16/10/2026

Parte I | Você trouxe todas as palavras




4.

Fernando pediu que eu tentasse dormir durante a viagem para evitar certa indisposição. Disposto e indisposto eram palavras que ele usava muito para classificar o estado geral das pessoas de acordo com a saúde, o humor, a qualidade do sono, a reação dos órgãos às alterações de temperatura, a alegria, a esperança, a situação do nariz. Tu precisas sonhar para ter algum alívio, ele quase suplicava. Era sempre um assunto muito sério o tema dos sonhos, quase um tratamento para minha salvação. São os delírios do desvelo que vão te salvar, ouvi muito essa frase até decorar, delírio e desvelo. Não sei se eu sabia dessas palavras antes.
— É bonito.
— O quê?
— Delírio do desvelo. Soa familiar no meu trabalho.
— Confesso que sua profissão me impressiona, você é muito calmo para um criminoso.
— Não é tudo crime, só uma parte. E o delito bem-feito é arte, exige paciência. A frieza e o autocontrole são os segredos dos estrategistas bem-sucedidos. Continua a contar, por favor, nosso tempo é curto para tantas coisas. Então começaste o caderno de sonhos nesse dia?
— Sim. Abri o caderno pela primeira vez e não estava totalmente em branco, havia uma frase na primeira página, no meio: Livro das Visões. Não era a letra de Florice, eu tinha visto quando abriu o caderninho e passou as páginas na minha frente. Ela escrevia com ondas, curvas, uma caligrafia muito enfeitada em contraste com a dele, de linhas retas, três palavras. Livro das Visões.
Na segunda página comecei:
Saí de um buraco na terra da Almofala, em Portugal. Estava nua e careca, só usava um colar de búzios. Não sei o meu nome. Fui salva por um casal de idosos. Tenho cortes e marcas de violência no corpo. Sou brasileira. Consigo ver os mortos. Não lembro de nada. Acredito em Deus.
Anotei essas palavras e guardei o caderno, era o que eu sabia sobre mim até ali. Estávamos no carro a caminho de Lisboa, um automóvel limpo e bem cuidado que Fernando dirigia. Florice consultava o mapa de vez em quando. Eu obedeceria à ordem de dormir de qualquer maneira, estava quase sempre muito cansada no primeiro mês, outubro, disso me lembro bem, a sensação de cansaço permanente, de sono, tontura, corpo fraco.
Foi em trânsito que começou a temporada dos tais delírios do desvelo. Abrir o caderno acionou algum mecanismo, e comecei a sonhar. Na primeira vez tive um sonho que me pareceu muito longo, com cenas entrecortadas. Vi as mãos de uma mulher furando búzios pequenos, enfiando o fio por eles, organizando o universo, pois as coisas brilhantes no céu se movimentavam no ritmo dos seus braços. A mesma mão pequena abriu a barriga de um peixe morto e tirou um búzio maior lá de dentro. Lavava na água de sal, enxugava e o colocava no meio, mas o sangue das mãos não saía.
Era um rei dentre os outros, mais marrom, mais brilhante. S­e­­guiu com os búzios menores do outro lado até arrematar o arco completo. Estava pronto o colar, igual a este aqui, que veio comigo. Abaixei a cabeça e ela colocou o presente no meu pescoço, falando coisas que não entendi, eu não reconhecia aquela fala. Pude ver seu rosto, era um sonho de boa luz. Fiz esforço para identificar qualquer coisa, o lugar, a voz… O delicioso som do mar.
— O marulho.
— Sim, o marulho. Só pude descobrir que ganhei o colar de uma senhora de quem eu gosto muito. Senti amor por ela, imenso amor, quando a abracei. Ainda posso sentir, era como saber tudo, enxergar tudo, ouvir tudo, depois dali eu poderia vencer qualquer guerra insurgente, era pura força em um abraço. Chegaram outras pessoas, era ela e outra, depois outra e outra, muitas me abraçavam sem que a mulher saísse do lugar, todas sangravam, eu também, confusa, tempo embaralhado. Elas queriam falar comigo, eu afundava em muitos braços, uma festa silenciosa, voltando ou partindo, não sei se era um adeus ou se me recebiam de volta, se riam ou se choravam. Puseram o peixe morto no mar e ele voltou a viver, saiu nadando e deixando sangue na água azul. Passei muito tempo fantasiando o retorno, seria assim, mas às vezes pensava se não era a preparação de partida, o sonho trazendo uma lembrança. O vento era forte, perturbou minha vista, desligou meus ouvidos e eu acordei, dentro do carro, com a esperança de que eu voltaria, de que ainda me esperavam na praia.
Meu rosto no reflexo do vidro do carro. Acordei e vi, não pareço com ela, a mulher do outro lado da minha vida. Desejei que tivesse dito alguma coisa, o primeiro sentimento depois do sonho foi de ter perdido tudo de novo. Procurava sangue nas mãos. Tinha esperança de lembrar de mim, queria que as memórias voltassem pelo caminho certo. Talvez elas ainda estivessem atravessando o mesmo buraco sob a terra por onde viemos eu, meu corpo, minhas palavras e meu colar de búzios.
Quando Florice percebeu que acordei ficou conversando comigo, tentando mostrar mais ou menos em que ponto do mapa estávamos. Eles disseram várias vezes que queriam me levar a um lugar muito importante quando chegássemos a Lisboa. Riam um para o outro, comentavam baixinho, brincando de fazer segredo. Pelos cálculos precisos de horário e distância, ainda seria dia claro e daria tempo, sim, de ir até lá.

