Sem bagagem, sem uma trouxa sequer, um pacote, sem estarem vestidos de maneira a que minimamente os identificássemos como viajantes. Nem pareciam viajantes. Todos envergavam sobrecasacas ligeiras, muito gastas, coçadas, pouco melhores do que as que usam entre nós os impedidos dos oficiais ou os servos domésticos dos proprietários rurais médios. Camisas sujas, gravatas de cores berrantes e também bastante sujas; um deles tinha no pescoço uns restos de lenço de seda, daqueles lenços que nunca se tiram e acabam por se impregnar de uma libra de gordura depois de quinze anos de contacto permanente com o pescoço do seu portador. O mesmo portador tinha ainda botões de punho com diamantes falsos do tamanho de avelãs. Por outro lado, tinham todos um certo chique, um ar donairoso. Pareciam os quatro da mesma idade, talvez dos seus trinta e cinco anos, e, embora de fisionomias muito diferentes, eram contudo muito parecidos: as caras gastas, as formais barbichas francesas, todas elas talhadas de maneira bastante semelhante. Via-se logo que era gente que passou por tudo e para todo o sempre adotou uma expressão azeda mas extremamente prática. Pareceu-me também que todos se conheciam, mas não tenho lembrança de que tenham trocado entre eles uma palavra sequer. Para mim e para o suíço não queriam olhar, e assobiavam com indiferença, acomodavam-se ao lugar com indiferença, olhavam pela janela da carruagem com a mesma indiferença persistente. Acendi um cigarro e, por não ter mais nada que fazer, comecei a observá-los. Veio-me à cabeça a pergunta: afinal, que gente é esta? Trabalhadores não eram, bourgeois também não. Seriam militares na reserva, uns quaisquer demi-solde ou coisa do gênero? Aliás, não me preocupava muito com eles. Uns dez minutos depois, chegados à estação seguinte, todos os quatro, um após outro, saltaram do comboio, a porta fechou-se e arrancamos. Neste percurso, o comboio não demora quase nada nas estações: dois ou três minutos e logo se põe a andar, e bem, velozmente.
Mal ficamos sozinhos, o suíço fechou o seu guia, pô-lo de lado e olhou para mim com satisfação e evidente desejo de continuar a conversa.
— Aqueles senhores não fizeram uma viagem lá muito grande — comecei, olhando para ele com curiosidade.
— Porque já estava previsto fazerem só de estação a estação.
— Conhece-os?
— Conheço-os?... Mas são polícias...
— Como? Que gênero de polícias? — perguntei, espantado.
— Pois é... eu vi logo que o senhor não ia desconfiar.
— Acha... que são espiões? (Custava-me ainda a acreditar.)
— São, e estiveram aqui por causa de nós.
— Tem a certeza?
— Oh, absoluta! Já passei por aqui várias vezes. Indicaram-nos a eles logo na alfândega, quando viam os nossos passaportes, comunicaram-lhes os nossos nomes, etc. A seguir, eles entraram no comboio para nos seguirem.
— Mas para que precisavam eles de nos seguir se já nos tinham visto? O senhor não acaba de dizer que lhes deram os nossos dados na estação anterior?
— Deram, e os nossos nomes. Mas não era suficiente. Agora, puderam observar-nos em pormenor: a cara, a roupa, o saco de viagem, enfim, todos os pormenores do nosso aspeto. Repararam de certeza nos seus botões de punho. O senhor sacou da cigarreira, então pode ter a certeza de que notaram também a cigarreira, com todas as minúcias, sabe como é, com o máximo de particularidades, todas as particularidades. É que o senhor, em Paris, poderia desaparecer, mudar de nome (isto é, se fosse suspeito). Pois bem, todos esses pormenores podem ser úteis à instrução. Tudo isso, desde os primeiros dados logo naquela estação, são comunicados por telégrafo para Paris. E, em Paris, é tudo guardado nos arquivos para o que der e vier. Além disso, todos os hoteleiros têm de comunicar à polícia todos os dados sobre os hóspedes estrangeiros, também em pormenor.
— Mas tantos porquê, logo quatro? — perguntei, ainda um pouco perplexo.
— Oh, eles têm-nos cá em grandíssimo número. Pelos vistos, desta vez há poucos estrangeiros, se houvesse mais eles distribuíam-se pelas carruagens.
— Mas, por amor de Deus, eles nem sequer olharam para nós. Estavam sempre a olhar para a janela.
— Não se preocupe, viram tudo... Foi por causa de nós que eles entraram.
Ora, ora — pensei —, e ainda dizem que “o francês não tem bom senso” — e (confesso-o com vergonha) olhei com desconfiança para o suíço: “E tu, meu amigo, não serás da mesma comandita? Não estarás agora a fazer teatro?” — passou-me pela cabeça, mas só por um instante, acreditai. É absurdo, mas nada a fazer: estão sempre a passar-nos pela cabeça, involuntariamente, certas coisas...
O suíço não estava a enganar-me. No hotel onde me hospedei registaram de imediato todos os meus dados, até aos mínimos sinais particulares, e comunicaram-nos para quem de direito. Pela prontidão e minúcia com que nos observam para a descrição dos sinais particulares pode concluir-se que também toda a nossa vida posterior no hotel, todos os nossos passos, por assim dizer, serão registados escrupulosamente. No entanto, desta minha primeira vez, a mim, pessoalmente, não incomodaram muito e fizeram o meu registo discretamente, não deixando porém de me fazer as perguntas habituais que constam do livro de hóspedes: quem é, como é, donde vem, com que fim, etc. No segundo hotel em que tive de me hospedar por já não ter encontrado vaga no meu anterior Hôtel Coquillière, após a minha ausência de oito dias por ter ido a Londres, trataram-me com mais franqueza. Este segundo hotel, o Hôtel des Empéreurs, tinha um aspeto mais patriarcal, em todos os sentidos. O dono e a dona eram de facto pessoas muito boas e extremamente delicadas; tratava-se de um casal já idoso, incrivelmente atento aos seus hóspedes. No próprio dia da minha instalação no hotel, à noite, a hoteleira apanhou-me no átrio e pediu-me para ir ao escritório. O marido também lá estava, mas a mulher, pelos vistos, era quem punha e dispunha no negócio.
— Desculpe — começou ela, muito educada —, precisamos dos seus sinais particulares.
— Mas já os dei... têm o meu passaporte.
— Sim, mas... votre état?
Este “votre état” é uma coisa bastante confusa e nunca me agradou. O que poderia escrever? Viajante? — é demasiado abstrato. Homme de lettres? — não me teriam qualquer respeito.
— Vamos escrever “propriétaire”, o que acha? — propôs a hoteleira. — Será melhor.
— Oh, sim, será o melhor — apoiou o marido.
— Está escrito. Agora: qual o objetivo da sua vinda a Paris?
— Como viajante, de passagem.
— Humm, pois, pour voir Paris. Desculpe, monsieur, a sua estatura?
— Estatura como?
— Que altura tem?
— É como vê, média.
— Com certeza que é média, monsieur... Mas é desejável saber-se com mais precisão... Acho, acho... — continuava ela, duvidando e aconselhando-se, com os olhos, com o marido.
— Acho que tantos centímetros — decidiu o marido, determinando a olho a minha altura.
— Mas para que precisam disso? — perguntei.
— Oh, é ne-ces-sário — respondeu a hoteleira, esticando amavelmente a palavra “necessário” e apontando a minha altura no livro. — Agora, monsieur, cabelo? Loiro, humm... bastante claro... liso...
Apontou também as características do meu cabelo.
— Se me permite, monsieur — continuou, largando a pena, levantando-se da cadeira e aproximando-se de mim com um ar muito amável —, ponha-se aqui, dê só dois passos, mais perto da janela. Tenho de ver a cor dos seus olhos. Humm, claros...
E de novo, com o olhar, pediu o conselho do marido. Pelos vistos, amavam-se muito.
— Mais para o acinzentado — observou o marido. — Voilà. — Piscou o olho à mulher, apontando para qualquer coisa acima do seu sobrolho, mas percebi muito bem o que ele tinha em mente: é que tenho uma pequena cicatriz na testa, e o homem queria que a mulher apontasse também este meu sinal particular.
— Permita-me agora uma pergunta — disse eu à hoteleira quando o exame acabou —, será que vos exigem toda essa informação?
— Oh, monsieur, é mesmo ne-ces-sária!...
— Monsieur! — apoiou-a o marido com um ar muitíssimo grave.
— Mas no Hôtel Coquillière não me interrogaram sequer.
— Não pode ser — disse a hoteleira com vivacidade. — Eles podem ser responsabilizados por isso. Ou então observaram-no sem dizerem nada, mas de certeza que observaram. Ora, nós aqui somos mais simples e sinceros com os nossos hóspedes, acolhemo-los aqui como em família. O senhor vai ficar satisfeito conosco. Vai ver...
— Oh, monsieur!... — confirmou o marido solenemente, e até se lhe pintou uma certa ternura na cara.
Sim, era um casal honestíssimo e amabilíssimo, pelo menos nas minhas relações ulteriores com eles. Mas a palavra “ne-ces-sá-rio” não era dita em tom de desculpa ou de carinho, mas no sentido literal de necessidade e quase em conformidade com as suas convicções.
Estou, pois, em Paris…

