67.
Quantas vezes, presa da superfície e
do bruxedo, me sinto homem. Então convivo com alegria e existo com
clareza. Sobrenado. E é-me agradável receber o ordenado e ir para
casa. Sinto o tempo sem o ver, e agrada-me qualquer coisa orgânica.
Se medito, não penso. Nesses dias gosto muito dos jardins.
Não sei que coisa estranha e pobre
existe na substância íntima dos jardins citadinos que só a posso
sentir bem quando me não sinto bem a mim. Um jardim é um resumo da
civilização — uma modificação anónima da natureza. As plantas
estão ali, mas há ruas — ruas. Crescem árvores, mas há bancos
por baixo da sua sombra. No alinhamento virado para os quatro lados
da cidade, ali só largo, os bancos são maiores e têm quase sempre
gente.
Não odeio a regularidade das flores
em canteiros. Odeio, porém, o emprego público das flores. Se os
canteiros fossem em parques fechados, se as árvores crescessem sobre
recantos feudais, se os bancos não tivessem alguém, haveria com que
consolar-me na contemplação inútil dos jardins. Assim, na cidade,
regrados mas úteis, os jardins são para mim como gaiolas, em que as
espontaneidades coloridas das árvores e das flores não têm senão
espaço para o não ter, lugar para dele não sair, e a beleza
própria sem a vida que pertence a ela.
Mas há dias em que esta é a paisagem
que me pertence, e em que entro como um figurante numa tragédia
cómica. Nesses dias estou errado, mas, pelo menos em certo modo, sou
mais feliz. Se me distraio, julgo que tenho realmente casa, lar,
aonde volte. Se me esqueço, sou normal, poupado para um fim, escovo
um outro fato e leio um jornal todo.
Mas a ilusão não dura muito, tanto
porque não dura como porque a noite vem. E a cor das flores, a
sombra das árvores, o alinhamento de ruas e canteiros, tudo se
esbate e encolhe. Por cima do erro e de eu estar homem abre-se de
repente, como se a luz do dia fosse um pano de teatro que se
escondesse para mim, o grande cenário das estrelas. E então esqueço
com os olhos a plateia amorfa e aguardo os primeiros atores com um
sobressalto de criança no circo.
Estou liberto e perdido.
Sinto. Esfrio febre. Sou eu.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Nenhum comentário:
Postar um comentário