03/01/2023

O santo que não acreditava em Deus

Temos várias espécies de peixe neste mundo, havendo o peixe que come lama, o peixe que come baratas do molhado, o peixe que vive tomando sopa fazendo chupações na água, o peixe que, quando vê a fêmea grávida pondo ovos, não pode se conter e com agitações do rabo lava a água de esporras a torto e a direito ficando a água leitosa, temos o peixe que persegue os metais brilhantes, umas cavalas que pulam para fora bem como tainhas, umas corvinas quase que atômicas, temos por exemplo o niquim, conhecido por todas as orlas do Recôncavo, o qual peixe não somente fuma cigarros e cigarrilhas, preferindo a tálvis e o continental sem filtro, hoje em falta, mas também ferreia pior do que uma arraia a pessoa que futuca suas partes, rendendo febre e calafrios, porventura caganeiras, mormente frios e tantas coisas, temos os peixes tiburones e cações, que nunca podem parar de nadar para não morrer afogados.
É engraçado que eu entenda tanto de peixe e quase não pegue, mas entendo. Os peixes miúdos de moqueca são: o carapicu, o garapau, o chicharro e a sardinha. Entremeados, podemos ferrar o baiacu e o barriga-me-dói, o qual o primeiro é venenoso e o segundo causa bostas soltas e cólicas. De uma ponte igual a essa, que já foi bastante melhor, podemos esperar também peixes de mais de palmo, porém menos de dois, que por aqui passam, dependendo do que diz o rei dos peixes, dependendo de uma coisa e outra. Um budião, um cabeçudo, um frade, um barbeiro. Pode ser um robalo ou uma agulha ou ainda uma moreia, isto dificilmente. O bom da pesca do peixe miúdo é quando estão mordendo verdadeiramente e sentamos na rampa ou então vamos esfriando as virilhas nestas águas de agosto e ficamos satisfeitos com aquela expedição de pescaria e nada mais desejamos da vida.
Ou quando estamos como assim nesta canoa, porém nada mordendo, somente carrapatos. Nesses peixes miúdos de moqueca, esquecia eu de mencionar o carrapato, que não aparece muito a não ser em certas épocas, devendo ter recebido o nome de carrapato justamente por ser uma completa infernação, como os carrapatos do ar. Notadamente porque esse peixe carrapato tem a boca mais do que descomunal para o tamanho, de modo que botamos um anzol para peixes mais fundos, digamos um vermelho, um olho-de-boi, um peixe-tapa, uma coisa decente, quando que me vem lá de baixo, parecendo uma borboletinha pendurada na ponta da linha, um carrapato. Revolta a pessoa.
E estou eu colocando uma linha de náilon que me veio de Salvador por intermédio de Luiz Cuiúba, que me traz essa linha verde e grossa, com dois chumbos de cunha e anzóis presos por uma espécie de rosca de arame, linha esta que não me dá confiança, agora se vendo que é especializada em carrapatos. Mas temos uma vazante despreocupada, vem aí setembro com suas arraias no céu e, com esses dois punhados de camarão miúdo que Sete Ratos me deu, eu amarro a canoa nos restos da torre de petróleo e solto a linha pelos bordos, que não vou me dar ao desfrute de rodar essa linha esquisita por cima da cabeça como é o certo, pode ser que alguém me veja. Daqui diviso os fundos da Matriz e uns meninos como formiguinhas escorregando nas areias descarregadas pelos saveiros, mas o barulho deles chega a mim depois da vista e assim os gritos deles parecem uns rabos compridos. Temos uma carteira quase cheia de cigarros; uma moringa, fresca, fresca; meia quartinha de batida de limão; estamos sem cueca, a água, se não fosse a correnteza da vazante, era mesmo um espelho; não falta nada e então botamos o chapéu um pouco em cima do nariz, ajeitamos o corpo na popa, enrolamos a linha no tornozelo e quedamos, pensando na vida. Nisso começa o carrapato, que no princípio tive na conta de baiacus ladrões. Quem está com dois anzóis dos grandes, pegou isca de graça e a mulher já mariscou a comida do meio-dia pode ser imaginado que não vai dar importância a beliscão leve na linha. Nem leve nem pesado. Se quiser ferrar, ferre, se não quiser não ferre. Isso toda vez eu penso, como todo mundo que tem juízo, mas não tem esse santo que consiga ficar com aqueles puxavantes no apeador sem se mexer e tomar uma providência. Estamos sabendo: é um desgraçado de um baiacu. Se for, havendo ele dado todo esse trabalho, procuremos arrancar o anzol que o miserável engole e estropia e trataremos de coçar a barriga dele e, quando inchar, dar-lhe um pipoco, pisando com o calcanhar. Mas como de fato não é um baiacu, mas um carrapato sub esenvolvido, um carrapatinho de merda, com mais boca do que qualquer outra coisa, boca essa assoberbando um belo anzol preparado pelo menos para um dentão, não se pode fazer nada. Um carrapato desses a pessoa come com uma exclusiva dentada com muito espaço de sobra, se valesse a pena gastar fogo com um infeliz desses. Vai daí, carrapato na poça d’água do fundo da canoa e, dessa hora em diante, um carrapato por segundo mordendo o anzol, uma azucrinação completa. Foi ficando aquela pilha de carrapatinhos no fundo da canoa e eu pensei que então não era eu quem ia aparecer com eles em casa, porque com certeza iam perguntar se eu tinha catado as costas de um jegue velho e nem gato ia querer comer aquilo. Pode ser que essa linha de Cuiúba tenha especialidade mesmo em carrapato, pode ser qualquer coisa, mas chega a falta de vergonha ficar aqui fisgando esses carrapatos, de maneira que só podemos abrir essa quartinha, retirar o anzol da água, verificar se vale a pena remar até o pesqueiro de Paparrão nesta soalheira, pensar que pressa é essa que o mundo não vai acabar, e ficar mamando na quartinha, viva a fruta limão, que é curativa.
Nisto que o silêncio aumenta e, pelo lado, eu sinto que tem alguma coisa em pé pelas biribas da torre velha e eu não tinha visto nada antes, não podendo também ser da aguardente, pois que muito mal tomei dois goles. Ele estava segurando uma biriba coberta de ostras com a mão direita, em pé numa escora, com as calças arregaçadas, um chapéu velho e um suspensório por cima da camisa. — Ai égua! — disse eu. — Veio nadando e está enxuto? — Eu não vim nadando — disse ele. — Muito peixe? — Carrapato miúdo.
— Olhe ali — disse ele, mostrando um rebrilho na água mais para o lado da Ilha do Medo. — Peixe.
Ora, uma manta de azeiteiras vem vindo bendodela, costeando o perau. É conhecida porque quebra a água numa porção de pedacinhos pela flor e aquilo vai igual a muitas lâminas, bordejando e brilhando. Mas dessas azeiteiras, como as peixas chamadas solteiras, não se pode esperar que mordam anzol, nem mesmo morram de bomba.
— Azeiteira — disse eu. — Só mesmo uma bela rede. E mais canoa e mais braço.
— Mas eles ficam pulando — disse ele, que tinha um sorriso entusiasmado, possivelmente porque era difícil não perceber que a água em cima como que era o aço de um espelho, só que aço mole como o do termômetro, e então cada peixe que subia era um orador. Aí eu disse, meu compadre, se vosmecê botar um anzol e uma dessas meninas gordurentas morder esse tal anzol, eu dou uma festa para você no hotel — ainda que mal pergunte, como é a sua graça?
Assim levamos um certo tempo, porque ele se encabulou, me afirmando que não apreciava mentir, razão por que preferia não se apresentar, mas eu disse que não botava na minha canoa aquele de quem não saiba o nome e então ficasse ele ali o resto da manhã, a tarde e a noite pendurado nas biribas, esperando Deus dar bom tempo. Mas que coisa interessante, disse ele dando um suspiro, isso que você falou.
— É o seguinte — disse ele, dando outro suspiro. — É porque eu sou Deus.
Ora, ora me veja-me. Mas foi o que ele disse e os carrapatinhos, que já gostam de fazer corrote-corrote com a garganta quando a gente tira a linha da água ficaram muitíssimo assanhados.
— E mais o seguinte — continuou ele, com a expressão de quem está um pouco enfadado. — Está vendo aqui? Não tem nada. Está vendo alguma coisa aqui? Nada! Muito bem, daqui eu vou tirar uma porção de linhas e jogar no meio dessas azeiteiras. E dito e feito, mais ligeiro que o trovão, botou os braços para cima e tome tudo quanto foi tipo de linha saindo pelos dedos dele, parecia um arco-íris. Ele aí ficou todo monarca, olhando para mim com a cara de quem eu não sou nem principiante em peixe e pesca. Mas o que aconteceu? Aconteceu que, na mesma hora, cada um dos anzóis que ele botou foi mordido por um carrapato e, quando ele puxou, foi aquela carrapatada no meio da canoa. Eu fiz: quá-quá-quá, não está vendo tu que temos somente carrapatos? Carrapato, carrapato, disse eu, está vendo a cara do besta? Ele, porém, se retou.