Dostoiévski, in A Submissa e Outras Histórias

A primeira que passa!

 

Praça dos protestos vira palco de Tim Maia

1975. O jornalista Wladimir Herzog não resiste à tortura e morre nos porões do II Exército. Versão oficial: suicídio. A Igreja organiza uma missa de protesto na Catedral da Sé. Manifestações contra o regime eram proibidas. Mas como proibir uma missa? No entardecer, a polícia monta barreiras para congestionar a cidade e dificultar o acesso à catedral. A praça é cercada para intimidar os que chegam. Agentes do Dops fotografam e filmam os presentes. Havia algo no ar: protesto.
1977. Universitários organizam uma passeata no centro da cidade para pedir o fim da ditadura e a anistia aos presos políticos. Erasmo Dias ameaça: “A polícia vai agir contra esses baderneiros.” O governador Paulo Egídio, versão oficial, chama a imprensa e denuncia que os estudantes estão sendo manipulados por organizações “marxistas-leninistas”. A passeata acontece. O confronto é inevitável. Pancadaria no largo São Francisco, no viaduto do Chá e na praça da Sé. A polícia inova. Bombas de fumaça amarela, verde e vermelha. Lembram uma viagem de ácido. Havia algo no ar: rebeldia.
1984. Mais de 300 mil pessoas na praça da Sé participam de um dos primeiros comícios das “Diretas-Já”. No Jornal Nacional, versão oficial, um repórter entra ao vivo e, cínico, diz que aquelas pessoas comemoram o aniversário da cidade. Revoltada, a população passa a gritar: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!” Alguns carros da emissora são virados. Repórteres têm de esconder o logotipo da empresa. Havia algo no ar: futuro.
1991. Sábado. Vai atravessar a praça? Esconda o relógio e certifique-se de que a carteira está num lugar seguro. A polícia, agora, é aliada, fica ao seu lado. Algumas prostitutas, de 14 anos, se oferecem. Crentes pregam. Aleluia! Doentes por toda parte. Aleluia! Uma centena de desocupados. No espelho d’água, uma menina de 13 anos, moradora da praça, lava roupas. É linda, de olhos vivos. Muitos vão até ela e propõem uma rapidinha. Não. Ela tem de lavar a roupa do seu “marido”, Tim Maia, uma gorda que frita a banha no sol.
Fim da tarde. Enquanto ela borrifa a roupa com um desodorante barato, Tim Maia se levanta e decide assaltar mais um. A versão oficial pede para limpar a praça, aumentar o policiamento, proibir os marreteiros; quer, na verdade, esconder aquilo no que o país se transformou. Tentei traçar um paralelo entre a praça de antes e a de depois. Deve haver uma relação de causa e efeito. Alguma coisa deu errado. Não há nada no ar.

