18/10/2026

1645 – Quito

Mariana de Jesus

Ano de catástrofes para a cidade. Uma fita negra balança em cada porta. Os invisíveis exércitos do sarampo e da difteria invadiram e estão arrasando. A noite caiu em seguida do amanhecer e o vulcão Pichincha, o rei da neve, explodiu: um grande vômito de lava e fogo caiu sobre os campos e um furacão de cinzas varreu a cidade.
– Pecadores, pecadores!
Como o vulcão, o padre Alonso de Roias jorra chamas pela boca. Do púlpito brilhante da igreja dos jesuítas, igreja de ouro, o padre Alonso golpeia o próprio peito, que soa enquanto chora, grita, clama:
– Aceita, Senhor, o sacrifício do mais humilde de teus servos! Que meu sangue e minha carne expiem os pecados de Quito!
Então uma moça se levanta aos pés do púlpito e serenamente diz:
– Eu.
Frente à multidão que lota a igreja, Mariana anuncia que é ela a escolhida. Ela acalmará a cólera de Deus. Ela será castigada por todos os castigos que a cidade merece.
Mariana jamais fez de conta que era feliz nem sonhou que era feliz, nem dormiu nunca mais do que quatro horas. A única vez que um homem roçou sua mão, ele ficou doente, com febre, durante uma semana. Desde que era menina decidiu ser a esposa de Deus e não lhe dá seu amor em um convento, e sim nas ruas e nos campos: não bordando nem fazendo doces e geleias na paz dos claustros, mas rezando de joelhos sobre os espinhos e as pedras e buscando pão para os pobres, remédio para os doentes e luz para os anoitecidos que ignoram a lei divina.
Às vezes, Mariana sente-se chamada pelo rumor da chuva ou o crepitar do fogo, mas sempre soa mais forte o trovão de Deus: esse Deus da ira, barba de serpentes, olhos de raio, que em sonhos aparece nu para colocá-la à prova.
Mariana regressa à sua casa, estende-se na cama e se dispõe a morrer no lugar de todos. Ela paga o perdão. Oferece a Deus sua carne para que coma e seu sangue e suas lágrimas para que beba até ficar tonto e esquecer.
Assim cessarão as pragas, se acalmará o vulcão e a terra deixará de tremer.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Nenhum comentário:

Postar um comentário