— Não se abra, não — disse ele — que eu mando o peixe lhe dar portada.
— Portada dada, portada respostada — disse eu.
Para que eu disse isto, amigo, porque me saiu um mero que não tinha mais medida, saiu esse mero de junto assim da biriba, dando um pulo como somente cavacos dão e me passou uma rabanada na cara que minha cara ficou vermelha dois dias depois disto.
— Donde saiu essa, sai mais uma grosa! — disse ele dando risada, e o mero ficou a umas três braças da canoa, mostrando as gengivas com uma cara de puxa-saco.
— Não procure presepada, não — disse ele. — Senão eu mando dar um banho na sua cara.
— Mande seu banho — disse eu, que às vezes penso que não tenho inteligência.
Pois não é que ele mandou esse banho, tendo saído uma onda da parte da Ponta de Nossa Senhora, curvando como uma alface aborrecida a ponta da coroa, a qual onda deu tamanha portada na canoa que fiquemos flutuando no ar vários momentos.
— Então? — disse ele. — Eu sou Deus e estou aqui para tomar um par de providências, sabe vosmecê onde fica a feira de Maragogipe? — Qual é feira de Maragogipe nem feira de Gogiperama — disse eu, muito mais do que emputecido, e fui caindo de pau no elemento, nisso que ele se vira num verdadeiro azougue e me desce mais que quatrocentos sopapos bem medidos, equivalentemente a um catavento endoidado e, cada vez que eu levantava, nessa cada vez eu tomava uma portada encaixada. Terminou nós caindo das nuvens, não sei qual com mais poeira em torno da garupa. Ele, no meio da queda, me deu uns dois tabefes e me disse: está convertido, convencido, inteirado, percebido, assimilado, esclarecido, explicado, destrinchado, compreendido, filho de uma puta? E eu disse sim senhor, Deus é mais. Pare de falar em mim, sacaneta, disse ele, senão lhe quebro todo de portada. Reze aí um padre-nosso antes que eu me aborreça, disse ele. Cale essa matraca, disse ele.
Então eu fui me convencendo, mesmo porque ele não estava com essas paciências todas, embora se estivesse vendo que ele era boa pessoa. Esclareceu que, se quisesse, podia andar em cima do mar, mas era por demais escandaloso esse comportamento, podendo chamar a atenção. Que qualquer coisa que ele resolvesse fazer ele fazia e que eu não me fizesse de besta e que, se ele quisesse, transformava aqueles carrapatos todos em lindos robalos frescos. No que eu me queixei que dali para Maragogipe era um bom pedaço e que era mais fácil um boto aparecer para puxar a gente do que a gente conseguir chegar lá antes que a feira acabasse e aí ele mete dois dedos dentro da água e a canoa sai parecendo uma lancha da Marinha, ciscando por cima dos rasos e empinando a proa como se fosse coisa, homem ora. Achei falta de educação não oferecer um pouco do da quartinha, mas ele disse que não estava com vontade de beber.
Nisso vamos chegando muito rapidamente a Maragogipe e Deus puxa a poita desparramando muitos carrapatos pelos lados e fazendo a alegria dos siris que por ali pastejam e sai como que nem um peixe-voador. No meio do caminho, ele passa bastante desencalmado e salva duas almas com um toque só, uma coisa de relepada como somente quem tem muita prática consegue fazer, vem com a experiência. Porque ele nem estava olhando para essas duas almas, mas na passagem deu um toque na orelha de cada uma e as duas saíram voando ali mesmo, igual aos martins depois do mergulho. Mas aí ele ficou sem saber para onde ia, na beira da feira, e então eu cheguei perto dele. — Tem um rapaz aqui — disse Deus, coçando a gaforinha meio sem jeito — que eu preciso ver.
— Mas por que vosmecê não faz um milagre e não acha logo essa pessoa? — perguntei eu, usando o vosmecê, porque não ia chamar Deus de você, mas também não queria passar por besta se ele não fosse.
— Não suporto fazer milagre — disse ele. — Não sou mágico. E, em vez de me ajudar, por que é que fica aí falando besteira?
Nessa hora eu quase ia me aborrecendo, mas uma coisa fez que eu não mandasse ele para algum lugar, por falar dessa maneira sem educação. É que, sendo ele Deus, a pessoa tem de respeitar. Minto: três coisas, duas além dessa. A segunda é que pensei que ele, sendo carpina por profissão, não estava acostumado a finuras, o carpina no geral não alimenta muita conversa nem gosta de relambórios. A terceira coisa é que, justamente por essa profissão e acho que pela extração dele mesmo, ele era bastante desenvolvidozinho, aliás, bem dizendo, um pau de homem enormíssimo, e quem era que estava esquecendo aquela chuva de sopapos e de repente ele me amaldiçoa feito a figueira e eu saio por aí de perna peca no mínimo, então vamos tratar ele bem, quem se incomoda com essas bobagens? Indaguei com grande gentileza como é que eu ia ajudar que ele achasse essa bendita dessa criatura que ele estava procurando logo na feira de Maragogipe, no meio dos cajus e das rapaduras, que ele me desculpasse, mas que pelo menos me dissesse o nome do homem e a finalidade da procura. Ele me olhou assim na cara, fez até quase que um sorriso e me explicou que ia contar tudo a mim, porque sentia que eu era um homem direito, embora mais cachaceiro do que pescador. Em outro caso, ele podia pedir segredo, mas em meu caso ele sabia que não adiantava e não queria me obrigar a fazer promessa vã. Que então, se eu quisesse, que contasse a todo mundo, que ninguém ia acreditar de qualquer jeito, de forma que tanto faz como tanto fez. E que escutasse tudo direito e entendesse de uma vez logo tudo, para ele não ter de repetir e não se aborrecer. Mas Deus, ah, você não sabe de nada, meu amigo, a situação de Deus não está boa. Você imagine como já é difícil ser santo, imagine ser Deus. Depois que eu fiz tudo isto aqui, todo mundo quer que eu resolva os problemas todos, mas a questão é que eu já ensinei como é que resolve e quem tem de resolver é vocês, senão, se fosse para eu resolver, que graça tinha? É homens ou não são? Se fosse para ser anjo, eu tinha feito todo mundo logo anjo, em vez de procurar tanta chateação com vocês, que eu entrego tudo de mão beijada e vocês aprontam a pior melança. Mas, não: fiz homem, fiz mulher, fiz menino, entreguei o destino: está aqui, vão em frente, tudo com liberdade. Aí fica formada por vocês mesmos a pior das situações, com todo mundo passando fome sem necessidade e cada qual mais ordinário do que o outro, e aí o culpado sou eu? Inclusive, toda hora ainda tenho de suportar ouvir conselhos: se eu fosse Deus, eu fazia isto, se eu fosse Deus eu fazia aquilo. Deus não existe porque essa injustiça e essa outra e eu planejava isso tudo muito melhor e por aí vai. Agora, você veja que quem fala assim é um pessoal que não acerta nem a resolver um problema de uma tabela de campeonato, eu sei porque estou cansado de escutar rezas de futebol, costumo mandar desligar o canal, só em certos casos não. Todo dia eu digo: chega, não me meto mais. Mas fico com pena, vou passando a mão pela cabeça, pai é pai, essas coisas. Agora, milagre só em último caso. Tinha graça eu sair fazendo milagres, aliás tem muitos que me arrependo por causa da propaganda besta que fazem, porque senão eu armava logo um milagre grande e todo mundo virava anjo e ia para o céu, mas eu não vou dar essa moleza, está todo mundo querendo moleza. A dar essa moleza, eu vou e descrio logo tudo e pronto e ninguém fica criado, ninguém tem alma, pensamento nem vontade, fico só eu sozinho por aí no meio das estrelas me distraindo, aliás tenho sentido muita falta. É porque eu não posso me aporrinhar assim, tenho que ter paciência. Senão, disse ele, senão... e fez uma menção que ia dar um murro com uma mão na palma da outra e eu aqui só torcendo para que ele não desse, porque, se ele desse, o mínimo que ia suceder era a refinaria de Mataripe pipocar pelos ares, mas felizmente ele não deu, graças a Deus. Então, explicou Deus, eu vivo procurando um santo aqui, um santo ali, parecendo até que sou eu quem estou precisando de ajuda, mas não sou eu, é vocês, mas tudo bem. Agora, é preciso que você me entenda: o santo é o que faz alguma coisa pelos outros, porque somente fazendo pelos outros é que se faz por si, ao contrário do que se pensa muito por aí. Graças a mim que de vez em quando aparece um santo, porque senão eu ia pensar que tinha errado nos cálculos todos. Fazer por si é o seguinte: é não me envergonhar de ter feito vocês igual a mim, é só o que eu peço, é pouco, é ou não é? Então quem colabora para arrumar essa situação eu tenho em grande apreço. Agora, sem milagre. Esse negócio de milagre é coisa para a providência, é negócio de emergência, uma correçãozinha que a gente dá. Esse pessoal não entende que, toda vez que eu faço um milagre, tem de reajustar tudo, é uma trabalheira que não acaba, a pessoa se afadiga. Buliu aqui, tem de bulir ali, é um inferno, com perdão da má palavra. O santo anda dificílimo. Quando eu acho um, boto as mãos para o céu.