Marcelo Rubens Paiva, in Crônicas para ler na Escola

Trêmulo e casto


[...]
Agora El Indio voltou e está de pé perto da cabeceira da cama enquanto estou ali sentado, e viro para olhar para o galo (“para domá-lo”) – Estendo a mão da mesma forma que fiz com a galinha e deixo que ele veja que não tenho medo que me bique, e vou acaricia-lo e livrá-lo de todo o medo de mim – O Galo olha para minha mão sem comentário, e olha para longe, e torna o olhar para mim, e encara minha mão (o campeão melancólico seminal que sonha um ovo diário para Tristessa que ela chupa até o fim depois de furá-lo, fresco) – olha ternamente para minha mão mas acima de tudo majestosamente enquanto a galinha não consegue fazer essa mesma avaliação majestosa, ele é coroado e arrogante e pode uivar, é o Rei da Cerca em duelo ardente com o amanhecer podre. Ele cacareja ao ver minha mão, querendo dizer É, e se vira – e olho orgulhoso ao redor para ver se Tristessa e El Indio ouviram meu estupiante selvagem – Eles comemoram ao me ver com lábios ávidos, “Sim, estávamos conversando sobre os dez gramas de morfina que vamos descolar amanhã – É –” e eu me sinto orgulhoso por ter conquistado o Galo, agora todos os bichinhos no quarto me conhecem e me amam e eu os amo apesar de talvez não os conhecer. Todos, exceto O Cantor no telhado, em cima do guarda-roupa, no canto, longe da beira, contra a parede bem embaixo do teto, a Pomba arrulha confortável sentada no ninho, sempre contemplando toda a cena, para sempre sem comentar. Ergo os olhos, meu Senhor bate asas com o arrulhar branco de pomba e olho para Tristessa para saber por que ela arranjou uma pomba e Tristessa levanta as mãos macias de um jeito indefeso e olha para mim com carinho e tristeza, para indicar, “É minha pomba” – “Minha pombinha bonitinha – O que posso fazer?” “Eu gosto tanto dela” – “É tão branquinha e bonitinha” – “Nunca faz barulho” – “Tem olhos taum bonitus, você olha e vê os olhos taum bonitus” e eu olho nos olhos da pomba e são apenas olhos de pomba, abertos, perfeitos, escuros, poços, misteriosos, quase orientais, é impossível aguentar a pureza tamanha que aqueles olhos emanam – E são tão parecidos com os olhos de Tristessa que eu gostaria de poder comentar e dizer a Tristessa “Tens os olhos da pomba” –
De vez em quando a Pomba se levanta e bate as asas como exercício, em vez de voar pelo ar triste ela espera em seu cantinho dourado do mundo, espera a pureza perfeita, a morte, a Pomba na sepultura é algo melancólico para ser celebrado – o corvo na sepultura não é uma luz branca que ilumina os Mundos e aponta para cima e aponta para baixo por entre os dez lados soberbos da Eternidade – Pobre Pomba, pobres olhos – seu peito branco como neve, seu leite, sua torrente de piedade sobre mim, seu olhar mesmo gentil, os olhos dentro dos meus, das alturas otimistas de seu lugar no armário e nos arcabouços dos Céus Abertos do Mundo da Mente – anjo dourado e otimista de meus dias, e não posso tocá-la, não ousaria subir em uma cadeira e prendê-la no canto e sorrir com um ranger de dentes para ela, tentando impressioná-la em meu coração manchado de sangue – o sangue dela.

El Indio trouxe sanduíches e a gatinha está louca por um pouco de carne e El Indio fica com raiva e a expulsa da cama com um tapa e eu estendo minhas duas mãos para ele “Non” “Não faça isso” e ele nem mesmo me escuta e Tristessa grita com ele – o grande Homem Fera irado com a carne da cozinha e batendo na filha que está na cadeira do outro lado do quarto até cair no chão, as lágrimas começam a escorrer quando ela percebe o que fez – Não gosto de El Indio porque ele bateu na gata. Mas ele não faz por maldade, é apenas uma reprimenda, uma maneira dura, justificada de lidar com a gata, chutá-la de seu caminho na sala quando vai atrás de seus charutos e da televisão O Velho pai Tempo é El Indio, com as crianças, a esposa, as noites na mesa de jantar estapeando os filhos e conduzindo sobre grandes jantares com muita carne sob a luz mortiça – “Buuurp! Braap!”, ele solta diante das crianças que olham para ele com olhos reluzentes e cheios de admiração. Agora é sábado à noite e ele está conversando com Tristessa e se esforçando para explicar a ela, de repente a velha Cruz (que não é velha, tem só quarenta) se levanta gritando “É, com nossa grana, si, com nuestro dinero” e repete duas vezes, soluça, e El Indio a avisa que eu posso entender (quando ergo os olhos com magnificência imperial de indiferença com um toque de respeito pela cena) e como se dissesse “Esta mulher chora porque vocês pegam todo o seu dinheiro” – o que é isso? Rússia? Mússia? Matamorapússia? Como se eu não me importasse de nenhum jeito que não pudesse. Tudo o que queria era ir embora. Tinha me esquecido completamente da pomba e só me lembrei dela dias mais tarde.
A maneira selvagem como Tristessa fica de pé, as pernas afastadas, no meio do quarto para explicar algo, como um viciado em uma esquina do Harlem, ou em qualquer outro lugar, Cairo, Bang Bombayo e todo o Bando de Felás dos Palmeirais da Extremidade das Bermudas às asas de albatroz pousadas que cobrem de penas as rochosas da costa do Ártico, só o veneno que servem das focas Gloogloo dos esquimós e as águias da Groenlândia, não é tão ruim quanto aquela morfina da Civilização Alemã à qual ela (uma índia) é forçada a se submeter e a morrer por ela em sua terra nativa.

