135.
As coisas mais simples, mais realmente
simples, que nada pode tornar semi-simples, torna-mas complexas o eu
vivê-las. Dar a alguém os bons-dias por vezes intimida-me.
Seca-se-me a voz, como se houvesse uma audácia estranha em ter essas
palavras em voz alta. É uma espécie de pudor de existir — não
tem outro nome!
A análise constante das nossas
sensações cria um modo novo de sentir, que parece artificial a quem
analise só com a inteligência, que não com a própria sensação.
Toda a vida fui fútil
metafisicamente, sério a brincar. Nada fiz a sério, por mais que
quisesse. Divertiu-se em mim comigo um Destino malin.
Ter emoções de chita, ou de seda, ou
de brocado! Ter emoções descritíveis assim! Ter emoções
descritíveis!
Sobe por mim na alma um arrependimento
que é de Deus por tudo, uma paixão surda de lágrimas pela
condenação dos sonhos na carne dos que os sonharam... E odeio sem
ódio todos os poetas que escreveram versos, todos os idealistas que
fizeram ver o seu ideal, todos os que conseguiram o que queriam.
Vagueio indefinidamente nas ruas
sossegadas, ando até cansar o corpo em acordo com a alma, dói-me
até aquele extremo da dor conhecida que tem um gozo em sentir-se,
uma compaixão materna por si-mesma, que é musicada e indefinível.
Dormir! Adormecer! Sossegar! Ser uma
consciência abstrata de respirar sossegadamente, sem mundo, sem
astros, sem alma — mar morto de emoção refletindo uma ausência
de estrelas!
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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