Tendo eu perguntado como é que ele botava as mãos para o céu e tendo ele respondido que eu não entendia nada de Santíssima Trindade e calasse minha boca, esclareceu que estava procurando um certo Quinca, conhecido como Das Mulas, que por ali trabalhava. Mas como esse Quinca, perguntei, não pode ser o mesmo Quinca! Pois esse Quinca era chamado Das Mulas justamente por viver entre burros e mulas e antigamente podendo ter sido um rapaz rico, mas havendo dado tudo aos outros e passando o tempo causando perturbação, ensinando besteiras e fazendo questão de dar uma mão a todos que ele dizia que eram boas pessoas, sendo estas boas pessoas dele todas desqualificadas. Porém ninguém fazia nada com ele porque o povo gostava muito dele e, quando ele falava, todo mundo escutava. Além de tudo, gastava tudo com os outros e vivia dando risadas e tomava poucos banhos e era um homem desaforado e bebia bastante cana, se bem que só nas horas que escolhia, nunca em outras. E, para terminar, todo mundo sabia que ele não acreditava em Deus, inclusive brigava bastante com o padre Manuel, que é uma pessoa distintíssima e sempre releva.
— Eu sei — respondeu Deus. — Isto é mais uma dificuldade.
E, de fato, fomos vendo que a vida de Deus e dos santos é muito dificultosa desde aí, porque tivemos de catar toda a feira atrás desse Quinca e sempre onde a gente passava ele já tinha passado. Ele foi encontrado numa barraca, falando coisas que a mulher de Lóide, aquela outra santa, fingia que achava besteira, mas estava se convencendo e então eu vi que aquilo ia acabar dando problema. Olha aí, mostrei eu, ele ali causando divergência. É isso mesmo, disse Deus com olhar de grande satisfação, certa feita eu também disse que tinha vindo separar homem e mulher. Não quero nem saber, me apresente.
E então tivemos um belo dia, porque depois da apresentação parece que Quinca já tinha tomado algumas e fomos comer um sarapatel, tudo na maior camaradagem, porque estava se vendo que Quinca tinha gostado de Deus e Deus tinha gostado dele, de maneira que ficaram logo muitíssimo amigos e foi uma conversa animada que até às vezes eu ficava meio de fora, eles tinham muita coisa a palestrar. Nisso tome sarapatel até as três e todo mundo já de barriga altamente estufada, quando que Quinca me resolve tomar uma saideira com Deus e essa saideira é nada mais nada menos do que na casa de Adalberta, a qual tem mulheres putas. Nessa hora, minha obrigação, porque estou vendo que Deus está muito distraído e possa ser que não esteja acostumado com essas aguardentes de Santo Amaro que ele tomou mais de uma vintena, é alertar. Chamei assim Deus para o canto da barraca enquanto Quinca urinava e disse olhe, você é novo por aqui, pelo menos só conhecíamos de missa, de maneira que essa Adalberta, não sei se você sabe, é cafetina, não deve ficar bem, não tenho nada com isso, mas não custa um amigo avisar. Ora, rapaz, você tem medo de mulher, disse Deus, que estava mais do que felicíssimo e, se não fosse Deus, eu até achava que era um pouco do efeito da bebida. Mas, se é ele que fala assim, não sou eu que fala assado, vá ver que temos lá alguma rapariga chamada Madalena, resolvi seguir e não perguntar mais nada.
Pois tomaram mais e fizeram muito grande sucesso com as mulheres e era uma risadaria, uma coisa mesmo desproporcionada, havendo mesmo um serviço de molho pardo depois das seis, que a fome apertou de novo, e bastantes músicas. Cada refrão que Quinca mandava, cada refrão Deus repicava, estava uma farra lindíssima, porém sem maldade, e Deus sabia mais sambas de roda que qualquer pessoa, leu mãos, recitou, contou passagens, imitou passarinho com perfeição, tirou versos, ficou logo estimadíssimo. Eu, que estava de reboque bebendo de graça e já tinha aprendido que era melhor ficar calado, pude ver com o rabo do olho que ele estava fazendo uns milagres disfarçados, a mim ele não engana. As mulheres todas parece que melhoraram de beleza, o ambiente ficou de uma grande leveza, a cerveja parecia que tinha saído do congelador porém sem empedrar e, certeza eu tenho mas não posso provar, pelo menos umas duas blenorragias ele deve de ter curado, só pelo olhar de simpatia que ele dava. E tivemos assim belas trocas de palavras e já era mais do que onze quando Quinca convidou Deus para ver as mulas e foram vendo mulas que parecia que Deus, antes de fazer o mundo, tinha sido tropeiro. E só essa tropica e essa não tropica, essa empaca e essa não empaca, essa tem a andadura rija, essa pisa pesado, essa está velha, um congresso de muleiros, essa é que é a verdade.
É assim que vemos a injustiça, porque, a estas alturas, eu já estou sabendo que Deus veio chamar Quinca para santo e que dava um trabalho mais do que lascado, só o que ele teve de estudar sobre mulas e decorar de sambas de roda deve ter sido uma esfrega. Mas eu já estava esperando que, de uma hora para outra, Deus desse o recado para esse Quinca das Mulas. Como de fato, numa hora que a conversa parou e Quinca estava só estalando a língua da cachaça e olhando para o espaço, Deus, como quem não quer nada, puxou a prosa de que era Deus e tal e coisa.
Ah, para quê? Para Quinca dizer que não acreditava em Deus. E para Deus, no começo com muita paciência, dizer que era Deus mesmo e que provava. Fez uns dois milagres só de efeito, mas Quinca disse que era truques e que, acima de tudo, o homem era homem e, se precisasse de milagre, não era homem. Deus, por uma questão de honestidade, embora o coração pedisse contra nessa hora, concordou. Então ande logo por cima da água e não me abuse, disse Quinca. E eu só preocupado com a falta de paciência de Deus, porque, se ele se aborrecesse, eu queria pelo menos estar em Valença, não aqui nesta hora. Mas ele só patati-patatá, que porque ser santo era ótimo, que tinha sacrifícios mas também tinha recompensas, que deixasse daquela besteira de Deus não existir, só faltou prometer dez por cento. Mas Quinca negaceava e a coisa foi ficando preta e os dois foram andando para fora, num particular e, de repente, se desentenderam. Eu, que fiquei sentado longe, só ouvia os gritos, meio dispersados pelo vento.
— Você tem que ser santo, seu desgraçado! — gritava Deus. — Faz-se de besta! — dizia Quinca.
E só quebrando portada, pelo barulho, e eu achando que, se Deus não ganhasse na conversa, pelo menos ganhava na portada, eu já conhecia. Mas não era coisa fácil. De volta de meia-noite e meia até umas quatro, só se ouvia aquele cacete: deixe de ser burro, infeliz! cale essa boca, mentiroso! E por aí ia. Eu só sei que, umas cinco horas mais ou menos, com Gerdásia do mercado trazendo um mingau do que ela ia vender na praça e fazendo a caridade de dar um pouco para mim e para Deus, por sinal que ele toma mingau como se fosse acabar amanhã e não tivesse mais tempo, os dois resolveram apertar a mão, porém não resolveram mais nada: nem Deus desistia de chamar Quinca para o cargo de santo, nem Quinca queria aceitar esse cargo. — Muito bem — disse Deus, depois de uma porção de vezes que todo mundo dizia que já ia, mas enganchava num resto de conversa e regressava. — Eu volto aqui outra vez.
— Voltar, pode voltar, terá comida e bebida — disse Quinca. — Mas não vai me convencer!
— Rapaz, deixe de ser que nem suas mulas!
— Posso ser mula, mas não tenho cara de jegue!
E aí mais pau, mas, quando o dia já estava moço, aí por umas seis ou sete horas da manhã, estamos Deus e eu navegando de volta para Itaparica, nenhum dos dois falando nada, ele porque fracassou na missão e eu porque não gosto de ver um amigo derrotado. Mas, na hora que nós vamos passando pelas encostas do Forte, quase nos esquecendo da vida pela beleza, ele me olhou com grande simpatia e disse: fracasso nada, rapaz. Não falei nada, disse eu. Mas sentiu, disse ele. Se incomode não, disse ele, nem toda pesca rende peixes. E então ficou azul, esvoaçou, subiu nos ares e desapareceu no céu.