Enquanto isso o gato está abrigado confortavelmente perto do lugar do rosto de Cruz, onde ela está deitada ao pé da cama, enrascada, do jeito que dorme a noite inteira enquanto Tristessa se enrosca na cabeceira e elas entrelaçam os pés como irmãs ou como mãe e filha e fazem com que uma cama pequena seja confortável para as duas – O gatinho rosa tem tanta certeza (apesar de todas as suas pulgas que cruzam seu focinho ou passeiam por suas pestanas) – que está tudo bem – que está tudo certo no mundo (pelo menos agora) – quer ficar perto do rosto de Cruz, onde está tudo bem – Ele (na verdade uma Elazinha) ele não percebe as ataduras e o pesar e os horrores de bebedeira e ressaca pelos quais ela está passando, sabe apenas que ela é a senhora todo o dia suas pernas estão na cozinha e de vez em quando ela joga comida para ele e, além disso, ela brinca com ele na cama e finge que vai bater nele e o segura e briga com ele que faz uma carinha naquela cabecinha e pisca os olhos e abana as orelhas para trás para esperar o tapa mas ela está só brincando com ele – Então agora ele se senta em frente a Cruz e apesar de nós gesticularmos como maníacos quando falamos e às vezes uma mão pesada passar perto de suas orelhas, quase acertando-o ou El Indio poder de repente resolver jogar um jornal sobre a cama e acertar bem em cima da cabeça dele, mesmo assim ele fica sentado e curte a gente com olhos fechados e encolhido em um estilo Gato Buda, meditativo em meio a nossas atitudes alucinadas como a Pomba acima – Eu me pergunto: “Será que o gatinho sabe que tem um pombo no guarda-roupa?” Queria que meus parentes de Lowell estivessem aqui para ver como vivem as pessoas e os animais no México –
Mas o pobre do gatinho é uma massa de pulgas, mas ele não se importa, não fica se coçando como gatos americanos mas apenas resiste – Eu o pego do chão e ele é apenas um esqueletinho magrelo com grandes balões de pelo – Tudo é tão pobre no México, as pessoas são pobres, mas mesmo assim tudo o que eles fazem é feliz e despreocupado, não importa o que seja – Tristessa é uma viciada e lida com isso magra e despreocupada, enquanto uma americana seria melancólica – Mas ela tosse e reclama o dia inteiro, e pela mesma lei, de vez em quando, o gato começa a coçar-se furiosamente, o que não ajuda –.

Jack Kerouac, in Tristessa

01/11/2023

Vozes de uma sombra | Wescley Gama

Prelúdio

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos,
nas suas mãos apertadas.

Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...

Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...

Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...

É que os meninos cresceram,
e esqueceram
as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram pra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.

É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada...

Alda Espírito Santo, in É nosso o solo sagrado da terra: poesia de protesto e luta

Capítulo quinze | A nossa guerra



Eis o que trouxemos para a nossa guerra.
Entoaram os feios e todos se abeiraram estupefactos. E o tardio santo abeirou também e sorriu. Era verdade. Junto do branco tombado, bravos em seu pouco jeito, os dois guerreiros ainda pequenos responsabilizavam-se por uma conquista sem precedentes. Pai Todo ergueu um gesto, e as penas em seu cabelo e em seus braços rebrilharam à luz. Chefiou que se cuidasse do morto. Tomar-lhe a cabeça para o coto da figueira, limpar-lhe os ossos para as utilidades do brio guerreiro e das canções. A comunidade foi escolher suas pequenas pedras para depósito na toca do espírito. Pai Todo alegrou explicando que intuíra imediatamente o nome de abrigo para o inimigo, que mudaria abençoado para a encantaria abaeté e sanaria de ser torto. O inimigo seria Mão Abundante. Oferecera o grito de ferro ao povo das ilhas dos três mares, viera à mata por inusitada generosidade, sua mão abundou uma preciosidade aos abaeté. A Verdadeiríssima Divindade assim o quis.
A comunidade acendeu os fogos, fumou seus cheiros, cantou e dançou e, um a um, abeirou a cabeça do inimigo e, depositando a pequena pedra na boca, entoou:
Mão Abundante, nossas ilhas, nossos igarapés e três mares, nossa memória e alegria, todos os bichos e todas as originalidades te celebrem com a sacralização eterna e a paz, e teu espírito esteja aninhado no coro da Pedra Que Soa até que regresse na promessa do osso do relâmpago.
Naquela noite, a comunidade celebrou intensamente os guerreiros feios, abeirando deles e levantando as vozes com seus nomes. E eles exultavam, sempre alegres também, e sentindo que valia a pena tornarem-se implacáveis. Quando o pajé instruiu Meio da Noite para entoar as palavras de abrigo, o negro atrapalhou. Era ainda bastante exterior àquela convicção. Entoara sem significar demasiado e estava nada convencido de que seriam capazes de educar os mortos.
Honra, por seu lado, entoara as palavras de abrigo diante da cabeça branca e outra vez misturava seus sentimentos. Confessaria ao amigo:
quero que a pronúncia do nome Mão Abundante paire no som podre. Um nome podre, sem eternidade. Quero que a sua pronúncia seja sepultura. Não gosto que lhe conceda vida alguma, pensamento, modo de sentir. Eu desejo que o inimigo termine com a morte e jamais se admita na nossa encantaria, normalizado, desculpado, educado para nossa alegria. Direi seu nome a significar-lhe toda a tristeza e a entregar toda a repulsa. Eu apenas odeio o inimigo, sagrado Meio da Noite, eu apenas odeio o inimigo, não lhe posso levar salvação alguma, não sinto tão grande gentileza, não sou tão feito de bondade. Matei, quero que se conserve morto.
Era torto. O feio negro pressentiu que o amigo estava errado.

