138.
Há uma erudição do conhecimento,
que é propriamente o que se chama erudição, e há uma erudição
do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma
erudição da sensibilidade.
A erudição da sensibilidade nada tem
a ver com a experiência da vida. A experiência da vida nada ensina,
como a história nada informa. A verdadeira experiência consiste em
restringir o contacto com a realidade e aumentar a análise desse
contacto. Assim a sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós
está tudo; basta que o procuremos e o saibamos procurar.
Que é viajar, e para que serve
viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a
Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens?
Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais
intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a
libertação não está em mim, não está, para mim, em parte
alguma. “Qualquer estrada”, disse Carlylé, “até esta estrada
de Entepfuhl, te leva até ao fim do mundo.” Mas a estrada de
Entepfuhl, se for seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfuhl; de
modo que o Entepfuhl, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do
mundo que íamos a buscar.
Condillac começa o seu livro célebre,
“Por mais alto que subamos e mais baixo que desçamos, nunca saímos
das nossas sensações”. Nunca desembarcamos de nós. Nunca
chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de
nós mesmos. As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos
criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas
verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das
sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso
verdadeiramente ver; a oitava partida é a que percorro e é minha.
Quem cruzou todos os mares cruzou
somente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos.
Já vi mais montanhas que as que há na terra.
Passei já por cidades mais que as
existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluíram, absolutos,
sob os meus olhos contemplativos.
Se viajasse, encontraria a cópia
débil do que já vira sem viajar.
Nos países que os outros visitam,
visitam-nos anónimos e peregrinos. Nos países que tenho visitado,
tenho sido, não só o prazer escondido do viajante incógnito, mas a
majestade do Rei que ali reina, e o povo cujo uso ali habita, e a
história inteira daquela nação e das outras. As mesmas paisagens,
as mesmas casas eu as vi porque as fui, feitas em Deus com a
substância da minha imaginação.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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