João Ubaldo Ribeiro, in Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século

Fluxo equânime de felicidade

Você pode viver em um fluxo equânime de felicidade caso siga pela trajetória reta e pense e aja corretamente. Duas características são comuns às almas de deus, do homem e de todo ser racional:
I. Não são impedidas pelos demais.
II. Preservam o próprio bem na disposição para a justiça e na prática dela, e, nisso, seu desejo encontra seu objetivo.

Marco Aurélio, in Meditações

O abstracionismo de Klee

Jardins da Tunísia (1919), de Paul Klee

Linhagem

Minha árvore ginecológica
me transmitiu fidalguias,
gestos marmorizáveis:
meu pai, no dia do seu próprio casamento,
largou minha mãe sozinha e foi pro baile.
Minha mãe tinha um vestido só, mas
que porte, que pernas, que meias de seda mereceu!
Meu avô paterno negociava com tomates verdes,
não deu certo. Derrubou mato pra fazer carvão,
até o fim de sua vida, os poros pretos de cinza:
‘Não me enterrem na Jaguara. Na Jaguara, não.’
Meu avô materno teve um pequeno armazém,
uma pedra no rim,
sentiu cólica e frio em demasia,
no cofre de pau guardava queijo e moedas.
Jamais pensaram em escrever um livro.
Todos extremamente pecadores, arrependidos
até a pública confissão de seus pecados
que um deles pronunciou como se fosse todos:
‘Todo homem erra. Não adianta dizer eu
porque eu. Todo homem erra.
Quem não errou vai errar.’
Esta sentença não lapidar, porque eivada
dos soluços próprios da hora em que foi chorada,
permaneceu inédita, até que eu,
cuja mãe e avós morreram cedo,
de parto, sem discursar,
a transmitisse a meus futuros,
enormemente admirada
de uma dor tão alta,
de uma dor tão funda,
de uma dor tão bela,
entre tomates verdes e carvão,
bolor de queijo e cólica.

Adélia Prado, in O Coração Disparado

Mercadoria quebrada


Frank entrou no trânsito da autoestrada.
Era embalador da American Clock Company. Há seis anos já. Nunca ficara seis anos num emprego e agora o filho da puta estava realmente acabando com ele. Mas aos quarenta e dois anos, sem educação superior e com o desemprego chegando a dez por cento, não tinha muita escolha. Era seu décimo quinto ou décimo sexto emprego, e todos tinham sido terríveis.
Frank estava cansado e queria chegar em casa e tomar uma cerveja. Manobrou o Fusca para entrar na pista de alta velocidade. Quando conseguiu, não estava mais tão certo de que tinha pressa de chegar em casa. Fran estaria à espera. Quatro anos já.
Ele sabia o que o esperava. Fran mal podia esperar o primeiro tiro verbal. Ele sempre esperava o primeiro tiro dela. Nossa, ela não podia esperar pra lhe dar a porrada. Depois, porrada, porrada, porrada...
Frank sabia que era um perdedor. Não precisava que Fran lhe lembrasse desse fato, o ilustrasse. Seria de pensar que duas pessoas que vivem juntas ajudariam uma à outra. Mas não, caíam no hábito da crítica. Ele a criticava, ela o criticava. Eram perdedores os dois. Agora só lhes restava ver quem podia ser mais sarcástico sobre isso.
E aquele filho da puta, Meyers. Ele voltara ao departamento de remessas dez minutos antes da hora da saída e ficara lá parado.
– Frank.
– Sim.
– Está pondo rótulos de FRÁGIL em todas as embalagens?
– Estou.
– Está embalando com cuidado?
– Estou.
– Estamos recebendo um número cada vez maior de reclamações de clientes sobre mercadorias quebradas.
– Acho que os acidentes em trânsito acontecem.
– Tem certeza de que está embalando os produtos corretamente?
– Tenho.
– Talvez a gente devesse experimentar empresas de caminhão diferentes.
– São todas iguais.
– Bem, quero ver uma melhora. Menos coisas quebradas.
– Sim, senhor.
Meyers outrora controlara toda a American Clock Company, mas a bebida e um mau casamento o tinham arruinado. Tivera de vender a maioria de suas ações, e agora era apenas administrador assistente. Deixara a bebida, e em consequência vivia sempre irritável. Meyers estava continuamente tentando provocar Frank para deixá-lo furioso. Aí teria uma desculpa para despedi-lo.
Não havia nada pior que um bêbado reformado e um convertido religioso, e Meyers era as duas coisas juntas…