Cochilei várias vezes ao longo da viagem, mas foi possível perceber como estavam mais leves e bem-humorados na volta para casa. Ouviam música bem baixinho, cantarolavam de vez em quando. Meus ouvidos são sensíveis demais aos sons. Naqueles primeiros dias tive certa dificuldade com o tempo, nunca lembro bem quantas horas durava cada situação. Ainda não sou muito boa nisso, em quantificar minutos, perco rápido tudo o que passa, meus pensamentos são um labirinto infinito, eu vou e vou e vou e não sei mais nem por onde voltar. Despertei de vez chegando a Lisboa, gostaria de continuar dormindo em um canto silencioso, mas aconteceu exatamente o contrário.
Paramos o carro e precisamos andar alguns minutos. Os dois caminhavam de mãos dadas um pouco à minha frente, e aquela cidade deu ao par uma nova energia. Pareciam outras pessoas, a Morte e o Vice-Morte estavam bem vivos ali ao lado do rio.
Pelo cansaço e desconforto dos sapatos, eu estava sempre uns bons passos atrás. Usava um vestido preto, que pelo tamanho certamente não era dela, e nem sei onde ela arranjou essa roupa. Levou na mala para Almofala junto com tantas coisas, a muda de oliveira, comidas, utensílios, aquilo que me serviu. O vestido era estranho, mas ao menos o tecido grosso e o casaco verde por cima me protegiam do frio. Não me vi no espelho, não tenho um retrato desse tempo, não sei com o que eu parecia, daquele jeito, de chapéu, tão despreparada para andar em público. Olhavam para mim e dava vontade de dizer que se enxergassem, cada um mais estranho que o outro, deveriam cuidar de suas vidas.
A névoa de Lisboa cobria meus olhos, podia ser alguma doença na vista ou a perturbação normal da minha situação. Perto das pessoas apareciam sombras e massas de luz, isso me incomodava, eu gostaria de não ver nada estranho, queria descansar, parar em algum lugar tranquilo e esperar um momento, esperar até uma paz qualquer se acomodar em mim, mas nada me sossegava. Gostava de respirar o vento fresco, apesar da sensação ruim.
Eles pareciam satisfeitos com minha companhia e descobri, nas conversas posteriores, que não tiveram filhos. Estavam felizes naquele passeio, mesmo andando com uma criatura que não pertencia a nada e atraía olhares de espanto.
O lugar que eles queriam me mostrar com tanto gosto e entusiasmo era a Torre de Belém. Paramos em frente e eu não vi nada de tanta emoção, mas fingi meu melhor sorriso. Era bonito. Fernando iniciou um discurso solene ao explicar que dali partiam as caravelas que descobriram o Brasil, que dali os destinos de Brasil e de Portugal se encontraram, o nosso fado. Ele explicava tudo com detalhes, orgulhoso, professoral, tentando dar sentido ao que me aconteceu, e eu estava exausta, achando muito penoso ouvir a palestra, sem energia, cansada, querendo que tudo aquilo acabasse logo, mas fazia de conta que prestava atenção. Sou brasileira e acho que isso sempre foi a coisa mais importante a descobrir direito, o que é isso, o que trouxe comigo que só existe porque sou uma criatura do Brasil.
Olhando a torre antiga, dos homens antigos, dos países antigos e das caravelas que não existem mais, eu só pensava em restaurar a força do meu corpo. Algo naquele discurso me incomodava demais, mesmo reconhecendo a boa vontade do homem. Era um esforço para me dar algum sentido, alguma noção de ordem, mas não me agradava em nada, parecia a lógica de um castigo.
Pedi para me sentar na grama ou ir embora logo. Ele seguiu falando que era o lugar onde nossa história começou a se cruzar pela primeira vez e depois nos cruzamos de vez com minha chegada, uma Ressurrecta, tentando mostrar que devia existir alguma ligação entre as duas coisas.
Florice contou que seu pai achava que os Ressurrectos voltavam para onde deixaram um pedaço perdido da sua alma. O espírito é um só, entra e sai dos séculos, os corpos nascem e morrem e as partes da alma vão se espalhando, ela revelava. Não tive energia na hora para ir além, fazer mais perguntas. De vez em quando eu lembrava que ela me chamou de rapariga, não tinha esquecido, guardei a mágoa, ficava pensando no motivo. Para que isso? Para que chamar de rapariga logo no primeiro dia?
— Em Portugal isso não é insulto. Rapariga é o mesmo que moça, no Brasil, mulher, é um modo normal.
— Não ria, hoje eu sei, estou contando tudo da forma como aconteceu, não foi o que o senhor me pediu? Naquele dia eu estava indignada porque lembrava da palavra como insulto, a memória dos significados ficou intacta. Mas isso era o menos importante, eles me tratavam bem e tiveram responsabilidade com minha vida, não sou ingrata. Até ali o que me chocava mesmo era ter sido enterrada viva, com tanta crueldade, não sei se os outros Ressurrectos também foram. Eu tinha certeza de que algo ruim tinha acontecido antes, não parecia uma travessia para resgate de pedaço de alma, nenhuma busca espiritual, era uma tragédia violenta. Não tenho como saber quando, se faz muito tempo, se ainda estão vivas as pessoas com quem sonhei. Não sei, por exemplo, se a travessia obedeceu ao fluxo dos dias. Pode ser que eu tenha voltado no calendário.
— Pode ter sido um salto temporal para qualquer lado.
— Talvez eu nunca saiba.
— Tua vida tem sido enganar Chronos, amar a Kairós.
— Não conheço essas criaturas. Não sei quem amei ou enganei.
— Volta ao relato do passeio em Lisboa, por favor. Não te perca nos meus comentários, eu também tenho um labirinto na cabeça.
Pois, todos temos.