*

Boa de Espanto e Altura Verde celebraram o filho e o cantaram também, em seu redor a fazer alarido e levantando cores, cheios de ofertas nas mãos, coisas bonitas que orgulhavam a todos. Então, parada de dançar, uma feminina jovem se sentou e sucumbiu ao desejo por Honra. Era Dois Amanhãs, a jovem singular que demorava em ser dupla, suspirava em abandono pela mata sem sentir vontade. Dois Amanhãs, ali sentada sem proferir palavra, decidiu que Honra era bom de toque, haveria de agradar mexer, e sentiu-se incapaz de lutar contra essa constatação. Foi Altura Verde quem notou e avisou o filho:
bravo guerreiro, Dois Amanhãs olha para ti. Está a convidar-te para as folias da fertilidade. Ela sucumbiu. Honra, a feminina é sagrada. Jamais esqueças o sagrado que somos. E toma o que é teu.
A magnitude de ser um matador era infinita. Sua fealdade vergava perante o ímpeto, a força, a bondade de seu gesto para o povo abaeté. O feio branco, soberbo subitamente, esfaimou mais do que nunca de mexer no segredo de uma feminina e abeirou Dois Amanhãs impaciente. A feminina levantou e correu cerca fora, mata adentro para ser caçada e colhida pelo guerreiro que acabara de admitir. Assim, correu também Honra, ligeiro e sem peso por sobre todos os obstáculos, e muito depressa deteve a fuga sedutora da feminina e lhe deitou por cima do corpo. Ansiava pelo sabor do corpo dela. Sentira por vezes o cheiro. Como pairava o cheiro das femininas em algumas tarefas e até no tempo de dormir. Mas nunca lhes levara a boca. Queria mexer-lhe e ser mexido. Molhar-se nela. Misturar como se pudessem ser indestrinçáveis. E ele mexeu e saboreou. A feminina, também apenas agora começando suas folias para a fertilidade, regozijou. Era alegre. Seu gemido era alegre. Honra sabia disso. Eram ambos dentro da bênção.
Quando amainaram, mal deitados no chão da mata, o guerreiro sempre ferido chefiou que ela mexesse no corpo do negro.
O negro,
ele entoou,
é meu gémeo. Somos iguais pela fúria. Vamos ser iguais pela glória.
A feminina sorriu. Imaginou que a folia do negro houvesse de aleijar, fazer doer. O guerreiro branco lhe garantiu:
é digno. O animal negro é digno. Ele é alguém.
A feminina, então, respondeu:
tem o bafo podre. Bafeja como o jacaré. Eu não beijo. Não vou beijar o negro jamais.
Honra riu. Ter mexido na feminina trazia uma paz inesperada. Era o contrário da guerra, definindo a vida dos abaeté. Era a demissão de tanta guerra, por um instante. Por um muito breve, gratificante, instante, Honra sobrava ali como um sentimento perfeito, sem ser guerreiro, sem ser mais nada senão um espírito liberto de sua angústia.
Escutou, depois, seu nome entoado na mata:
sagrado Honra. Sagrado Honra. Pai Todo te chama.
*
Quando abeirou do terreiro, ainda antes de estar exposto no largo espaço aberto, a comunidade sorriu. O feio branco escutou:
o osso mais limpo para as tuas canções. Terás como esculpir sua delicadeza para que sopre perfeito. Esta será tua flauta de opaco, teu primeiro grande troféu de opaco. Com ela, manterás a memória da sapiência abaeté e criarás o fascínio com que todos te receberão pelo orgulho de nosso povo. Toma, Honra, dentro deste osso te esperam as canções. Com cuidado e gratidão, haverás de as trazer aos nossos ouvidos e todos te amaremos. És dentro do nosso amor.
Então, Pai Todo chefiou que a comunidade chorasse, e a comunidade chorou.
Honra tomou o osso limpo do inimigo e se deu de asco. Queria mordê-lo, ferrá-lo como as cutias, desfazê-lo na poeira, disfarçá-lo por completo entre os poros do areal. O guerreiro branco tomou o longo osso limpo e caminhou às arrecuas e todos se puseram em cantos e danças e ele estremecia sempre de asco. Foi Meio da Noite quem o percebeu e, antes que estivesse denunciado, pediu:
deixa-me ver, sagrado Honra. Deixa-me ver como se esconde nesse osso a mais bela flauta.
Tomou o osso e espantou. Segurava o pedaço morto de um branco como se fosse um resto de animal de refeição, o resto de uma refeição, um pedaço morto de um bicho qualquer sem sapiência, sem ternura, sem memória de sua família, sem amigar de ninguém. Meio da Noite espantou e temeu, mas jamais vacilaria naquele momento. Calou. Acompanhou o amigo para distante e sentou onde ele quis sentar. Então, entoou:
eu sei onde há mil ossos. Sei onde fica a mata branca de Pé de Urutago, feita de tantos pedaços dos mortos que já nenhuma memória deles sobra, se eram brancos, se eram vermelhos, se eram talvez negros, dos meus povos negros. Ali, estou certo, podes depositar esta flauta que nunca tocará e tomar outra inesperada. Uma flauta que se possa fazer de um osso que já não espera vocação para ser das canções, para ser nas mãos alegres dos que vivem. E essa flauta tocará e será livre da impressão ascorosa que sentes. Ensino-te o caminho, sagrado Honra. Ensino-te o caminho para a mata de osso.
Batiam os tambores com vigor. A comunidade festejava ainda e Pai Todo expunha no alto das mãos o grito de ferro. Os abaeté eram triunfantes. O terreiro levantava uma parda terra de tanto pisarem na alegria, de tanto quererem inscrever na terra a vibração eufórica daquela conquista. O grito de ferro era distinto. Uma ave depenada, o bico antipático, o pé largo como pata aleijada que não servia para o deixar erguido no chão. O grito de ferro subia nas mãos do tardio santo e todos se abeiravam corajosos e entoavam a gratidão.
Meio da Noite entoou:
caminharemos muito pela acalmia da escuridão. Quando chegarmos à mata branca, ela sozinha se iluminará, tão ostensiva se torna por uma nesga de luar. Foi como a descobri quando fugia, sem saber, nesta direcção. A mata branca é toda morta e, se alguma coisa lhe imita vida, é a capacidade de cintilar. Pensarás, depois, o que haverá de significar tão imensa sementeira. Por que se semeiam os ossos. Por que se erguem uns sobre os outros por absurda vegetação. Que folha dá o osso. Que flor dá o osso. Perguntarás, como eu. O que fará Pé de Urutago com o resto de tantos inimigos.
O guerreiro branco olhou em redor. Havia ninguém. Sentia que era tocado, mas havia ninguém. Perguntou:
estarás emocionado. Será emoção que te acontece.
Mas Meio da Noite não respondeu. Era um apagão indistinto entre as outras sombras. Honra, ainda assim, seguia com a impressão de não estar só. Alguma coisa tocava seu corpo. Ele entoou:
não pode existir uma mata de osso. Tens de estar emocionado. Escolheste a mentira. Isso, sem mais nada, pode matar-te.
Lembrava da promessa à mãe.
O guerreiro branco, agora matador, agora mexido por uma feminina, maturava em sua opacidade. Era outro. Começava a ser outro e não tinha intenção alguma de regresso. Pai Todo pareceu afirmar-lho:
entoas como se fosses uma multidão.
Tomou o grito de ferro de suas mãos e estranhou. Repetiu:
sagrado Honra, entoas como se fosses uma multidão.
Outra vez o guerreiro sempre ferido se sacudiu. Ao fundo do terreiro, como era hábito, sob a andiroba, Meio da Noite aguardava na frescura possível. A comunidade era normal. A alegria abaeté prosseguia. O santo erguia uma e outra vez o grito de ferro. As celebrações não terminavam. Eram eufóricas. Cada guerreiro e cada feminina, cada curumim e cada curatã entoavam:
obrigado, Mão Abundante.
O espírito do inimigo estaria já aninhado na Pedra Que Soa, salvo para sempre, educado para a boa morte dos abaeté.