Frank meteu-se atrás de um carro velho na pista de alta velocidade. Era um esbodegado bebe-gasolina, um sedan, e soltava uma trilha imunda de fumaça do cano de descarga. Tinha os para-choques amassados, que vibravam com a marcha do sedan. A pintura quase sumira do carro, que era quase sem cor, um cinza fumacento.
Nada disso preocupava Frank. O que o preocupava era que o carro ia devagar demais, na mesma velocidade do carro na pista ao lado. Ele verificou o velocímetro. Estavam indo a oitenta e cinco por hora. Por quê?
Talvez não tivesse importância. Fran estava à espera. Era Fran numa ponta e Meyers na outra. A única hora que tinha sozinho, a única hora em que ninguém o atacava, era quando dirigia na ida e na volta do trabalho. Ou quando dormia.
Mesmo assim, não gostava de ver-se preso na autoestrada. Não tinha sentido. Ele olhou os dois caras sentados na frente do sedan. Os dois falavam e riam ao mesmo tempo. Eram dois jovens vagabundos de 23 ou 24 anos. Frank sentia-se satisfeito por não ouvir a conversa. Aqueles vagabundos começavam a irritá-lo.
Então Frank viu sua chance. O carro à direita do velho sedan ia um pouco mais rápido, forçava à frente. Frank passou para trás do outro carro.
Começou a desfrutar a liberdade de meter o pé ali. Seria uma pequena vitória depois de um dia horrível, com uma noite horrível à frente. Ia vencer.
Então, no momento em que se preparava para cortar a frente do velho sedan, o vagabundo ao volante acelerou fundo, encostou, fechou-o e emparelhou de novo com o outro carro.
Frank meteu-se atrás do carro do vagabundo. Os dois continuavam falando e rindo. Ele viu o adesivo no para-choque. JESUS TE AMA.
Então notou o decalque no para-brisa traseiro. THE WHO. Bem, eles tinham Jesus e The Who. Por que diabos não podiam deixá-lo passar?
Frank seguia atrás deles, colado no para-choque traseiro. Eles continuavam conversando e rindo. E dirigindo exatamente na mesma velocidade do carro à direita. Oitenta quilômetros.
Frank conferiu o retrovisor. Até onde podia ver, o fluxo de tráfego lá para trás era ininterrupto.
Frank passou o Fusca da pista de alta velocidade para a do lado, depois para a de baixa velocidade. O trânsito ia mais rápido ali. Ele contornou um carro lançando-se para a esquerda e depois soltou-se no vazio. Ao fazer isso, viu o velho sedan acelerar. Os vagabundos encostaram a seu lado. Frank conferiu o velocímetro. Noventa quilômetros por hora. Frank acelerou para cem. Os vagabundos continuavam ali. Ele subiu para cento e dez. Os vagabundos continuavam juntos.
Agora tinham pressa. Por quê?
Frank pisou no acelerador até o fundo. O Fusca só ia até cento e dez. Ele ia fundir o motor ou pedir o penico. Os vagabundos se mantinham emparelhados com ele, mesmo torrando o carro deles.
Ele olhou-os. Dois jovens louros, com fios de barbicha. Os rostos voltaram-se para ele. Rostos vazios, como traseiros de peru, com buraquinhos servindo de boca.
O vagabundo ao lado do motorista mostrou o dedo médio para Frank.
Frank apontou o dedo primeiro para o cara que fizera o gesto, depois para o motorista. Depois apontou a saída da auto-estrada. Os dois fizeram que sim com a cabeça.
Frank saiu na frente. Parou num sinal. Os outros esperaram atrás. Depois Frank tomou à direita e foi em frente, os vagabundos atrás. Ele dirigiu até ver um supermercado. Entrou no estacionamento. Notou a plataforma de descarga. Estava escuro ali, o supermercado fechado. A plataforma deserta, as portas de ferro baixadas. Nada havia ali além de espaço e pilhas de caixas de madeira vazias. Frank encostou na plataforma de descarga. Saltou do carro, fechou-o, subiu a rampa e percorreu a plataforma. Os vagabundos pararam o carro ao lado do dele e saltaram.
Subiram a rampa atrás dele. Nenhum dos dois pesava mais de sessenta e cinco quilos. Juntos, só pesavam mais quinze quilos que ele.
Então o cara que mostrara o dedo disse:
– Tudo bem, seu velho merda!
Lançou-se contra Frank, emitindo um som alto, estridente, as mãos espalmadas numa espécie de golpe de caratê. O vagabundo girou, tentou um coice para trás, errou, depois se voltou e atingiu a orelha de Frank com o lado da mão. Não foi mais que um tapa. Frank lançou todos os seus cento e quinze quilos numa forte direita na barriga do vagabundo, e o garoto caiu na calçada segurando as tripas.
O outro vagabundo sacou um faca de mola, abriu-a.
– Vou cortar as porras de seus bagos! – disse a Frank.
Frank esperou o vagabundo se aproximar, passando nervosamente a faca de uma mão para outra. Frank recuou para as caixas. O vagabundo aproximava-se emitindo sons sibilantes. Frank esperou, de costas para as caixas. Aí, quando o vagabundo atacou, Frank estendeu o braço, pegou uma caixa e jogou-a nele. Ela pegou a cara do vagabundo, e enquanto isso Frank avançou e segurou o braço da faca. A lâmina caiu no chão e Frank torceu o braço para as costas do vagabundo. Suspendeu o braço até onde pôde.
– Por favor, não quebre meu braço! – guinchou o vagabundo.
Frank soltou o vagabundo, e ao fazê-lo deu-lhe um chute na bunda. O garoto caiu de cara, agarrando o traseiro. Frank pegou a faca, fechou a lâmina, guardou-a no bolso e voltou devagar para seu carro. Quando entrou e ligou o Fusca, podia ver os dois vagabundos parados juntos ao lado do velho sedan, olhando-o. Não falavam nem riam mais.
De repente, ele apontou o carro e lançou-se contra eles. Os dois se separaram, e no último instante ele se desviou. Diminuiu a marcha e deixou o estacionamento.
Notou que tinha as mãos trêmulas. Fora um dia dos infernos. Seguiu pelo boulevard. O Fusca andava mal, aos esturros, como para protestar contra o maltrato na autoestrada.

Então Frank viu o bar. O Cavaleiro de Sorte. Tinha estacionamento na frente. Ele parou, saltou e entrou.
Sentou-se e pediu uma Bud.
– Onde fica o telefone?
O garçom do balcão lhe disse. Era perto do cagador. Ele pôs a moeda e discou o número.
– Sim? – atendeu Fran.
– Escuta, Fran, vou chegar um pouco atrasado. Fui atacado. Até logo.
– Atacado? Quer dizer que foi assaltado?
– Não, me meti numa briga.
– Uma briga? Não me venha com essa. Você não aguentaria brigar nem com uma criança de peito!
– Fran, eu gostaria que você não usasse essas expressões velhas, rançosas.
– Bem, é verdade! Você não aguentaria brigar nem com uma criança de peito.
Frank desligou e voltou para o banquinho do balcão. Pegou a garrafa de Bud e tomou um gole.
– Gosto de um homem que bebe direto da garrafa!
Tinha alguém sentado junto dele. Uma mulher. Seus trinta e oito anos, as unhas sujas, o cabelo louro oxigenado empilhado frouxo no alto da cabeça. Duas argolas de prata pendiam-lhe das orelhas, a boca coberta de batom. Ela lambeu os lábios, devagar, depois enfiou na boca um Virginia Slim e acendeu-o.
– Eu me chamo Diana.
– Frank. Que é que você bebe?
– Ele sabe...
Ela acenou com a cabeça para o garçom do balcão e ele pegou uma garrafa da marca de uísque preferida dela e aproximou-se. Frank puxou uma nota de dez e colocou-a sobre o balcão.
– Você tem um rosto fascinante – disse Diana. – Que é que faz?
– Nada.
– Exatamente o tipo de homem que eu gosto.
Ela ergueu sua bebida e apertou a perna na dele enquanto bebia. Frank descascou devagar com a unha o rótulo úmido de sua garrafa. Diana acabou sua bebida. Frank fez um gesto para o garçom.
– Mais duas.
– O que é que vai tomar?
– O dela.
– Vai tomar o dela? – perguntou o garçom. – Uau!
Todos riram. Frank acendeu um cigarro e o garçom baixou a garrafa. De repente, parecia uma noite muito boa, afinal.

