25/10/2026

A vingança da porta

 



A porta de vidro do chuveiro não estava funcionando bem. Fechar, fechava, mas à simples deslocação de ar provocada pela água, ela se abria mansamente. Só os americanos que, tidos por excêntricos, tomam banho no inverno, sabem o que significa uma repentina rajada de ar frio a assinar com a água quente do chuveiro um contrato de pneumonia dupla que nenhum antibiótico rescindirá. Ela, uma senhora brasileira residente em Nova York, mandou chamar o zelador do edifício.­
O zelador compareceu ao fim de três semanas e cinco gorjetas, munido do competente alicate. Depois de verificar a pro­cedência da reclamação, concluiu que o conserto fugia à sua alçada. A um zelador cabe receber os aluguéis no fim do mês, zangar com as crianças que brincam no saguão de entrada e, eventualmente, chamar à ordem os inquilinos que dependuram roupas do lado de fora do prédio. No capítulo dos consertos, cabe-lhe apenas munir-se de um alicate e percorrer regularmente os apartamentos, recolhendo gorjetas. No caso em questão era preciso chamar a companhia que montava e reparava instalações de banho. E a dona do apartamento assim fez.
Veio o homem de uma companhia dessas, contratado por hora. Como, porém, sua especialidade ficasse circunscrita aos aparelhos de banho, meteu-se a reparar o chuveiro, dando ao jato d’água uma pressão e uma direção que não forçassem a porta de vidro a abrir-se assim que se torcia a torneira. Findo o trabalho, depois de duas horas de aplicadas experimentações, que acabaram deixando o banheiro completamente inundado, teve de reconhecer que o defeito na porta persistia e que só na própria porta haveria de ser reparado. Portas, contudo, não eram a sua especialidade.
Chamou-se um serralheiro, mestre na reparação de fechaduras. A um primeiro olhar, porém, ele constatou que nada poderia fazer, desde que a porta do chuveiro não dispunha propriamente de fechadura, mas de uma simples lingueta provida­ de uma mola que cedia à pressão do batente. Além do mais, o defeito estaria talvez no excesso de folga entre este batente e a porta, o que implicava ter de aproximá-los. Depois de fazer para a dona do apartamento uma preleção sobre o funcionamento das fechaduras e os diferentes tipos de chaves, declarou que nada entendia de dobradiças, e como essas deviam ser destacadas da parede para remoção da porta, melhor seria que se chamasse um pedreiro. E um pedreiro foi chamado.
A princípio o pedreiro argumentou que as dobradiças se prendiam a um suporte de madeira embutido na parede, e que torná-lo saliente, para que a porta se ajustasse ao batente do outro lado, exigiria outra peça de madeira — serviço, pois, de um marceneiro. Mas como a mulher, já exasperada, lhe or­denasse que removesse da parede a porta com suporte e tudo, ele pôs mãos à obra. Em meia hora estava aberto na parede um rombo quase do tamanho da própria porta, e esta jazia no chão, enquanto o pedreiro tomava medidas.
— Vou encomendar do carpinteiro um suporte mais largo — explicou. — Depois volto para acabar o serviço.
E se foi, deixando a porta no chão.
Então é que se deu o inesperado. O buraco na parede não se abria para uma dependência do próprio apartamento, conforme o pedreiro, que não era arquiteto, erradamente supôs. Abria-se para o apartamento do vizinho, exatamente no lugar onde ficava o seu chuveiro. Naquela mesma tarde esse vizinho, ao regressar da cidade, foi tomar banho, e quando, já despido, transpôs a porta do chuveiro, deu com o vastíssimo buraco na parede e a caliça no chão. Sem perda de tempo meteu a cabeça no apartamento alheio como que debruçado numa janela:
— Ô madame! — pôs-se a gritar, furioso.
Madame veio correndo, pressurosa. Ao dar com aquele busto nu e cabeludo emergindo de seu chuveiro, ela não pôde deixar de se enraivecer também:
— O senhor não tem vergonha de entrar na minha casa sem roupa, desse jeito? Isso é casa de família e eu mal o conheço. Se quer falar comigo vá se vestir primeiro e passe pela porta da frente.
