VII – Termo
Não sabemos, num nosso país que
ainda constrói sua gente de tantos diversos sangues, se ele será, o
sertanejo, a “rocha viva de uma raça”, o “cerne de uma
nacionalidade”.
Mas sua presença é longa lição,
sua persistência um julgamento e um recado. Atuais como aquelas
palavras do mestre de Leyde:
“Nossos avós ainda não
dispunham senão de recursos muito parcos, para mitigar as dores,
curar as fraturas e os ferimentos, defender-se do frio, expulsar a
escuridão, comunicar-se pessoalmente ou à distância com seus
semelhantes, evitar a podridão e o mau-cheiro. Por toda a parte e
continuamente o homem tinha de sentir as limitações naturais do
bem-estar terrestre. A técnica, a higiene, os aperfeiçoamentos
sanitários do ambiente em que vive, tanto lhe facilitando,
acostumaram-no mal. Aquela conformada serenidade no desconforto
quotidiano, própria das outras gerações, e que os ascetas buscavam
como meio de santificação, perdeu-se para o homem moderno. Porém,
ao mesmo tempo, correu ele o risco de perder também a simples
aceitação da felicidade da vida, onde ela se oferece.”
. . .
Certo, nem é o progresso material
obrigatória despaga, nem a sabedoria prega ponto de qualquer
retrocesso.
Mas talvez não estejamos
desnecessitados de retornar à luz daquilo que, ainda segundo
Huizinga, é a condição primordial da cultura, e que
verdadeiramente a caracteriza: a dominação da natureza, mas da
natureza humana.
. . .
E esta bem pode vir a ser a moção
maior da “Ordem do Vaqueiro”.
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

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