Safo foi a primeira a chamar eros de
“doce-amargo”. Ninguém que já se apaixonou discorda. O
que significa essa palavra?
Eros parecia a Safo uma experiência
ao mesmo tempo de prazer e dor. Aqui temos contradição e talvez
paradoxo. Perceber esse eros pode dividir a mente em duas. Por quê?
Os componentes da contradição podem parecer, à primeira vista,
óbvios. Tomamos por certo, como fez Safo, a doçura do desejo
erótico; sua prazerabilidade sorri para nós. Mas a amargura é
menos óbvia. Podem existir várias razões para explicar por que
aquilo que é doce também deve ser amargo. Podem existir várias
relações entre os dois sabores. Poetas elaboraram a questão de
diferentes maneiras. A formulação da própria Safo é um bom ponto
de partida para traçar as possibilidades. O fragmento relevante diz
assim:
Ἔρος δηὖτέ μ᾽ ὀ
λυσιμέλης δόνει,
γλυκύπικρον ἀμάχανον
ὄρπετον
Eros once again limb-loosener
whirls me
sweetbitter, impossible to fight
off, creature stealing up
Eros mais uma vez afrouxa-membros me
torce
doce-amargo, impossível de resistir,
criatura a roubar
(LP, fr. 130)
É difícil de traduzir. “Doce-amargo”
soa errado, a tradução padrão em inglês “bittersweet”
[amargo-doce] inverte os termos do composto glukupikron de
Safo. Isso deveria nos preocupar? Se a ordenação de Safo tem uma
intenção descritiva, o que está sendo dito aqui é que eros traz
primeiro doçura, depois amargura: a poeta classifica
cronologicamente as possibilidades. A experiência de um grande
número de pessoas que já se apaixonaram validaria tal cronologia,
sobretudo na poesia, em que a maioria dos amores termina mal. Mas é
improvável que seja isso que Safo queira dizer. Seu poema começa
com uma localização dramática da situação erótica no tempo
(dēute) e fixa a ação erótica no presente do indicativo
(donei). Em vez da história de um caso de amor, ela registra
o instante do desejo. Um momento vacila sob a pressão de eros; um
estado mental se divide. O que está em questão é uma
simultaneidade de prazer e dor. O aspecto aprazível é nomeado
primeiro, presumimos, porque é menos surpreendente. A ênfase é
colocada no outro lado do fenômeno, o lado problemático, cujos
atributos avançam numa enxurrada de consoantes suaves (verso 2).
Eros se move ou espreita sua vítima de algum lugar de fora: orpeton.
Nenhuma resistência pode combater esse avanço: amachanon. O
desejo, então, não é nem habitante nem aliado da pessoa desejante.
Alheio à vontade desta, de fora, o desejo se impõe
irresistivelmente sobre ela. Eros é um inimigo. Sua amargura deve
ter o sabor da inimizade. Seria ódio.
“Amar os amigos e odiar os inimigos”
é uma prescrição arcaica e padrão da moral responsiva. Amor e
ódio constroem entre si a maquinaria do contato humano. Faz sentido
localizar os dois polos desse afeto dentro de um único evento
emocional que é o eros? Provavelmente, sim, se amigo e inimigo
convergem dentro do ser que é a ocasião do afeto. A convergência
cria um paradoxo, mas que é quase um clichê para a imaginação
literária moderna. “E o ódio começa onde o amor termina…”,
sussurra Anna Kariênina, enquanto caminha em direção à Estação
de Moscou e a um fim do dilema do desejo. Na verdade, o paradoxo
erótico é um problema anterior ao próprio Eros. Nós o encontramos
encenado, pela primeira vez, na muralha de Troia, em uma cena entre
Helena e Afrodite. A troca entre elas é tão certeira quanto um
paradigma. Homero nos mostra Helena, encarnação do desejo, farta
das imposições de eros, desafiando uma ordem dada por Afrodite para
que ela servisse o leito de Páris. A deusa do amor responde com
raiva, empunhando o paradoxo erótico como uma arma:
μή μ’ ἔρεθε σχετλίη,
μὴ χωσαμένη σε μεθείω,
τὼς δέ σ’ ἀπεχθήρω
ὡς νῦν ἔκπαγλ’ ἐφίλησα
Damn you woman, don’t provoke
me—I’ll get angry
and let you drop!
I’ll come to hate you as terribly
as I now love you!
Mulher maldita, não me provoque –
eu vou ficar com raiva
e te abandonar!
Vou te odiar tão terrivelmente quanto
agora te amo!
(Il. 3.414-15)
Helena obedece na hora; amor e ódio
juntos formam um inimigo irresistível.