Valter Hugo Mãe, in As doenças do Brasil 

Infiltrado

1520 – Tlaxcala

Rumo à reconquista de Tenochtitlán

Pouco falta para que termine o ano. Nem bem apareça o sol, Cortez dará a ordem de partir. Suas tropas, pulverizadas pelos astecas, reconstruíram-se em poucos meses, ao amparo dos índios aliados de Tlaxcala, Huexotzingo e Texcoco. Um exército de cinquenta mil nativos obedece suas ordens e novos soldados vieram da Espanha, de São Domingos e de Cuba, recém-providos de cavalos, arcabuzes, balestras e canhões. Para lutar na água, quando chegue na lagoa, Cortez disporá de velas, ferros e mastros para armar treze bergantins. Os de Huexotzingo darão a madeira.
Com as primeiras luzes, aparece ao longe a serra de vulcões. Mais além, brotada das águas prodigiosas, espera, desafiante, Tenochtitlán.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

A morte de meu pai: Tomada 2



É assim que acontece. O velho dr. Bennett, nosso médico, sai do quarto de hóspedes e fecha delicadamente a porta. Extremamente velho, ele parece uma maçã comida abandonada ao sol. Ele estava lá quando eu nasci, e já era velho então. Minha mãe e eu estamos sentados na sala esperando o que ele tem a dizer. Tirando o estetoscópio dos ouvidos, ele olha desanimado para nós.
Diz dr. Bennett: “Não há nada que eu possa fazer. Sinto muito. Se vocês tiverem algum assunto pendente para resolver com Edward, algo para dizer, agora seria o momento...”
E sua voz se transforma num murmúrio até silenciar.
Isso era algo que estávamos esperando, essa observação final. Minha mãe e eu suspiramos. Há ao mesmo tempo tristeza e alívio no modo como a tensão abandona nosso corpo, e nós nos entreolhamos, dividindo aquele olhar, aquele olhar que só acontece uma vez na vida. Estou um tanto surpreso de que o dia tenha finalmente chegado, pois embora o dr. Bennett tivesse dado um ano de vida a meu pai há cerca de um ano, ele está morrendo há tanto tempo que de certa forma eu esperava que ficasse morrendo para sempre.
— Talvez eu deva entrar primeiro — ela diz. Parece derrotada, exausta, seu sorriso sem vida e de alguma forma sereno. — A menos que você queira ir.
— Não — digo. — Você vai e depois...
— Se acontecer alguma coisa...
— Tudo bem — respondo. — Você me avisa.
Ela respira fundo, levanta-se, e entra no quarto dele como uma sonâmbula, deixando a porta aberta atrás de si. O dr. Bennett, um tanto curvado como se seus ossos tivessem fundido por causa da velhice, fica parado no meio da sala, com ar de espanto e tristeza diante dos poderes da vida e da morte. Após alguns minutos minha mãe volta, enxuga uma lágrima do rosto, e dá um abraço no dr. Bennett. Ele a conhece há mais tempo do que eu, penso. Ela também é velha, mas perto dele parece eternamente jovem. Parece uma jovem prestes a se tornar viúva.
— William — ela diz.
E então eu entro. O quarto está na penumbra, o tom acinzentado de uma soneca depois do almoço, embora do outro lado das cortinas se possa ver a luz de fora querendo entrar. Este é o quarto de hóspedes. Era aqui que meus amigos ficavam quando passavam a noite em casa, antes de terminarmos a escola, e agora é o quarto onde meu pai está morrendo, está quase morto. Quando entro, ele sorri. Morrendo, ele tem aquele ar que as pessoas moribundas às vezes têm, alegre e triste, cansado e abençoado espiritualmente, tudo ao mesmo tempo. Eu já vi na televisão. Quando o personagem principal morre, ele permanece alegre até o fim, dando conselhos aos entes queridos com uma voz fraca, sendo falsamente otimista acerca de seu prognóstico terminal e, em geral, fazendo as pessoas chorar porque está lidando tão bem com a situação. Mas é diferente com meu pai. Ele não está alegre e não tem falsas esperanças. De fato, ele gosta de dizer: “Por que eu ainda estou vivo? Sinto que já devia ter morrido há muito tempo.”
E dá mesmo esta impressão. Seu corpo que mal passou da meia-idade parece ter sido retirado da cova e ressuscitado para uma nova tentativa, e embora ele nunca tenha tido muito cabelo — ele era craque em disfarçar a calvície —, o pouco cabelo que tinha caiu, e sua pele tem um tom esquisito de branco, de modo que quando olho para ele a palavra que me vem à mente é coalhado.
Meu pai coalhou.
— Sabe — ele me disse naquele dia. — Sabe de que eu gostaria?
— De quê, papai?
— De um copo d’água — ele diz. — Um copo d’água seria realmente bem-vindo agora.
— Pode deixar — respondo, e levo um copo d’água, que ele ergue aos lábios com mãos trêmulas, deixando escorrer um pouco pelo queixo e olhando para mim com aqueles olhos como que para dizer que poderia ter vivido uma vida longa, ou mais longa, pelo menos, do que vai viver, sem que eu precisasse vê-lo deixar escorrer água pelo queixo.
— Desculpe-me — ele diz.
— Não se preocupe. Você só derramou um pouco.
— Não me refiro a isso — ele diz, e me lança um olhar atormentado.