Ainda na Torre de Belém, fiz muito esforço para parecer interessada quando elogiavam a bravura e a inteligência dos navegantes. Contaram tudo, que o Brasil já era habitado por selvagens, que existem cartas contando a saga heroica, a descoberta da beleza dessas terras, que aconteceram lá as mortes mas é assim mesmo na história das civilizações, os povos invadem, matam por necessidade e novos mundos se descobrem, Portugal também sabe disso, foram muitas invasões.
— Eles não dizem por mal, é o que está nos livros.
Na verdade lembro quase nada do que disseram, só tontura e palavras soltas, confusão. Minha cabeça às vezes funciona como uma fábrica impiedosa de pensamentos massacrantes.
Fomos embora da Torre porque eu não me sentia bem e eles acharam que era fome, tontura, doença, precisávamos comer alguma coisa. Decidiram jantar no Bairro Alto e me apresentar ao bacalhau com migas e ao vinho da casa; fui aprendendo o nome das comidas, me ensinavam tudo ao mesmo tempo, a história de Lisboa, os pratos tradicionais, o terremoto, o que é Península Ibérica, os mouros, os azulejos, o castelo de São Jorge, as Sete Colinas, e eu só precisava de silêncio. E comida. Estar de barriga cheia me deixava bem.
Fernando me tratava como se eu fosse uma criança que nasceu adulta, pronta para capturar o mundo todo em poucos dias, porque em breve a vida me cobraria algumas coisas, foi o que eles me disseram. Eu seria portuguesa e precisava perceber Portugal. Perceber uma nova vida em Portugal.
A refeição durou muito tempo, foi decisiva. Seria necessário definir algumas coisas antes de chegarmos a Aboim da Nóbrega. A irmã de Florice já estava sabendo de tudo, já tinha conhecimento dos Ressurrectos desde criança, mas para facilitar as coisas seria bom inventar uma narrativa que fosse convincente para os outros, a casa vivia cheia de amigos, sua vida social era intensa.
Precisamos escolher seu nome, ela disse.
Perguntaram de novo se eu não lembrava de nada, uma letra, um som, se seria palavra curta ou mais longa, nada. Nada. Sobre o Livro das Visões, queriam saber se havia algo novo. Nada. Expliquei o borrão dos sonhos, comecei a chorar mais uma vez, o peso de ser uma névoa. Fernando olhou nos meus olhos:
— Eu tenho uma sugestão desde que chegaste. É o nome que meu coração diz quando olho para ti.
— E qual é?
— Cida. Não só porque tu chegaste assim, mas porque gostamos da história de Nossa Senhora Aparecida a um menino em Portugal que era mudo e começou a falar. Há outra no Brasil, acho que fica bem.
— É assim que falamos de ti entre nós. Já dissemos para minhas irmãs que tu tens cara de Cida.
Aceitei ser Cida, por puro cansaço. Fiz que sim, sorri de leve. Levaria a marca deles dois comigo, já que fizeram meu parto da cova. Não tinha por que recusar o nome novo, não me restava nada além de aceitar que as coisas teriam de seguir de alguma forma. Cida era um nome neutro, pois vinha do modo absurdo como cheguei aqui, no sentido deles, evocava milagre. E se era deles que vinha a ajuda e a salvação, muito justo o batismo, muito saudável ter um nome até que eu lembrasse do meu.
Havia uma alegria sincera naqueles gestos de proteção, mas Florice mantinha uma constante nuvem tensa sobre os olhos. Nele eu confiei desde o primeiro dia, apesar da sensação de que gostaria de me dizer mais e não tinha permissão. Quando eu perguntava inúmeras vezes aos dois sobre o esquecimento, eles respondiam que eu já deveria ter recordado algo, sim, mas que não há regra exata para nada disso, em todos os casos as pessoas acabam se lembrando logo. Depende do trauma, do tempo, do modo. Não poderiam garantir, o que tinham em mãos eram as histórias anteriores, que nunca me contaram direito. Àquela altura eu já sabia que não estava morta, pelo menos, tinha um resto de vida, precisava mesmo desse nome.
