21/10/2026

Candeia




Oito pessoas feitas de fé: três homens, duas mulheres, três crianças. Todos usando a túnica marrom de pano grosso exatamente igual à que são Francisco usava — eles tinham o direito de acreditar nisso. Surrão amarrado na cintura, algumas provisões. Poucas: eram sacos murchos no fim da jornada, pois dali já se enxergava a imagem de são Francisco de Canindé, marrom, gigantesco, de mãos espalmadas.
Andavam devagar. O homem mais jovem de joelhos, os outros ao redor, por perto. As crianças menores iam nos braços, a maior ia a pé e aceitava a penitência, talvez sem saber que ainda não devia nada a santo algum. Balbuciavam o tempo todo, não deixavam de rezar, o santo estava ouvindo. Caminhavam para que os visse, olhasse para o seu sacrifício e fosse benevolente com os pedidos que carregavam.
Não demorou para que percebessem o rapaz seminu e solitário do outro lado da estrada. Uma das mulheres se apressou a tirar do saco de pano uma garrafa de água, um trapo, um vidro com álcool, um pedaço de pão seco. Estavam ali para ajudar como são Francisco ajudou. Junto com o outro homem, o seu marido, correu para cuidar do suposto jovem romeiro. Quanto mais perto, mais doía o seu estado de miséria.
— Não vai te faltar caridade, irmão, são Francisco está te vendo! — disse a mulher, com fé e prontidão.
Samuel tomou a garrafa, bebeu a água com desespero, deixando cair pelos cantos da boca, pescoço, pelo peito.
— São Francisco vai te dar força, irmão! Você vai anoitecer nas bênçãos dele — disse o homem, sorrindo.
— Não sou romeiro, não, senhor — disse o hálito podre de Samuel, com algum deboche. — Só queria saber se Candeia ainda tá longe, mas se tiverem mais comida, também fico agradecido.
A mulher foi tomada de fúria. Não era romeiro, era um moleque malandro qualquer, um ladrão, estuprador, assassino, salafrário… Coisa boa não poderia ser. Um rapaz de bem não anda imundo pela estrada nem responde daquela maneira à caridade de quem tenta diminuir seu flagelo. Era uma mulher que partia, em segundos, de um extremo a outro da sua escala particular de análise do caráter alheio. Jogou o pão seco no chão e atravessou a pista de volta para os seus. O romeiro que ia com ela ainda ficou, sabia um pouco mais da vida e sobre a paciência com as fraquezas humanas. Já vira muita gente de bem enlouquecer na Estrada das Chagas, isso sempre foi comum. Naqueles anos de romaria vira de tudo no caminho e teve piedade, porque às vezes nem Deus livra o homem de enlouquecer. O demônio é artista. Poucos escapam dos enganos do Satanás.
Apontou a estátua de são Francisco e mostrou para Samuel o quanto já estava perto de chegar aos pés do santo.
— Ao menos pintaram a roupa desse desinfeliz — debochou. — O padre Cícero parece alma do outro mundo, todo branco. Candeia fica desse lado da pista, depois de Canindé. Vá com Deus, irmão.
Samuel não respondeu nada. O romeiro sorriu, muito levemente. Seu olhar dizia alguma coisa, talvez uma ou duas palavras de fé e força.
Samuel sentia-se muito mais forte depois de beber água e encontrar o homem, que ainda o observava do outro lado da pista. Acelerou o passo e constatou que estava mesmo perto de Candeia, agora sabia. Para isso o homem serviu, ele pensou. Já avistava algumas casas ao longe, à direita. Olhou o papel no bolso: “Niceia Rocha Vale, Manoel Vale, rua da Matriz, 52”.

Socorro Acioli, em A cabeça do santo

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