24/10/2026

Let It Be, de Paul McCartney e John Lennon




When I find myself in times of trouble
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom
Let it be
And in my hour of darkness
She is standing right in front of me
Speaking words of wisdom
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be

And when the broken-hearted people
Living in the world agree
There will be an answer
Let it be
For though they may be parted
There is still a chance that they will see
There will be an answer
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom

Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be

And when the night is cloudy
There is still a light that shines on me
Shine until tomorrow
Let it be
I wake up to the sound of music
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be

Eu estava decidindo o que eu ia cantar no Live Aid, e Sting me disse que “Let It Be” não era uma boa escolha. Ele achava que deveríamos explicitar que ações eram necessárias e, por isso, “deixe estar” não seria uma mensagem apropriada. Na visão dele, o Live Aid pressupunha um forte apelo à ação. Mas “Let It Be” não tem a ver com ser complacente ou cúmplice. Tem a ver com obter uma noção panorâmica e render-se à visão global.
A canção foi composta num contexto de estresse. O momento era difícil porque estávamos nos encaminhando para a separação dos Beatles. Esse período de mudança aconteceu em parte porque John e Yoko se conheceram, e isso afetou a dinâmica do grupo. Yoko ficava literalmente no meio das sessões de gravação, e isso era desafiador. Mas também era algo com que precisávamos lidar. A menos que houvesse um problema muito sério – a menos que um de nós dissesse: “Não consigo cantar com ela ali” –, só tinha um jeito: deixe estar. O nosso estilo era evitar conflitos, então simplesmente reprimimos e seguimos em frente. Éramos garotos do Norte, e isso fazia parte da nossa cultura. Abra um sorriso e aguente firme.
Uma coisa interessante sobre “Let It Be” da qual me lembrei só recentemente é que, quando estudei literatura inglesa no Liverpool Institute High School for Boys com meu professor favorito, Alan Durband, eu li Hamlet. Naquela época, você tinha que decorar as falas, porque era preciso ser capaz de recordá-las e citá-las na prova. No ato final da peça temos a seguinte fala:

O, I could tell you –
But let it be. – Horatio, I am dead

Suspeito que esses versos se plantaram subconscientemente em minha memória. Quando eu estava compondo “Let It Be”, eu fazia muita coisa ao mesmo tempo, estava muito exausto e tudo isso estava cobrando seu preço. A banda, eu – todos nós estávamos passando, como diz a canção, por períodos turbulentos (“times of trouble”), e não se enxergava uma luz no fim do túnel daquela confusão. Um dia, exausto, eu caí no sono e tive um sonho em que minha mãe (que havia morrido pouco mais de dez anos antes), de fato, apareceu para mim. Quando em seu sonho aparece uma pessoa que você perdeu, mesmo que às vezes seja por breves segundos, você tem a impressão de que ela está ali com você, e é como se ela sempre tivesse estado ali. Acho que todo mundo que sofreu com a perda de alguém próximo entende isso, especialmente no período logo após a morte do ente querido. Até hoje eu tenho sonhos com John e George e converso com eles. Mas nesse sonho foi muito reconfortante enxergar o rosto lindo e gentil da minha mãe e estar com ela em um lugar tranquilo. De imediato, eu me senti à vontade, amado e protegido. A minha mãe era muito tranquilizadora, como tantas mulheres costumam ser; também era ela quem mantinha a nossa família em andamento. Ela mantinha o nosso ânimo. Ela pareceu notar que eu andava preocupado com o que se passava em minha vida e com o que poderia acontecer e me falou: “Vai ficar tudo bem. Deixe estar”.
Acordei pensando que esse seria um ótimo tema para uma canção. Resolvi começar com as circunstâncias no meu entorno – o “problema no trabalho”.
Na época em que gravamos “Let It Be”, eu estava pressionando a banda para voltarmos a tocar em clubes noturnos – voltar ao básico e nos unirmos novamente como banda, terminar a década como a havíamos começado: só tocando pelo prazer de tocar. Com os Beatles não foi possível levar essa ideia a cabo, mas isso influenciou a direção do álbum Let It Be. Não queríamos nada de truques de estúdio. Era para ser um álbum honesto, sem overdubs. Não acabou exatamente assim, mas o plano era esse.
A triste constatação é que os Beatles nunca tocaram esta canção num show. Por isso, a apresentação no Live Aid foi, para muitas pessoas, provavelmente a primeira vez que elas viram uma performance desta canção.
Hoje, “Let It Be” já está no show há um bom tempo. Ela sempre foi uma canção comunitária, sobre aceitação, e acho que esses momentos funcionam muito bem com plateias grandes. Vemos muita gente abraçando seus parceiros, amigos ou familiares e cantando junto. Antigamente, milhares de isqueiros também eram erguidos no ar durante a canção. Aí foi proibido fumar nos shows, e as luzes vinham dos celulares do público. A gente sempre percebe quando a canção é menos popular, porque os celulares são guardados. Mas saem dos bolsos para esta.
Alguns anos atrás, estávamos no Japão e tocamos no Budokan, em Tóquio. Tínhamos tocado três noites no Tokyo Dome, um enorme estádio de beisebol de 55 mil lugares. Para contrabalançar, encerramos a turnê com uma noite no Budokan, um local bem intimista em comparação. Ainda não tinham passado cinquenta anos desde que os Beatles tinham tocado lá, mas foi um show especial, em um local com muitas memórias. A minha equipe de turnê gosta de me surpreender e, dessa vez, pulseiras foram distribuídas para o público. E, durante “Let It Be”, fui pego desprevenido: o auditório inteiro se iluminou com as mãos balançando. Às vezes, é difícil continuar cantando em momentos assim.
Algumas pessoas disseram que “Let It Be” tem ligeiras conotações religiosas, e de fato ela lembra um pouco uma canção gospel, especialmente o piano e o órgão. Em essência, o termo “Mother Mary” é provavelmente interpretado como uma referência a Maria, a Virgem Mãe de Deus. Como você deve se lembrar, a minha mãe, Mary, era católica, embora meu pai fosse protestante, e meu irmão e eu fomos batizados. Por isso, no que tange à religião, obviamente sou influenciado pelo Cristianismo, mas todas as religiões nos trazem muitos ensinamentos excelentes. No sentido convencional, não sou especialmente religioso, mas acredito na ideia de que existe um tipo de força superior capaz de nos ajudar.
De modo que esta canção se torna uma prece, ou mini-prece. Há um anseio em algum lugar do âmago dela. E a própria palavra “amém” significa “assim seja” – ou “deixe estar”.
Ela sempre foi uma canção comunitária, sobre aceitação, e acho que esses momentos funcionam muito bem com plateias grandes. Vemos muita gente abraçando seus parceiros, amigos ou familiares e cantando junto.
A minha mãe era muito tranquilizadora, como tantas mulheres costumam ser; também era ela quem mantinha a nossa família em andamento. Ela mantinha o nosso ânimo. Ela pareceu notar que eu andava preocupado com o que se passava em minha vida e com o que poderia acontecer e me falou: “Vai ficar tudo bem. Deixe estar”.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

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