I
Antes de iniciar este livro, imaginei
construí-lo pela divisão do trabalho.
Dirigi-me a alguns amigos, e quase
todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento
das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as
citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a
ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição
tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de
Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o
plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e
pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa.
Estive uma semana bastante animado, em
conferências com os principais colaboradores, e já via os volumes
expostos, um milheiro vendido graças aos elogios que, agora com a
morte do Costa Brito, eu meteria na esfomeada Gazeta, mediante
lambujem. Mas o otimismo levou água na fervura, compreendi que não
nos entendíamos.
João Nogueira queria o romance em
língua de Camões, com períodos formados de trás para diante.
Calculem.
Padre Silvestre recebeu-me friamente.
Depois da revolução de Outubro, tornou-se uma fera, exige devassas
rigorosas e castigos para os que não usaram lenços vermelhos.
Torceu-me a cara. E éramos amigos. Patriota. Está direito: cada
qual tem as suas manias.
Afastei-o da combinação e concentrei
as minhas esperanças em Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, periodista
de boa índole e que escreve o que lhe mandam.
Trabalhamos alguns dias. À tardinha
Azevedo Gondim entregava a redação ao Arquimedes, trancava a gaveta
onde guarda os níqueis e as pratas, tomava a bicicleta e, pedalando
meia hora pela estrada de rodagem que ultimamente Casimiro Lopes
andava a consertar com dois ou três homens, alcançava S. Bernardo.
Comentava os telegramas dos jornais, atacava o governo, bebia um copo
de conhaque que Maria das Dores lhe trazia e, sentindo-se necessário,
comandava com submissão:
— Vamos a isso.
Íamos para o alpendre, mergulhávamos
em cadeiras de vime e ajeitávamos o enredo, fumando, olhando as
novilhas caracus que pastavam no prado, embaixo, e mais longe, à
entrada da mata, o telhado vermelho da serraria.
A princípio tudo correu bem, não
houve entre nós nenhuma divergência. A conversa era longa, mas cada
um prestava atenção às próprias palavras, sem ligar importância
ao que o outro dizia. Eu por mim, entusiasmado com o assunto,
esquecia constantemente a natureza do Gondim e chegava a considerá-lo
uma espécie de folha de papel destinada a receber as ideias confusas
que me fervilhavam na cabeça.
O resultado foi um desastre. Quinze
dias depois do nosso primeiro encontro, o redator do Cruzeiro
apresentou-me dois capítulos datilografados, tão cheios de
besteiras que me zanguei:
— Vá para o inferno, Gondim. Você
acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há
lá ninguém que fale dessa forma!
Azevedo Gondim apagou o sorriso,
engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou
amuado que um artista não pode escrever como fala.
— Não pode? perguntei com assombro.
E por quê?
Azevedo Gondim respondeu que não pode
porque não pode.
— Foi assim que sempre se fez. A
literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata
de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra
coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia.
Levantei-me e encostei-me à
balaustrada para ver de perto o touro limosino que Marciano conduzia
ao estábulo. Uma cigarra começou a chiar. A velha Margarida veio
vindo pelo paredão do açude, curvada em duas. Na torre da igreja
uma coruja piou. Estremeci, pensei em Madalena. Em seguida enchi o
cachimbo:
— É o diabo, Gondim. O mingau virou
água. Três tentativas falhadas num mês! Beba conhaque, Gondim.
Graciliano Ramos, em S. Bernardo

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