25/10/2026

Café




Candeia era quase nada. Não mais que vinte casas mortas, uma igrejinha velha, um resto de praça. Algumas construções nem sequer tinham telhado, outras, invadidas pelo mato, incompletas, sem paredes. Nem o ar tinha esperança de ser vento. Era custoso acreditar que morasse alguém naquele cemitério de gigantes.
O único sinal de vida vinha de um bar aberto. Duas mesas de madeira na frente, um caminhão, um homem e uma mulher na boleia ouvindo música, entre abraços, beijos e carícias ousadas. Mais desolado e triste que Juazeiro do Norte aquele povoado, muito mais. Em Juazeiro tinha gente, a cidade era viva. E no meio daquele povo todo sempre se encontrava uma alma boa como a de sua mãe, uma moça bonita, um amigo animado. Candeia era morta. Pior ainda naquela hora, quando até o sol iniciava o seu funeral de todos os dias.
Samuel ao menos ficou um pouco feliz por ouvir a música do caminhoneiro. Quase sorriu. O esboço de alegria durou até aparecer pela porta mal pintada de azul uma mulher assombrosa, praguejando com uma vassoura na mão e mandando desligar aquela música maldita. O caminhoneiro a chamou pelo nome:
— Cadê o café, Helenice? Deixa de praguejar, coisa-ruim!
Pela mesma porta saiu uma moça, bem jovem, com uma garrafa térmica vermelha e duas canecas. Foi e voltou com rapidez, agora trazendo dois pratos, quatro pães pequenos, duas bananas cozidas e um pote de margarina.
— Cinco reais — ordenou Helenice, com a mão na garrafa térmica. — Só come se pagar.
O homem pagou, sempre rindo da cara de Helenice, visivelmente bêbado, sempre tentando morder a mulher da boleia, malvestida, desgraçada, seminua, feia, bonita, feliz, e quase não era possível que isso tudo coubesse na mesma pessoa.
Samuel invejou o caminhoneiro. Não tinha tanto dinheiro para comer naquele fim de tarde, fim de vida. Lembrou-se de Mariinha, que gostava de tapioca com café. Essas lembranças de Mariinha eram assim, chegavam o tempo todo, sem palavras, eram fotos da memória, cenas apressadas. Às vezes, com cheiro. Sempre o cheiro da mãe.
Helenice entrou com a vassoura e a moça foi para a lateral da casa. Ele foi atrás, sem imaginar o quanto a sua presença era mais assustadora na penumbra.
— A senhora tem um pão, pelo amor de Deus?
Ele não se reconhecia naquele homem que pedia pão metendo o nome de Deus na frase, mas aprendeu no Horto que a única forma de comover naquele pedaço perdido de mundo era a ameaça de que Deus estava vendo tudo e não tolerava descaridades.
Sua voz foi um susto para a moça, quando viu o miserável. Primeiro porque havia tempos não chegava ninguém ali além de um ou outro caminhoneiro. Segundo porque ele era estranho, instigante. Parecia jovem, parecia bonito. Sentiu medo e pena, ao mesmo tempo. Lembrou-se do saco de pão velho que tinha mesmo que jogar fora. Disse um “espera aí” apressado e voltou logo, jogando o saco para ele.
A fome não o impediu de notar o quanto aquela moça era jeitosa, de corpo bem-feito e uns olhos de mel de jandaíra. Samuel atacou o pão com força, roeu com desespero e engasgou-se com o farelo seco. Sua cara arroxeou rápido, asfixiado, tinha disso desde pequeno, não era cena bonita de se ver. A moça pegou uma garrafa suja de qualquer coisa e encheu com água da torneira, entregando ao sufocado, que bebeu com afobação e desentalou a garganta. Ela teve pena, de novo. Talvez tivesse mesmo a sua idade. Melhor se fosse velho, bem velho, assim seria inofensivo e ela poderia ajudá-lo mais. Talvez até a mãe tivesse pena também. A moça pensou uma coisa egoísta: ele sofria mais que ela. Que bom ver alguém quesofre mais. Que bom. Aquela desgraça de destino, seja lá como tenha acontecido, tornava a sua sina um pouco mais leve. Ela sempre achou que nunca encontraria alguém que sofresse mais que ela. Encontrou, por segundos.
Helenice chegou enfurecida e enxotou o homem com a vassoura, como bicho. Ela, mais bicho que ele. Pediu à menina que tomasse a garrafa da mão do vagabundo, que ainda se recuperava da falta de ar do engasgo. A moça desobedeceu. Saiu correndo pra dentro da bodega, enquanto Helenice afugentava o homem aos gritos, empunhando a vassoura como se fosse uma espada. A Samuel, só restou sair dali correndo.