— Que significa isso? — berrava o homem. — Com licença de quem a senhora me abre um buraco deste tamanho na minha parede?
— Sua parede, não senhor. Abri um buraco na minha ­parede.
E ela cruzou os braços, disposta a tudo.
— Ah, sua parede? Então a senhora é dona da parede do lado de cá? Daqui a pouco vai dizer também que é dona de minha casa e quer tomar banho no meu chuveiro.
— Vá mais devagar! Dispenso a intimidade. Precisei de con­sertar a porta do meu chuveiro e não tenho culpa se as paredes daqui são tão finas. No meu país não aconteceria isso. Começa que lá nós não vivemos empilhados em caixinhas de papelão.
— Pois então volte para o seu país. Vou reclamar com o zelador.
E o homem se afastou da abertura disposto a levar até as últimas consequências o seu protesto. Mas aconteceu que, afastando-se, apareceu de corpo inteiro aos olhos da mulher, esquecendo-se de que estava pelado. Ela cobriu os olhos e botou a boca no mundo:
— Seu indecente! Atrevido! O senhor há de ajustar contas com o meu marido.
E foi-se embora, indignada. O vizinho, pensando com mais calma, viu que de nada adiantaria reclamar com o zelador. Ele haveria de prometer providências diariamente e uma semana se passaria antes que sequer viesse ver de que se tratava. Enquanto isso, o buraco ficaria aberto e ninguém poderia usar o chuveiro com tranquilidade. Vestiu o roupão e chamou de novo a mulher:
— Ô madame!
Madame gritou lá de dentro que se ele insistisse ela chamaria a polícia. Mas ao perceber que ele já se vestira, tornou a che­gar-se, mais cordata:
— O que é que o senhor quer desta vez?
— Quero ver se pelo menos chegamos a um acordo. Por quanto tempo a senhora pretende deixar esse buraco aberto?
— Não sei. Isso depende do pedreiro.
— E por quanto tempo a senhora pretende ficar sem tomar banho?
— Sou brasileira, meu senhor. Tomo banho todos os dias.
— A que horas?
Isso a brasileira achou que também era demais:
— Pergunte a meu marido, se o senhor quer saber.
— Estou perguntando só para que nossos horários não coincidam — explicou o vizinho, impaciente. — Não pense que tenho a mínima curiosidade de ver a senhora tomar banho.
A essa altura, a esposa do vizinho, ouvindo lá da sala a conversa, resolveu intervir:
— Pois fique sabendo que enquanto houver esse buraco na parede você não põe o pé no chuveiro.
E passou à ofensiva contra a outra. As duas senhoras se desavieram, discutindo meia hora, sem chegar a nenhum entendimento. Afinal, já de noite, a situação foi resolvida diploma­ticamente pelos próprios maridos. Utilizariam os respectivos chuveiros em horários diferentes e colocar-se-ia uma cortina provisória ocultando a abertura. Assim se fez, e tudo correu sem novidades naqueles dias. Às vezes coinci­dia, porém, de um marido se atrasar e o outro encontrá-lo ainda no banheiro.
— Muito trabalho hoje? — perguntava um do lado de lá, se enxugando.
— Bastante. E o frio cada vez mais forte, não? — respondia o outro, do lado de cá, se ensaboando.
Às vezes um braço molhado varava a cortina:
— Por favor, quer me passar o seu sabão? O meu acabou.
Um dia veio o pedreiro, trazendo o novo suporte da porta. Os vizinhos se despediram amistosamente, antes que a parede fosse restaurada. Recolocada a porta, foi a vez do pintor, que retocou a parede, e do vidraceiro, que substituiu o vidro, quebrado durante os consertos.
Tudo pronto, madame experimentou tomar o seu banho a portas fechadas, sem buracos na parede e sem correntes de ar. Inútil: era só abrir a torneira e a porta também se abria. Tudo como dantes. Desesperada, telefonou para a seção de informações da Biblioteca Pública:
— O senhor sabe da existência de alguma Companhia de Consertos de Trincos de Lingueta de Pressão de Portas de Chuveiro? — perguntou.
— Há uma em Pittsburgh — informaram-lhe.
Sem saber mais o que fazer, madame deu dois pontapés enraivecidos no batente da porta. E a porta ficou consertada.

Fernando Sabino, em Os melhores contos

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