Charles Bukowski, in Numa Fria

Paz

O nome era Lutetia, mas as pessoas escreviam Lutécia, até o sujeito do registro civil fizera isso. Mas antes de soldarem o nome sobre o mármore polido, ela verificaria todas as letrinhas de metal, uma por uma, para não haver erro. Há coisas que se você não faz, os outros fazem errado por você. Por isso ela tivera o cuidado de tomar todas as providências necessárias.
Era um lugar bom para passear, cheio de aleias arborizadas, vazias e silenciosas. Naquele dia, numa das alamedas, surgiu um cortejo de pessoas caminhando caladas. Lutetia se afastou para longe, não queria assistir à cerimônia que ia se realizar. As pompas que envolviam aquela solenidade, por mais modestas e discretas que fossem, não a interessavam. Ela preferia contemplar as esculturas, dois anjos, um contrito, outro de asas abertas como se fosse levantar voo, o busto de um homem engravatado, um avião, daqueles antigos com hélices, uma lira, uma partitura com notas musicais.
Ao voltar para casa Lutetia teve, outra vez, a sensação de que aquele não era mais o seu lugar. Como se estivesse num quarto de hotel, um espaço ocupado provisoriamente, que não era dela. As cortinas, os móveis, os quadros, os objetos, a cama com a colcha, o armário de roupas, eram coisas estranhas, desconhecidas, que aumentavam sua vontade de partir. Mas pensou na bailarina clássica de bronze, dançando com os braços abertos, que mandara esculpir para soldar sobre o mármore polido, o que lhe deu paciência e ânimo para esperar o que ia acontecer.
Numa quinta-feira, depois de tudo pronto, ela voltou ao cemitério. A bailarina já estava colocada sobre a lápide. E também as letras do seu nome, Lutetia, apenas o nome, ela não queria nenhuma data.
Olhou em torno. As sepulturas, do mesmo tamanho, apenas a cor do mármore variava, estavam dispostas com bela simetria ao longo da aleia. Perto havia uma árvore que projetava uma sombra sob a qual Lutetia se abrigou.

Rubem Fonseca, in Pequenas Criaturas

02/01/2023

Day Tripper | Beatles Cordel

Separação

Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.
Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.
Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.
Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias – um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.
De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde…

Vinicius de Moraes, in Para viver um grande amor

Uma experiência ao vivo

Antes de ter submetido meu livro de história infantil ao editor João Rui Medeiros, da José Álvaro Editora, fiz um teste com uma criança de cinco anos, outra de sete, outra de dez e a quarta de 12 anos, todas reunidas num só grupo. A leitura foi feita por um amigo meu que lê bem. Minha história sobre um coelho pensante tocou as quatro idades de modo diverso, e a leitura era frequentemente interrompida por sugestões e perguntas. A menina de cinco anos, que era mais linda que o coelho, interessou-se estritamente pelo mistério da fuga do animal. Interrompeu o ledor para dizer-lhe em segredo ao ouvido que o coelho tinha patas tão fortes que levantava sozinho o tampo de ferro de sua casinhola e o recolocava no lugar. Passou depois dias desenhando coelhos, e um deles saiu tão bom que foi pendurado no quadro-negro, e de honra, da escola. O menino de sete anos andava na época com problemas, tanto que a mãe recebia recados da professora da escola de que ele andava revoltado. Logo no início da história, interrompeu com desdém: “Esse coelho é de papel e usa óculos.” Ora, ele é que estava ultimamente usando óculos, e também identificando a falsidade de sua situação com a ideia de um coelho meramente de papel. O menino de dez anos ouviu com a maior atenção e deu várias soluções, todas viáveis e inteligentes, para a fuga do coelho. O menino de 12 anos nada falou: era o filho da empregada e não ousava manifestar-se. Seus olhos porém brilhavam e de vez em quando ele trocava sorrisos com o menino de dez anos. Para mim valeu por uma noite de autógrafos mais real que as reais: a comunicação se fez, sentimo-nos unidos pelo coelho pensante, pelo calor mútuo, pela liberdade sem medo. Esqueci que eu escrevera a história e entrei completamente no jogo. O que também aconteceu com outros adultos presentes. As noites de autógrafos deviam ser assim.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

Hagar, o Horrível

Imagem

Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como a água bebida na concha das mãos?

Mário Quintana, in Caderno H

Cartas para minha avó

Na última internação de minha mãe, Dara, eu e minha prima Cecília nos revezávamos para cuidar dela. Fico feliz em dizer que ela não esteve só, mas veja como nós mulheres que sempre cuidamos umas das outras, vó.
Havia alguma conexão muito forte entre minha mãe e eu. Mesmo conseguindo visitá-la apenas aos finais de semana por conta do trabalho e do estudo, foi pra mim que o médico disse que lhe restavam somente mais alguns meses de vida. Saí da sala dele chorando e abatida. Precisei me recompor antes de voltar ao quarto e fingir que estava tudo bem — tomei a decisão de não contar a ela e tornar seus últimos dias os melhores possíveis. “Eu vou morrer, né?”, ela me perguntou assim que me viu. “Para de bobeira, mãe!”, consegui responder. Quando ela adormeceu, chorei em silêncio.
Voltei para casa, contei aos meus irmãos e liguei para o meu pai, que ficou sem reação. Toda vez que eu ia render Dara ou minha prima, minha mãe falava do meu pai pra mim, dizia que ele ainda não havia ido visitá-la, mas que tudo bem, ela não se importava. Claro que se importava. Os dias passavam, as semanas, e nem sinal dele. Um dia, após uma reclamação disfarçada dela, liguei pra ele. Estava na hora de assumir suas responsabilidades.
À época, ele ainda morava sozinho em um pequeno apartamento em frente à praia — tempos depois foi morar com a mulher loira. Assim que atendeu, gritei: “O senhor não tem vergonha na cara? Minha mãe foi sua esposa por mais de vinte anos, vocês tiveram quatro filhos juntos, construíram uma vida! É um verdadeiro absurdo que, em nome de tudo isso e do que o senhor fez ela passar, ainda não a tenha visitado. Ela vai morrer, sabia? E vai morrer carregando todo esse peso, toda essa mágoa, porque o senhor é covarde a ponto de não encarar as merdas que fez e faz! Amanhã é segunda-feira e o senhor vai lá visitá-la, está escutando? Se ela morrer antes de o senhor ir lá, nunca mais fale comigo!”. E bati o telefone na cara dele. Vó, era tanta raiva na minha voz que meu pai não conseguiu falar nada, nem sequer balbuciou, só escutou. Soube que Denis também teve uma conversa parecida com ele.
A semana passou, eu trabalhava o dia todo e estudava à noite. Um dia, assim que cheguei em casa, meu pai me ligou para dizer que havia visitado minha mãe e perguntou quando podíamos nos encontrar. Senti um misto de alívio e alegria. No sábado, assim que eu cheguei ao hospital para ficar com a minha mãe, notei que ela me aguardava com certa ansiedade. Quando sentei ao seu lado, ela prontamente disse com uma voz que mostrava contentamento:
“Sabe quem veio me visitar durante a semana?”
“Não”, menti, “quem?”
“Seu pai, acredita?”
“Que bom, mãe, como foi?”
“Ele chegou um pouco tímido, começamos falando banalidades. Conversa vai, conversa vem, deu a hora de ele ir. Peguei, então, a mão dele, coloquei no meu coração e disse em pensamento: ‘Joaquim, eu te perdoo por tudo que me fizeste, assim como eu também te peço perdão por tudo que lhe fiz’. Sabe, filha, seu pai errou muito comigo, mas a gente também erra.”
No dia seguinte, ela morreu. E por mais que estivesse sendo duro lidar com a morte — vi o corpo da minha mãe embalado para seguir para o necrotério, precisei lidar com toda a burocracia ao mesmo tempo em que lidava com o luto —, foi libertador saber que ela não carregou pesos de uma vida toda. Foi libertador ter incluído meu pai na conversa, rompendo esse ciclo de somente nós termos que perdoar a nós mesmas.
Não chegou a passar um ano e meu pai caiu doente. Eu estava sem falar com ele porque meus irmãos e eu queríamos que ele voltasse a morar lá em casa, ou ao menos passasse um tempo com a gente durante o luto, mas ele não quis, foi viver com a namorada. Ele estava disposto a seguir com a vida dele. Um dia o telefone tocou: era a namorada avisando que meu pai tinha sido internado. Ela estava apavorada, dizendo que não conseguia cuidar dele sozinha e que precisava de ajuda. Ouvi tudo com impaciência, pensando que minha mãe nunca sairia do lado dele.
“Ele é meu pai, não precisa insistir. Jamais o deixaria sozinho em um momento como esse.”
Vó, a partir daquela ligação fiquei com ele até o último dia. Se minha mãe o havia perdoado, quem era eu para não perdoar? Erani quebrou um ciclo de dores e mágoas, um ciclo que não precisei herdar.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

