06/11/2025

Darl



A cavalo ele foi à casa de Armstid e voltou a cavalo, conduzindo a parelha de Armstid. Atrelamos as mulas e deitamos Cash em cima de Addie. Quando o deitamos, ele vomitou de novo, mas teve tempo de pôr a cabeça por cima da borda.
Levou também uma pancada no estômago”, disse Vernon. “O cavalo deve tê-lo escoiceado no estômago”, eu disse. 
Ele lhe deu um coice no estômago, Cash?” Tentou dizer alguma coisa. Dewey Dell enxugou-lhe a boca outra vez. 
Que diz?”, perguntou Vernon. 
Que é, Cash?”, disse Dewey Dell. E inclinou-se mais.
Suas ferramentas”, ela disse. Vernon trouxe-as e colocou-as na carroça. Dewey Dell levantou a cabeça de Cash, para que ele pudesse vê-las. Partimos, Dewey Dell e eu sentados ao lado de Cash, para sustentá-lo, e ele na frente, montado no cavalo. Vernon ficou a nos observar um pedaço. Depois, virou-se e dirigiu-se à ponte. Caminhava com cautela, sacudindo as mangas da camisa como se elas acabassem de ficar molhadas.
Ele eslava montado a cavalo diante da cancela. Armstid esperava na cancela. Nós paramos e ele desmontou e descemos Cash e o levamos para dentro da casa, onde Mrs. Armstid tinha a cama pronta. Deixamos que ela e Dewey Dell o despissem. Acompanhamos Pai quando ele saiu da carroça. Mas ele voltou, subiu à boleia e tocou a carroça para o curral, enquanto nós o seguíamos a pé. A chuva tinha ajudado, pois Armstid disse: “Sejam bem-vindos a esta casa. Podem deixá-la aí.”
Ele seguiu a gente, no cavalo, e parou ao lado da carroça, empunhando as rédeas. “Eu lhe agradeço”, disse Pai. “Vamos usar o barracão lá embaixo. Sei que estamos incomodando.”
Vocês são bem-vindos”, disse Armstid. Ele tinha na cara, outra vez, aquele olhar de madeira; aquele olhar cego, audacioso, rígido, como se a cara e os olhos fossem de madeira diferente, escura a que devia ser clara, e vice-versa. Sua camisa começava a secar, mas ela ainda aderia ao corpo quando ele se movimentava.
Ela ficará agradecida”, disse Pai.
Desatrelamos as mulas e empurramos a carroça para o barracão. Um lado do barracão estava aberto. “Não há perigo de levar chuva”, disse Armstid. “Mas se vocês quiserem...”
Atrás do celeiro havia umas folhas-de-flandres enferrujadas. Pegamos duas e tapamos o lado aberto. “Estejam como em sua casa”, disse Armstid.
Obrigado”, disse Pai. “Eu ficaria muito agradecido se você lhes desse alguma coisa de comer.”
Claro”, disse Armstid, “Lula cuidará do jantar, assim que houver instalado Cash.”
Ele voltara para junto do cavalo e tirava a sela, e sua camisa molhada colava-se de leve ao corpo, quando se movia.
Pai não queria entrar em casa.
Entre e coma”, disse Armstid. “Está quase pronto.”
Estou sem vontade”, disse Pai. “Muito obrigado.”
Ora essa. Entre, seque a roupa e coma”, disse Armstid. “Não há problema.”
É por causa dela”, disse Pai. “Aceito a comida em sua homenagem. Perdi as mulas, não tenho mais nada. Mas ela lhe ficará muito agradecida.”
Claro”, disse Armstid. “Vocês aí, rapazes, entrem e sequem-se.”
Mas depois que Armstid lhe deu uma bebida, Pai sentiu-se melhor, e quando entramos para ver como passava Cash ele ainda não se tinha juntado a nós. Quando olhei para trás, ele conduzia o cavalo para dentro do celeiro, ele já falava em arranjar outra parelha, e à hora do jantar o assunto parecia decidido. Ele está lá embaixo, no celeiro escorregando, com elasticidade, por aquele torvelinho de clarões e relinchos, e entrando na estrebaria com o cavalo. Sobe à manjedoura, atira feno para baixo, sai da estrebaria e procura e encontra uma raspadeira. Em seguida, volta e se furta rapidamente ao único e poderoso coice que lhe desfere o cavalo, e coloca-se onde o cavalo não o pode alcançar. Empunha a raspadeira, esquivando-se, com a agilidade de um acrobata, aos coices do animal, e amaldiçoa o cavalo num cochicho que é uma careta obscena. O animal volta a cabeça cintilante, exibe os dentes; seus olhos rolam, no crepúsculo, como bolas de gude em cima de uma roupa de veludo, enquanto ele lhe golpeia a testa com as costas da raspadeira.

William Faulkner, em Enquanto Agonizo

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