Candeia era quase nada. Não mais que
vinte casas mortas, uma igrejinha velha, um resto de praça. Algumas
construções nem sequer tinham telhado, outras, invadidas pelo mato,
incompletas, sem paredes. Nem o ar tinha esperança de ser vento. Era
custoso acreditar que morasse alguém naquele cemitério de gigantes.
O único sinal de vida vinha de um bar
aberto. Duas mesas de madeira na frente, um caminhão, um homem e uma
mulher na boleia ouvindo música, entre abraços, beijos e carícias
ousadas. Mais desolado e triste que Juazeiro do Norte aquele povoado,
muito mais. Em Juazeiro tinha gente, a cidade era viva. E no meio
daquele povo todo sempre se encontrava uma alma boa como a de sua
mãe, uma moça bonita, um amigo animado. Candeia era morta. Pior
ainda naquela hora, quando até o sol iniciava o seu funeral de todos
os dias.
Samuel ao menos ficou um pouco feliz
por ouvir a música do caminhoneiro. Quase sorriu. O esboço de
alegria durou até aparecer pela porta mal pintada de azul uma mulher
assombrosa, praguejando com uma vassoura na mão e mandando desligar
aquela música maldita. O caminhoneiro a chamou pelo nome:
— Cadê o café, Helenice? Deixa de
praguejar, coisa-ruim!
Pela mesma porta saiu uma moça, bem
jovem, com uma garrafa térmica vermelha e duas canecas. Foi e voltou
com rapidez, agora trazendo dois pratos, quatro pães pequenos, duas
bananas cozidas e um pote de margarina.
— Cinco reais — ordenou Helenice,
com a mão na garrafa térmica. — Só come se pagar.
O homem pagou, sempre rindo da cara de
Helenice, visivelmente bêbado, sempre tentando morder a mulher da
boleia, malvestida, desgraçada, seminua, feia, bonita, feliz, e
quase não era possível que isso tudo coubesse na mesma pessoa.
Samuel invejou o caminhoneiro. Não
tinha tanto dinheiro para comer naquele fim de tarde, fim de vida.
Lembrou-se de Mariinha, que gostava de tapioca com café. Essas
lembranças de Mariinha eram assim, chegavam o tempo todo, sem
palavras, eram fotos da memória, cenas apressadas. Às vezes, com
cheiro. Sempre o cheiro da mãe.
Helenice entrou com a vassoura e a
moça foi para a lateral da casa. Ele foi atrás, sem imaginar o
quanto a sua presença era mais assustadora na penumbra.
— A senhora tem um pão, pelo amor
de Deus?
Ele não se reconhecia naquele homem
que pedia pão metendo o nome de Deus na frase, mas aprendeu no Horto
que a única forma de comover naquele pedaço perdido de mundo era a
ameaça de que Deus estava vendo tudo e não tolerava descaridades.
Sua voz foi um susto para a moça,
quando viu o miserável. Primeiro porque havia tempos não chegava
ninguém ali além de um ou outro caminhoneiro. Segundo porque ele
era estranho, instigante. Parecia jovem, parecia bonito. Sentiu medo
e pena, ao mesmo tempo. Lembrou-se do saco de pão velho que tinha
mesmo que jogar fora. Disse um “espera aí” apressado e voltou
logo, jogando o saco para ele.
A fome não o impediu de notar o
quanto aquela moça era jeitosa, de corpo bem-feito e uns olhos de
mel de jandaíra. Samuel atacou o pão com força, roeu com desespero
e engasgou-se com o farelo seco. Sua cara arroxeou rápido,
asfixiado, tinha disso desde pequeno, não era cena bonita de se ver.
A moça pegou uma garrafa suja de qualquer coisa e encheu com água
da torneira, entregando ao sufocado, que bebeu com afobação e
desentalou a garganta. Ela teve pena, de novo. Talvez tivesse mesmo a
sua idade. Melhor se fosse velho, bem velho, assim seria inofensivo e
ela poderia ajudá-lo mais. Talvez até a mãe tivesse pena também.
A moça pensou uma coisa egoísta: ele sofria mais que ela. Que bom
ver alguém quesofre mais. Que bom. Aquela desgraça de destino, seja
lá como tenha acontecido, tornava a sua sina um pouco mais leve. Ela
sempre achou que nunca encontraria alguém que sofresse mais que ela.
Encontrou, por segundos.
Helenice chegou enfurecida e enxotou o
homem com a vassoura, como bicho. Ela, mais bicho que ele. Pediu à
menina que tomasse a garrafa da mão do vagabundo, que ainda se
recuperava da falta de ar do engasgo. A moça desobedeceu. Saiu
correndo pra dentro da bodega, enquanto Helenice afugentava o homem
aos gritos, empunhando a vassoura como se fosse uma espada. A Samuel,
só restou sair dali correndo.
