25/01/2014
Severino Abufelado
Curriculum Vixe!
Sempre
fui um manteiga derretida (fervilhando)
Um cabôco estabanado
Cascavélico, parrudo, malino e espalha-brasas.
Um cabôco estabanado
Cascavélico, parrudo, malino e espalha-brasas.
Já fui:
Hércules de feira
Afrouxador de porca de Mercedes
Fui domador de onça
Carregador de piano
Trocador de alvo em estande de tiro (45 e bazuca)
Flanelinha de estacionamento de crocodilo
Degustador oficial da cachaça Lasca-tudo (daquela do rótulo azul)
Pretendente de guerra do lado de dentro
Lançador de rojão e marcador de quadrilha do São João de Bagdá
Nunca aprendi a voar, mas tenho um primo chamado Falcão.
Hércules de feira
Afrouxador de porca de Mercedes
Fui domador de onça
Carregador de piano
Trocador de alvo em estande de tiro (45 e bazuca)
Flanelinha de estacionamento de crocodilo
Degustador oficial da cachaça Lasca-tudo (daquela do rótulo azul)
Pretendente de guerra do lado de dentro
Lançador de rojão e marcador de quadrilha do São João de Bagdá
Nunca aprendi a voar, mas tenho um primo chamado Falcão.
Durante o capim da infância, comi pólvora com maisena
Purezinho de tutano com pó de osso e rapadura
Raspa de chaminé de navio e prega de cu de búfalo.
Purezinho de tutano com pó de osso e rapadura
Raspa de chaminé de navio e prega de cu de búfalo.
Já pintei muito sete em fama de delegado
Já acertei três tiros (pé de pinto) em alvo de vinte metros
Assisti muito filme de Maciste mastigando quebra-queixo
Fui arrancador de mourão e esmagador de quase-tudo.
Já acertei três tiros (pé de pinto) em alvo de vinte metros
Assisti muito filme de Maciste mastigando quebra-queixo
Fui arrancador de mourão e esmagador de quase-tudo.
Atualmente, por força da idade, ando domesticado:
Sou
presidente da Academia Amolestada de Letras
E reco-requista festivo de zoológico:
E reco-requista festivo de zoológico:
Alegro as criancinhas arrastando uma
vareta na jaulinha dos leões.
Jessier
Quirino
24/01/2014
Amigos
"Um amigo durante a vida é muito;
dois é demais; três quase impossível. A amizade exige um certo paralelismo de
vida, uma comunhão de ideias, uma rivalidade de objetivos."
Henry
Adams
Releitura de uma pintura clássica, pelo artista plástico brasileiro Vik Muniz, na mostra Espelhos de Papel
Female Model Standing Before a Mirror, after C.W.
Eckersberg, 2012
Palavras
Imagem: Google
“Uso a palavra
para compor meus silêncios. Não gosto das palavras fatigadas de informar. Dou
mais respeito às que vivem de barriga no chão tipo água, pedra, sapo. Entendo
bem o sotaque das águas. Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres
desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das
tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui
aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios: Amo os
restos, como as boas moscas. Queria que a minha voz tivesse um formato de
canto. Porque eu não sou da informática: eu sou da invencionática. Só uso a
palavra para compor meus silêncios.”
Manoel de Barros
Um Decálogo Liberal, por Bertrand Russel

1. Não tenha
certeza absoluta de nada.
2.
Não considere que valha a pena esconder evidências, pois as evidências
inevitavelmente virão à luz.
3.
Nunca tente desencorajar o pensamento alheio, pois com certeza você terá
sucesso.
4.
Quando encontrar oposição, mesmo que seja de seu cônjuge ou de suas crianças,
se esforce para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma
vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5.
Não tenha respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades com
opiniões contrárias à que você acata.
6.
Não use o poder para suprimir opiniões que considere perniciosas, pois se você
agir assim as opiniões acabarão por suprimir você.
7.
Não tenha medo de opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas
foram um dia consideradas excêntricas.
8.
Encontre mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância
passiva, pois, se você valoriza a inteligência como deveria, o primeiro será um
acordo mais profundo que a segunda.
9.
Seja escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois
será mais inconveniente se você tentar escondê-la.