O Lobo do Mar | Capítulo 24


Entre as memórias mais nítidas de minha vida estão os acontecimentos transcorridos a bordo do Ghost nas quarenta horas que sucederam a descoberta de meu amor por Maud Brewster. Eu, que tinha passado a vida em lugares tranquilos apenas para me embrenhar, aos trinta e cinco anos, na aventura mais irracional que poderia imaginar, nunca experimentara tantos acontecimentos e emoções concentrados em tão pouco tempo. Apesar disso, não consigo deixar de ouvir uma vozinha dizendo que não me saí tão mal assim, levando tudo em conta.
Para começar, durante a refeição do meio-dia Wolf Larsen informou aos caçadores que de agora em diante eles deveriam comer na baiuca. Era algo sem precedentes em uma escuna de caça à foca, onde é costume informal que os caçadores sejam tratados como oficiais. Ele não explicou suas razões, mas o motivo era óbvio. Horner e Smoke vinham fazendo galanteios a Maud Brewster, o que era ridículo em si e inofensivo para ela, mas havia evidentemente desagradado a Wolf Larsen.
O anúncio foi recebido com um silêncio sombrio, embora os outros quatro caçadores tenham lançado olhares cheios de significado para os dois responsáveis pelo banimento. Jock Horner, sossegado como era, não esboçou reação, mas o sangue subiu à testa de Smoke de maneira nefasta e ele começou a abrir a boca para falar. Wolf Larsen o encarava, à espera, com um brilho metálico no olhar, mas Smoke acabou fechando a boca sem dizer nada.
— Algo a dizer? — Wolf Larsen perguntou em tom agressivo.
Era um desafio, mas Smoke se negou a aceitá-lo.