A simultaneidade do amargo e doce que
nos surpreende no adjetivo glukupikron de Safo é construída
de forma diferente no poema de Homero. A convenção épica encena
estados emotivos internos de maneira dinâmica e linear, de modo que
uma mente dividida possa ser lida a partir de uma sequência de ações
antitéticas. Homero e Safo, contudo, concordam em apresentar a
divindade do desejo como um ser ambivalente, ao mesmo tempo amigo e
inimigo, que informa a experiência erótica com um paradoxo
emocional.
Eros também aparece em outros gêneros
e poetas como um paradoxo de amor e ódio. Aristófanes, por exemplo,
nos conta que o jovem sedutor libertino Alcibíades foi capaz de
inspirar um sentimento como a paixão no dēmos grego:
ποθεῖ μέν, ἐχθαίρει
δέ, βούλεται δ᾽ ἔχειν.
For they love him and they hate him
and they long to possess him.
Pois eles o amam e o odeiam
e desejam possuí-lo.
(Ran. 1425)
No Agamêmnon de Ésquilo,
Menelau é descrito vagando pelo palácio vazio depois da partida de
Helena. Os quartos parecem assombrados por ela; Menelau chega ao
quarto do casal e suplica pelos “sulcos de amor na cama” (411). É
desejo que ele sente (pothos, 414), sem dúvida, mesmo assim o
ódio se infiltra para preencher o vazio (echthetai):
πόθῳ δ᾽ ὑπερποντίας
φάσμα δόξει δόμων
ἀνάσσειν·
εὐμόρφων δὲ κολοσσῶν
ἔχθεται χάρις ἀνδρί,
ὀμμάτων δ᾽ ἐν ἀχηνίαις
ἔρρει πᾶς Ἀφροδίτα.
Because of his longing for
something gone across
the sea
a phantom seems to rule the rooms,
and the grace of statues shaped in
beauty
comes to be an object of hate for
the man.
In the absences of eyes
all Aphrodite is vacant, gone.
Por causa da sua ânsia por algo que
atravessou
o mar
um fantasma parece governar os
quartos,
e a graça das estátuas moldadas em
beleza
chega a ser um objeto de ódio do
homem.
Na ausência de olhos,
toda Afrodite está vazia, se foi.
(Ag. 414-19)
Amor e ódio também fornecem um tema
para o epigrama helenístico. A injunção de Nicarco à amada é
típica:
Εἴ με φιλεῖς, μισεῖς
με· καὶ εἰ μισεῖς, σὺ φιλεῖς με·
εἰ δέ με μὴ μισεῖς,
φίλτατε, μή με φίλει.
If you love me, you hate me. And if
you hate me, you
love me.
Now if you don’t hate me,
beloved, don’t love me.
Se você me ama, você me odeia. E se
você me odeia, você
me ama.
Agora, se você não me odeia, amada,
não me ame.
(Anth. Pal. 11.252)
O epigrama de Catulo talvez seja o
destilado mais elegante que temos desse clichê:
Odi et amo. quare id faciam, fortasse
requiris.
nescio, sed fieri sentio et
excrucior.
I hate and I love. Why? you might
ask.
I don’t know. But I feel it
happening and I hurt.
Odeio e amo. Por quê? Você quer
saber.
Não sei. Mas sinto acontecendo e
me dói.
(Catulo 85)
Às vezes, poetas da tradição lírica
grega conceituam a condição erótica assim de maneira contundente,
mas Safo e seus sucessores geralmente preferem fisiologia a
conceitos. O momento em que a alma sai de si em desejo é concebido
como um dilema do corpo e dos sentidos. Na língua de Safo, como
vimos, é um momento amargo e doce. Esse gosto ambivalente é
desenvolvido, em poetas posteriores, em “mel amargo” (Anth.
Pal. 12.81), “doce ferida” (Anth. Pal. 12.126), e
“Eros de lágrimas doces” (Anth. Pal. 12.167). Eros dá um
nocaute na pessoa apaixonada usando o choque entre quente e frio no
poema de Anacreonte:
μεγάλῳ δηὖτέ μ’ Ἔρως
ἔκοψεν ὥστε χαλκεύς
πελέκει, χειμερίῃ δ᾽
ἔλονσεν χαράδρῃ.
With his huge hammer again Eros
knocked me like a
blacksmith
and doused me in a wintry ditch
De novo com seu enorme martelo Eros me
derrubou como um
ferreiro
e na vala invernal me encharcou por
inteiro
(PMG 413)
[…]
Anne Carson, em Eros, o doce-amargo – Um ensaio

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