10.
Não tenha inveja da felicidade daqueles que vivem no paraíso dos tolos, pois
apenas um tolo consideraria que aquilo é felicidade.
Aproximar os extremos
“Querem dar consistência ao Estado?
Aproximem os extremos. Não tolerem nem a opulência nem a mendicância.”
Jean-Jacques Rousseau, in Contrato Social
22/01/2014
Um conto vazio
Pensava
a mil por hora e por isso andava sempre cansada...
Achava
ter a vida uma beleza exaustiva e alinhar os pensamentos dava-lhe muito
trabalho.
Costumava
costurá-los como uma colcha de retalhos, mas não suportava cobrir-se com ela.
Foi
quando, em um dia estranhamente verde, um gato entrou por sua janela, e, ao
puxar um fio, desfez toda a colcha que estava sobre a cômoda, emaranhou-se em
linhas e desapareceu no horizonte.
E ela então, obtendo alguns instantes de
pausa ao perder os pensamentos, encontrou-se em sua essência e sorriu
sinceramente.
Ana
Carolina Paegle tem 29
anos e mora em Barcelona
21/01/2014
A pipoca
A
culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o
fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.
Por
isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que
poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais
variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de
carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.
Cheguei
mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o
filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de
feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como
chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária
estimula todas essas funções do pensamento.
As
comidas, para mim, são entidades oníricas.
Provocam
a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia
em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.
A
pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples
molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas.
Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E
algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas ideias começaram a estourar
como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de
pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma
inesperada e imprevisível.
A
pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético
porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e
pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido
religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.
Para
os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue
de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não
é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir
juntas.
Lembrei-me,
então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé
baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...
A
pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.
Fosse
eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem
aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o
fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem
competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que
houve alguém que teve a ideia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela
sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.
Havendo
fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém
jamais poderia ter imaginado.
Repentinamente
os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira.
Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes
se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O
estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária,
em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as
crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!
E
o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro
em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens
para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve
ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca
somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo
podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser
crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.
Milho
de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.
Assim
acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo.
Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de
uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu
jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas,
de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que
nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho,
ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico,
medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso
aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a
possibilidade da grande transformação.
Imagino
que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais
quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura,
fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar
a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que
ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação
acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que
ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do
casulo como borboleta voante.
Na
simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e
ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É
preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.
"Morre
e transforma-te!" — dizia Goethe.
Em
Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas,
descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era
gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me
valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho
de pipoca que se recusa a estourar.
Meu
amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se
em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com
certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia,
as explicações científicas não valem.
Por
exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não
conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei
piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.
Piruás
são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas
acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.
Ignoram
o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á". A sua
presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino
delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor
branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da
pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino
é o lixo.
Quanto
às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem
que a vida é uma grande brincadeira...
"Nunca imaginei que chegaria um dia
em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que
aconteceu".
Rubem
Alves, in Correio Popular, de Campinas - SP
20/01/2014
Prova falsa
Quem
teve a ideia foi o padrinho da caçula - ele me conta. Trouxe o cachorro de
presente e logo a família inteira se apaixonou pelo bicho. Ele até que não é
contra isso de se ter um animalzinho em casa, desde que seja obediente e com um
mínimo de educação.
—
Mas o cachorro era um chato — desabafou.
Desses
cachorrinhos de raça, cheio de nhém-nhém-nhém, que comem comidinha especial,
precisam de muitos cuidados, enfim, um chato de galocha. E, como se isto não
bastasse, implicava com o dono da casa.
—
Vivia de rabo abanando para todo mundo, mas, quando eu entrava em casa, vinha
logo com aquele latido fininho e antipático de cachorro de francesa.
Ainda
por cima era puxa-saco. Lembrava certos políticos da oposição, que espinafram o
ministro, mas quando estão com o ministro ficam mais por baixo que tapete de
porão. Quando cruzavam num corredor ou qualquer outra dependência da casa, o
desgraçado rosnava ameaçador, mas quando a patroa estava perto abanava o
rabinho, fingindo-se seu amigo.