— Sobre o quê? — ele respondeu com uma inocência que desconcertou Wolf Larsen e fez os outros sorrirem de leve.
— Ah, nada — foi a resposta frouxa de Wolf Larsen. — Só achei que gostaria de registrar alguma queixa.
— Sobre o quê? — Smoke repetiu, imperturbável.
A essa altura, os companheiros de Smoke tinham aberto sorrisos largos. O capitão podia tê-lo matado, e não tenho dúvidas de que haveria sangue não fosse a presença de Maud Brewster. Aliás, foi também a presença dela que fez Smoke agir daquela forma. Ele era discreto e cauteloso demais para provocar a ira de Wolf Larsen numa situação em que essa ira poderia ganhar expressão mais forte que meras palavras. Temi que uma briga estivesse prestes a começar, mas a situação se resolveu facilmente com um berro do timoneiro.
— Fumaça à vista! — o alerta entrou pela porta aberta da escada.
— Onde está? — gritou Wolf Larsen.
— Bem atrás, senhor.
— Talvez seja um russo — propôs Latimer.
Essas palavras cobriram de ansiedade os rostos dos outros caçadores. Um russo só podia significar uma coisa: um cruzador [73]. Os caçadores, apesar de nunca terem mais que uma vaga ideia da posição do nosso navio, sabiam que estávamos perto dos limites do mar proibido [74], e o histórico de Wolf Larsen com a caça em áreas ilegais era notório. Todos os olhares se voltaram para ele.
— Estamos em total segurança — Wolf Larsen assegurou-lhes, sorrindo. — Ninguém vai para as minas de sal dessa vez, Smoke. Mas vou dizer uma coisa, aposto cinco contra um que é o Macedonia.
Ninguém aceitou a aposta, e ele prosseguiu.
— Nesse caso, aposto dez contra um que teremos problemas pela frente.
— Não, obrigado — Latimer opinou. — Não me oponho a perder dinheiro, mas prefiro apostá-lo quando tenho alguma chance. Sempre temos problemas quando o senhor e esse seu irmão se encontram, e aposto vinte contra um nisso.
Houve um sorriso geral, ao qual Wolf Larsen também aderiu, e a refeição prosseguiu tranquilamente graças a mim, pois ele me tratou de maneira tão abominável dali em diante, com tanta zombaria e condescendência, que comecei a tremer de tanta raiva contida. Mas eu sabia que precisava me controlar para o bem de Maud Brewster, e fui recompensado quando os olhos dela cruzaram com os meus por um breve segundo e disseram com a clareza das palavras, “Seja forte, seja forte”.
Saímos da mesa e subimos para o convés, pois a aparição de um vapor era uma quebra bem-vinda na monotonia do mar em que flutuávamos, e a convicção de que se tratava de Death Larsen e seu Macedonia contribuía para deixar a situação ainda mais emocionante. O vento forte e o mar agitado que haviam surgido na tarde anterior perderam intensidade ao longo da manhã, de modo que era possível agora descer os botes para a caça vespertina. A caçada prometia render. Não havia sinal de focas desde o raiar do dia, mas agora estávamos nos aproximando do bando.
A fumaça continuava muitos quilômetros distante da nossa popa, mas nos alcançava com rapidez, quando descemos os nossos botes. Eles se espalharam e avançaram pelo oceano rumo ao norte. De vez em quando víamos uma vela baixar, escutávamos disparos e víamos a vela subir novamente. As focas estavam aglomeradas e o vento ia morrendo. Tudo favorecia uma boa caçada. Quando partimos para sotaventear o último bote a sotavento, encontramos o oceano forrado de focas adormecidas. Estavam em toda parte, numa quantidade como eu nunca tinha visto, em grupos de duas, três ou mais, deitadas ao comprido na superfície e dormindo alheias a tudo, como cachorrinhos preguiçosos.
Por baixo da fumaça que se aproximava, o casco e as estruturas superiores de um barco a vapor iam se avolumando. Era o Macedonia. Consegui ler o nome pela luneta quando o barco passou a cerca de um quilômetro e meio a estibordo. Wolf Larsen mirou a embarcação com um olhar selvagem enquanto Maud Brewster expressava sua curiosidade.
— Onde estão os problemas que você previu com tanta certeza, capitão Larsen? — ela perguntou, animada.
Ele a encarou com as feições amenizadas pelo instante de diversão.
— O que esperava? Que subissem a bordo e cortassem nossas gargantas?
— Algo assim — ela confessou. — Caçadores de focas são tão novos e estranhos para mim, entende?, que não sei muito bem o que esperar.
Ele assentiu com a cabeça.
— Sem dúvida, sem dúvida. O seu erro foi não ter sido capaz de esperar o pior.
— Ora, o que pode ser pior que cortar nossas gargantas? — ela perguntou com uma surpresa um tanto ingênua.
— Cortar nossos bolsos — ele respondeu. — Chegamos a um ponto em que a capacidade do homem para viver é determinada pela quantidade de dinheiro que ele possui.
— “Quem rouba-me o bolso, rouba-me uma ninharia” [75] — ela citou.
— Quem rouba-me o bolso, rouba-me o direito de viver — veio a resposta —, ao contrário do que dizem os velhos provérbios. Pois rouba-me o pão, a carne e a cama, e ao fazê-lo põe minha vida em risco. Não há sopão nem pão velho suficientes para matar a fome de todos, sabe?, e, quando os homens ficam sem nada no bolso, o mais comum é que morram, e morram sofrendo bastante, a não ser que consigam encher o bolso bem rápido.
— Mas não entendo por que acha que esse vapor está vindo atrás do seu bolso.
— Espere e verá — ele respondeu amargamente.
Não precisamos esperar muito. Depois de ter ultrapassado a nossa linha de botes em vários quilômetros, o Macedonia desceu os seus próprios botes. Sabíamos que eles traziam catorze botes contra os nossos cinco (tínhamos perdido um deles com a deserção de Wainwright). Começaram a descê-los a sotavento do nosso último bote, continuaram em perpendicular à nossa rota e terminaram bem a barlavento do nosso primeiro bote do outro lado. Nossa caçada foi arruinada. Para trás não havia focas, e para a frente o bando era varrido pela fileira de catorze botes como se fossem uma grande vassoura.
Nossos botes caçaram nos quatro ou cinco quilômetros de água entre o local em que estavam e o ponto em que os botes do Macedonia tinham sido posicionados, e depois voltaram para o navio. O vento tinha se reduzido a um murmúrio e o oceano ia ficando cada vez mais calmo, o que criava condições ideais de caça que apareciam somente dois ou três dias em toda uma boa temporada. Uma porção de homens irados, que incluía remadores e pilotos, não apenas caçadores, se amontoou na lateral do barco. Todos estavam com o sentimento de terem sido roubados e praguejavam sem parar enquanto os botes eram içados, e, se pragas tivessem efeito, Death Larsen estaria perdido por toda a eternidade. “Morto e amaldiçoado por uma dúzia de eternidades”, disse Louis para mim com os olhos faiscando, enquanto terminava de fixar as amarras de seu bote.
— Ouça o que dizem e veja se é difícil descobrir o que suas almas valorizam acima de tudo — disse Wolf Larsen. — Fé? Amor? Grandes ideais? O bem? A beleza? A verdade?
— Eles tiveram o seu senso inato de justiça violado — disse Maud Brewster, participando da conversa.
Ela estava parada a três metros de distância, com uma das mãos apoiada no ovém principal e o corpo oscilando suavemente com o leve balançar do navio. Não tinha elevado a voz, e mesmo assim fiquei impressionado com seu tom límpido e sonoro. Ah, como era doce aos meus ouvidos! Mal ousava olhar para ela naquele momento, com medo de me entregar. Ela usava um gorro de menino na cabeça e seus cabelos, castanho-claros e arrumados em um penteado frouxo e volumoso exposto ao sol, pareciam uma auréola em volta do rosto oval e delicado. Ela estava encantadora e, além disso, tinha uma certa doçura espiritual, para não dizer sagrada. Meu antigo fascínio pela vida ressurgiu diante daquela visão esplêndida que o encarnava, tornando verdadeiramente ridícula e risível a explicação fria de Wolf Larsen para a vida e seu significado.
— Uma sentimentalista — ele zombou —, como o sr. Van Weyden. Estes homens estão praguejando porque seus desejos foram afrontados. Isso é tudo. Quais desejos? Os desejos por um bom prato de comida e uma boa cama em terra firme, que um bom salário diário pode proporcionar. As mulheres e a bebida, a glutonice e a bestialidade que tão bem os expressa, o melhor que há dentro deles, suas mais elevadas aspirações, seus ideais, caso prefira. Essa exposição de seus sentimentos não é uma visão das mais bonitas, mas nos mostra como foram tocados profundamente, como seus bolsos foram tocados profundamente, pois colocar a mão em seus bolsos é colocar a mão em suas almas.
— Você não parece estar se comportando como se tivessem colocado a mão em seu bolso — ela disse com um sorriso.
— Então seria o caso de dizer que meu comportamento é atípico, pois colocaram a mão em meu bolso e em minha alma. Pelo preço atual das peles no mercado londrino e baseado em uma estimativa razoável da caça do dia, caso o Macedonia não tivesse estragado tudo, o Ghost acaba de perder mil e quinhentos dólares.
— Você fala com tanta calma… — ela começou a dizer.
— Mas não estou calmo. Poderia matar o homem que me roubou — ele interrompeu. — Sim, sim, eu sei, e este homem é meu irmão… mais sentimentos! Pff!
Seu rosto passou por uma mudança brusca. Sua voz ficou menos severa e cheia de sinceridade.
— Vocês sentimentalistas devem ficar felizes, felizes de verdade, sonhando e achando as coisas boas, satisfeitos consigo mesmos porque pensam que algumas coisas são boas. Mas me digam agora, vocês dois: vocês me acham bom?
— É bom olhar para você, em um certo sentido — avaliei.
— Você tem todo o potencial para ser bom — respondeu Maud Brewster.
— Pronto, aí está! — ele gritou com ela, um pouco irritado. — Suas palavras são vazias para mim. Não há nada claro, astuto ou definitivo no pensamento que você acaba de expressar. Não dá para pegá-lo com as duas mãos e olhar. Na verdade, não chega a ser um pensamento. É uma sensação, um sentimento, algo baseado em ilusões e de forma alguma um produto do intelecto.
À medida que continuava, sua voz voltou a ficar suave e ganhou um toque de confidência.
— Sabe, às vezes fico pensando que eu também gostaria de ser cego para os fatos da vida e conhecer somente suas fantasias e ilusões. Estão erradas, completamente erradas, é claro, e são contrárias à razão. Mas diante delas a minha razão me diz, de maneira completamente equivocada, que sonhar e viver com ilusões é mais prazeroso. E, afinal de contas, o prazer é o salário que recebemos por viver. Sem o prazer, a vida é um ato imprestável. Trabalhar pela vida e não ser pago é pior do que estar morto. Quanto mais prazer sentimos, mais estamos vivendo, e os seus sonhos e irrealidades são menos perturbadores e mais gratificantes para vocês do que os meus fatos para mim.
Ele balançou a cabeça devagar, refletindo.
— Questiono com frequência, com frequência, se a razão realmente vale a pena. Os sonhos devem ser mais plenos e satisfatórios. O prazer emocional é mais substancioso e duradouro que o prazer intelectual, e, além disso, você paga pelos momentos de prazer intelectual com a tristeza. O prazer emocional é sucedido apenas por uma fadiga dos sentidos, que se recuperam logo. Eu os invejo, eu os invejo.
Ele parou abruptamente, e então seus lábios formaram um daqueles estranhos e instigantes sorrisos.
— Eu os invejo com o cérebro, percebam, e não com o coração. A minha razão me obriga. A inveja é um produto intelectual. Sou como o homem sóbrio contemplando os bêbados e desejando, com imenso pesar, estar bêbado como eles.
— Ou como o sábio contemplando os tolos e desejando ser tolo como eles — ri.
— Isso mesmo — ele disse. — Vocês são um par de tolos abençoados e falidos. Não possuem fato algum no bolso.
— Mas gastamos com a mesma liberdade que você — contribuiu Maud Brewster.
— Com mais liberdade ainda, pois não lhes custa nada.
— E porque tomamos emprestado da eternidade — ela retrucou.
— Se fazem assim ou pensam que fazem assim, dá na mesma. Gastam o que não têm, e em troca recebem mais por gastar o que não têm do que eu recebo gastando o que tenho, e que suei muito para obter.
— Por que não troca a base da sua moeda, então? — ela perguntou em tom de provocação.
Ele a encarou por um breve instante, algo esperançoso, e então disse com pesar:
— Tarde demais. Gostaria, talvez, mas já não posso. Meu bolso está cheio da velha moeda, e é uma questão de teimosia. Nunca vou conseguir reconhecer a validade de qualquer outra coisa.
Ele parou de falar e seu olhar ausente passou por ela e se perdeu no mar plácido. A velha melancolia primitiva tinha se abatido sobre ele com força. Ele tremia sob seu efeito. Tinha seguido a trilha de seu raciocínio até uma crise de tristeza e era de se esperar que dali a poucas horas seus demônios interiores estivessem despertos e agitados. Lembrei de Charley Furuseth e entendi que a tristeza desse homem era o castigo que todo materialista deve pagar por seu materialismo.

_____________________

[73] Navio de guerra, de porte médio, veloz e provido de armamentos de calibre médio, usado em explorações, escolta de comboios e na interceptação de navios mercantes de bandeiras inimigas.
[74] O mar de Bering, “proibido” porque os russos reivindicavam o direito exclusivo de caça e pesca nessa região marítima.
[75] Citação de Otelo, Ato III, Cena III, de Shakespeare: “Who steals my purse steals trash.”

Jack London, in O Lobo do Mar