Se eu atravessasse a rua agora, eu
morria atropelado por aquele carro preto. Era bom que eu não
precisava entregar o texto dessa semana. Mas ia ser um drama fodido.
O dono do carro preto ia ficar bem
puto. Depois ia ficar bem mal. Depois ia ficar bem puto, de novo,
porque o sinal tava aberto pra ele. E o carro preto ia ficar bem
estraçalhado. Dei uma engordada que ia ser fatal pro carro preto. O
dono do carro preto ia sair me xingando, só depois ia perceber que
eu já morri. Aí ele ia ficar mal de novo. As pessoas iam ficar
putas com ele, porque ninguém fica puto com quem já morreu. Mas o
sinal tava aberto pra mim, ele ia dizer. Talvez alguém me
reconhecesse: esse cara faz uns vídeos pra internet. Talvez virasse
uma comoção.
A Folha ia publicar uma homenagem no
lugar onde é a coluna, o Porta dos Fundos talvez lançasse um
vídeo-homenagem, com meus melhores momentos editados, uma música
emocionante. Fora que vinte e sete anos é uma idade ótima pra
morrer, tem um monte de gente legal que morreu com vinte e sete anos
e as pessoas iam me botar no meio dessa lista. Ia parecer que eu faço
parte de um grupo: “Nós, que morremos com vinte e sete”. Ia
parecer que eu tinha levado uma vida muito mais maldita e muito mais
interessante.
Talvez eu virasse nome de rua. A rua
em que eu morri. A própria Marquês de São Vicente talvez passasse
a se chamar rua Gregorio Duvivier, com a legenda: mártir dos
atropelados. Se bem que o sinal tava vermelho pra mim. Nunca iam
homenagear um cara que atravessou no sinal fechado. E a Marquês é
uma rua muito grande.
Talvez valesse mais a pena eu ser
atropelado numa rua menor. Na rua das Acácias, por exemplo, eu tinha
mais chance. Aí sim, rolava meu nome. Ou não. Rua das Acácias é
um nome bonito, os moradores iam preferir manter. E ninguém atropela
ninguém por ali. As pessoas iam achar suspeito. Iam pensar: esse daí
se jogou na frente do carro só pra virar nome de rua.
Talvez aqui na Marquês seja mais
fácil. Talvez aqui eu consiga emplacar um canteiro. Canteiro
Gregorio Duvivier. Não. Canteiro não costuma ter nome. Talvez, no
máximo, uma plaquinha: aqui morreu Gregorio Duvivier, que fazia
vídeos pra internet e escreveu um livro de poemas. Que ninguém leu.
Não. Melhor não atravessar, não. Por enquanto, morrer não tá
valendo muito a pena pra mim. Nota mental: fazer alguma coisa que
preste. Puta que o pariu, tenho que entregar o texto dessa semana.
Gregorio Duvivier, em Put some farofa
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