31/10/2026

Conjugal

 



Telefonou para a irmã, indignada:
— Imagine que aquele sem-vergonha mandou aqui um contínuo para me avisar que ele não vem jantar, tem de ficar até mais tarde no escritório. Fiquei desconfiada, telefonei para o escritório e o vigia é que atendeu, me disse que todos já foram embora, não tem ninguém mais no escritório! O que é que eu faço?
— Vem para cá — disse-lhe a irmã.
Mais velha e experiente, a irmã se dispôs a ajudá-la. Enquanto as duas jantavam, tentando concertar um plano, a esposinha se lastimava, chorosa entre garfadas:
— Nem dois meses de casada! Nunca pensei que ele fosse capaz de uma coisa dessas — me enganar dessa maneira!
— É assim que eles começam, minha filha — pontificou a outra, conformada no ceticismo, fruto das desilusões de um casamento já desfeito. — Mas chorar não resolve: vamos ver o que se pode fazer. Você não deve deixar a coisa passar em brancas nuvens. Se não reagir, amanhã nem avisar ele manda.
— Imagine que o contínuo estava até com cara de riso! Foi o que me fez desconfiar.
A irmã começou a ditar-lhe instruções. Mastigando lentamente, ela escutava atenta, uma lágrima fácil ainda a equilibrar-se no rostinho mimoso. Findo o jantar, sentaram-se na sala, a irmã mais velha acendeu um cigarro, ofereceu outro à irmã mais nova. Tão perturbada se achava esta que, distraída, aceitou, embora até então nunca tivesse fumado. Logo à primeira tragada engasgou, aproveitando o acesso de tosse para romper em soluços:
— Ele deve ter uma amante! Nunca pensei!
— Tenha calma, minha filha — tranquilizou a outra: — Você dá uma lição nele. Quando você saiu, disse aonde ia?
— Dizer a quem? Deixei um bilhete assim: “Roberto — eu vou sair — Vera Lúcia.”
E Vera Lúcia apoiou o rosto na mão, fitando o espaço, pensativa:
— Eu devia ter aproveitado e dado uma busca nas coisas dele, para ver se descobria alguma coisa...
Eram onze horas quando as duas se dirigiram ao apar­tamen­to da esposa ultrajada. Logo ao chegar, tiveram uma surpre­sa: no bilhete deixado sobre a mesa, abaixo do recado “Roberto — eu vou sair — Vera Lúcia”, estava escrito: “Eu também — Roberto.” Vera Lúcia olhou a irmã interrogativamente: aquilo atrapalhava todos os planos.
— Nada disso: ele esteve aqui e tornou a sair, mas não tem importância. Você tem uma mala, das grandes?
Puseram a mala sobre a cama, ao lado de um monte de roupas e vestidos, tudo ainda do enxoval, e sentaram-se à espera.
— E se ele não voltar? Vai ver que esteve aqui para mudar de roupa, buscar dinheiro. Vai ver que me abandonou. Olha só como ele escreveu aqui: “Eu também — Roberto”, tran­quilamente, sem uma palavra de explicação! Meu Deus, que desilusão.
A vida é mesmo um mar de desilusões — era o que a outra, a experiente, parecia estar pensando, a olhar a irmã, entre irônica e compassiva. Ela própria, porém, ia navegando:
— Não liga pra isso não, minha filha. Os homens não prestam mesmo.
À meia-noite, afinal, chegou o que não prestava. Assim que ouviram o ruído da chave na porta as duas saltaram da cama e a esposa pôs-se a arrumar estabanadamente a mala. Ele, porém, não se dirigiu logo ao quarto. Tirou o paletó, jogou-o na cadeira e foi ao banheiro, onde se aliviou, sem se lembrar de fechar a porta. Depois atravessou a sala assobiando, entrou na cozinha, abriu a geladeira, deu uma olhada, tornou a fechar. Atentas, as duas acompanhavam lá do quarto todos os seus passos. Comeu uma banana, atirou a casca no mármore da pia, ligou o gás. A irmã mais velha foi ver o que ele fazia, surpreendeu-o tentando requentar um café:
— Você por aqui? — estranhou ele, enquanto farejava o interior da cafeteira: — Este café deve estar de amargar. Que horas são?
— Meia-noite — respondeu a cunhada, imperturbável como uma esfinge.
Ele desistiu do café, comeu outra banana, apanhou um palito e passou por ela, bocejando:
— Estou morto de sono.
No quarto, ao dar com a mala sobre a cama, voltou-se para a mulher, intrigado:
— Ué, quem é que vai viajar?
Ela se voltou, muito digna:
— Eu. Vou para a casa de mamãe.
Ele riu:
— A essa hora? Sua mãe já deve estar dormindo.
Desconcertada, a esposinha o olhava sem saber o que fazer. Aquela reação levava por água abaixo o plano minuciosamente estudado. Quando ele, perplexo, perguntasse: “Por quê?”, ela saltaria, dramática: “Porque não me casei para me sujeitar a...” e iria por aí afora. No fim ele, patético, pediria perdão, explicaria tudo, inventava umas mentiras, ela perdoava, a irmã iria embora e tudo se harmonizava — ele tendo aprendido sua lição. Em vez disso limitava-se a rir. Vera Lúcia olhava a irmã por cima do ombro do marido, como a perguntar: “E agora? O que é que eu faço?”
— Roberto, exijo uma explicação — improvisou ela, gravemente, plantando-se diante dele. A irmã aprovou com o olhar.
— De quê, minha filha?
— Onde você estava? — e ela o olhava com firmeza, como se da resposta dependesse o destino de ambos.
— Na cozinha — respondeu ele, cada vez mais intrigado. Olhou para a cunhada, como a pedir explicação.
— Não seja cínico! Eu quero saber onde você foi hoje à noite. É meu direito de esposa.
— Que brincadeira é essa? — e ele tornou a rir: — Parece novela de televisão! Ia haver serão no escritório, não houve, estive aqui, você não estava, jantei com o Jorge, jogamos um buraco. Dei azar. Não ganhei uma só vez.
Caminhou preguiçosamente até a cadeira, palitando os dentes, sentou-se, descalçou os sapatos com um suspiro de alívio:
— Tira essa mala da cama que eu quero dormir.
— Vou para a casa de mamãe — repetiu ela, chorosa, sem saber mais o que dizer.
— Está bem, mas amanhã: hoje já é tarde.
A essa altura, vendo que não havia mais nada a fazer, a irmã resolveu se despedir. Sua experiência de vida de nada adiantara­. A outra ficou a sós com o marido no quarto, resolveu voltar ao que era, sem planos, sem direitos de esposa. Abraçou-se a ele:
— Me desculpe, meu bem, ter desconfiado de você. A gente perde a cabeça, fica pensando coisas.
Mais tarde, já deitados, luz apagada, ela chamou-o num sussurro:
— Roberto...
— Ahn? — resmungou ele, de dentro do sono.
Ela pediu, com voz suave:
— Um dia você me ensina a jogar buraco?
Ele não respondeu; dormia a sono solto e ela, num arrepio de prazer, já quase dormindo também, reparou pela primeira vez que ele roncava.

Fernando Sabino, em Os melhores contos

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