— Bem, desculpas aceitas — respondo. — Mas sabe de uma coisa, você enfrentou tudo isso com muita coragem. Mamãe e eu estamos realmente orgulhosos.
Ele não faz nenhum comentário, porque embora esteja morrendo ainda é meu pai, e não gosta que eu fale com ele como se ele fosse um garoto. No ano que passou nós trocamos de lugar; eu me tornei o pai, e ele o filho doente, cujo comportamento sob estas circunstâncias muito difíceis deve ser valorizado.
— Ah, rapaz — ele diz cansado, como se tivesse levado uma pancada na cabeça. — Do que estávamos falando?
— De água — eu falo, e ele concorda com a cabeça, lembrando, e toma outro gole.
Então sorri.
— O que é tão engraçado?
— Eu só estava pensando — ele diz — que vou sair deste quarto de hóspedes bem a tempo para os hóspedes.
Ele ri, ou faz o que passa por uma risada atualmente, que é um chiado ofegante. Foi ele que decidiu mudar-se para o quarto de hóspedes algum tempo atrás. Embora quisesse morrer em casa, perto de nós, não quis morrer no quarto que ele e mamãe tinham compartilhado nas últimas décadas, porque achava que isso poderia arruinar as coisas para ela no futuro. Morrer e sair do quarto de hóspedes a tempo de ele ser usado por um parente de fora que viesse para seu enterro é uma piada que ele já repetiu umas dez vezes nas últimas semanas, e cada vez que a repete é como se ela acabasse de lhe ocorrer. O que é verdade, eu acho. Ele sempre a diz com o mesmo tom de novidade e eu não posso deixar de sorrir.
Estamos aqui, então, com sorrisos no rosto como um par de idiotas. O que se diz agora, que pendências podem ser resolvidas nos últimos minutos do último dia que irá marcar o antes e o depois da sua vida, do dia que irá mudar tudo para os dois, o vivo e o morto? São três e dez da tarde. Lá fora é verão. Esta manhã eu tinha planejado ir a um cinema de noite com um amigo que tinha vindo da faculdade passar uns dias em casa. Minha mãe está fazendo um ensopado de berinjela para o jantar. Ela já arrumou os ingredientes na bancada da cozinha. Antes do dr. Bennett dar a notícia, eu tinha decidido dar um mergulho na piscina, onde, até recentemente, meu pai praticamente morava, já que nadar era o único exercício que ele conseguia fazer. A piscina fica bem em frente à janela do quarto de hóspedes. Minha mãe acha que ele às vezes não consegue dormir quando estou nadando, mas gosta de me ouvir nadar. Ele diz que o barulho o faz sentir-se um pouco molhado também.
Aos poucos, nossos sorrisos idiotas somem do rosto e ficamos simplesmente olhando um para o outro.
— Ei — meu pai diz. — Vou sentir saudades de você.
— E eu de você.
— É mesmo? — ele diz.
— É claro, papai. Sou eu que...
— Vai estar aqui — ele diz. — Então parece que você é que vai sentir saudades.
— Você — eu digo, como se uma força interior me fizesse dizer aquelas palavras —, você acredita...
Eu paro. Existe uma regra implícita em minha família de que é melhor não conversar sobre religião e política com meu pai. Quando o assunto é religião, ele se recusa a comentar, e quando é política ele não para de falar. A verdade é que é difícil conversar com ele sobre quase tudo. Estou me referindo à essência das coisas, às coisas importantes, aquelas que realmente importam. De alguma forma, isso é difícil demais para ele, e talvez um tanto arriscado, uma obrigação para este homem muito inteligente que esqueceu mais fatos sobre geografia, matemática e história do que eu jamais soube (ele sabia as capitais dos cinquenta estados americanos, e onde você chegaria se voasse para leste a partir de Nova York). Assim, escolho minhas palavras o mais que posso. Mas às vezes escapam algumas palavras indelicadas.
— Acredito em quê? — ele me pergunta, fitando-me com aqueles olhos, aqueles olhinhos azuis, acuando-me ali. Então eu digo.
— No Céu — digo.
— Se eu acredito no Céu?
— E em Deus, e tudo o mais — digo porque não sei. Não sei se ele acredita em Deus, ou na vida após a morte ou na possibilidade de todos nós voltarmos como outra pessoa ou outra coisa. Também não sei se ele acredita no Inferno, ou em anjos, ou nos Campos Elísios ou no Monstro do Lago Ness. Nunca conversamos sobre esses assuntos quando ele estava bom, e desde que ficou doente só conversamos sobre remédios, esportes que ele não consegue mais acompanhar porque adormece assim que alguém liga a TV e sobre formas de suportar a dor. Tenho esperança de que ele ignore o assunto agora. Mas de repente seus olhos ficam mais abertos e parecem clarear, como se ele fosse invadido pela possibilidade do que o aguarda depois da morte. Outra além de um quarto de hóspedes vazio. Como se esta fosse a primeira vez que o pensamento lhe tivesse ocorrido.