—
Quando eu reclamava, dizendo que o cachorro era um cínico, minha mulher brigava
comigo, dizendo que nunca houve cachorro fingido e eu é que implicava com o
"pobrezinho".
Num
rápido balanço poderia assinalar: o cachorro comeu oito meias suas, roeu a
manga de um paletó de casimira inglesa, rasgara diversos livros, não podia ver
um pé de sapato que arrastava para locais incríveis. A vida lá em sua casa
estava se tornando insuportável. Estava vendo a hora em que se desquitava por
causa daquele bicho cretino. Tentou mandá-lo embora umas vinte vezes e era uma
choradeira das crianças e uma espinafração da mulher.
—
Você é um desalmado — disse ela, uma vez.
Venceu
a guerra fria com o cachorro graças à má educação do adversário. O cãozinho
começou a fazer pipi onde não devia. Várias vezes exemplado, prosseguiu no feio
vício. Fez diversas vezes no tapete da sala. Fez duas na boneca da filha maior.
Quatro ou cinco vezes fez nos brinquedos da caçula. E tudo culminou com o pipi
que fez em cima do vestido novo de sua mulher.
—
Aí mandaram o cachorro embora? — perguntei.
—
Mandaram. Mas eu fiz questão de dá-lo de presente a um amigo que adora
cachorros. Ele está levando um vidão em sua nova residência.
—
Ué... mas você não o detestava? Como é que arranjou essa sopa pra ele?
—
Problema da consciência — explicou: — O pipi não era dele.
E suspirou cheio de remorso.
Sérgio
Porto, o Stanislaw Ponte Preta,
in Garoto linha dura
19/01/2014
A morte poupa-nos do pesar da imortalidade
Habitua-te a pensar que a morte não é nada para
nós, pois que o bem e o mal só existem na sensação. Donde se segue que um
conhecimento exato do fato de a morte não ser nada para nós permite-nos
usufruir esta vida mortal, evitando que lhe atribuamos uma ideia de duração
eterna e poupando-nos o pesar da imortalidade. Pois nada há de temível na vida
para quem compreendeu nada haver de temível no facto de não viver. É, pois,
tolo quem afirma temer a morte, não porque sua vinda seja temível, mas porque é
temível esperá-la.
Tolice afligir-se com a espera da morte, pois
trata-se de algo que, uma vez vindo, não causa mal. Assim, o mais espantoso de
todos os males, a morte, não é nada para nós, pois enquanto vivemos, ela não
existe, e quando chega, não existimos mais.
Não há morte,
então, nem para os vivos nem para os mortos, porquanto para uns não existe, e
os outros não existem mais. Mas o vulgo, ou a teme como o pior dos males, ou a
deseja como termo para os males da vida. O sábio não teme a morte, a vida não
lhe é nenhum fardo, nem ele crê que seja um mal não mais existir. Assim como
não é a abundância dos manjares, mas a sua qualidade, que nos delicia, assim
também não é a longa duração da vida, mas seu encanto, que nos apraz. Quanto
aos que aconselham os jovens a viverem bem, e os velhos a bem morrerem, são uns
ingénuos, não apenas porque a vida tem encanto mesmo para os velhos, como
porque o cuidado de viver bem e o de bem morrer constituem um único e mesmo
cuidado.
Epicuro, in A
Conduta na Vida
Sinto falta dos meus amigos
"Pois também sinto
falta dos meus amigos. Não os de infância, mas os de juventude e de profissão.
(...) Às vezes penso em procurar por eles, porém não sei bem como, e me bate
uma falta de coragem. O muro do tempo já removeu tanta coisa entre nós todos.
Não sei o que teríamos para dizer um ao outro. Ocorre que, sozinho, sim, posso
pensar neles, no detalhe das suas manias, e me concentrar no papel a ver aqui os
jeitos de cada qual, continuando assuntos que deixamos partidos pelo meio,
meses e meses atrás. Há que se resgatar daí qualquer coisa de bom, de uma
atividade que acaba sendo, por incrível que pareça, a confirmação do que eles
significam para mim e daquilo que nos liga a despeito das barreiras de ano e
distância."
José Luiz Passos, in O sonâmbulo amador
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