Mariana de Jesus
Ano de catástrofes para a cidade. Uma
fita negra balança em cada porta. Os invisíveis exércitos do
sarampo e da difteria invadiram e estão arrasando. A noite caiu em
seguida do amanhecer e o vulcão Pichincha, o rei da neve, explodiu:
um grande vômito de lava e fogo caiu sobre os campos e um furacão
de cinzas varreu a cidade.
– Pecadores, pecadores!
Como o vulcão, o padre Alonso de
Roias jorra chamas pela boca. Do púlpito brilhante da igreja dos
jesuítas, igreja de ouro, o padre Alonso golpeia o próprio peito,
que soa enquanto chora, grita, clama:
– Aceita, Senhor, o sacrifício do
mais humilde de teus servos! Que meu sangue e minha carne expiem os
pecados de Quito!
Então uma moça se levanta aos pés
do púlpito e serenamente diz:
– Eu.
Frente à multidão que lota a igreja,
Mariana anuncia que é ela a escolhida. Ela acalmará a cólera de
Deus. Ela será castigada por todos os castigos que a cidade merece.
Mariana jamais fez de conta que era
feliz nem sonhou que era feliz, nem dormiu nunca mais do que quatro
horas. A única vez que um homem roçou sua mão, ele ficou doente,
com febre, durante uma semana. Desde que era menina decidiu ser a
esposa de Deus e não lhe dá seu amor em um convento, e sim nas ruas
e nos campos: não bordando nem fazendo doces e geleias na paz dos
claustros, mas rezando de joelhos sobre os espinhos e as pedras e
buscando pão para os pobres, remédio para os doentes e luz para os
anoitecidos que ignoram a lei divina.
Às vezes, Mariana sente-se chamada
pelo rumor da chuva ou o crepitar do fogo, mas sempre soa mais forte
o trovão de Deus: esse Deus da ira, barba de serpentes, olhos de
raio, que em sonhos aparece nu para colocá-la à prova.
Mariana regressa à sua casa,
estende-se na cama e se dispõe a morrer no lugar de todos. Ela paga
o perdão. Oferece a Deus sua carne para que coma e seu sangue e suas
lágrimas para que beba até ficar tonto e esquecer.
Assim cessarão as pragas, se acalmará
o vulcão e a terra deixará de
tremer.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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