— Que pergunta — ele diz, com uma voz forte. — Não sei se posso dizer que acredito ou que não acredito. Mas isso me faz lembrar, e me interrompa se já tiver ouvido antes, do dia em que Jesus estava guardando os portões para São Pedro. Bem, Jesus está dando uma mãozinha para ele quando um homem vem arrastando os pés pelo caminho do Céu.
“‘O que foi que você fez para entrar no Reino do Céu?’ Jesus pergunta a ele.
“E o homem diz: ‘Bem, não muito na verdade. Sou apenas um pobre carpinteiro que levou uma vida sossegada. A única coisa notável da minha vida foi meu filho.’
“‘Seu filho?’ Jesus diz, interessando-se.
“‘Sim, ele foi um filho incrível,’ o homem diz. ‘Teve um nascimento inteiramente fora do comum e mais tarde sofreu uma grande transformação. Também tornou-se muito conhecido em todo o mundo e é amado por muitos até hoje.’
“Cristo olha para o homem, dá um abraço apertado nele e diz: ‘Pai, Pai!’
“E o velho o abraça de volta e diz: ‘Pinóquio?’”
Ele chia, eu sorrio, sacudindo a cabeça.
— Já sabia — digo.
— Você devia ter falado — ele retrucou, claramente exausto depois da história. — Quantos fôlegos me restam? Você não quer que eu os desperdice em piadas requentadas, quer?
— Só que você não aprendeu nenhuma nova ultimamente. Aliás, esta faz parte da coletânea das melhores. Coletânea de piadas de Edward Bloom. Elas são engraçadas, papai, não se preocupe. Mas você não respondeu à minha pergunta.
— Que pergunta?
Não sei se rio ou se choro. Ele passou a vida toda como uma tartaruga, dentro de uma carapaça emocional que fornece a defesa perfeita: não há absolutamente nenhuma entrada. Minha esperança é que nestes últimos momentos ele me mostre o lado terno e vulnerável de seu ser, mas isso ainda não está acontecendo, e sou um tolo de pensar que irá acontecer. Foi sempre assim, desde o começo: toda vez que chegamos perto de algo importante, sério ou delicado, ele conta uma piada. Nunca existe um sim ou um não, o que você acha, na minha opinião este é o sentido da vida.
— Por que você acha que isso acontece? — digo alto, como se ele pudesse ler meus pensamentos.
E de algum modo ele pode.
— Nunca me senti à vontade para falar sobre essas coisas. — Ele se mexe desconfortavelmente sob os lençóis. — Quem pode saber com certeza? Não existem provas. Então um dia eu acho que sim, no outro acho que não. E outros dias eu fico em cima do muro. Existe um Deus? Tem dias que acredito que sim, outros dias não tenho certeza. Sob essas circunstâncias nada ideais, uma boa piada às vezes parece mais apropriada. Pelo menos você pode rir.
— Mas uma piada é engraçada por um ou dois minutos e só. Você fica de mãos vazias. Mesmo que você mudasse de ideia a cada dois dias, eu preferiria, eu gostaria que você tivesse dividido algumas dessas coisas comigo. Até as suas dúvidas teriam sido melhores do que uma série infindável de piadas.
— Você tem razão — ele diz, fazendo força com a cabeça no travesseiro e olhando para o teto, como se não conseguisse acreditar que eu tinha escolhido logo aquele momento para lhe dar tal incumbência. É uma carga, e eu a vejo pesando sobre ele, fazendo a vida esvair-se dele, e não posso acreditar que eu tenha feito isso, tenha dito o que disse.
— Ainda assim — ele diz — se eu dividisse minhas dúvidas com você, sobre Deus e amor e vida e morte, isso era tudo o que você teria: um monte de dúvidas. Mas agora, veja só, você tem todas essas ótimas piadas.
— Nem todas são ótimas — respondo.
O ar condicionado zumbe, enfunando as persianas. A luz entra pelas venezianas, grãos de poeira flutuando. O quarto tem um leve mau cheiro, ao qual achei que iria me acostumar, mas não me acostumei. Sempre me causa náuseas e sinto agora um forte enjoo chegando. É o cheiro ou então o choque de ter aprendido mais sobre o meu pai nos últimos segundos do que na vida inteira que os precedeu.
Ele fecha os olhos e eu fico assustado, meu coração dá um salto, e acho melhor ir chamar mamãe, mas quando me mexo ele agarra minha mão.
— Eu fui um bom pai — ele diz.
Uma afirmação sujeita a contestação que ele deixa ali pairando, como que para minha avaliação. Eu o analiso e analiso a afirmação.
— Você é um bom pai.
— Obrigado. — Suas pálpebras tremem, como se ele tivesse ouvido o que veio ouvir. Este é o sentido das últimas palavras: elas são a chave para abrir a outra vida. Não são últimas palavras e sim senhas, mas assim que são ditas você pode partir.
— Então. Como vai ser hoje, papai?
— Como vai ser o quê? — ele diz, de modo sonhador.
— Deus e Céu e tudo isso. O que você acha: sim ou não? Talvez amanhã você pense de forma diferente, eu entendo isso. Mas agora, neste momento, o que você está sentindo? Quero realmente saber, papai. Papai? — digo isso porque ele parece estar entrando num sono profundo. — Papai? — repito.
Ele abre os olhos e olha para mim com seus olhos azuis subitamente ansiosos e diz, diz para mim, diz para o filho que está sentado ao lado da cama dele o vendo morrer, diz: “Pinóquio?”

Daniel Wallace, in Peixe Grande