Estava em Candeia, enfim, onde ninguém
o conhecia, onde mal chegou e já foi expulso a vassouradas, onde só
conseguiu um saco de pão seco com água suja, onde era difícil
acreditar que alguém vivesse, de onde o sol se despedia.
Dois ou três meninos barrigudos,
quase nus, corriam pelas ruas daquele sábado à tarde. A poeira, os
gatos magros, tudo sofrendo de falta de vida.
Sentou-se numa calçada qualquer para
comer mais um pouco dos farelos secos, agora com mais cuidado. Tomou
água, aos poucos, até que viu uma torneira no muro da casa ao lado
de onde estava sentado. Bebeu o que quis, poderia encher novamente a
garrafa, até lavar o rosto antes de procurar o endereço. Ele estava
ali para procurar uma casa, encontrar uma mulher, perguntar por um
homem, resolver uma dívida antiga e depois ir embora. Deveria ser
rápido. Era mais fúria do que plano. Achava que saberia o que fazer
quando chegasse a hora.
Aproveitou a torneira, molhou as mãos,
a cara, cabelo, tentou tirar a lama preta cimentada sob suas unhas
grandes e duras. Olhou-se no espelho de uma moto velha parada logo
ali e viu como estava horrendo. Não era assim que gostaria de chegar
àquela casa, falar com Niceia, não era a forma mais agradável de
se mostrar. Também não foi assim que imaginou a própria vida e lá
estava ele, transfigurado em filho do diabo, naquela cidade onde
ninguém o conhecia, à procura.
Foi no caminho de Juazeiro a Candeia
que o diabo apareceu pela primeira vez como seu pai. Antes era pai
nenhum. Não permitia que a mãe falasse nele, portanto ele não
existia. Foi uma noite qualquer, dormindo no meio do mato perto dos
Inhamuns. Sonhou que Mariinha, vestida de noiva, sorria para alguém
e caminhava para um homem e esse homem era um monstro, era o diabo.
Parecia com ele, de alguma forma, sendo monstruoso ao mesmo tempo.
Era a única imagem que Samuel guardava do pai: o retrato da
besta-fera.
Lembrou-se disso enquanto sentia a
água, agora escassa, cair da torneira, sem forças, um fio. Até a
água parecia morrer.
A dona da casa — e da torneira —
apareceu na calçada, andando com passos lentos. Vinha de braço dado
com um homem decrépito, de olhar fixo como se não pudesse mais
mover os olhos para nenhuma outra parte. A vida estava ali com ele na
consistência de fumaça no fim da fogueira. Na calçada, duas
cadeiras foram confortavelmente forradas com almofadas desbotadas de
tecido florido. Primeiro, ela acomodou o velho, falava com ele,
sorrindo, mostrava isso e aquilo, como se ignorasse a debilidade.
Chamou um gato amarelo pelo nome, Jerimum, que atendeu e pulou no
colo do homem. Talvez fosse um hábito antigo, gatos são dados ao
método e à rotina, mas o velho não deu conta da sua presença.
Foram amigos um dia? Seria o gato, também, um velho vivente perto da
morte?
Samuel assistia a tudo parado, do meio
da rua, até ser notado pela velha, já acomodada em sua cadeira. Sua
figura horrenda não foi suficiente para assustá-la e tamanha
bondade correspondia exatamente à descrição que Mariinha fizera de
sua avó Niceia, uma mulher de bom coração. De mãos dadas com o
apoplético, sorriu e desejou bom dia ao desconhecido. Sem saber o
que dizer exatamente — o sorriso o deixara mais confuso que a
vassourada —, Samuel tirou do bolso o endereço e perguntou se ela
era Niceia. Ele queria que fosse, mas não, seu nome era Rosa. Depois
perguntou onde ficava a rua da Matriz.
— É essa, que passa aqui ao lado da
matriz.
Estavam ao lado da rua. Ela, sempre
sorrindo.
— E a casa de Niceia Rocha Vale?
O velho resmungou alguma coisa, um
barulho angustiante, gutural, quase desesperado.
— Ele quer água — ela traduziu
para o forasteiro.
Ainda de mãos dadas, ficou de pé e
chamou por alguém pelo muro. Ninguém veio. Ela entrou em casa para
buscar água, ajudou o velho a beber, acalmou o homem, ajudou-o a
levantar separando bem as pernas, puxando com força o corpo
peso-pena, e os dois entraram, ela deixando um rápido aceno de
despedida e evitando olhar para ele ou responder à pergunta. Samuel
teve certeza de que o velho tentou responder.
Socorro Acioli, em A cabeça do santo

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