When I find myself in times of
trouble
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom
Let it be
And in my hour of darkness
She is standing right in front of
me
Speaking words of wisdom
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be
And when the broken-hearted people
Living in the world agree
There will be an answer
Let it be
For though they may be parted
There is still a chance that they
will see
There will be an answer
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be
And when the night is cloudy
There is still a light that shines
on me
Shine until tomorrow
Let it be
I wake up to the sound of music
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be
Eu estava decidindo o que eu ia cantar
no Live Aid, e Sting me disse que “Let It Be” não era uma
boa escolha. Ele achava que deveríamos explicitar que ações eram
necessárias e, por isso, “deixe estar” não seria uma mensagem
apropriada. Na visão dele, o Live Aid pressupunha um forte apelo à
ação. Mas “Let It Be” não tem a ver com ser complacente ou
cúmplice. Tem a ver com obter uma noção panorâmica e render-se à
visão global.
A canção foi composta num contexto
de estresse. O momento era difícil porque estávamos nos
encaminhando para a separação dos Beatles. Esse período de mudança
aconteceu em parte porque John e Yoko se conheceram, e isso afetou a
dinâmica do grupo. Yoko ficava literalmente no meio das sessões de
gravação, e isso era desafiador. Mas também era algo com que
precisávamos lidar. A menos que houvesse um problema muito sério –
a menos que um de nós dissesse: “Não consigo cantar com ela ali”
–, só tinha um jeito: deixe estar. O nosso estilo era evitar
conflitos, então simplesmente reprimimos e seguimos em frente.
Éramos garotos do Norte, e isso fazia parte da nossa cultura. Abra
um sorriso e aguente firme.
Uma coisa interessante sobre “Let It
Be” da qual me lembrei só recentemente é que, quando estudei
literatura inglesa no Liverpool Institute High School for Boys com
meu professor favorito, Alan Durband, eu li Hamlet. Naquela
época, você tinha que decorar as falas, porque era preciso ser
capaz de recordá-las e citá-las na prova. No ato final da peça
temos a seguinte fala:
O, I could tell you –
But let it be. – Horatio, I am dead
Suspeito que esses versos se plantaram
subconscientemente em minha memória. Quando eu estava compondo “Let
It Be”, eu fazia muita coisa ao mesmo tempo, estava muito exausto e
tudo isso estava cobrando seu preço. A banda, eu – todos nós
estávamos passando, como diz a canção, por períodos turbulentos
(“times of trouble”), e não se enxergava uma luz no fim
do túnel daquela confusão. Um dia, exausto, eu caí no sono e tive
um sonho em que minha mãe (que havia morrido pouco mais de dez anos
antes), de fato, apareceu para mim. Quando em seu sonho aparece uma
pessoa que você perdeu, mesmo que às vezes seja por breves
segundos, você tem a impressão de que ela está ali com você, e é
como se ela sempre tivesse estado ali. Acho que todo mundo que sofreu
com a perda de alguém próximo entende isso, especialmente no
período logo após a morte do ente querido. Até hoje eu tenho
sonhos com John e George e converso com eles. Mas nesse sonho foi
muito reconfortante enxergar o rosto lindo e gentil da minha mãe e
estar com ela em um lugar tranquilo. De imediato, eu me senti à
vontade, amado e protegido. A minha mãe era muito tranquilizadora,
como tantas mulheres costumam ser; também era ela quem mantinha a
nossa família em andamento. Ela mantinha o nosso ânimo. Ela pareceu
notar que eu andava preocupado com o que se passava em minha vida e
com o que poderia acontecer e me falou: “Vai ficar tudo bem. Deixe
estar”.
Acordei pensando que esse seria um
ótimo tema para uma canção. Resolvi começar com as circunstâncias
no meu entorno – o “problema no trabalho”.
Na época em que gravamos “Let It
Be”, eu estava pressionando a banda para voltarmos a tocar em
clubes noturnos – voltar ao básico e nos unirmos novamente como
banda, terminar a década como a havíamos começado: só tocando
pelo prazer de tocar. Com os Beatles não foi possível levar essa
ideia a cabo, mas isso influenciou a direção do álbum Let It
Be. Não queríamos nada de truques de estúdio. Era para ser um
álbum honesto, sem overdubs. Não acabou exatamente assim, mas o
plano era esse.
A triste constatação é que os
Beatles nunca tocaram esta canção num show. Por isso, a
apresentação no Live Aid foi, para muitas pessoas, provavelmente a
primeira vez que elas viram uma performance desta canção.
Hoje, “Let It Be” já está no
show há um bom tempo. Ela sempre foi uma canção comunitária,
sobre aceitação, e acho que esses momentos funcionam muito bem com
plateias grandes. Vemos muita gente abraçando seus parceiros, amigos
ou familiares e cantando junto. Antigamente, milhares de isqueiros
também eram erguidos no ar durante a canção. Aí foi proibido
fumar nos shows, e as luzes vinham dos celulares do público. A gente
sempre percebe quando a canção é menos popular, porque os
celulares são guardados. Mas saem dos bolsos para esta.
Alguns anos atrás, estávamos no
Japão e tocamos no Budokan, em Tóquio. Tínhamos tocado três
noites no Tokyo Dome, um enorme estádio de beisebol de 55 mil
lugares. Para contrabalançar, encerramos a turnê com uma noite no
Budokan, um local bem intimista em comparação. Ainda não tinham
passado cinquenta anos desde que os Beatles tinham tocado lá, mas
foi um show especial, em um local com muitas memórias. A minha
equipe de turnê gosta de me surpreender e, dessa vez, pulseiras
foram distribuídas para o público. E, durante “Let It Be”, fui
pego desprevenido: o auditório inteiro se iluminou com as mãos
balançando. Às vezes, é difícil continuar cantando em momentos
assim.
Algumas pessoas disseram que “Let It
Be” tem ligeiras conotações religiosas, e de fato ela lembra um
pouco uma canção gospel, especialmente o piano e o órgão. Em
essência, o termo “Mother Mary” é provavelmente interpretado
como uma referência a Maria, a Virgem Mãe de Deus. Como você deve
se lembrar, a minha mãe, Mary, era católica, embora meu pai fosse
protestante, e meu irmão e eu fomos batizados. Por isso, no que
tange à religião, obviamente sou influenciado pelo Cristianismo, mas
todas as religiões nos trazem muitos ensinamentos excelentes. No
sentido convencional, não sou especialmente religioso, mas acredito
na ideia de que existe um tipo de força superior capaz de nos
ajudar.
De modo que esta canção se torna uma
prece, ou mini-prece. Há um anseio em algum lugar do âmago dela. E a
própria palavra “amém” significa “assim seja” – ou “deixe
estar”.
Ela sempre foi uma canção
comunitária, sobre aceitação, e acho que esses momentos funcionam
muito bem com plateias grandes. Vemos muita gente abraçando seus
parceiros, amigos ou familiares e cantando junto.
A minha mãe era muito
tranquilizadora, como tantas mulheres costumam ser; também era ela
quem mantinha a nossa família em andamento. Ela mantinha o nosso
ânimo. Ela pareceu notar que eu andava preocupado com o que se
passava em minha vida e com o que poderia acontecer e me falou: “Vai
ficar tudo bem. Deixe estar”.
Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

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