Estava em Candeia, enfim, onde ninguém o conhecia, onde mal chegou e já foi expulso a vassouradas, onde só conseguiu um saco de pão seco com água suja, onde era difícil acreditar que alguém vivesse, de onde o sol se despedia.
Dois ou três meninos barrigudos, quase nus, corriam pelas ruas daquele sábado à tarde. A poeira, os gatos magros, tudo sofrendo de falta de vida.
Sentou-se numa calçada qualquer para comer mais um pouco dos farelos secos, agora com mais cuidado. Tomou água, aos poucos, até que viu uma torneira no muro da casa ao lado de onde estava sentado. Bebeu o que quis, poderia encher novamente a garrafa, até lavar o rosto antes de procurar o endereço. Ele estava ali para procurar uma casa, encontrar uma mulher, perguntar por um homem, resolver uma dívida antiga e depois ir embora. Deveria ser rápido. Era mais fúria do que plano. Achava que saberia o que fazer quando chegasse a hora.
Aproveitou a torneira, molhou as mãos, a cara, cabelo, tentou tirar a lama preta cimentada sob suas unhas grandes e duras. Olhou-se no espelho de uma moto velha parada logo ali e viu como estava horrendo. Não era assim que gostaria de chegar àquela casa, falar com Niceia, não era a forma mais agradável de se mostrar. Também não foi assim que imaginou a própria vida e lá estava ele, transfigurado em filho do diabo, naquela cidade onde ninguém o conhecia, à procura.
Foi no caminho de Juazeiro a Candeia que o diabo apareceu pela primeira vez como seu pai. Antes era pai nenhum. Não permitia que a mãe falasse nele, portanto ele não existia. Foi uma noite qualquer, dormindo no meio do mato perto dos Inhamuns. Sonhou que Mariinha, vestida de noiva, sorria para alguém e caminhava para um homem e esse homem era um monstro, era o diabo. Parecia com ele, de alguma forma, sendo monstruoso ao mesmo tempo. Era a única imagem que Samuel guardava do pai: o retrato da besta-fera.
Lembrou-se disso enquanto sentia a água, agora escassa, cair da torneira, sem forças, um fio. Até a água parecia morrer.
A dona da casa — e da torneira — apareceu na calçada, andando com passos lentos. Vinha de braço dado com um homem decrépito, de olhar fixo como se não pudesse mais mover os olhos para nenhuma outra parte. A vida estava ali com ele na consistência de fumaça no fim da fogueira. Na calçada, duas cadeiras foram confortavelmente forradas com almofadas desbotadas de tecido florido. Primeiro, ela acomodou o velho, falava com ele, sorrindo, mostrava isso e aquilo, como se ignorasse a debilidade. Chamou um gato amarelo pelo nome, Jerimum, que atendeu e pulou no colo do homem. Talvez fosse um hábito antigo, gatos são dados ao método e à rotina, mas o velho não deu conta da sua presença. Foram amigos um dia? Seria o gato, também, um velho vivente perto da morte?
Samuel assistia a tudo parado, do meio da rua, até ser notado pela velha, já acomodada em sua cadeira. Sua figura horrenda não foi suficiente para assustá-la e tamanha bondade correspondia exatamente à descrição que Mariinha fizera de sua avó Niceia, uma mulher de bom coração. De mãos dadas com o apoplético, sorriu e desejou bom dia ao desconhecido. Sem saber o que dizer exatamente — o sorriso o deixara mais confuso que a vassourada —, Samuel tirou do bolso o endereço e perguntou se ela era Niceia. Ele queria que fosse, mas não, seu nome era Rosa. Depois perguntou onde ficava a rua da Matriz.
— É essa, que passa aqui ao lado da matriz.
Estavam ao lado da rua. Ela, sempre sorrindo.
— E a casa de Niceia Rocha Vale?
O velho resmungou alguma coisa, um barulho angustiante, gutural, quase desesperado.
— Ele quer água — ela traduziu para o forasteiro.
Ainda de mãos dadas, ficou de pé e chamou por alguém pelo muro. Ninguém veio. Ela entrou em casa para buscar água, ajudou o velho a beber, acalmou o homem, ajudou-o a levantar separando bem as pernas, puxando com força o corpo peso-pena, e os dois entraram, ela deixando um rápido aceno de despedida e evitando olhar para ele ou responder à pergunta. Samuel teve certeza de que o velho tentou responder.

Socorro Acioli, em A cabeça do santo

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