Fomos então ao apartamento deles, no Largo de São Carlos, número 4. Anotaram em um papel para que eu tivesse em mãos, caso precisasse. Decorei, de tanto medo de me perder.
Passaríamos uns dias em Lisboa para descansar e resolver alguns assuntos. Os vizinhos do quarto andar viajaram para a África do Sul e deviam tomar providências sobre o aluguel do apartamento, esse era um dos temas. Precisavam também comprar presentes para as irmãs de Florice, fazer um reparo na torneira, que estava pingando, e eu acompanhava tudo. Dormi no sofá do pequeno escritório do dr. Fernando, ali seria meu quarto.
Nessa primeira noite em Lisboa tive um sonho cego.
Eu não via o rosto, mas sabia que um homem examinava o maior búzio do meu colar com dedicada atenção. A ponta dos seus dedos era macia e mansa, alisava demoradamente o marrom estriado do búzio, salpicado como as costas de um bicho do mesmo mar de onde eu vim. Dentro do silêncio, sua respiração me contava que ele não tinha nenhuma pressa de interromper o que fazia, era o gesto mais necessário da sua vida; a ponta dos seus dedos fazia estalar faíscas na minha pele. Guardei algumas frases: corpo de areia, praia de pele morna. As lembranças são confusas nesse sonho porque eu não vi nada, tudo de que lembro está nos ouvidos e na pele, senti muitas coisas. Eu sabia que era noite porque não enxergava, estávamos suados, vivos e muito perto um do outro. Não saíamos do lugar, nada nos tiraria dali. Os dedos chegaram à cena do sonho subindo pelas conchinhas miúdas, devagar e aos poucos, as duas mãos, até que, no pescoço, escolheram destinos diferentes.
Primeiro a esquerda andou vagarosa para minha nuca até enfiar os dedos e fechar os cachos na mão forte e lentamente para não me deixar duvidar nem por um segundo do tanto que me queria. Eu estava careca, ainda, mas foi nesse sonho que fiquei sabendo sobre como seriam meus cabelos quando crescessem.
A outra mão foi para o meu lábio superior, quase sem tocar, desenhando uma onda ao lado da outra, uma boca de concha, acho que disse isso, foi um sussurro pequeno, foi quase segredo, penso que sorriu. O sonho foi seguindo, ele se aproximava e eu acendi como uma estrela de muitas pontas. Explodi, acordei como quem cai do céu. Era tudo meio avermelhado ao redor, a luz do sol, as paredes, vários cavalos-marinhos no teto que caíam, mas começavam a nadar depois, muitos, muitos, e eu caía com eles.

— Um artifício libidinoso muito sofisticado do teu inconsciente.
— Sonhei várias vezes com as estrelas-do-mar, vendo estrelas ou transformando o corpo em uma delas. Eram recortes abstratos, não informavam nada, mas as sensações me deixavam muito perturbada. Escrevi tudo no Livro das Visões. O que importa é que havia um homem na minha vida. Não tenho meu nome, nem o dele. Fico pensando se ficou lá me esperando, se chora minha morte.
— Ou se foi ele quem tentou te matar.
— Já pensei nisso.
— É um belo sonho, de qualquer forma.
— No fim eu anotei: “Quero sonhar de novo, quero que ele diga seu nome. Pedi que dissesse, pedi que voltasse. Ele tem que voltar”.
— E o que descobriste sobre ele?
— Que me amava muito e me fazia explodir como uma estrela. Nada mais.

Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer

Nenhum comentário:

Postar um comentário